Vínculo Conjugal e as Dificuldades Relacionadas ao Amor sob o Enfoque Psicodramático

Alberto Machado Borges

Universidade Católica de Goiás

 

Fantasia ou cotidiano.

Quem está dentro quer sair,

Quem está fora quer entrar.

Mas, sair para onde? E entrar pra quê?

É amor? É dependência? É conveniência?

É bom? É ruim? Vou ou não vou?

Dúvidas e mais dúvidas!

É difícil saber… é melhor experimentar…

Mas, para um assunto tão complicado

é espantoso verificar que…Ele acontece!

Para os que já experimentaram…

Victor Dias

 

Os vínculos se iniciam logo após o nascimento. O primeiro e mais importante vínculo que a criança estabelece é com a mãe, um apego saudável leva à formação de vínculos também saudáveis, já um apego doentio leva à dependência emocional. Durante toda a vida, o vínculo afetivo inicial entre pais e filhos influenciará a capacidade de cada um se vincular afetivamente aos outros, seja de forma saudável ou prejudicial. Em cada fase da vida, o desabrochar dos vínculos afetivos, com pessoas ou objetos, vai sendo formado e se tornando o caminho das relações humanas.

Segundo Pichon-Riviere (1991) a situação extrema de formação de vínculo seria a da primeira relação da criança com o peito da mãe, inicialmente parasitária e em seguida simbiótica, pois há troca de situações de afeto e emocionais. O bom resultado ocorre quando essa situação simbiótica vai diminuindo até um momento em que o objeto e o sujeito têm um limite preciso, já não estão confundidos, mas sim diferenciados. Assim, o vínculo pode ser entendido como uma estrutura dinâmica em contínuo movimento por fatores instintivos e motivações psicológicas, que inclui uma conduta mais ou menos fixa com este objeto. O vínculo é sempre social, e por esta razão, se relaciona posteriormente com a noção de papel, de status e de comunicação. Tudo depende do contexto social em que esse vínculo está se configurando e enriquecendo, é na capacidade do vínculo, ou de poder assumir vários papéis ao mesmo tempo, que se orienta a conduta das pessoas.

Para esclarecer a noção de papel, Fonseca (2008), nos mostra que a formação de papéis ocorre em dois momentos na matriz de identidade: 1) na relação comigo mesmo (“reconhecimento do EU”); 2) na relação com o “outro” (“reconhecimento do TU”). Esses dois momentos serão determinantes no modo como a criança vai atuar em seus papéis na vida adulta.

Segundo Moreno (2007), matriz de identidade é a placenta social da criança, o lócus nascendi, local em que se insere a criança ao nascer e do qual ela retira a estimulação necessária para o processo de autoconhecimento, se refere ao próprio desenvolvimento psicológico constituído a partir das relações estabelecidas pelo bebê com o meio que o cerca. É o processo de evolução do ser humano. É na matriz de identidade que a criança desenvolve seus papéis e se constitui como pessoa no mundo, ou seja, estrutura sua personalidade, possibilitada pela evolução do Eu. Para Moreno (2007), a indiferenciação é a fase em que a criança ainda não se distingue física e emocionalmente das pessoas. Na fase do reconhecimento do Eu, concentra a atenção em seu próprio corpo, começa a identificar suas necessidades e o movimento do outro para satisfazê-la. No reconhecimento do Tu, ocorre a exploração do diferente, do mundo, do outro. Na pré-inversão começa a experimentação do papel do outro por imitação. Na inversão de papéis, o indivíduo já se percebe separado do outro e é capaz de compreender a significação de sua vivência diferenciada. Tal movimento não é retilíneo, pode sofrer avanços e retrocessos.

O crescimento de um casal em terapia tende a seguir essa mesma ordem evolutiva demonstrada por Moreno: a indiferenciação e mistura com o outro no início, o progressivo reconhecimento de si e do parceiro como pessoas separadas, e por fim, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de inverter papéis e compreender seu sofrimento (Távora, 2004).

