A exposição feminina ao HIV e a ética do analista

Meu proposito neste artigo é empreender uma discussão sobre o tema que pesquisei no mestrado: a exposição feminina ao HIV e a posição ética do analista que atua nos serviços públicos que acompanham as adolescentes.

Será que podemos afirmar que a exposição feminina ao virus HIV, ou essa ação sexual de risco tem a estrutura do  ato. Ao formalizar sobre o ato, Lacan elucida a travessia do rubicão. Uma ação se torna um ato por apresentar três características: uma inscrição simbólica, ; o caráter inaugural que funda uma experiência e o sentido de atravessamento. Ele comenta que os três aspectos estão vinculados intimamente. A prática de risco pode ser tomada como um ato por apresentar os três aspectos acima. Mas é da ordem do acting out ou da passagem ao ato? O sujeito está presente na cena ou evade-se dela?tativa de encontrar uma forma de designar, de encontrar um nome para si. Esse endereçamento está presente na maioria dos atos dos adolescentes, mas só uma análise pode confirmar a estrutura do ato presente em cada caso, a partir dos seus efeitos sobre o sujeito.

O ato é, pois, inaugural, algo nele toma valor de signo de um atravessamento, seu valor reside na transgressão da lei, em ir além do limite. Ele marca um antes e um depois. O seu caráter de transgressão explicaria, portanto, o rompimento com as “normas de prevenção” contra a AIDS, o que mostra a fragilidade do trabalho de prevenção pautado somente na transmissão de conhecimentos.

Os jovens tem começado a vida sexual cada vez mais cedo. Apesar do acesso à informação ser muito importante na prevenção contra a AIDS, ele não determina a utilização dos preservativos, como vimos. Dos quatorze adolescentes presentes na primeira conversação do CRAS, três (22%) afirmaram ter mantido relações sexuais. A idade média da primeira relação sexual foi de aproximadamente 15 anos. Todos os adolescentes afirmaram que não usaram preservativos porque estavam com um parceiro fixo.

A maioria das adolescentes mostra ter conhecimento considerado satisfatório sobre as formas de prevenção contra a AIDS. Embora tenham uma atitude favorável ao uso da camisinha, não fazem uso dela nas relações sexuais, por diferentes motivos. A totalidade das jovens que pesquisei afirmou nunca tê-la usado, apesar de conhecer os riscos aos quais estavam expostas.

Durante a pesquisa, extraí das jovens falas que ilustram que as adolescentes soronegativas possuem conhecimento suficiente das formas de prevenção contra o HIV por via sexual. O problema da exposição das jovens mulheres ao vírus HIV não se restringe, pois, ao seu conhecimento, confirmando o que a maioria dos estudos apontam.

A delicada transição da adolescência, momento de encontro com esse real do sexo, provoca angústia. Zeitoune (2010) afirma que tornar-se homem ou mulher envolve uma nova amarração a partir do que se operou na estrutura na passagem pelo complexo de Édipo e pelo complexo de castração, e que serão ressignificados nesse momento. As circunstâncias em que acontece o encontro com o parceiro sexual presentificam o modo como, nesse segundo tempo, a castração foi simbolizada e validada. No caso da menina, Lima (2009) aponta que

Na adolescência, a passagem do corpo de menina ao corpo de mulher leva ao confronto com a questão: o que quer uma mulher? Na ausência de um significante feminino, a adolescente constrói um semblante, velando a falta fálica (LIMA, 2009, p. 79).

 Neste rastro, os dados da pesquisa concordam com Miller (2002) e Lacan (1972-73/1982) ao dizer que o desejo feminino passa pelo amor e que o que está em jogo no desejo feminino é a castração do Outro como condição de seu desejo. Pois é como castrado que o homem eleva a mulher à condição de seu desejo. Por sua vez, a mulher, em seu encontro com o homem, busca o significante fálico (ZEITOUNE, 2010).

 Se o amor se manifesta do lado feminino como sendo um “amor louco”, “um amor sem limite” (MILLER, 2002, p. 18), é exatamente porque a mulher se dispõe a se colocar na posição de objeto da fantasia masculina e a partir dela receber a sua identidade (POLI, 2004).

 Identifico , ainda hoje, uma dificuldade das mulheres em pedir para os companheiros usarem o preservativo, na maioria das vezes, para darem provas de seu amor. André (1998) diz que

 Não é de admirar que as mulheres questionem sistematicamente o amor, nem que elas o demandem de seu interlocutor. É preciso amá-las e lhes dizer isto, menos por uma exigência narcísica do que por causa dessa defecção subjetiva pela qual elas são marcadas enquanto mulheres. Se querem ser amadas, não é porque esse anseio tenha a ver com uma passividade natural, como acreditava Freud, mas porque querem ser feitas sujeitos lá onde o significante as abandona. (ANDRÉ, 1998, p. 256).

