Concentração ou meditação? Dharana ou Dhyana?

Roberto Cardoso

 

Quando falo sobre meditação, e especialmente quando falo sobre nossa definição operacional, algumas vezes há quem afirme: “mas isso que você mostra é concentração, e não meditação; ou como dizem os iogues, isso é Dharana, e não Dhyana”.  Será?  Bem, sobre isso falaremos hoje.

É importante entender uma diferença básica entre os discursos: ao se falar sobre meditação, pode se falar nela como um estado ou como uma técnica.

Ao se considerar como um estado, esta será a última coisa que se poderá dizer sobre ela: “…meditação é um estado…”. Depois disso, na mais restará para ser dito, pois como se trata de um estado além da linha dos pensamentos, não há palavras que sejam capazes de descrevê-la. Embora isso pareça paradoxal ao se ouvir, poderíamos dizer que o estado meditativo busca consciência fora da cognição e, por isso, não há como se levar o iniciante até ele através de um caminho cognitivo. Em outras palavras: falar sobre o estado meditativo não leva ninguém ao estado meditativo.

Quando se fala sobre meditação como uma técnica, aí sim, muito se pode dizer sobre ela, diversos aspectos podem ser descritos, muito pode ser ensinado, várias correções podem ser feitas na técnica de cada aprendiz.

Operacionalmente, existem algumas características importantes, que são comuns a todas as técnicas que reconhecemos como meditação. As duas mais importantes se chamam “âncora” (ou foco) e “relaxamento da lógica”.

A âncora, ou artifício de auto focalização, consiste em um recurso que permite focar a atenção, e fazer isso repetidamente, todas as vezes em que se começar a desviar a atenção do foco estabelecido. Mas, até aí, estamos falando de concentração (Dharana).

O que faz com que um procedimento mude de concentração para meditação? Um pequeno detalhe; a “inserção de um chip operacional”, onde, além de manter o foco, ao mesmo tempo se mantém uma sutil atenção ao eventual envolvimento do meditador em sequências de pensamento. Isso permite a evitar a análise, o julgamento, a expectativa. A isso, denominamos “relaxamento da lógica”.

Meditar consiste em manter a atenção em uma âncora com tanta intensidade que começam a existir “pausas de pensamentos”, na verdade não porque a mente para, propriamente, mas porque o meditador deixa de se envolver com eles. Por isso, juntamente com o foco na âncora, deve existir uma atenção sutil, mínima, simultânea, ao eventual envolvimento em sequências de pensamento. No momento em que o iniciante for abarcado pelo fluxo de pensamentos, ele deve, “gentilmente”, soltar, largar esses pensamentos, e retornar toda sua atenção à âncora. E assim sucessivamente, por várias vezes, quantas forem necessárias, pois nisso consiste o exercício meditativo.

Toda técnica que reconhecemos como meditação tem uma âncora. Ela pode ser bem objetiva, tal como a respiração, o fluxo de ar nas narinas, um ponto na parede, etc, ou subjetiva, como o “vácuo”, o “nada”, o “agora”, ou até mesmo um espaço do qual se observam os pensamentos. No entanto, sempre existe “um lugar para o qual se deve voltar”, sempre que se percebe o envolvimento com alguma sequência de pensamentos.

Quando se confunde isso com concentração, se deixa de perceber 2 aspectos fundamentais, que fazem a diferença entre os dois procedimentos.

Primeiro, que ideações positivas também fazem sequências de pensamento. O praticante pode pensar, “agora sim, estou no foco, perfeitamente concentrado” ou então “que perfeição, este estado lindo que eu consegui atingir”, e assim por diante. Isso é aceitável quando se faz concentração, mas é uma impropriedade técnica quando se medita. O meditador, solta, larga, deixa ir embora, quaisquer sequências de pensamento com as quais se envolver. Alguns perguntam: mas isso não é muito difícil, e pode ser até um exercício mais intenso ainda de lógica. A resposta é sim, mas na verdade é um exercício impossível. Uma boa técnica de meditação precisa ser algo impossível para a mente, pois essa é a única forma de “dar um drible” na mente e deixá-la por minutos, segundos, ou frações de segundo, fora do comando.  É disso que falo quando cito Ramana Maharish : “o ladrão não pode pegar o próprio ladrão”. Meditar é enganar o ladrão e coloca-lo para correr atrás dele mesmo. Ele não se alcançará a si mesmo (impossível), mas irá se cansar e desmaiar, saindo de cena parcialmente por um tempo. Um belo truque dos meditadores do passado, hein?!