 

O presente artigo justifica-se por tratar de um tema bastante envolvente, real e complexo na vida de todo ser humano. Sendo, portanto, fonte de grande e significativo conhecimento pessoal teórico para quem quer que se interesse.

Seu objetivo é o de contribuir para que os interessados no assunto tenham condições, principalmente teóricas, de analisar e obter maior compreensão a respeito de algumas importantes dificuldades envolvidas no relacionamento amoroso.

 

Para Moreno (2007), papel é a menor unidade de cultura. Fox (2002) acrescenta que são as várias funções que a pessoa desempenha na vida, forma de funcionamento que o indivíduo assume numa situação específica, em um momento específico; A representação simbólica desse funcionamento, percebida pelo indivíduo e pelos outros, é chamada de papel. A forma de cada um atuar no papel é criada pelas experiências passadas e pelos padrões culturais da sociedade em que o indivíduo vive, ou seja, todo papel tem um lado privado e outro coletivo. De acordo com Fonseca (2008) “papel pode, também, ser definido como as formas reais e tangíveis que o ego adota. O homem sofre por não poder realizar todos os papéis que possui em si” (p.39). Da tensão interna de não realização, surge a angústia. O papel é sempre uma experiência interpessoal, todo papel é uma resposta a outro, de outra pessoa. Na vida adulta, ocorre o vínculo conjugal, que é, de acordo com Dias (2000), toda e qualquer relação existente no casamento, entre um homem e uma mulher. Abrange o casamento como um todo e é afetado por qualquer crise que se instale.

Para Nascimento (1997), o vínculo conjugal congrega uma multiplicidade de papéis, tanto para o homem quanto para a mulher. As relações saudáveis e criativas possibilitam que se viva uma multiplicidade de papéis e personagens no decorrer da vida. Cada mudança traz novos desafios e novas oportunidades, podem experimentar inversões de papéis, ou seja, um tomar o papel do outro e vice-versa, o que propicia ao sujeito conhecer os dois lados da relação. Desta forma, a pessoa tem a possibilidade de “distinguir respostas sociais inadequadas, aprendendo a discriminar entre intenções e o impacto de comportamentos específicos julgados a partir do ponto de vista do outro” (Blatner & Blatner, 1996, p.104). As combinações são infinitas quando o casal se permite inovar. Apenas relacionamentos saudáveis são criativos e imprevisíveis.

De acordo com Cardella (1994), as bases das relações humanas vão sendo preparadas paulatinamente, de forma que ao chegar à vida adulta, o vínculo amoroso se torna uma das questões existenciais básicas do ser humano, um de seus maiores desejos e busca permanente, e apesar de ser o mais profundo “elo” de ligação entre as pessoas, as dificuldades relacionadas ao amor são inúmeras e sempre fizeram parte da realidade humana.

A propósito do amor, Fonseca (2008) escreveu, “Os sentimentos habitam no homem, mas o homem habita no amor” (p.59). O amor é um sentimento que existe entre o Eu e o Tu, é um agir no mundo, é um Eu que assume a responsabilidade de um Tu. Para esse autor, “O amor não é uma única forma de relacionamento, mas em uma relação verdadeira, sempre há alguma espécie de amor” (p.60). O problema é que no mundo em que vivemos, o Tu se torna infalivelmente um Isso, é a dissolução do Eu-Tu a qual se refere Buber (2006), como sendo a profunda melancolia do nosso destino. Por mais que a presença da pessoa no relacionamento tenha sido exclusiva, a partir do momento em que se tenha esgotado sua ação ou esta tenha sido contaminado por mediações, torna-se novamente um objeto, submetido às normas e leis. Partindo daí dificuldades relacionadas ao amor.