A experiência sempre intensa e dramática do amor reflete a ânsia de cada mulher por ser amada pelo seu ser, a sua exigência de ser única. É no ser e no reconhecimento daquele a quem dirige sua demanda de amor que uma mulher busca encontrar o significante do seu próprio desejo (POLI, 2004).

 O homem busca satisfazer sua demanda de amor, fazendo da mulher o objeto que o completa. Para uma mulher, o equívoco em sobrepor no parceiro o objeto de amor e o objeto de desejo (o falo) faz com que, na posição feminina, o amor oculte o desejo (ZEITOUNE, 2010).

 Assim, é possível dizer que um homem faz amor com sua fantasia e uma mulher, por amor, consente em se alojar na fantasia de um homem. Mas, se “amar é dar o que não se tem”, o amor experimentado por uma mulher pode conduzi-la a uma angústia devastadora (POLI, 2004).

 A devastação, tão ligada às formas extremas da paixão, faz desta dependência do objeto uma expressão simbiótica e alienante, pela idealização desmedida do mesmo.

A fragilidade dos laços familiares que assistimos na cena contemporânea, aliada à problemática da menina com o amor leva o sujeito a se embaraçar diante do Outro sexo. Lima (2010) afirma que,

O ressentimento pela ausência de um significante feminino e a necessidade de se constituir um artifício fálico para recobrir a falta levam muitos adolescentes a buscar a solução histérica. (…). A tentativa de construção de “um feminino” via um “artifício fálico” supõe o olhar do outro. (…) Podemos pensar na irrupção do feminino como algo além do registro fálico, e a histerização como defesa contra esse encontro. Essa solução não é necessariamente da mulher, mas pode ser comum aos dois sexos. Todo adolescente, homem ou mulher, é confrontado com o feminino, no sentido da indeterminação, da impossibilidade de uma representação única para o desejo. (LIMA,2010, p.80)

Percebemos, na contemporaneidade, a dificuldade dos jovens de se localizarem no mundo, sem a sustentação dos ideais. Na medida em que a dimensão colocada pela impossibilidade da relação sexual é apagada, o sintoma neurótico se revela uma saída insuficiente para as dificuldades do sujeito diante do mal-estar do desejo (ZEITOUNE,2010).

A pesquisa apontou que para as meninas a experiência do amor na adolescência se apresenta muitas vezes na forma de ato. Porque a relação sexual não existe, é preciso que o sujeito a faça existir por meio de significantes, sintomas, fantasias e sonhos. Quando não é possível produzi-la nesse campo – que é o do inconsciente enquanto sujeito suposto saber – é como ato que se produzirá uma resposta. Assim, a aproximação entre o amor e o ato se dá a partir da devastação.

A prática sexual sem uso de preservativos, parece se configurar nesta dimensão. O amor é, aqui, o véu da angústia e daquilo que a angústia produz, ou seja, o objeto que causa o desejo (LACAN, 1962-63, p. 198).

 A exposição ao sexo sem preservativos pode ser tomada como um ato, pois surge como último recurso contra a angústia. Penso que podemos inferir que é uma proteção contra a impossibilidade da relação sexual. Contudo, o que elas denunciam com seu ato é a dificuldade de operar de modo que a angústia se precipite. Pois para haver angústia é necessário haver a separação do objeto, de modo a ter alguma relação com a falta, com o desejo do Outro. Afinal, “propor-me como desejante, é propor-me como falta de a e, é por essa via, que abro a porta para o gozo de meu ser” (LACAN, 1962-63, p. 198).

  O papel ético do analista Ante de tudo que foi exposto, resta ainda a questão: qual o nosso papel como profissionais de saúde frente à vulnerabilidade das adolescentes frente ao HIV?

Parece-me claro que compreender e abordar a vulnerabilidade das jovens mulheres frente ao HIV é uma tarefa complexa e multifacetada. Os dados da pesquisa indicaram que embora a informação seja essencial, não podemos resumir o problema da exposição feminina ao sexo sem preservativos à falta de informação. A prevenção é um campo estéril se não pudermos levar em conta as particularidades da puberdade, da feminilidade e sobre a forma como as adolescentes se colocam nas relações afetivas e sexuais, se posicionando em relação ao Outro, ao desejo e ao gozo.

