Estudantes de Psicologia usam drogas em demasia e isso pode atrapalhar o exercício profissional, diz pesquisa

Estudo desenvolvido por Marcos Vinícius Ferreira dos Santos, Denis Soprani Pereira e Marluce Miguel de Siqueira objetivou traçar o perfil do uso de álcool, tabaco e outras substâncias psicoativas entre universitários do curso de graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFEP), e apontou resultados alarmantes sobre o uso de drogas por universitários.

De acordo com o estudo, o maior uso de álcool e tabaco por essa população específica está relacionado a determinados fatores já identificados, como não possuir religião ou não frequentar celebrações religiosas, morar longe dos pais e apresentar mais horas livres nos dias úteis e alta renda familiar. “O ingresso na universidade pode se tornar um período crítico, pois a autonomia que se insere na vida de muitos estudantes é fator gerador de insegurança e de maior vulnerabilidade para o início e a manutenção do uso de substâncias psicoativas”, pontua o texto.

As drogas consideradas lícitas estão entre as mais usadas pelos estudantes, de acordo com a pesquisa

Tendo em vista o fato de que estudantes da área da saúde estarão envolvidos na promoção da saúde e prevenção de diversas morbidades, entre elas a dependência por substâncias psicoativas, os universitários do curso de Psicologia – que se insere entre as áreas da saúde e das ciências humanas –  devem ter atenção privilegiada, pois, ao exercerem sua profissão, estarão diretamente envolvidos na identificação, prevenção e tratamento de indivíduos com problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas.

A população estudada consistiu de 221 estudantes, devidamente matriculados no curso de Psicologia, sendo calculada a amostra no software Epi-Info 6.04; O instrumento utilizado foi o proposto pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) para o I Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool e Outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras, sendo esse instrumento é um questionário constituído por 98 questões fechadas, contendo breve explicação sobre a pesquisa. Por meio desse instrumento, o consumo de substâncias psicoativas é identificado de acordo com a classificação da Organização Mundial de Saúde: uso na vida (quando a pessoa fez uso de qualquer droga psicotrópica pelo menos uma vez na vida), uso no ano (quando a pessoa utilizou droga psicotrópica pelo menos uma vez nos 12 meses que antecederam a pesquisa) e uso no mês (quando a pessoa utilizou droga psicotrópica pelo menos uma vez nos 30 dias que antecederam a pesquisa).

Em relação aos resultados, alguns pontos de destaque do estudo:

.16,3% dos estudantes usaram álcool com padrão de risco moderado e alto, e 4,07% usaram tabaco dessa forma.

. Na vida, as substâncias mais usadas foram, respectivamente, álcool (85,07%), tabaco (33,03%), tranquilizantes (20,81%) e maconha (17,19%); no ano, álcool (63,80%), tabaco (19,91%), maconha (12,22%) e tranquilizantes (8,6%); no mês, álcool (52,49%), tabaco (13,12%), maconha (9,05%) e tranquilizantes (3,62%).

.As prevalências de uso de álcool obtidas na pesquisa são superiores às da população geral.

. Maior uso de tranquilizantes (20,81%), explicado por ser a maioria dos universitários pesquisados do sexo feminino – conforme Wagner et al. as mulheres usam mais medicações com potencial de abuso que os homens.

. Sobre o uso de drogas lícitas segundo a idade de experimentação, observou-se que houve predomínio de experimentação antes dos 18 anos, tendo 81% dos universitários experimentado álcool e 62% experimentado tabaco com idade inferior a 18 anos.

.16,2% das mulheres, 15,8% dos homens e 19,5% dos incluídos na faixa etária de 18 a 24 anos têm risco, de moderado a alto, de desenvolver dependência do álcool.

.Evidenciou-se a relação do uso na vida de álcool, tabaco e ambas as drogas ao uso na vida de substâncias psicoativas ilícitas (maconha, inalantes, cocaína, alucinógenos, anfetamínicos e tranquilizantes) com significância estatística. O uso de álcool na vida associou-se estatisticamente com o uso na vida de maconha, tranquilizantes e anfetamínicos. Nota-se que o uso de tabaco, em relação ao do álcool, manteve maior associação com o uso na vida de SPA ilícitas. Maconha, inalantes, cocaína, alucinógenos e anfetamínicos estiveram associados ao uso na vida de tabaco e mantiveram a associação com experimentação de álcool e tabaco.

Consequências do uso de drogas e a prevenção

O consumo de substâncias psicoativas entre universitários recebe atenção de vários pesquisadores, principalmente porque as consequências negativas decorrentes do uso de drogas no percurso acadêmico poderão influenciar o exercício profissional desses estudantes.

Os resultados obtidos na pesquisa colocam em pauta a elaboração de medidas de prevenção do uso de substâncias psicoativas na população universitária, sendo essas mais eficazes quando comparadas a estratégias “remediativas” de identificação dos estudantes mais expostos, vulneráveis ou em potencial risco para abuso ou dependência de substâncias psicoativas. O desenvolvimento de medidas preventivas deve objetivar uma maior abordagem nos currículos de graduação sobre o consumo (uso, abuso e dependência) de substâncias psicoativas e os impactos desse uso no âmbito individual, familiar e social, bem como sobre a criação de programas preventivos específicos para estudantes universitários.

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