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O vício a Internet: o surgimento de um novo distúrbio clínico

Em estudo publicado no periódico CyberPsychology and Behavior desenvolveu-se o fato do surgimento de um novo distúrbio clínico, o vício à Internet. Segundo o estudo, percebeu-se que usuários online estão se viciando na Internet da mesma maneira que adictos ao álcool ou drogas. No entanto, psicólogos, psiquiatras e sociólogos não conseguiram identificar formalmente o uso vicioso da Internet como um problema comportamental, identificação esta proposta pelo estudo apresentado, sendo que o mesmo se utilizou de critérios adaptados de avaliação nosológica do DSM IV, e analisou 396 viciados na Internet em comparação a 100 não dependentes, notando-se (em análise qualitativa) diferenças comportamentais entre os dois grupos; O estudo discute também futuras direções para pesquisas entre implicações clínicas e sociais do uso patológico da Internet.
Segundo os autores, os usuários adictos à Internet costumam apresentar falhas acadêmicas, potencial laboral reduzido e por vezes discussões ou separações maritais; O estudo aponta que apesar da vasta gama de estudos sobre vícios (como a compulsão sexual ou o vício em substâncias psicoativas) o conceito sobre o vício à Internet nunca fora empiricamente pesquisado porém, com o advento e o intenso uso da mesma, tornou-se necessário primeiramente estabelecer critérios para diferenciar o uso saudável e o uso vicioso da Internet. O problema é que tal conceito de vício à Internet não existe nos conceitos nosológicos do DSM IV e, se utilizando do conceito mais próximo e semelhante ao vício supracitado (no caso, o roubo patológico) o estudo alterou critérios de tal e desenvolveu um questionário com oito questões (denominado ‘Diagnostic Questionnaire’) como instrumentação exploratória para classificação de vício à Internet, classificação esta dada caso o estudado respondesse ‘sim’ em cinco ou mais questões.

Após a apresentação dos dados obtidos, os autores voltaram-se para um dos aspectos mais importantes à que se objetivou o estudo: determinar a extensão dos problemas causados pelo uso excessivo da Internet; Enquanto os usuários normais não descreveram nenhum efeito nocivo e adverso ao uso da rede (somente o mau uso do tempo, já que disseram perder tempo em excesso na Internet) os dependentes da mesma verbalizaram que o uso excessivo já lhes causara problemas pessoais, familiares e no trabalho (efeitos estes semelhantes aos ditos pelos viciados em roubar, distúrbios alimentares e alcoolismo), sendo estes divididos em cinco categorias e arranjadas em tabela: acadêmicos, relacionais, financeiros, laborais e físicos.

Os autores concluíram que há diversas limitações em tal estudo, principalmente em relação à generalização dos resultados, tendo em vista que há milhões de usuários na Internet e somente 396 usuários dependentes foram estudados; Os mesmos sugerem que em estudos futuros devem-se se utilizar de grupos de estudo maiores para conclusões mais concisas, além de apontar outras limitações situações importantes que devem ser levadas em consideração em relação à pesquisa realizada. Em relação aos resultados obtidos, os autores expuseram que os indivíduos viciados (na maioria dos casos) relataram que o uso direto da Internet causaram problemas severos ou moderados devido à sua incapacidade em controlar tal uso; Constataram também que a Internet em si não é viciante, mas sim aplicativos específicos que exercem maior controle sobre o dependente, sendo que há maior risco do desenvolvimento do vício quanto mais interativo for o aplicativo utilizado. O estudo também propôs que os dependentes se utilizam da Internet a pouco tempo, o que sugere que novos usuários são mais suscetíveis a desenvolverem uma dependência; Porém usuários com mais tempo de uso integraram a Internet ao seu modo de vida e, portanto, não reconhecem o “vício” como um problema, se recusando a participar da pesquisa.

O estudo finaliza que, com a rápida expansão da Internet, sua dependência pode surgir como um novo distúrbio clinico, sendo seu tratamento ainda pouco estudado; Sugerem a estudos futuros que protocolos de tratamento sejam desenvolvidos para o correto gerenciamento dos sintomas, focando-se na incidência e prevalência deste tipo de comportamento em outras dependências ou distúrbios psiquiátricos.

KIMBERLY S. YOUNG. CyberPsychology & Behavior. FALL 1998, 1(3): 237-244. doi:10.1089/cpb.1998.1.237.

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