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Ética clínica- Uma reflexão a partir do caso Dora

Em Outubro de 1900, Freud em uma carta a Fliess, diz ter começado a tratar há pouco tempo de uma nova paciente, ” uma jovem de dezoito anos “. (Freud, 1905: 15). Ele falava da jovem Dora.
No prefácio do artigo que recebeu o título ” Fragmento da análise de um caso de histeria “, Freud diz que: ” O trabalho levava originalmente o título de ‘ Sonhos e Histeria ‘, que me parecia peculiarmente apto a mostrar como a interpretação dos sonhos se entrelaça na história do tratamento e como, com sua ajuda, podem preencher-se as amnésias e elucidarem-se os sintomas “.
Pouco depois ele afirma que: ” (…) o aprofundamento nos problemas do sonho é um pré-requisito indispensável para a compreensão dos processos psíquicos da histeria e das outras psiconeuroses “. E mais adiante, alerta que ” (…) este caso clínico pressupõe o conhecimento da interpretação dos sonhos “. (Freud, 1905: 22).
Em 25 de Janeiro de 1901 em outra carta a Fliess, Freud diz que: ” ‘ Sonhos e Histeria ‘ foi concluído. É um fragmento da análise de um caso de histeria em que as explicações se agrupam em torno de dois sonhos “. (Freud, 1905: 15).
Ainda nas Notas Preliminares de Freud ao referido caso clínico e seu título, o autor diz que por tratar-se de um relato referente aos três meses em que a paciente permaneceu em tratamento – tendo abandonado o mesmo após esse tempo – como alguns enigmas não haviam sido sequer abordados ou tinham sido esclarecidos de maneira incompleta, Freud preferiu intitular o artigo com o nome ” Fragmento da análise de um caso de histeria “.
Quanto à escolha do nome Dora para designar sua paciente, Freud apela para a questão ética no que tange ao sigilo e à preservação da pessoa da paciente, no sentido de preservar a sua individualidade e evitar que a mesma pudesse ser identificada por alguém, uma vez que pretendia expor seu caso clínico em público. E ainda fez a ressalva de que a mesma não saberia nada além do que já tivesse conhecimento – adquirido durante o período de análise. (Freud, 1905: 23).
No cap. XII, intitulado ” Determinismo, Crença no Acaso e Superstição – Alguns pontos de vista “, no exemplo A (1) do artigo ” Sobre a psicopatologia da vida cotidiana ” (1901), Freud esclarece o que o levou a escolher esse pseudônimo para a paciente.
Neste exemplo, Freud aponta que há sempre um determinismo psíquico atuando nas escolhas do sujeito, quer ele se dê conta disso, quer não. E afirma que: ” (…) não se pode fazer com que um número ocorra por livre escolha, do mesmo modo que não se pode fazê-lo com um nome”. A partir daí, passa a dissertar um pouco sobre a determinação psíquica que o levou a escolher o nome Dora como pseudônimo de sua paciente. (Freud, 1901: 238 – 239).
Interessante notar que por quatro vezes, em escritos posteriores, Freud situe seu tratamento de Dora no ano errado: 1899 ao invés de 1900 – note-se que 1899 foi o ano em que Freud redigiu ” A interpretação dos sonhos “. Observa-se esse fato duas vezes na 1a. seção de sua ” História do Movimento Psicanalítico ” (1914) e repete-se por mais duas vezes na nota de rodapé que ele acrescentou ao caso clínico em 1923 (Freud, 1905: ps. 17, 24 e 25). Quais as causas inconscientes o teriam levado à repetição desse erro sem dele se dar conta ?
O que motivou em mim fazer tal questionamento é o fato de tratar-se de um caso clínico de Freud, que ele diz em seu posfácio ser um fracasso. ” (…) Antes de reconhecer a importância das correntes homossexuais nos psiconeuróticos, fiquei muitas vezes atrapalhado ou completamente desnorteado no tratamento de certos casos “. E ainda: ” Quanto mais vou me afastando no tempo do término dessa análise, mais provável me parece que meu erro técnico tenha consistido na seguinte omissão: deixei de descobrir a tempo e de comunicar à doente que a moção amorosa homossexual (ginecofílica) pela Sra. K. era a mais forte das correntes inconscientes de sua vida anímica. Eu deveria ter conjecturado que nenhuma outra pessoa poderia ser a fonte principal dos conhecimentos de Dora sobre coisas sexuais senão a Sra. K., a mesma pessoa que depois a acusara por seus interesses nesses assuntos. Era realmente de chamar atenção que ela soubesse de todas aquelas coisas indecentes e jamais quisesse saber de onde as conhecia… Eu deveria ter tratado de decifrar esse enigma e buscado o motivo desse estranho recalcamento “. (Freud, 1905: 114; nota de rodapé – grifos nossos).
Dora foi tratada durante três meses, no final de 1900. Seu caso foi descrito em Janeiro de 1901 e publicado em 1905, na mesma época em que os ‘ Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade ‘.
