A vida em busca

Sou desses que jamais se põem à mesa, inteiros.
Um dique me contém, aquém de mim,
E quando falo, sempre
Estou atrás de mim, ouvindo.
Idêntica em nós dois apenas a vontade
De sobre a pedra desse dique nos rolarmos
E sermos outra vez só um,
Como em criança.

    A percepção, ou intuição psicológica, de que não somos inteiramente o que somos, se desdobra numa outra percepção: a de que a vida que vivemos não é plenamente a nossa. Estamos lançados numa espécie de vida provisória, que nos foi dada por empréstimo enquanto não encontramos a nossa própria vida. Essa existência alheia, porém, se tornará nossa no momento em alcançarmos plena identidade com aquilo que somos – nos encontrarmos, costuma-se dizer. Tal encontro se fará reconhecer por sinais diversos: a riqueza, a gratificação de uma atividade nobre, a aventura, o conhecimento, o amor verdadeiro, o reconhecimento do outro.

No entanto, ele jamais se dará: haverá sempre uma fissura entre ser e perceber-se sendo. Teremos sempre a estranha sensação de que o que somos está ao alcance, ora dentro, ora fora de nós. Buscamos dentro e fora, e o que somos ainda nos foge. Como uma gota de mercúrio, está próximo e parece sólido; no entanto, se desfaz assim que o tocamos. Dentro ou fora, seremos sempre observadores do que somos.  De uma vida a outra, da que temos e não é nossa à que é nossa e não temos, traçamos um caminho de busca, que vem a ser a vida que de fato vivemos – nem nossa, nem alheia, sempre vir-a-ser.
   

Humberto de Almeida
humberto@theraspsicologia.com.br

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