Segundo, porque aqui se confunde a técnica com o estado. Achar que se pode sentar, imaginar um estado “lindo”, “divino”, “incognoscível” e ficar nele é uma grande ilusão. O iniciante se engana, uma vez que a mente não tem como produzir um estado “além mente”. Uma vivência incognoscível é, como o próprio nome diz, não alcançável pela cognição, e por isso não está presente quando você estiver olhando para ela e dizendo “que lindo”, “que sagrado”, “que sublime”. Isso é juízo de valor; é julgamento; é lógica.

Quando alguns amigos iogues me falam que isso é Dharana eu os lembro das famosas etapas de Patanjali, que descrevem classicamente o caminho do iogue. Podemos citar como exemplos: Asana, Pranayama, Pratyahara, Dharana e Dhyana.

Asana, consiste em uma posição corporal “exercitada” pelo iogue. Para isso existe uma técnica, que lhe é ensinada, e praticada com dedicação e regularidade. Um dia, ao atingir a “perfeição” na postura por algum tempo, o iogue poderá experienciar um estado decorrente daquele Asana. Experimentará um “barato”, uma sensação absolutamente peculiar, que deriva da prática da posição levada repetidamente à quase perfeição. Para fins didáticos, vamos chamar isso de estado de Asana. Assim sendo, podemos dizer que existe a “técnica de Asana” e o “estado de Asana”.

A prática respiratória, em diversas formas, consiste no Pranayama. Uma técnica é ensinada, e exercitada com afinco e constância. A partir de um ponto, como consequência da técnica de respiração, o praticante experimenta um estado, decorrente daquela técnica. Portanto, existe a técnica de Pranayama e o estado de Pranayama. O aluno pode perguntar ao instrutor: “mas, quando eu exercitava o Asana, minha própria respiração já se regularizava; minha percepção do corpo também consistia na percepção da minha respiração; então, quando eu fazia o Asana, isso já não era também Pranayama?”.  Ao que o instrutor responde: “de certa forma sim, mas eu não estava ainda falando sobre isso; antes era uma etapa apenas focada em exercitar o Asana, embora todos os aspectos estejam ligados”.

Pratyahara, a próxima etapa, consiste em exercitar a “retirada consciente da energia dos sentidos”, de certa forma “redirecionando a energia dos sentidos, da periferia para o interior”, como que preparando o iogue para aquilo que poderíamos chamar de “percepção não sensorial”. O exercício de Pratyahara, quando bem conduzido e praticado, em um dado momento levará o praticante a conhecer um novo estado, que pode ser chamado de “estado de Pratyahara”. Vejam então que existe a “técnica de Pratyahara” e o estado de Pratyahara”. Novamente, o aluno pode perguntar ao instrutor: “mas, quando eu exercitava o Pranayama, minha própria percepção dos sentidos externos já se abrandava; minha percepção da respiração também consistia na introspecção, e numa espécie de percepção que não era mais sensorial; então, quando eu fazia o Pranayama, isso já não era também Pratyahara?”.  Ao que o instrutor responde: “de certa forma sim, mas eu não estava ainda falando sobre isso; antes era uma etapa apenas focada em exercitar o Pranayama, embora todos os aspectos estejam ligados”.

Mais adiante, vem o exercício de Dharana, concentração, onde o aluno aprende a focar a atenção, conforme orientado por seu instrutor. A partir dessa prática, regular e dedicada, haverá um momento em quo o iogue vai experienciar uma nova condição, intensamente focada, que podemos denominar “estado de Dharana”. Isso significa que, após praticar o exercício da “técnica de Dharana”, acabará se experimentado o “estado de Dharana”. A mente está muito focada, muito alinhada com o alvo da concentração, e isso produz um estado que antes não era conhecido pelo praticante. Mais uma vez o aluno pode perguntar ao instrutor: “mas, quando eu exercitava o Pratyahara, minha mente já estava muito focada; a interiorização da energia dos sentidos gerava, por si só, uma postura muito focada da minha mente; então, quando eu fazia o Pratyahara, isso já não era também Dharana?”.  Ao que o instrutor responde: “de certa forma sim, mas eu não estava ainda falando sobre isso; antes era uma etapa apenas focada em exercitar o Pratyahara, embora todos os aspectos estejam ligados”.