” Dora é levada ao consultório de Freud pelo pai, que havia sido tratado anteriormente por ele de uma infecção sifilítica. Este chega com a queixa de que não era entendido por sua mulher e a doença que sofrera lhe deixara impotente. A demanda era de que Dora aceitasse sua relação com a Sra. K, seu único consolo na vida.
” Dora, do seu lado, vinha sendo assediada pelo marido da Sra. K., aceitando o assédio docilmente até o momento em que ele lhe confessa que sua mulher nada tem a ver com ele. Dora fala a seu pai das investidas do Sr. K. que, quando interrogado pelo pai de Dora, não apenas nega, mas volta a acusação contra a própria Dora, servindo-se de informações prestadas por sua mulher, a Sra.K.
” Quando o pai vai pedir ajuda a Freud, Dora está no ponto em que se recusa a ver novamente o casal K., além de ter deixado um bilhete, ao alcance do pai, onde ameaçava suicidar-se, caso o pai não se afastasse do casal “. (Seddon, 1998: 78-79).
Recortei esse resumo, por considerá-lo bastante concernente com as idéias que pretendo expor.
Dora, que vinha aceitando os assédios do Sr. K., foge quando este tenta beijá-la (cena do beijo – Dora com 14 anos) e esbofeteia o mesmo ao fazer-lhe uma proposta amorosa (cena do lago – Dora com 16 anos). Em ambas as situações, o Sr. K. destitui a Sra. K. da posição que ela ocupava na fantasia de Dora. Qual seja: posição de valorização, de mulher objeto de desejo do homem, detentora dos saberes e verdade que Dora espera sejam revelados.
As interpretações de Freud apontam o Sr. K. como causa do desejo de Dora, por não ter ainda naquela época uma teoria da castração feminina: o papel da mãe enquanto objeto primário para ambos os sexos ainda não estava delineado. (Katz, 1992: 177-180).
Quando Dora interrompe o tratamento com Freud, está na realidade dando uma bofetada simbólica nas interpretações de Freud (tal como fez concretamente com o Sr. K. na cena do lago).
O desejo de Dora é um desejo que se encontra na vacilação, entre o ser e o ter. Marcamos aqui a passagem de Freud a Lacan: do ter (eu tenho – meninos x eu não tenho – meninas: da diferença anatômica entre os sexos) ao ser (objeto de desejo do Outro).
Dora submete-se a duas posições: 1- cúmplice do relacionamento extra-conjugal de seu pai e a Sra. K. e dos assédios do Sr. K. a ela própria; 2- objeto de troca: Sra. K. e seu pai, Sr. K. e ela. Poderíamos falar aqui, de um quadrilátero amoroso vs. a relação triangular edípica considerada normal. Na cena do lago, o aparente equilíbrio se quebra: ” Minha mulher não é nada para mim ” – declaração do Sr. K. que empurra Dora para o consultório de Freud. ” Se a Sra. K. não é nada para o marido, isto impõe a Dora um ser – ser desejada – que lhe provoca horror ao alojá-la na feminilidade e, assim, impede-a de imaginarizar um ter “. (Katz, 1992: 181- grifo meu).
O que Freud parece não ter percebido é que o que une Dora ao Sr. K. não é amor, mas identificação. Identificação masculina que simboliza sua possível saída do Édipo. ” Dora identificou-se com o Sr. K., tal como vai-se identificando com o próprio Freud… E todas as suas relações com os dois homens manifestam a agressividade em que vemos a dimensão característica da alienação narcísica “. (Lacan, 1951: 221).
O querer de Dora era de que alguém respondesse o que acontecia com ela… Paradoxalmente, as respostas que encontra não a satisfazem, deixam a desejar… Dora não encontra, procura. Procura o mistério feminino através da identificação com o homem, a quem não deseja como homem – deseja o seu desejo. (Katz, 1992: 181).
Neste ponto, creio que Lacan dá uma enorme contribuição a essa questão ao referir-se especificamente à Dora e às mulheres em geral. Vejamos: Lacan nos diz que Dora não tinha condições de aceitar a homenagem do Sr. K., pois esta ” (…) só poderia ser aceita por ela como manifestação do desejo se ela se aceitasse a si mesma como objeto do desejo, isto é, depois que houvesse esgotado o sentido daquilo que procurava na Sra. K. Assim como em toda mulher, (…) o problema de sua condição está, no fundo, em se aceitar como objeto do desejo do homem, e é esse o mistério, para Dora, que motiva sua idolatria pela Sra. K…. “. (Lacan, 1951: 221).
Assim, quando o Sr. K. lhe diz: ” Eu te desejo; você é uma mulher ” e Freud lhe diz: ” Você ama K.; você é uma mulher “, em ambos os casos sua reação foram bofetadas que fizeram a história da Psicanálise.
É precisamente neste ponto que Freud tropeça em seu próprio desejo – o desejo de interpretar, e leva a análise a fragmentar-se. O posicionamento de Freud no lugar de detentor da verdade é revelado pela interpretação edípica ” você ama K. “.
Freud ” (…) faz coro com K. ” (Katz, 1992: 181) e alimenta a agressividade de Dora pelos homens. Como fica claro quando Dora assim se expressa: ” Já que todos os homens são detestáveis, prefiro não me casar. Esta é minha vingança “. (Freud, 1905: 114).
Mas, afinal, qual desejo estava em jogo ? O de Dora ou o de Freud ? Em outras palavras: o do paciente ou o do analista ?

