Porque alguns psicólogos não utilizam a Avaliação Psicológica?

Toda intervenção, em última instância, se baseia em um processo avaliativo que aponta a necessidade desta. Nesse sentido, a Avaliação Psicológica (AP) deveria estar no cerne do exercício profissional do psicólogo. Todavia, essa parece ser uma controvérsia, visto que muitos profissionais questionam ou rejeitam o uso da AP. Com base em um levantamento com 932 psicólogos, dos quais 278 declararam não praticar AP, incitam-se algumas reflexões sobre as justificativas e concepções subjacentes a esse posicionamento. Objetivando a discussão de tais reflexões, Andressa Moreira Hazboun e João Carlos Alchieri, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, desenvolveram artigo que discute o uso da Avaliação Psicológica pelos profissionais da psicologia.

O Conselho Federal de Psicologia conceitua a Avaliação Psicológica (AP) como “(…) o processo técnico- científico de coleta de dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos, que são resultantes da relação do indivíduo com a sociedade, utilizando-se, para tanto, de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos” (Resolução CFP no 007/2003, p. 3). O termo “técnico-científico” pressupõe uma prática devidamente fundamentada, no intuito de garantir a validade do processo de AP como um todo. Nesse sentido, pode-se dizer que a AP possibilita uma melhor compreensão do fenômeno psicológico, a partir da qual ações e intervenções podem ser propostas. Em última instância, pode-se supor que qualquer tipo de intervenção é precedido por uma avaliação que apontou a necessidade desta (Chiodi & Wechsler, 2008; Siqueira & Oliveira, 2011), de modo que a AP deveria estar no cerne do exercício profissional de todo psicólogo. Todavia, a AP, seus métodos e técnicas, têm vivenciado, de maneira cíclica na história, períodos de crítica e descrença alternados com momentos de valorização (Villemor-Amaral & Pasqualini-Casado, 2006; Witter, 2007).

Em relação aos sujeitos, foi considerado como critério de inclusão para a pesquisa ser formado em Psicologia e estar inscrito em algum Conselho Regional (CRP) do Brasil. Visto isso, participaram do levantamento 932 psicólogos, dos quais 278 (30%) alegaram não praticar AP.

A proliferação rápida dos cursos de Psicologia resultou na carência de profissionais devidamente capacitados para suprir essa demanda, comprometendo a qualidade do ensino (Alchieri & Cruz, 2009) e a credibilidade nas práticas de AP e em seus instrumentos (Paula, Pereira, & Nascimento, 2007). Somado a isso, os anos 60 foram caracterizados por crises na Psicologia, ligadas principalmente a questões ideológicas (Custódio, 2006). A influência do humanismo e a popularização da psicanálise no Brasil, com críticas ao positivismo e suas técnicas, marcaram o declínio no uso de testes e na produção acadêmica (Custódio, 2006; Padilha, Noronha, & Fagan, 2007). Esse quadro começou a se reverter, a partir da década de 1980, com a criação de cursos de pós-graduação em Psicologia, melhor qualificação profissional, crescimento no número de pesquisas e na criação de instrumentos (Alchieri & Cruz, 2009; Paula e cols., 2007).

A revalorização da AP não permite, porém, afirmar que preconceitos foram de todo superados ou mesmo que se tenha alcançado uma unidade conceitual e tácita, na área. Segundo Noronha e cols. (2002), ainda há posições radicais de abandono dos testes e tendência ao subjetivismo nas avaliações, por parte de alguns psicólogos. Assim, este artigo objetiva refletir as justificativas e concepções de psicólogos brasileiros que declararam não praticar AP, em um levantamento sobre a prática profissional.

No que tange os resultados alcançados,  oportunizam a reflexão sobre o lugar da AP. Se há recusas em praticá-la, a que se devem? Que avaliações são essas que não se intitulam avaliações psicológicas e que têm direcionado a tomada de decisão do profissional? Em que se baseiam? Embora este artigo não proponha encerrar tais questões, alguns apontamentos podem ser esboçados. Pode-se supor, é verdade, que muitos psicólogos estejam praticando AP sem saber, mas isto não pressupõe que esta seja feita de forma adequada. Pelo contrário, parece haver, na nossa categoria, posicionamentos que recusam o uso da AP por razões que refletem confusões conceituais, fragilidades na formação/capacitação e preconceitos oriundos e mantidos desde os primórdios da Psicologia. Dessa maneira, muitos profissionais podem se desinteressar e estimular o desinteresse pela área AP sem o devido conhecimento e aderir a práticas avaliativas pouco fundamentadas.

A menção da prática de AP pela maioria dos participantes não necessariamente indica que esta seja uma tendência expressiva na profissão. Embora tenha sido divulgada como uma pesquisa para psicólogos, considerando o uso de estratégia bola-de-neve, é possível que o foco do questionário tenha influenciado no direcionamento desta divulgação. Dessa maneira, os próprios participantes remeteriam, preferencialmente, àqueles profissionais que estivessem atuando na área visada. Da mesma forma, essa hipótese sugere que há muito mais psicólogos que não se identificam como praticantes de AP, do que evidencia esse levantamento.

A retomada da AP é um movimento que vem ocorrendo na Psicologia como ciência e profissão e cuja continuidade deve ser ainda mais visada. Nesse sentido, acredita-se que é importante ressaltar a perspectiva da AP não como uma área ou especialidade restrita com finalidade em si mesma, mas como o processo que é a base fundamental para a tomada de decisão do psicólogo em suas ações e intervenções no exercício profissional. A AP deveria ser a atividade mais básica do psicólogo, dada a sua relevância nos contextos de diagnóstico e intervenção. Tomá-la como etapa criteriosa de qualquer processo, discutir e refleti-la em todos os âmbitos e contextos em que possa ser inserida deve ser interesse de profissionais e estudantes.

HAZBOUN, Andressa Moreira; ALCHIERI, João Carlos. Justificativas e concepções de psicólogos que não utilizam avaliação psicológica. Aval. psicol.,  Itatiba ,  v. 12, n. 3, dez.  2013 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-04712013000300011&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  14  abr.  2014.

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