Laranja Mecânica e o Comportamentalismo de Skinner e Pavlov

O comportamentalismo é relacionado com os estudos referentes ao determinismo do meio e da adoção de certos comportamentos baseados em estímulos que fazem parte da rotina do objeto de estudo ou que foram introduzidos propositalmente para determinar uma resposta já estimada. O filme Laranja Mecânica do diretor Stanley Kubrick, é uma adaptação do romance de John Anthony Burgess Wilson que, unido às teorias comportamentalistas, consegue transmitir às pessoas noções de como ocorre o funcionamento e a assimilação dos estímulos para que ocorram determinadas respostas.

A primeira cena que merece destaque é aquela que começa com o protagonista, Alexander, em seu quarto no centro de treinamento, preparando-se para a aplicação do Método Ludovico para a mudança de comportamento. Ele está tomando seu café da manhã e chegam, então, sua médica e uma enfermeira, aplicam-no um soro o qual dizem que é uma espécie de fonte de vitaminas; porém, é um soro experimental, aplicado sempre após as refeições que ajudará na incorporação do método. Depois, Alexander é levado para uma sessão de filmes onde é colocado em uma camisa de força, sentado, com as pálpebras presas, sem poder fechar os olhos, assim, eles iam sendo lubrificados por colírio pelo assistente do médico pesquisador. A cabeça encontrava-se dentro de um capacete ligado por fios a aparelhos eletrônicos. Quando os filmes começam, seguem-se imagens violentas de agressão e estupro acompanhadas de gritos e músicas no estilo “horrorshow”.

Essas imagens geram no protagonista sentimentos de ânsia, nojo e vontade de vomitar. Seu médico segue dizendo que a droga posteriormente o levará a paralisia corporal e sensação de que está prestes a morrer.

É importante enaltecer os processos envolvidos na análise do reflexo, em meio ao estímulo e resposta exercidos, ou seja, no episódio descrito pela cena acima.

Como explica Ries: 

 

Envolve-se neste processo um receptor sensorial, um sistema aferente composto por um neurônio de condução do impulso até um centro nervoso do cérebro ou medula, um sistema eferente (neurônio que conduz o impulso do centro nervoso para o efetor) e, também, um efetor (compreendido como glândula ou músculo que reage ao estímulo conduzido pelo neurônio do sistema eferente).  (RIES, 2003, p. 42)

 

O Reflexo, para Skinner, seria controlado por um agente externo chamado de estímulo. Já para Pavlov, o reflexo condicionado adquirido, ou seja, nato, é gerado por um processo chamado Condicionamento Respondente.

O condicionamento respondente pode ser explicado como um processo que ocorre através de sucessivos emparelhamentos do estímulo neutro e o estímulo incondicionado, nesta mesma ordem; pois, se for de forma diferente, não se formará o reflexo condicionado.

Pavlov (1942, p.40-41; 1976 p.27) acredita que os reflexos condicionados realizam uma função biológica de adaptação importante porque os reflexos inatos favoreceriam o equilíbrio corporal apenas se o meio externo permanecesse invariável, como este meio varia constantemente, os reflexos incondicionados não bastam para garantir o equilíbrio e perfazem-se através da constituição de reflexos.

A segunda cena importante a ser relatada, mostra o resultado do tratamento de 15 dias: em frente a uma plateia, Alexander fica sozinho no palco, entra, então, um ator e começa a agredi-lo com palavras, insultando-o. Depois, começa a agressão física para com o protagonista. Ao sentir vontade de revidar, Alex é tomado por uma ânsia de vomito e não consegue reagir de outra forma, então, o ator, o força a lamber seu sapato para poder deixá-lo livre, logo, como não há outra saída, Alexander acaba lambendo o sapato. Assim, encerra-se esta parte e uma atriz entra agora no palco, quase nua, somente com uma peça de roupa íntima. Chega muito próxima a Alexander, esse sente desejo em tocá-la, mas à medida que se aproxima do corpo dela, é novamente tomado por uma ânsia de vômito e enjoos.