Antes de passarmos à etapa seguinte, aqui vale um parêntese. Soa estranho falarmos em “auto percepção não sensorial”, pois tudo o que percebemos parece estar ligado aos sentidos. Afinal, dizemos que estamos percebendo alguma coisa quando a vemos, ouvimos, tocamos, etc. Porém, você pode estar caminhando na rua e, de repente, se perceber pensando em alguma coisa (ex: numa pessoa ou numa conta à pagar). Isso representa uma auto percepção que não é sensorial. Contudo, aqui ainda existe um exercício de lógica. Quando percebemos que estamos pensando em alguém, geralmente analisamos a percepção; ao percebermos que estamos pensando em um evento, quase sempre classificamos esse evento em bom, ruim, agradável ou desagradável; e até mesmo quando nos percebemos em um estado, que decorre de uma técnica, fazemos um julgamento do quanto estamos praticando a técnica adequadamente, e até do quanto este estado é “bom”, ou “especial”, ou “sagrado”, etc. Podemos estar muito focados em um exercício de concentração (Dharana), mas ainda assim julgarmos a técnica, analisarmos o exercício, aquilatarmos debilmente o estado. Em tudo isso, ainda existe a participação da mente, a participação da lógica. Mas como ir além? Como atingir a “auto percepção não sensorial sem a participação da lógica”? É aí que chegamos na próxima etapa: a meditação.

Como etapa seguinte, vem a meditação, ou a técnica de Dhyana. O instrutor passa ao aprendiz uma técnica, que é exercitada regularmente. Então, a partir da prática continuada, o aprendiz acabará experienciando um “estado de Dhyana”, em outras palavras, o estado psicofísico resultante da técnica de meditação. A mente estará em foco, porém agora com menor envolvimento nas sequências de pensamentos. É o chamado “relaxamento da lógica”.  De novo, o aluno pode perguntar ao instrutor: “mas, quando eu exercitava Dharana, minha mente já estava tão focada que se reduziu muito o envolvimento nas sequências de pensamentos; então, quando eu fazia Dharana, isso já não era também Dhyana?”.  Ao que o instrutor responde: “de certa forma sim, mas eu não estava ainda falando sobre isso; antes era uma etapa apenas focada em exercitar Dharana, embora todos os aspectos estejam ligados”.

Um engano fundamental é achar que todas as etapas têm uma técnica e um estado, porém que a meditação é apenas um estado.  Acreditar nisso é crer que é possível produzir com a mente, um estado além mente. Como eu já disse acima, uma vivência incognoscível é, como o próprio nome diz, não alcançável pela cognição. Por isso, achar que basta sentar e imaginar um estado “lindo”, “sagrado”, “especial” é se deixar enganar pela mente. É como expliquei acima, tentar “usar o ladrão para pegar o próprio ladrão”.

Com isso, não pretendo dizer que o sagrado não existe, mas sim que o sagrado existe (ou pode ser percebido) apenas fora da esfera mental, além da cognição. Como disse Joseph Campbel “o conceito de Deus é apenas uma metáfora, criada para se referir a algo que transcende completamente o pensamento humano”. Mas como transcender o pensamento? Ora, aprendendo a relaxar a lógica, e a partir daí percebendo um estado de consciência além mente.

Escrevi este texto porque, por muitos anos, pude observar diversos praticantes tentando meditar apenas buscando um estado, como se a mente pudesse – ela própria – nos levar a um estado além mente. Na verdade, um praticante deve buscar a técnica, pois será ela quem propiciará o estado. Existe uma técnica de Dhyana (meditação) e um estado de Dhyana (estado meditativo).

Nesse terreno em que conversamos, só existe uma coisa pior do que não saber meditar: pensar que está meditando, sem estar; e assim perpetuar um engano por anos e anos.

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3 Responses to Concentração ou meditação? Dharana ou Dhyana?

  1. Mario Henrique Tomassi 16 de janeiro de 2014 at 5:18 #

    Muito elucidativo, obrigado.

  2. Jose Paulo Ferrari 15 de janeiro de 2014 at 12:06 #

    Vamos entender os conceitos….!

  3. Euclides Bagatoli 14 de janeiro de 2014 at 22:37 #

    Na técnica de meditação, nunca existirá qualquer adjetivação, qualificação do foco – que respiração fria, ou relaxante; como é ótimo respirar de vagar, ou coisas assim. Só o foco e nada mais. òtimo o texto.

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