Transtornos de Estresse Pós-Traumático em meninas vítimas de abuso sexual

Uma pesquisa realizada pelas psicólogas Jeane Lessinger Borges e Débora Dalbosco Dell’Aglio teve como principal objetivo investigar a manifestação de sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e avaliar funções cognitivas (que incluem atenção, memória verbal declarativa e flexibilidade cognitiva) em um grupo de 12 garotas vítimas de abuso sexual (chamado Grupo Caso), comparando seus resultados ao chamado Grupo Controle (um grupo de 16 meninas sem histórico de abuso sexual).
Os critérios para inclusão no Grupo Caso foram ter sido vítimas de abuso sexual intra e/ou extrafamiliar, estar em avaliação ou atendimento psicológico até a quarta sessão, o último caso de abuso ter sido cometido há mais de um mês e ter um cuidador responsável (que não o abusador) que participasse da pesquisa, sendo que nenhuma participante do Grupo Caso e do Grupo controle fizeram uso da medicação psicotrópica.

Os métodos utilizados para coleta de dados foram uma avaliação clínica (que incluía os instrumentos Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia for School Aged-Children, o Inventário de Depressão Infantil e a versão brasileira da Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia Epidemiological version for School-Age) e uma avaliação neurológica, com os instrumentos neuropsicológicos Tesde d2 de Atenção Concentrada, o subteste Dígitos (Ordem Direta e Inversa) da Escala de Inteligência Wechsler para Crianças (WISC III), o teste Rey Auditory Verbal Learning Test e o Trail Making Test, partes A e B.

Com os resultados dos testes supracitados, o Grupo Caso explicitou outros eventos estressores além da situação do abuso sexual, fato este que contribui para a manifestação do quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático; Os eventos principais foram ser informadas acerca de alguma notícia traumática, ser testemunha de violência urbana e violência doméstica, sendo que tais eventos ocorreram num período superior a um mês e em alguns casos, antes da ocorrência do abuso. Ressalta-se que o evento de abuso fora citado como o “pior evento traumático” em quase totalidade dos casos (83,3%).

Analisando os resultados o estudo apontou uma alta manifestação de TEPT nos casos de abuso sexual, confirmando outros estudos que indicam tal quadro psicopatológico sendo como o mais frequente nos casos do abuso supracitado, além de maior frequência em sintomas como insônia, hipervigilância e dificuldade de concentração entre as meninas com Transtorno de Estresse Pós-Traumático no Grupo Caso.

As autoras apontam também que as crianças vítimas de abuso sexual tendem a ser expostas a uma sobreposição de traumas no contexto familiar (como abuso psicológico, abuso físico, negligência, abandono e conflitos conjugais) o que contribui para o aumento do risco de um pior ajustamento psicológico e a cronificação dos sintomas de TEPT. Com isso, conclui-se também que a exposição prévia a situações estressoras pode aumentar a vulnerabilidade do infante no desenvolvimento do quadro de Transtorno de Estresse Pós-Traumático na ocorrência do abuso sexual.

Em suma os resultados do estudo indicam que há alta manifestação de TEPT e um maior número de erros e maior amplitude de oscilação da atenção visual concentrada no grupo que sofrera abuso sexual, concluindo que tal abuso constitui-se como fator de risco para o desenvolvimento infantil, já que quando associado ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático pode produzir alterações do funcionamento cognitivo.

BORGES, Jeane Lessinger; DELLAGLIO, Débora Dalbosco. Funções cognitivas e Transtorno de Estresse Pós-Traumático(TEPT) em meninas vítimas de abuso sexual. Aletheia,  Canoas,  n. 29, jun.  2009 .   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-03942009000100008&lng=pt&nrm=iso. acessos em  20  abr.  2012.

 

 

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