Análise do Comportamento aplicada à Educação: ensinando professores parte de uma análise de contingências +Entrevista com Carolina Porto, uma das autoras do estudo

Estudo realizado pelas profissionais Carolina Porto de Almeida e Maria Eliza Mazzilli Pereira objetivou ensinar três professoras de Educação Infantil a desenvolver parte de uma análise de contingências, com foco sobre a análise e interpretação de dados acerca do comportamento de um aluno. 
O material aplicado no estudo – além da apresentação de conceitos da Análise do Comportamento e avaliação escrita acerca dos mesmos – foram 14 filmes (produzidos especialmente para a ocasião) com três cenas de três minutos cada, sendo que os mesmos demonstravam diferentes situações de interação entre uma professora e um aluno (a); Sete dos filmes apresentavam um comportamento classificado como inadequado do aluno (comportamento – alvo) que era mantido pela atenção social da professora (contingência de reforçamento positivo), sendo que os outros sete filmes mostravam o comportamento alvo mantido pela fuga das tarefas escolas (contingência de reforçamento negativo).

As cenas dos filmes correspondiam às condições de “atenção” (contingência de reforçamento positivo por atenção social do docente), “fuga de demandas” (contingência de reforçamento negativo por fuga de tarefas pedagógicas) e “brincadeira” (contingência de reforçamento diferencial de outros comportamentos), sendo que os filmes eram compostos por cinco classes de respostas do aluno: comportamento-alvo, comportamentos disruptivos, brincar apropriado, obedecer às instruções da professora e iniciar interação social apropriada.

A coleta de dados ocorreu em sessões individuais de 30 minutos, onde as professoras deveriam observar o comportamento-alvo do aluno no filme exibido e, a cada meio minuto, a cena exibida era pausada para leitura dos registros em folha ou para que registrassem a ocorrência ou não da resposta, assim como a dos eventos antecedentes e consequentes nos intervalos onde o comportamento alvo ocorrera; Com o fim de cada filme, as participantes respondiam a determinadas questões, relacionadas a análise e a interpretação dos dados observados.

O procedimento ocorreu em três fases denominadas Pré-teste, Ensino e Pós-teste, sendo que as respostas das participantes dadas por escrito nas atividade de registro e de respostas às questões foram analisadas, sendo classificadas como “corretas”, “parcialmente corretas” e “incorretas”.

Com a análise dos resultados, verificou-se a eficácia do método aplicado, tendo em vista que as estratégias de ensino empregadas às professoras foram aprendidas pelas mesmas; Com base nisso, é possível concluir que professoras podem aprender a realizar parte de uma análise de contingências de maneira adequada e em um tempo relativamente curto, quando ensinadas corretamente. As autoras apontam que, apesar de algumas limitações do estudo (como por exemplo a ausência de dados mais conclusivos sobre os efeitos da aula e da avaliação acerca dos conceitos da Análise do Comportamento), os resultados obtidos foram favoráveis ao ensino de professores a fazer parte de uma análise de contingências e que novos estudos poderiam dar continuidade a este demonstrando a utilidade de se estender a análise de contingências a outros profissionais, a outros contextos relacionados a serviços e a grupos de participantes.

A Rede PSI realizou uma entrevista com uma das autoras do estudo, Carolina Porto, que apresenta alguns aspectos pertinentes ao trabalho e suas possíveis aplicações ao contexto da Psicologia e outros, como Educação e Saúde; Confira abaixo:

Rede PSI: Quais os principais aspectos teóricos e metodológicos de seu estudo?

Carolina Porto: As principais questões teóricas abordadas para fundamentar meu estudo são relativas ao conceito de "análise das contingências de reforçamento", em substituição ao termo "análise funcional", mais usualmente empregado na prática do analista do comportamento até o período em que a coleta foi realizada (em 2008). O termo "análise das contingências" vem sendo a cada ano mais utilizado e trata-se de um conceito de grande complexidade dentro da Análise do Comportamento. A análise das contingências se refere a um conjunto de procedimentos e de interpretações, sendo reconhecida como uma das principais ferramentas de trabalho dos analistas do comportamento. Sendo assim, analisar contingências pode ser entendido como identificar relações funcionais entre eventos e chegar a uma conclusão dos reforçadores que contribuem para a manutenção dos comportamentos focados na análise, a fim de se escolher a uma proposta de intervenção que leve em consideração a função deste comportamento.

RP: Quais os desdobramentos que seu estudo pode trazer para a área e
para a Psicologia como um todo?

CP: Acredito que este estudo junto a outros que compõem uma linha de pesquisa sobre procedimentos de ensino de professores a realizar parte de uma análise de contingências (do programa de Psicologia Experimental da PUC/SP) podem trazer contribuições para as áreas da Psicologia em interface com a Educação e a Saúde, principalmente. Os procedimentos de ensino utilizados no estudo em questão mostraram-se efetivos dentro de uma proposta de capacitação de professores a olharem (atentarem) para os comportamentos tidos como "indesejáveis" dos alunos,  em que condições a emissão destes comportamentos ocorriam (eventos antecedentes) e as consequências que os seguiam, procurando relacionar todas estas observações. Para tanto, foram utilizados filmes, folhas de registro das observações e outros materias didáticos. Uma vez que foi possível ensinar a tais profissionais parte dos repertórios envolvidos no analisar contingências, é importante que se teste a efetividade dos procedimentos de ensino utilizados junto a outros públicos, tais como estudantes de psicologia e também outros profissionais da saúde.

RP
: Quais os desdobramentos de seu estudo para a Educação e os aspectos
que a envolvem? 

CP
: Embora ainda seja difícil elencar os possíveis desdobramentos deste estudo para a Educação de forma mais ampla, posso citar algumas contribuições referidas pelas professoras participantes, nos primeiros meses após a conlusão da coleta. Entre elas: melhorias na interação entre professoras e alunos, visto que elas passaram a olhar para muitas das práticas coercitivas que empregavam em sala de aula como parte de uma relação e que, portanto, contribuíam para a manutenção dos comportamentos de oposição ou de fuga/esquiva de seus alunos; estabelecimento de interações mais positivas em sala de aula, procurando motivar os alunos a se engajarem nas atividades acadêmicas por meio de combinados, propostas de desafios e retirada de punições verbais diante dos fracassos ou dificuldades dos alunos; reforçamento diferencial dos repertórios favoráveis à intereção social e ao desenvolvimento de hábitos de estudo, via  um contato mais afetivo, atencioso e de cuidado com os alunos.

ALMEIDA, Carolina Porto de; PEREIRA, Maria Eliza Mazzilli. Ensinando professoras a analisar e interpretar dados como parte de uma análise de contingências. Estud. psicol. (Natal),  Natal,  v. 16,  n. 3, Dec.  2011 .   Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2011000300006&lng=en&nrm=iso. access on  13  June  2012.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X2011000300006.

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