4- A Questão ética e o desejo do analista:

Lacan, quando analisa o caso Dora em sua ” Intervenção sobre a transferência “, coloca que seu interesse a respeito desse caso, consiste principalmente no fato de ” (…) ele representar, na experiência ainda nova da transferência, o primeiro em que Freud reconheceu que o analista tem aí seu papel “. (Lacan, 1951: 216-217).
O desejo do analista, segundo Lacan, é a causa que desencadeia e sustenta o movimento da transferência. O que ocorreu com Freud, com relação ao caso Dora e, consequentemente, a seu fracasso, foi que ele não conseguiu trabalhar / estabelecer a transferência devido a questões pessoais. Cabe aqui citar Lacan, mais uma vez, quando ele diz: ” Que é pois, afinal, essa transferência cujo trabalho Freud diz, em algum lugar, ser invisível por trás do progresso do tratamento, e cujos efeitos, aliás, ‘ escapam à demonstração ‘ ? Não nos será possível considerá-la aqui como uma entidade inteiramente relativa à contratransferência, definida como a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e até mesmo da informação insuficiente do analista num dado momento do processo dialético ? “. (Lacan, 1951: 224 – grifos nossos).
Assim, o desejo de Freud enquanto analista – que seria o vetor desencadeante do processo transferencial, não operou positivamente, pois ele mesmo estava inconsciente a respeito de suas próprias correntes homossexuais e, desta forma, não conseguiu perceber isso em Dora.
Podemos tentar esquematizar o fracasso da análise de Freud da seguinte maneira:

1- não houve trabalho da transferência porque;
2- Freud não percebeu a bissexualidade de Dora (Freud trata Dora como ” normal ” e só vem a considerá-la histérica quando, no posfácio, diz perceber claramente as correntes homossexuais de Dora) devido a;
3- pré-conceito com relação à própria bi / homossexualidade (Fliess) o que;
4- o impediu de perceber isso em Dora a tempo.