 Assim, o analista, com sua ética  talvez possa contribuir para que as jovens possam passar do amor ideal e sempre além para o amor possível e realizável.

 No decorrer do mestrado, muitas vezes, ouvi que esta pesquisa era impossível, que para a psicanálise é impossível trabalhar no sentido de produzir uma resposta para um problema da ciência. Acho que podemos dizer que o impossível reside no fato do simbólico não recobrir

inteiramente o real, que se manifesta como ato, como aquilo que não funciona, que não vai bem e não pode ser traduzido em palavras.

Por isso, é importante destacar a questão dos limites do nosso trabalho e a forma que encontramos ou inventamos para encarar esse impossível que se apresenta no nosso dia-a-dia. Não devemos recuar, mas, sim, avançar.

Como salienta Santiago (2009, p. 69) seguindo Miller, o exercício da psicanálise nas instituições, em conexão direta com o social, faz-se sob a égide dos princípios que regem a prática analítica, sempre com base em uma reflexão constante sobre as condições de sua aplicação. O desafio dessa iniciativa, segundo a autora (Ibid., p. 70), “é o de se mobilizarem as formas cristalizadas de fracasso, para se resgatar o laço social”. Essa foi a proposta deste trabalho.

 Se a psicanálise afirma que o sujeito (e o próprio inconsciente) se constitui na relação com o Outro da cultura, é fácil deduzir que, se o Outro da cultura muda, mudam as formas de produção de subjetividade e as vias de expressão do inconsciente

Compartilho com Lacadée (2008, p. 237), que o trabalho com adolescentes deve ir além do tratamento pela palavra, da busca de sentido. Ele nos lembra que a presença silenciosa do analista que não predica propicia a chance de ir além desse “ponto de onde”, ponto do ideal do eu, e, assim, abre a possibilidade de elaborar um outro enlace ao objeto a, “novo enlace a se inventar, do lado do sujeito, mas não sem apoio de um ponto desde onde cada um saberá inventar sua justa medida diante do real”.

A adolescência é um período de riscos, de fazer mais do que dizer. É o momento do ato e Lacan (1986) nos ensina que todo ato verdadeiro comporta uma transformação, algo que marca um antes e um depois, um atravessamento.

 Se consideramos a adolescência como  um momento exemplar para se pensar a questão do ato como um atravessamento é por ser o momento preciso para entrar nesse “túnel perfurado de ambos os lados”(FREUD, 1989d) e renascer de um outro jeito. A adolescência é um tempo de concluir, na pressa, precipitando-se em atos. E no caso das meninas em busca do amor.

Neste viés,  é possível oferecer  a estas jovens, cuja história de abandono, agressividade e violência fundou o laço social deixando marcas em sua constituição subjetiva, um espaço para ressignificar sua história. É através de uma intervenção na dimensão clínica, educativa, social e política que se busca reconstruir com eles um novo caminho.

A pesquisa indicou que através dos grupos de conversações as adolescentes puderam encontrar formas de dar tratamento ao gozo e estratégias para dar conta do mal-estar que se apresenta nesse momento do adolescer. Nos grupos de conversação pode ser estabelecido um lugarparaque a adolescente possa falar de seu ato, de sua história, apostando que esse ato possa vir a ser algo transformador.

Acredito que a conversação, tal como foi sugerida por Jacques Alain-Miller como dispositivo para os encontros clínicos do Campo Freudiano (MILLER, 2003) e é utilizada como metodologia por Ana Lydia Santiago (2009) no seu trabalho de pesquisa-intervenção, no âmbito da educação, realizado no Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais pode ser aplicada no âmbito da saúde e da assistência social.

A proposta da Conversação, segundo a Santiago (2009), é promover uma circulação do discurso em torno das questões que se apresentam como mal-estar ou como sintoma. O objetivo é promover um debate, uma reflexão e discussão viva entre os participantes, visando à produção de algo inédito, pela circulação de um discurso, de uma conversa. É um espaço de oferta da palavra, abertura para uma nova ideia, uma invenção. O analista possibilita que o falar livremente daquilo que incomoda, daquilo que não vai bem assuma a forma de uma questão, possibilitando que apareça um outro sentido novo sentido que é dito, um sentido que, muitas vezes, vale como resposta para o problema. Espera-se, a partir daí, um efeito de saber, permitindo que o sujeito saia da paralisação que o impede de tomar a palavra e agir.