Para Nery (2003), a história da pessoa é a história da sua sobrevivência emocional, conquistada nos vínculos juntamente com sua necessidade e fome de existência e de desenvolvimento enquanto seres humanos. O ser humano vive o constante drama relacionado à busca de alimentos psíquicos, ou cargas afetivas como atenção, proteção, respeito, aceitação, que podem ser resumidas em busca de carga afetiva de amor, que dê base ao seu crescimento social e psicológico. Porém, a fome de afeto provoca muita dor, e para conseguir as cargas afetivas que todo ser humano precisa, a pessoa aprende diversas condutas que podem ou não favorecer a fluidez da espontaneidade-criatividade.

Moreno (2007) nos explica que a espontaneidade opera no presente, empurra o indivíduo em direção à resposta adequada à nova situação ou à resposta nova para situação já conhecida, é uma disposição do sujeito de responder como requerido. Por meio da espontaneidade pode-se observar e medir o grau de adequação e de originalidade, quanto mais desenvolvida for, maior o número de respostas adaptativas e criativas o ser humano pode apresentar. A espontaneidade é, portanto, um veículo, um conteúdo, enquanto a criatividade se refere à ação, é uma capacidade inata, é o homem comum do qual nada se tirou. Assim, podemos dizer que todo ser criativo consegue ser espontâneo, mas nem todo ser espontâneo consegue ser criativo. Desde que não estejam adoecidas, todas as crianças são criativas, seu potencial inato vai depois sendo bloqueado no processo de socialização.

Távora (2004) mostra que no vínculo conjugal, um casal em crise está com sua espontaneidade bloqueada, reproduzem padrões de conduta ineficazes, repetitivas. A recuperação da saúde relacional requer de cada um a utilização de seu potencial criativo e o reconhecimento de si mesmo como um agente de mudança, buscando novas formas de se posicionar na relação. Gonçalves, Wolff e Almeida (1988) descrevem que “para que tenhamos prazer de nos sentirmos vivos é preciso que nos reconheçamos como agentes do nosso próprio destino” (p. 46). Os autores ainda mostram que ser espontâneo significa estar presente às situações de relações afetivas e sociais, procurando transformar os aspectos que nos são insatisfatórios, pois sempre pensamos e agimos em função de relações afetivas cuja experiência tem ressonância emocional. Ao recuperar sua liberdade, o homem reafirma sua essência.

Shinyashiki e Dumêt (1988) acrescentam que o neurótico é aquele que faz sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Ser saudável é criar oportunidades, encontrar soluções para os problemas do amor. Ser criativo é reunir condições para não sofrer inutilmente e resolver melhor os conflitos, interromper um atrito buscando a causa real e encontrando uma maneira satisfatória de resolvê-lo. Não usar nosso potencial criativo é cair na rotina, que destrói o relacionamento. O homem tem a capacidade de criar, transformar, se aperfeiçoar, de surpreender e de superar-se. Quando cria, põe em ação sua capacidade de realização pessoal.

Para Moreno (2007), a estagnação, repetição de comportamentos, é conserva cultural. Por outro lado, saúde mental e criatividade relacionam-se com o que chamou de fator Tele, ou seja, “um complexo de sentimentos que atrai uma pessoa para uma outra e que é provocado pelos atributos reais da outra pessoa” (p. 286), segundo Gonçalves e cols. (1988), tele é a “percepção interna mútua entre dois indivíduos” (p. 49). Cukier (2002) acrescenta que “é uma experiência de algum fator real na outra pessoa e não uma ficção subjetiva” (p.317). Caracteriza-se tanto por uma afetividade positiva quanto negativa e se diferencia de sentimentos derivados de vivências chamadas transferenciais, que surgem do apego desfavorável a situações do passado. A patologia do fator tele é a transferência, responsável por equívocos e sofrimentos nas relações interpessoais. Quando estas interferem no vínculo conjugal, distorcem a imagem do parceiro atual. Enquanto na relação télica, há possibilidade de diferenciação de vivências passadas e presentes, liberando a espontaneidade do casal para a transformação de seus padrões de interação.