Sem dúvida, pode-se afirmar que ocorre uma resistência de Freud com relação a esse assunto, bem como uma insistência em tratá-la como ” normal “, isto é, como ” fruto ” (produto) de um Complexo de Édipo positivo / normal. Dora, ao abandonar o tratamento três meses após seu início, dá testemunho de que, embora haja algo de impermeável resistência na própria estrutura da análise, a resistência que se processa / produz na cura é a do analista.
Dora quer saber, chega à análise com a demanda de resposta para sua desorientação. Freud lhe responde: ” Você ama K. “- o que expõe de um lado, seu preconceito (uma menina é feita para amar os meninos) e, de outro, seu desejo de ver confirmada sua 1a. Teoria do Complexo de Édipo, a saber: do Édipo Positivo. Quando, na realidade, o édipo não é simples ou positivo apenas…
Outras questões que me passam pela cabeça dizem respeito à possível identificação de Freud com Dora, uma vez que ambos acobertaram as traições ou erros de seus ” amados ” – Dora, as traições da Sra. K. e Freud, os erros de Fliess (particularmente o que se refere ao ” sonho de Irma “). E, também, o fato de que na época do caso Dora, o conceito de cura não estava bem definido para Freud, ou melhor, este tinha uma visão muito positiva acerca do assunto. Na realidade, acredito que Freud só se definirá mais claramente a esse respeito em seu artigo ” Análise terminável e interminável “, de 1937.
No que concerne à questão ética do psicanalista, é preciso respeitar a singularidade do sujeito. O que não aconteceu no caso Dora, em que Freud quis impor sua visão acerca dos fatos, o que redundou em fracasso clínico.
Isto remete à questão e contraposição do BEM aristotélico – universal para todos, indiscriminadamente (com exceção para os deuses que estão acima de tudo e para os brutos que não sabem o que fazem) – e o MEU BEM da psicanálise, onde o que está em jogo é aquilo que o paciente considera bom para ele. Independentemente, dos critérios estabelecidos pela sociedade ou pelo que o próprio analista considere ser ” o bom “. Freud, no caso Dora, fica preso no que ele considerava bom para ela. Assim, poder-se-ia pensar que, nesse caso, Freud foi bastante aristotélico…
” (…) a cura não se resume em conduzir o paciente para a ‘normalidade’ que a sociedade prega ou para os ideais do analista “. (Seddon: 1999 – programa do curso).

5- Conclusões:

