A medicalização infantil é mais útil para a sociedade do que para a própria criança, aponta estudo

A medicalização dos comportamentos desviantes na infância é apresentada como uma estratégia eficaz para lidar com crianças que apresentam algum tipo de dificuldade, sem que, no entanto, as dificuldades desse processo sejam claramente expostas. O processo de medicalização, porém, é complexo e apresenta muitos resultados negativos. Dentro desse contexto, o objetivo do estudo realizado por Fabíola Stolf Brzozowski e Sandra Noemi Cucurullo de Caponi é refletir sobre essas dificuldades.

O estudo primeiramente apresenta aspectos históricos e conceituais acerca da medicalização, bem como esta é presente em nossa sociedade; Aponta para o conceito principal do estudo, o de desvio de comportamento, como sendo este “[…] qualquer conduta que destoe do que é socialmente desejável, mas que nem sempre representa uma entidade nosológica”, citando como exemplo a falta de atenção e a hiperatividade, sintomas principais do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

A falta de atenção, as dificuldades de aprendizagem e a agitação não estão sendo toleradas socialmente, tendo como solução a transformação desses desvios em transtornos mentais, aponta o estudo.

A medicalização dos desvios é possível por meio da flexibilização dos limites do que é considerado normal e do que não é. Os diagnósticos psiquiátricos incluem uma variedade de condições que se situam na fronteira da normalidade, tais como ansiedade, pânico, depressão leve a moderada, transtornos de personalidade, TDAH, transtornos de conduta e transtornos do espectro autista; Se tomarmos como exemplo a depressão, principalmente os casos mais leves, percebemos que existe uma falta de definição objetiva dos critérios diagnósticos, o que permite que qualquer estado de ânimo que resulte em abatimento possa ser medicalizado.

A medicina vem sendo vista, e por que não dizer utilizada, como escoadouro de alguns problemas crônicos, principalmente comportamentais, que aparecem predominantemente na escola. Pela aparente resolutividade, a psiquiatria, as neurociências e a farmacologia vêm ganhando força e legitimação social para se responsabilizar por esses problemas, e a resposta do sistema de saúde a essa demanda é um indicativo dessa prática generalizada: diagnosticar transtornos mentais em crianças com desvios de comportamentos, tais como transtorno bipolar, depressão e TDAH, colocando em pauta o perigo da expansão da categoria diagnóstica, que englobaria dentro dessas classificações um número cada vez maior de indivíduos.

É possível observar que grande parte dos desvios ocorridos nessa época da vida são notados na escola e descobertos a partir do momento em que a criança desenvolve algum problema de aprendizagem. Como exemplo, podemos pensar na alfabetização: se uma criança não aprende a ler com determinada idade, ou então se tem dificuldade em prestar atenção na sala de aula, isso pode ser considerado um desvio, e a criança pode, atualmente, ser encaminhada a um profissional da saúde para averiguar seu quadro. Os desvios da infância, dessa forma, são aqueles relacionados com a quebra de normas e de regras impostas socialmente, como, por exemplo, a falta de atenção e a agitação em sala de aula.

Escolares que são mais ativos, agitados e que são pouco atentos sempre foram um problema para pais e professores. A novidade está no fato de se acreditar que esses comportamentos sejam sintomas de um transtorno mental tratável com medicamentos.

O processo de medicalização retira a possibilidade de atuação dos sujeitos sobre o que lhes acontece, já que os problemas, como os de aprendizagem, por exemplo, seriam o resultado apenas de um desequilíbrio cerebral. O indivíduo desresponsabilizado por seus comportamentos (não é mais o indivíduo, e sim, o seu cérebro) torna-se impotente diante de seu sofrimento, sendo o médico o único capaz de saber o que fazer.

Ao pontuarem acerca dos aspectos positivos da medicalização, as autoras destacam que tais aspectos parecem estar mais relacionados ao entorno das crianças do que a elas mesmas – ao apontarem acerca da “rotulação” da criança enquanto indivíduo doente, poupando esta do julgamento dos comportamentos considerados anormais – exceto pelo fato de uma maior compreensão dos adultos acerca de seus comportamentos.

No que tange os aspectos negativos acerca da medicalização, podemos destacar os seguintes trechos apontados pelas autoras:

. “a produção de diagnósticos e de terapêuticas que simplificam os sofrimentos ocorridos na infância faz com que existam cada vez mais crianças medicadas (e cada vez mais cedo) – bem como a prática de medicar um número cada vez maior de crianças tem como objetivo tratar sintomas, sem considerar o contexto em que essas crianças vivem e suas individualidades”;

. “uma intervenção realizada somente no campo da medicação não escuta o sofrimento do outro, o que implica necessariamente um reducionismo da terapêutica” ;

. “o resultado que o diagnóstico, ou a classificação, pode ter para a própria criança classificada, tendo em vista que mesmo a criança sendo muito pequena para compreender o sentido de seu diagnóstico, ela sente as mudanças que ocorrem na escola e na família, e tanto indivíduo quanto classificação podem se modificar em razão da interação entre estes, sendo que essa criança pode passar a justificar suas atitudes em razão da classificação”.

Consequências da medicalização infantil

A utilização de um medicamento estimulante, de mecanismo de ação e de resultado a longo prazo, um tanto incertos, que pode trazer efeitos danosos a esses cérebros em desenvolvimento;

O número elevado de crianças encaminhadas ao profissional de saúde, muitas delas diagnosticadas com TDAH, por exemplo, alerta para uma das consequências de um excesso de medicalização dos comportamentos considerados anormais na escola: tratar como patológicos comportamentos que, na realidade, são normais. Podemos ir mais além e pensar quais as consequências de se designar alguém tão cedo com um diagnóstico desse tipo: (1) a criança pode justificar seu comportamento por meio do transtorno, (2) sua família e até ela mesma pode considerarse capaz de determinadas atividades apenas se estiver em tratamento, (3) tudo isso pode fazer que a criança e, quando crescer, o adulto, se torne dependente (não no sentido de dependência física) do diagnóstico, agindo apenas de acordo com o que se espera dela como portadora do transtorno.

As autoras alertam também que o objetivo do estudo não é negar o sofrimento das famílias e das crianças que apresentam algum tipo de comportamento desviante, bem como não negar que esses comportamentos precisam receber atenção, mas sim pautando a possibilidade de discussão sobre outros tipos de abordagem possíveis que não apenas a biológica ou até mesmo de uma rediscussão mais ampla do papel dos processos e das instituições educacionais e médicas.

Leia o estudo na íntegra aqui!

 

 

 

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3 Responses to A medicalização infantil é mais útil para a sociedade do que para a própria criança, aponta estudo

  1. Lucas Ribeiro 22 de maio de 2013 at 3:26 #

    a medicalização infantil é desnecessária na grande maioria das crianças, não caiam em lorotas da industria farmacêutica.

  2. Lucas Ribeiro 22 de maio de 2013 at 3:26 #

    a medicalização infantil é desnecessária na grande maioria das crianças, não caiam em lorotas da industria farmacêutica.

  3. Lucas Ribeiro 22 de maio de 2013 at 3:26 #

    a medicalização infantil é desnecessária na grande maioria das crianças, não caiam em lorotas da industria farmacêutica.



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