Segundo Dias (2000) a gravidade de uma crise conjugal pode ser avaliada verificando-se a estrutura do vínculo, por meio do que ele chamou de diagnóstico estrutural do casamento, que procura verificar a importância do amor, da convivência e da compensação afetiva em uma determinada relação conjugal. Essa compensação ocorre quando o foco de atração está localizado na função psicológica que cada um exerce sobre o outro, um passa a viver em função do outro, dando a ambos uma sensação. O ponto de atração pode ser sexual, afetivo ou intelectual e qualquer um deles funciona como iniciador do estado de encantamento ou de paixão. A possível evolução da relação dependerá de abertura para o diálogo e da elaboração desse casal em relação aos seus próprios desencontros.

Para Almeida e Rodrigues (2008), a representação do amor como a melhor possibilidade de realização pessoal ainda se mantém nos tempos atuais, “no início de uma relação amorosa, os indivíduos depositam nela um conjunto de desejos e expectativas que quase sempre os cegam para a realidade” (p.72). Frequentemente vamos ao encontro do outro a procura da completude. Segundo Amélio (2001), estima-se que 92% das pessoas, em algum momento da vida, se casam. A principal razão para o desejo de enlace matrimonial na atualidade ainda é o sentimento de amor, até porque motivações econômicas e alianças familiares foram fortes fatores de união em outras épocas. O fato é que, não só o amor, mas a primeira etapa dele, a atração entre duas pessoas, é objeto de estudo de várias abordagens.

De acordo com Varella (2008), a atração sexual é um fenômeno físico ou social, em que boa parte depende da bioenergia. Ele diz que usamos os olhos para escolher nossos parceiros, mas o olhar não é tudo, a atração depende verdadeiramente do olfato. O segredo da paixão se acha guardado no interior, lá no fundo de nosso nariz. Os nervos olfativos detectam e analisam as características dos ferormônios, uma substância química liberada junto com o suor das pessoas. Os ferormônios carregam informações detalhadas sobre nossa genética, saúde e capacidade de resistir a doenças. O autor ressalta que na hora da paquera o cérebro analisa esses sinais para nos ajudar a escolher a pessoa com os melhores genes, aqueles que aumentem as chances de sobrevivência dos filhos que estarão por vir. Por isso, apaixonar-se é muito mais do que viver emoções intensas, a paixão envolve química. Ao avistarmos a pessoa que gostamos e escolhemos, liberamos adrenalina na circulação, por isso o coração bate descompassado e podemos até perder o sono. Com o avanço do namoro, entra em cena a dopamina, que nos dá sensação de bem-estar, é tão potente quanto à cocaína, ela nos leva à euforia e causa dependência, por isso queremos ficar cada vez mais perto da pessoa amada. Após um tempo juntos, estágios mais profundos da relação amorosa podem acontecer: compromisso, casamento e filhos, mas a continuidade da união vai depender, e muito, de substâncias químicas. O relacionamento íntimo e duradouro dependerá de uma química favorável. O sexo é, portanto, não apenas fonte de prazer ou meio de ter filhos, ele causa encantamento e união entre os amantes. Durante o orgasmo, as hipófises inundam a circulação com ocitocina, hormônio que estreita laços afetivos, o mesmo que liga o bebê à mãe. Varella (2008) acrescenta que quanto mais o sexo é praticado, mais ocitocina é liberada, e mais ligados à outra pessoa nos sentimos. Alguns antropólogos acreditam ser a ocitocina a grande responsável por manter pais e mães unidos enquanto criam os filhos.