O aparelho psíquico se constrói em torno de um 1o. momento, na relação com o Outro. Momento este mítico, uma vez que ficará para sempre perdido. O que permanece é a marca da situação que foi perdida para sempre (recalque primário). Tudo que “se perdeu / foi perdido” em Freud, Lacan chama – genericamente – de falta.
Daí advém o conceito de ” das ding ” (a coisa). Inanalisável, porque sem registro (o psiquismo não registrou algo num determinado momento). Monolítica (fechada em si mesma). Intraduzível – não pode ser traduzida em palavras porque se perdeu (é muda). Irrecuperável, portanto.
Trata-se de algo que marcou tanto que não fez registro. Tem a ver com o encontro com o outro. Alguma coisa que se constrói a partir de uma trama que gira em torno de algo que não há. Lacan chama de a causa de desejo e busca e que nunca será alcançado.
Tentarei explicar rapidamente, a partir de um exemplo. No cap. 7 de ” A interpretação dos sonhos “, Freud coloca que existe um bebê de um lado, e a mãe, de outro. Se por acaso o bebê começa a chorar – devido a um aumento no nível de tensão (descarga motora desorganizada – DMD, a nível vegetativo), a mãe procura dar um sentido a essa descarga. Ou seja: o Outro, no caso a mãe, nomeia / traduz o desejo da criança. Produz, assim, um encontro (a 1a. experiência de satisfação). Não vai haver registro na criança, pois ela não sabe o que é. Algo se perde (vazio, vácuo). Surge, então, o 1o. traço mnêmico da 1a. experiência de satisfação.
Da próxima vez que houver um aumento de tensão, ela (a criança) chora – descarga motora desorganizada, porém um pouco mais específica. Aqui, a criança já não chora necessariamente por estar com fome, p. ex., mas por querer retornar àquela 1a. experiência de gratificação, àquilo que se perdeu.
Isto é: a criança ” alucina ” ao ver o outro (da 1a. experiência de satisfação) o que reacende o traço mnêmico primeiro. Então, ela chora – DMD. Só que como aquela 1a. experiência de satisfação está perdida, ocorre uma confusão entre realidade (experiência de fato) e desejo – busca de algo perdido.
Na medida em que a criança cresce, começa a desenvolver o pensamento e a associar uma coisa com a outra. A descarga passa a ser cada vez mais organizada, porém a busca da 1a. experiência de satisfação perdida continua.
Freud procura mostrar que esse é o mesmo processo que basicamente acontece quando se sonha.
Freud coloca que o surgimento do aparelho psíquico humano é de origem onírica. A partir daí divide esse aparelho em dois sistemas, inicialmente: 1- o sistema inconsciente (dos processos primários), aonde ocorrem as alucinações, as DMD, etc. Representa a origem mítica do aparelho psíquico. Que está presente em sonhos, sintomas, lapsos, atos falhos, enfim, nas formações do inconsciente; 2- o sistema pré-consciente / consciente (dos processos secundários), referente ao pensamento mais desenvolvido e organizado.
Entre esses sistemas existe uma barreira que funciona como censura, que impede que determinados conteúdos do sistema inconsciente tornem-se conscientes.
Os processos secundário (identidade de pensamento) e primário (identidade de percepção), co-existem e ” acontecem ” simultaneamente na mesma pessoa. Como tais processos são regidos ? Freud fala da lógica que rege os processos.
A lógica do processo primário (ics.) inexiste. As representações se sobrepõem; tudo é igual; tudo remete à 1a. experiência de satisfação daquele 1o. encontro não registrado, mas que deixou sua marca… A lógica do processo secundário (pré-cs. / cs.) é a da exclusão, da diferença. Ou sim, ou não. Aqui há uma lógica que poderíamos relacionar com a lógica aristotélica.
Assim, poder-se-ia pensar que o que conduz ao progresso é um ” a menos “, não um ” a mais”, no sentido de que a falta é a causa do novo, daquilo que produz o novo, o bom, o positivo, enfim, o progresso. É, portanto, a causa propulsora do desejo do ser humano, que o faz estar em busca constante e permanente a fim de suprir aquela carência inicial – a da 1a. experiência de satisfação perdida.
Desta forma, o homem parte para a produção de algo, a partir do nada, ou melhor, daquilo que lhe falta. E, assim, constitui-se como sujeito desejante, sujeito a quem falta algo, a que – inconscientemente – procurará durante sua vida, o impulsionando a viver. Essa busca é interminável, uma vez que aquela carência é insubstituível, insuprível.
Freud chegou a considerar essa falta como sendo tudo aquilo que ficou ” barrado “, recalcado no inconsciente. Tal falta, considerada nesses termos, seria impossibilitadora da análise, isto é, atuaria como impeditiva ao progresso, uma vez que paralisaria (cristalizaria) o sujeito numa determinada posição.
Quanto a isso, Lacan vai propor o ” atravessamento da fantasia “, através não do preenchimento da dita falta (impossível por si mesma de ser preenchida), mas a partir do vislumbre de enxergar as coisas sobre um prisma diferente, novo. Ou seja: a falta tem, assim, o aspecto de proporcionar ao sujeito uma superação de si próprio. Trata-se de algo interno, de mudança interna com relação à forma de lidar e defrontar-se com o vazio.
Lembro-me aqui do exemplo do vaso de barro de Heidegger. Por fora, ” Que belo ! “; por dentro, vazio (o vácuo). Esse é, contudo, o ponto interessante da questão, que nos serve como fundamento para traçar um paralelo. O vazio, o vácuo como produtor de coisas novas. Esse seria o atravessamento da fantasia. Tal atravessamento se dá a partir da conscientização, ou melhor, da defrontação com o vazio, com a falta constitutiva do sujeito. E é isso que fará com que o sujeito saia da posição ” à mercê de … ” em que chegou na análise (a responsável, a culpada, a vítima, o coitadinho, o ” bode expiatório “, …).
Para isso é preciso que o analista respeite a singularidade do analisando, a fim de que possa acompanhá-lo em sua travessia única, particular.
Por tudo o que foi colocado até agora, ressaltamos a importância da análise pessoal (vimos que Freud não havia trabalhado determinadas questões em sua auto-análise *, o que prejudicou o curso do andamento positivo da análise do Caso Dora em específico – mas que é algo que pode vir a prejudicar qualquer análise – referimo-nos aqui aos ” pontos-cegos ” do analista); bem como a importância de ficarmos atentos à questão da teoria que não deve ser utilizada como dogma, mas sim como guia, auxiliando o processo analítico e não prejudicando o mesmo.

