Psicologismo a serviço do preconceito

A polêmica decisão da cúpula da Igreja Católica de promulgar uma série de medidas para evitar que homossexuais assumam a batina traz várias preocupações. Estamos diante da possibilidade de um recrudescimento de práticas homofóbicas entre populações de forte tradição católica; não existe a possibilidade de alguma nação transformar essas práticas em política de Estado, visto a crença católica não ser religião oficial em nenhum país ao redor do planeta desde a Primeira Guerra; contudo, muitas pessoas sem boa dose de prudência podem se sentir no dever divino de expurgar suas cidades da ameaça homossexual.

Tudo isso são conjecturas. Além do mais, não sei até onde pessoas alheias à uma crença têm o direito de opinar sobre ela. O que mais me preocupa é como ficará ainda mais deturpada a prática do psicólogo no meio católico. Em 1999, então com 17 anos, eu estava interessado em tornar-me um padre, mais exatamente um padre dentro da Ordem dos Agostinianos Recoletos. Após 12 meses de encontros semanais com padres, seminaristas e outros interessados em ingressar em um seminário, fui encaminhado para uma psicóloga, para que ela traçasse meu "Perfil Psicológico". Seriam cinco sessões onde eu contaria a história de minha vida para a profissional, cuja missão era, através de meu relato, revelar se eu tinha o "dom" para o sacerdócio. Predicado tão espiritual passava pela certeza de que eu não seria psicótico, maníaco ou homossexual, conforme me foi revelado posteriormente por um padre da Ordem. Nas normas do Seminário, um seminarista não poderia ser portador de doenças crônicas "nem moléstias psíquicas que atrapalhem seu bom desenvolvimento como futuro sacerdote". O "homossexualismo" era uma moléstia, que poderia atrapalhar o crescimento espiritual do seminarista e de seus pares. O quadro fica ainda mais perturbador diante da afirmação de que a Igreja quer agora evitar a entrada de homens que manifestem comportamento homossexual, porém, não há problema de alguém possuir orientação homossexual, contanto que não a manifeste. Como vi um bispo afirmar numa entrevista a Rede Vida de Televisão, canal aberto voltado para o público católico, o homossexual deve consagrar sua sexualidade a Deus e dedicar-se a uma vida de penitências. Ou seja, maltratar o próprio corpo por este não seguir os ditames da religião, numa concepção cartesiana míope do ser humano. O Conselho Federal de Psicologia já havia determinado em 1988 que a homossexualidade não poderia mais ser considerada doença por qualquer profissional ligado à entidade, tendo desde então cada psicólogo o dever de defender a livre expressão dessa orientação sexual, não coadunar com práticas discriminatórias e não proceder com técnicas supostamente curativas dessa orientação. Fica difícil compreender como psicólogos, que possuem uma formação humanista e transversal, num contato com teorias críticas e propostas de transformação para uma sociedade menos cruel, podem se permitir a exercer o papel de taxonomistas da psique humana, ditando um veredicto preconceituoso, passando por cima de qualquer bom-senso e das normas do Conselho.  Foucault estudou muito o saber-poder, do psicólogo e de muitos outros profissionais ligados ao bem-estar do ser humano. Em sua obra "A Verdade e as Formas Jurídicas" (Editora Nau), o autor liga essa forma de poder às práticas judiciárias, que tentavam dar status científico às condenações. O criminoso seria um desviante, um ser que, por causa da "poluição racial", má-formação congênita ou qualquer outro fator metafísico, foi levado a cometer um crime e desrespeitar os saudáveis padrões de convivência de nossa sociedade. A Igreja, juntamente com os psicólogos a seu serviço, estão atualizando esse papel de julgamento e estigmatização, renovando a prática psicologista de analisar o indivíduo buscando traços de personalidade "inconvenientes". O homossexual é um criminoso, que vai "poluir" o ambiente "sagrado" de um seminário. Os psicólogos e seus órgãos representativos devem lutar contra esse novo uso de sua profissão como instrumento de controle, de injustiça e de preconceito. Do contrário, inúmeros profissionais, talvez  levados muito mais pelo desejo de garantir alguma renda  extra do que movidos por qualquer ideologia, podem empenhar-se nessa prática totalmente avessa à qualquer princípio ético, não somente de nossa profissão, mas também do bom cidadão.       

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