Para Almeida e Rodrigues (2008), “quando falta comunicação e os parceiros esquecem que o amor é uma construção diária, a atração é colocada em “cheque” (p.79). É preciso que todos os dias o relacionamento seja alimentado, com os desejos e vontade de cada um dos parceiros. É preciso que haja principalmente o diálogo, pois somente com ele é possível lidar com o sentimento de posse que tanto mina as relações. Outro agravante é o conjunto de desejos e expectativas depositados, que cegam para a realidade, pois a paixão é transitória e o amor começa quando se sai desse aparente estado de transe e encara-se a realidade como ela é, quando a paixão se transforma em amor e o olhar e o investimento se deslocam, é preciso reprimir os impulsos e desejos na tentativa de garantir a chamada fidelidade.

O fato de eleger alguém para dedicar parte do seu tempo e dos seus recursos não elimina o interesse amoroso ou sexual por outras pessoas. Chegamos assim a dois fenômenos intrinsecamente ligados aos relacionamentos, bem como ao desejo de exclusividade, o ciúme e a infidelidade. Segundo Almeida e Rodrigues (2007), “a traição fere os ideais românticos de amor, comprometimento e exclusividade que caracterizam os relacionamentos amorosos contemporâneos” (p.70). Todo casal, ao se formar, carrega para o relacionamento, desde os primeiros encontros, um acordo inconsciente que delineará a vida a dois.

A infidelidade pode ser definida como uma “violação das normas dos parceiros que regulam o nível emocional ou da intimidade física com pessoas fora do relacionamento” (Drigotas & Barta, 2001, p. 178). A infidelidade é uma quebra de confiança, rompimento de um acordo. Almeida e Rodrigues (2007) acrescentam que, a infidelidade pode ser sexual, emocional, ou as duas coisas. Caracteriza-se como infidelidade sexual: beijar, ter contato íntimo, praticar sexo oral ou qualquer contato sexual. Infidelidade emocional envolve um apego ou afeição por outra pessoa, pode abranger flerte, encontro, conversas íntimas ou apaixonadas. Se a infidelidade é perigosa, o ciúme instala-se como mecanismo preventivo na tentativa de evitá-la, ou como mecanismo retaliador, para puní-la. Quando o casal não se dispõe a conversar sobre os problemas que se arrastam há anos, tendem a buscar experiências extraconjugais, mesmo que passageiras, como meio de aliviar tensões, angústias ou para solucionar problemas da intimidade da relação.

De acordo com Fonseca (2008), “o que se apresenta diante de um Eu pode ser um Tu ou um Isso, conforme a atitude do Eu” (p. 64). A palavra Eu-Tu significa entrar em relação, união, ligação; Enquanto que Eu-Isso significa manter-se no mundo da separação, experiência, utilização e divisão. O homem está entre essa dualidade de atitudes (Eu-Isso, Eu-Tu). O importante da relação Eu-Tu é o “entre” que existe entre o Eu e o Tu, pois no “entre” é formado e concretizado o clima necessário para que as duas partes possam integrar-se na relação. Quando não existe mais esta integração, a pessoa torna-se um Isso, um objeto e pode ser então traído.

Para Almeida e Rodrigues (2007), nos tempos atuais, presenciamos diversas formas diferentes de se relacionar, sem que ocorra o real compromisso duradouro como antes. A durabilidade da relação é contestada antes mesmo do início do relacionamento. Assim, a utopia do amor romântico anuncia-se tão desejável quanto impossível, tanto o homem quanto a mulher buscam a novidade em outros relacionamentos.

Segundo Calegari (2008) grande parte das pessoas tem trocado amor por mercadorias, beleza efêmera, status social, por cargos e títulos, ainda que para isso tenham de sacrificar sentimentos ou demonstrar comportamentos menos dignos. Perde-se a perspectiva do desenvolvimento humano, que não está nas conquistas materiais, mas em algo mais profundo e eterno: a essência e a integridade da personalidade. A autora ainda diz que a trajetória da evolução humana é longa e nesta caminhada, todos precisamos de parceiros. Para nos protegermos dos enganos, o melhor instrumento é o autoconhecimento e a melhor arma é a fidelidade ao que se é, ao que se sente e ao que se busca realizar. Tudo no universo está conectado em um sistema de mútua dependência. “A sustentabilidade da vida depende, mais do que nunca, de Amor” (p. 179).