* vide epígrafe.

No caso Dora, Freud ateve-se à questão teórica pelo menos em dois pontos: o do mecanismo e dinâmica dos processos histéricos (na formulação de sua teoria sobre a histeria) e na teoria do complexo de édipo positivo – devido a suas próprias questões pessoais.
Assim, é preciso que fiquemos atentos, pois essas questões pessoais interferem no processo analítico. Seja negativamente, se não percebidas e trabalhadas pelo analista a tempo; seja de forma positiva, uma vez que se considerarmos que ” (…) a psicanálise é uma experiência dialética… ” (Lacan, 1951: 215), o que ocorre com o analista também faz parte do processo e é importante para que o mesmo se dê.
Freud nos deixou um legado, que poderíamos chamar do fracasso ao acerto.
O caso Dora é hoje referencial obrigatório para a clínica da histeria e clínica em geral, justamente por sua análise fragmentária ter sido um fracasso que Freud, humilde e ousadamente, se propôs a publicar. Fracasso este que põe em jogo a concepção freudiana do lugar do analista. Ao tornar público o fracasso, Freud nos indica o caminho a seguir: a análise. Se prestarmos atenção no modo de condução de Freud com relação ao caso Dora, será possível perceber que ele, a nosso ver, não analisa, simplesmente sintetiza. Em outras palavras: Freud ” pega ” o material trazido por Dora e, rapidamente, lhe devolve em forma de interpretação. Isto é: faz uma síntese, não uma análise.
Ou seja: fracasso fecundo. Produção a partir de erros e fracassos. O analista, na nossa concepção, tem que estar preparado para se defrontar e aceitar suas falhas na clínica. E a partir delas elaborar, construindo outros meios e caminhos que ajudem a impedir que elas aconteçam ou se repitam.
Finalizando este trabalho, gostaria de deixar uma citação que considero bastante pertinente sobre os assuntos aqui tratados: ” Na medida em que quer saber e, portanto, quer curar, o mestre é destituído de sua posição de domínio e reduzido a um mero ser desejante “, tal qual o paciente. (Katz, 1992: 183).
Que não incorramos nesses erros… Ou que tenhamos a humildade e ética de reconhecê-los como naturais em qualquer ser humano. Afinal, antes de mais nada, somos pessoas como outras quaisquer…

One thought on “Ética clínica- Uma reflexão a partir do caso Dora”

  1. Ótimo o conteúdo apresentado, parabéns!

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