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Dispositivo terapêutico via internet: o uso, suas diferenças e seus limites éticos

Os psicólogos Carla Pontes Donnamaria e Antonios Terzis desenvolveram um artigo onde discutem e apresentam as considerações de manejo e os desafios éticos que envolvem a utilização das tecnologias de comunicação (em especial a Internet) como ferramenta para o trabalho terapêutico à distância. Os autores, (através do uso da psicanálise dos grupos) realizam o estudo em grupos terapêuticos determinados, e assim explanam a funcionalidade da supracitada tecnologia e as vantagens que a aplicação da mesma possui, de que maneira deve ser manejada e os limites éticos à que devem obedecer. Os mesmos concluiram que a terapia online está em expansão prática (apesar dos escassos estudos na área) e que não se trata da substituição da terapêutica presencial, mas sim que “(…) ter a terapia online ao alcance talvez possa refletir em menor sofrimento àqueles que estão impossibilitados de estar conosco em presença.”.

O artigo fora divido em duas partes: o manejo e a ética. No que tange o manejo, os autores ressaltam que tanto a fala do paciente (suas mudanças tônicas, a frequência e ritmo de seus relatos) quanto a fala do terapeuta (a maneira verbal que coloca suas reações) são privilegiadas, já que nesse tipo de terapia ocorre um limite à corporeidade dos sujeitos; Outro aspecto (de caráter estrutural e circunstancial) é a instabilidade do sistema de comunicação, o que acarreta outros problemas que não estariam presentes em um atendimento presencial: a interrupção da energia, uma queda na velocidade da Internet e consequentemente falhas ou interrupções no relato do paciente. Os autores ainda sugerem que caso alguma situação do tipo ocorra, deve-se retomar o assunto interrompido dentro de um período previamente estabelecido. Outra diferença apontada pelos autores (e tendo os mesmos base teórica psicanalítica) assinala que a Internet facilita o processo de transferência, já que o fato da ausência do terapeuta faz com que o paciente se desprenda da ancoragem ligada a realidade concreta.

Em relação a ética, os desafios enfrentados pela prática da terapia online se dão principalmente pela confidência das informações durante o processo terapêutico, já que como não há a presença dos elementos (terapeuta e paciente) em um mesmo local, o profissional deve explicitar ao paciente a importância e os cuidados necessários acerca da reserva do espaço físico; Os autores citam uma recomendação da Sociedade Internacional para Saúde Mental Online (ISMHO), associação esta que propõe diretrizes éticas e apresenta os problemas legais envolvidos no atendimento online, sendo uma das principais recomendações em relação ao atendimento supracitado a necessidade do consentimento informado, já que a própria Internet facilita a veiculação de informações. Os autores relatam que a presença de sentimentos de desconfiança devem ter atenção especial dentro do contexto desse tipo de atendimento, já que apesar de os riscos de invasão ao sistema sejam minimizados, não há disponíveis ferramentas que possam assegurar um privacidade absoluta na comunicação a distância, e caso ocorra a desconfiança em torno da possibilidade de vazamento de informações tal sentimento é critério para a não realização desse tipo de atendimento. Sendo riscos reais considerados (como um ataque hacker, por exemplo), o psicólogo tem o compromisso de informar ao paciente acerca dos mesmos, compromisso este regido por uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (RESOLUÇÃO CFP nº 12/2005).

Por fim, os autores concluem que pressupor a impossibilidade da terapia online somente pelo fato da mesma quebrar os princípios básicos acerca da interação terapêutica convencional se traduz somente como uma afronta ao novo, e se utilizaram da frase de um dos participantes da pesquisa que explicita a necessidade de desenvolver esse tipo de terapia (mesmo frente a uma série de problemas a serem enfrentados), e assim diminuir o sofrimento de pessoas que por motivos diversos estão impossibilitados de estarem presentes junto a um profissional: “Eu sei que o tratamento frente a frente é ótimo… Ela (a psicóloga) poderia estar vendo como estou com minhas mãos, como me comporto… Mas pra quem não pode sair de casa por algum motivo ou pra quem está em outro país… Gente! Isso é maravilhoso! Para mim está sendo ótimo. Cada dia que eu venho aqui… aliás, hoje foi meu melhor dia, porque eu pude falar do fundo do meu coração (….). A imagem sumir de vez em quando, a voz ficar cortada de vez em quando é pinto pra quem está se sentindo sozinha, isolada, como eu.”

DONNAMARIA, Carla Pontes; TERZIS, Antonios. Experimentando o dispositivo terapêutico de grupo via internet: primeiras considerações de manejo e desafios éticos. Rev. SPAGESP,  Ribeirão Preto,  v. 12,  n. 2, dez.  2011 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702011000200003&lng=pt&nrm=iso> . acessos em  21  mar.  2012.

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