Branden (2002) mostra que a maioria das pessoas que se divorciam se casa novamente. Elas perdem o prazer por um parceiro em particular, mas não o entusiasmo pelo casamento, que continua a representar a condição preferida por muitos homens e mulheres. O autor acrescenta que o valor do casamento deve ser medido pela alegria que proporciona, não por sua longevidade. Enquanto estão juntos o importante é que cada um dê ao outro algo de belo, satisfatório e memorável. Casais que preferem colocar a preservação do relacionamento acima de traições, ciúmes, necessidades de desenvolvimento e de crescimento e reprimir o desejo de tomar novos rumos, fizeram uma escolha. Pagamos um preço por tudo o que fazemos e escolhemos na vida. Qualquer escolha cria seus problemas e gera suas próprias dificuldades, o importante é saber lidar com as conseqüências. Ainda segundo o autor, se uma pessoa tem as características necessárias, como sensibilidade e inteligência, para lidar com outro ser humano em um relacionamento amoroso, saberá que não há regras absolutas relativas a questões como a exclusividade sexual, pois depende do contexto, história individual, estilo de vida, das necessidades emocionais e de desenvolvimento, bem como de todo o lado psicológico das pessoas envolvidas.

A verdade é que, para um relacionamento fracassar, deve haver cooperação de ambos. A descoberta de uma infidelidade instaura um momento crítico, surge a necessidade de definições e a oportunidade de crescimento. Alguns serão complacentes e recuperarão a confiança, outros não conseguirão conviver com a marca da infidelidade na relação. De acordo com Almeida e Rodrigues (2007), “os relacionamentos podem se recuperar da infidelidade, mas não sem um sofrimento significativo” (p.73). O casamento tanto pode se tornar pior como melhor, a sobrevivência do relacionamento dependerá de que ambos estejam empenhados em compreender as razões da experiência vivida, cada qual em seu tempo, carregando a convicção de que nascemos para amar e ser amados, e que nossa felicidade consiste em realizar essa missão!

 

Método

 

Participante

            Participou deste estudo, Ana (nome fictício), 47 anos, formada em economia, trabalha e é dona de uma microempresa de confecção de roupas. Foi casada durante quinze anos, teve um casal de filhos, está separada há um ano e seis meses. Procurou terapia quando o marido lhe contou sobre sua infidelidade no casamento e iniciaram a separação. Ela decidiu que precisava de ajuda psicológica para enfrentar tudo o que estava acontecendo em sua vida.

 

Materiais

Para o processo psicoterapêutico foi utilizado um setting terapêutico do Centro de Estudo em Psicologia (CEPSI), situado na Universidade Católica de Goiás, equipado com uma mesa, cadeiras, armário, ventilador, um relógio de parede, tapete e almofadas de diferentes cores e tamanhos. Em algumas sessões foram utilizados materiais para registro de informações, como folhas de papel e caneta.

 

Procedimentos

 

A cliente passou por um processo de triagem, na qual é preenchida uma ficha contendo alguns dados pessoais e a queixa principal da pessoa. A ficha de Ana foi selecionada, uma funcionária do Cepsi telefonou marcando o dia e horário para a primeira sessão. Ana se mostrou disposta a começar o processo.  Na primeira sessão, a estagiária procurou saber como os acontecimentos sobre sua principal queixa se desenrolaram. Ao final, estabeleceu-se o contrato terapêutico, visando confirmar os dias e horário, a importância da freqüência, possíveis faltas e reforçando sobre o sigilo no ambiente do consultório.