Ao final das demonstrações, o Ministro do Interior fala que o método funciona para correção da violência em criminosos. O padre, que trabalha com os detentos de onde o protagonista veio, fala que assim eles não teriam livre arbítrio, escolhas próprias; pois, estavam condicionados a reagir daquele modo de maneira mecânica.

Aqui, faz-se necessário falar a respeito de alguns conceitos das teorias estímulo-resposta: a latência é o tempo estabelecido entre a apresentação do estímulo e o início da reação correspondente. A magnitude seria a resposta em relação a sua intensidade, maior ou menor força do estímulo, como no caso de sentir vontade de vomitar, ela pode ser mais ou menos intensa. Os comportamentos respondentes, como o de Alexander após o condicionamento, englobam todas as reações do organismo diante a determinados estímulos.

 

O comportamento é a resposta direta do sujeito ao seu meio; logo o indivíduo se comporta como resultado da estimulação do meio (é o meio que influencia sobre a pessoa). Descrevemos este tipo de comportamento com sendo eliciado, isto é, sempre que o organismo é influenciado por aquele estímulo, ele reagirá daquela forma. (RIES, 2003, p. 43)

 

A terceira cena ligada ao comportamentalismo começa com o dono da casa em que Alexander coincidentemente buscou socorro devido a uma retaliação de seus ex-amigos. Ele já fora uma de suas vítimas e o reconheceu. Ao tomar conhecimento que se Alex ouvisse a 9ª sinfonia de Beethoven iria sentir uma vontade súbita de se matar, prepara então toda uma ocasião para fazê-la.  Convida-o para beber vinho e, logo após, o protagonista desmaia aparentemente dopado. Alex acorda ao som da 9ª sinfonia, trancado em um quarto. Sente então, vontade de se matar e sua única solução é jogar-se pela janela.

Acorda, posteriormente, a um período de coma todo quebrado em uma cama de hospital. Anteriormente, no decorrer do condicionamento com imagens, as cenas vinham acompanhadas por essa mesma música de Beethoven, até há uma menção no filme na qual o protagonista fala que é uma lástima eles usarem essa música, mas o médico decide mantê-la no tratamento; pois, a mesma pode ser o elemento de punição.

Para Skinner, se soubermos as causas para determinados comportamentos, teremos condições de prever e a partir disso controlá-lo, manipulando-o.  

Segundo ele:

“O que o homem faz é o resultado de condições que podem ser especificadas e que, uma vez determinadas, poderemos antecipar e até certo ponto determinar as ações.” (SKINNER,1970a)

 

É importante ressaltar que em nenhum momento do condicionamento de Alexander, foi ligada a música à ideia de suicídio, e sim, a imagens de violência e campos de concentração nazistas. Chegar à conclusão que ela levaria ao suicídio não seria lógico, poderia, talvez, levar a uma tristeza profunda. A única forma de reforço percebida no filme foi quando a médica disse para o protagonista que o mesmo estava fazendo tudo certo e respondendo bem ao tratamento.

Percebe-se que existem formas de condicionamento que funcionam principalmente nas áreas de educação, treinamento de animais, formação de hábitos. No entanto, os estímulos, as respostas e suas relações relatadas no filme são extremistas, servem mais para críticas do sistema social e governamental vigente na época do que para dar um exemplo puramente verdadeiro do que o condicionamento pode fazer.

Skinner e Pavlov, principalmente, revolucionaram com esta vertente psicológica que surte efeito das mais diversas maneiras, mas que ainda não chega ao extremo ponto de impedir que uma pessoa possa reagir a situações agressivas, por exemplo, como no caso de Alexander ou que perca totalmente seu livre arbítrio.

 

 

 Referências

SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1970

ROSA, Jorge (org.). Psicologia e educação: o significado do aprender. Porto Alegre: Edipucrs, 2007

FREEDMAN, Anne. Uma sociedade planejada: uma análise das proposições de Skinner. São Paulo: EPU/EDUSP, 1976.

KELLER, Fred S.; SCHOENFELD, William N.  Princípios de Psicologia: um texto sistemático na ciência do comportamento. São Paulo: Herder, 1968

PAVLOV, Ivan P. Los reflejos condicionados: la función de lós grandes hemisférios. México: Ediciones Pavlov, 1942.

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