A aposta na conversação consiste na possibilidade de se “atingir a particularidade de cada sujeito através de uma conversa com muitos.” (LACADÉE, 2000, p. 7) Como afirma Jacques Alain-Miller “…quando tudo corre bem, os significantes de outros me dão ideias, me ajudam, e, finalmente, às vezes resultam em algo novo, um ângulo novo, perspectivas inéditas” (MILLER, 2003, p. 15-16)

Por outro lado, é importante que os profissionais envolvidos no atendimento ao adolescente tenham uma escuta que, fundada na ética, faça surgir o sujeito implicado nas suas ações e responsabilizado por elas (ZEITOUNE,2010).

Dados estatísticos do Ministério da Saúde (2013) mostram que a feminização da AIDS avança. As adolescentes representam o grupo no qual a AIDS mais cresce no país. Há muito trabalho a ser feito e é fundamental que, como profissionais de saúde, estejamos sempre numa posição de questionamento e de ruptura com o que está instituído. É necessário que apontemos outras saídas, sem perder de vista que estamos lidando com sujeitos, de modo que o trabalho deve estar sempre comprometido com a ética, com a singularidade e com a diferença.

Freud (1910c) em seu texto Contribuições para uma discussão acerca do suicídio, afirma que a função dos educadores e da escola é a de despertar nos jovens o interesse pela vida e pelo mundo exterior, além de oferecer-lhes apoio e amparo em uma época delicada de suas vidas. Recomendações éticas do trabalho com crianças e adolescentes.

Cabe, assim, a cada psicanalista inserido em programas de atendimento aos adolescentes a responsabilidade em acolher os elementos de novidade nessa “delicada transição” (LACADÈE, 2004) da adolescência, quando uma criança se torna um homem ou uma mulher.

A Ética da psicanálise noz diz que é no caso a caso que poderemos inscrever a possibilidade de prevenção à AIDS por via sexual em jovens mulheres. Afinal, é na singularidade de cada um que o ato e o amor aparecem, entrecruzam-se e mudam o destino de um sujeito, para o melhor ou para o pior.

Algumas adolescentes, a partir das conversações, passaram a se implicar na própria experiência, se responsabilizando pelo ato sexual. Para que esta mudança de posição do sujeito pudesse acontecer, foi importante criar condições para que as adolescentes pudessem falar e ser ouvidas, construindo a própria história. Ao invés de ficarem capturadas em seus destinos, elas conseguiram articular estratégias futuras, como autoras de suas próprias histórias.

Leitura Sugerida

Poli, A. L. (2004) Masculino e feminino. RJ: Zahar.

SANTIAGO, A. L. (2009) Psicanálise aplicada ao campo da educação: intervenção na desinserção social na escola . In: COELHO DOS SANTOS, T. (org.) Inovações no ensino e na pesquisa em psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: 7 Letras, p. 66-82.

Miller. (2005). Introdução à leitura do Seminário da angústia, de Lacan. In: Opção Lacaniana, São Paulo: Eólia, n. 43, maio, p. 7-81.

About Deise Dias de Souza

Psicanalista, graduada em psicologia, especialista em Bioética pela UFLA e psicologia hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia. Mestre em Estudos psicanalíticos pela Universidade Federal de Psicologia.

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One Response to A exposição feminina ao HIV e a ética do analista

  1. Angela Freemane 7 de novembro de 2014 at 11:21 #

    Houve um monte de dúvidas sobre a cura da aids hiv, eu também duvidei, mas agora eu tenho a acreditar que o milagre que eu recebi também pode ser de grande ajuda para o mundo. Meu nome é Angela meu email é angelafreemane@gmail.com Eu vivi com esta doença mortal por mais de um ano, meu marido descobriu que nós éramos ambos HIV positivo. Nós tentamos por todos os meios para viver nossas vidas, apesar de esta coisa no nosso corpo é apenas quando tropeçavam este poderoso herbalista que ele retratou cura. No início, estávamos mais cético, mas meu marido insistiu em dar-lhe uma tentativa e pedimos para algumas de suas ervas e algumas semanas após a conclusão do processo devido a este fitoterapeuta, fomos para um teste como nós também disse, nós foram esmagados felicidade quando recebi os resultados na clínica. A taxa de vírus no corpo e caiu em algumas semanas estávamos completamente cicatrizado. Também perguntou por que ele não veio para o mundo que ele tinha a cura e ele disse que fez em 2011, mas foi rejeitado pela equipe de pesquisa internacional. A coisa mais importante é para você ser curado, se você quer saber sobre esta chamada fitoterapeuta em +2349032913215 ou e-mail: odincurahiv@gmail.com ou odincurahiv@outlook.com



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