O método utilizado para o desenvolvimento deste trabalho foi o Psicodrama, que tem o objetivo de resgatar a espontaneidade/criatividade do cliente adoecido, tornando-o um sujeito mais saudável e preparado para lidar com as dificuldades nas relações. Este método permite que o cliente conheça a si mesmo por meio da interação verbal e da ação dramática, que nesse caso, valeu-se de algumas técnicas como a auto-apresentação, espelho, duplo, psicodrama interno, solilóquio, átomo social e inversão de papel. A auto-apresentação é a montagem do mundo real ou ideal do cliente utilizando objetos intermediários e uma apresentação de si mesmo (Santos, 1998). O espelho consiste em o terapeuta colocar-se no lugar do cliente para que este perceba a resolução do conflito. O duplo é a possibilidade de o cliente entrar em contato com suas emoções não verbalizadas. O psicodrama interno é uma dramatização simbólica na qual o cliente pensa, visualiza e vivencia a ação, mas não a executa. Solilóquio é pedir ao cliente para que ele pense em voz alta, propiciando uma maior percepção de suas emoções e ações (Cukier, 1992). O átomo social, segundo Cukier (2002), “é o núcleo de todos os indivíduos com quem uma pessoa está relacionada emocionalmente ou que, ao mesmo tempo, estão relacionados com ela” (p. 36). A inversão de papel ocorre quando pede-se ao cliente que tome o lugar do outro, represente o papel de alguém, em vez de apenas falar sobre essa pessoa, propiciando além da  vivência do papel do outro, o emergir de dados sobre o próprio papel (Cukier, 1992). Para finalizar as sessões, tem-se o processamento da sessão pelo psicoterapeuta, possibilitando a validação do atendimento.

 

 

Resultados e Discussão

 

Todo o processo psicoterapêutico teve a duração de oito meses, sendo o primeiro mês de atendimento com uma sessão semanal de cinqüenta minutos, os próximos três meses com duas sessões semanais de cinqüenta minutos e os quatro últimos meses, após o retorno das férias, novamente com uma sessão semanal de cinqüenta minutos. A análise e descrição dos dados estão apresentadas na forma de relatos de sessões.

Processamento: É interessante e gratificante perceber a melhora de Ana quanto ao seu estado de grande confusão emocional no momento da chegada para a psicoterapia. Ela agora já consegue processar melhor toda a situação, conseguiu assimilar, aceitar, aprendeu a lidar com muitas situações que antes a deixavam angustiada, ansiosa e triste, é um olhar com outros olhos, sabe que apesar dos problemas nunca deixarem de existir estará mais preparada para lidar com eles na medida em que forem surgindo.

A psicoterapia de Ana possibilitou a compreensão da influência dos conflitos originados nas relações estabelecidas entre o vínculo maternal e paternal, permissivos ou repressivos, durante a construção de sua identidade. Conforme mostra Cukier (1998), os pais justificam suas atitudes em relação aos filhos dizendo que estão fazendo o melhor que podem por eles, e que isso reflete a forma de sua própria estrutura emocional e de como eles próprios foram educados, é o fenômeno da repetição, “processo complexo, inconsciente em que, como adultos, buscamos a satisfação das nossas necessidades infantis e o resgate de nossa dignidade ferida” (p.36). Cukier (1998) diz que o psiquismo humano se estrutura em torno de uma economia narcísica, ou seja, viveremos desde o nascimento até nossa morte buscando saber quem somos, qual o nosso valor para os outros e para nós mesmos, seremos sempre pessoas que buscam seu valor. E utilizando a dramatização em cena aberta ou o psicodrama interno, é fácil trazer à tona o drama infantil, sendo que a psicoterapia propriamente dita só se inicia quando essa criança passa a ser repetidamente identificada pelo cliente e começa a levá-la a sério, deixando então de culpar os outros pelos seus problemas e começando a assumir a responsabilidade por suas dificuldades. De acordo Nery (2003), a formação da personalidade deriva não só do estabelecimento dos vínculos, mas também da representação de papéis, reprimidos ou não.

O ambiente da família original de Ana não colaborou para que ela pudesse expressar seus sentimentos, sua espontaneidade e criatividade. A partir disso ficou claro que sua capacidade espontâneo-criativa estava bloqueada, o que gerava conflitos entre seus papéis desempenhados e sua personalidade. O aumento da espontaneidade, desbloqueio de fortes sentimentos de culpa, permitiu que Ana difundisse sentimentos e pensamentos que a estavam adoecendo. Portanto, ela é a protagonista de sua vida. Aos poucos re-significa seus primeiros vínculos, procurando elaborar melhor suas relações desestruturadas, almejando o desenvolvimento de sua espontaneidade criativa.

Na vida adulta, a capacidade de se estabelecer vínculos saudáveis é um fator muito importante na busca do amor e enfrentamento de suas dificuldades. Nascimento (1997) mostra que o vínculo conjugal, enquanto formação de um projeto de vida em comum, independente dos aspectos legais, talvez seja a relação mais significativa e mais complexa que duas pessoas possam viver. Relação que possibilita a maior intimidade e entrega, cada um carregando expectativas irrealistas, originadas das experiências vividas nas primeiras fases da matriz de identidade, ou seja, no começo da infância, período em que o bebê experimenta a mãe como sendo parte dela mesma, numa relação de total dependência.

A infidelidade é uma das principais causadoras de prejuízos à relação. E apesar de sempre ter sido punida pela sociedade, é uma prática comum, acredita-se que devido à constante busca de satisfação na qual vive todo ser humano. Por ocasião da descoberta de uma infidelidade, diversos pensamentos e sentimentos vêm à tona, como: raiva, vergonha, medo, ciúme. São sentimentos, cognições, ações e alterações fisiológicas devido ao medo da perda do ser amado. A partir daí as pessoas podem se comportar das mais diversas formas: separando-se, negando a situação, cuidando melhor dos parceiros, cuidando melhor de si, retaliando os parceiros, os rivais, dentre outras possibilidades (Almeida, 2009).

Em nosso cotidiano busca-se cada vez mais o amor. Infelizmente, tal importância é mais bem percebida quando as coisas não vão bem. Quando isso acontece, tanto o nosso humor, como a nossa capacidade de concentração, nossa energia, nosso trabalho e a nossa saúde, dentre outras dimensões das nossas vidas, podem ser profundamente afetados (Amélio, 2001). Logo, evidencia-se, de acordo com tudo o que foi anteriormente apontado, a necessidade das pessoas que sofrem pelos excessos de ciúme, ou ainda que foram ou são infligidas pelos malefícios de uma infidelidade, de procurarem por uma ajuda psicológica para minimizarem seu sofrimento físico e emocional, levando-se em consideração que o amor, e temas como o ciúme romântico e a infidelidade amorosa, relacionados a ele, são fenômenos extremamente presentes em nossas vidas.

Este trabalho contribui para compreendermos que as feridas não elaboradas nos primeiros anos de vida pode ser o propulsor dos sintomas conflitantes da vida de uma pessoa, comprometendo vínculos posteriores, perdendo-se a espontaneidade e criatividade, essenciais para um viver saudável. Mas nem tudo está perdido. Aliás, as esperanças e resultados concretos de resoluções desses conflitos existem, por isso Moreno deixou sua teoria psicodramática, riquíssima em métodos que visam o resgate dessa dinâmica natural da vida humana. Ela pratica a retomada dos papéis, a fim de que os vínculos sejam re-significados e fortalecidos em busca de uma melhor qualidade de vida.

O objetivo do trabalho foi atingido, trazendo uma grande gratificação para todos os envolvidos na sua construção e a quem quer que venha a desfrutar de sua leitura, para que tomem também consciência das implicações das diversas dificuldades relacionadas ao amor e os melhores métodos psicodramáticos de se lidar com tais circunstâncias, possibilitando o florescer de respostas novas a qualquer situação da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

 

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