Relato de estágio: uma experiência no CREAS do litoral norte de Santa Catarina

Internship report: an experience in CREAS the north coast of Santa Catarina

CRISTIANI CARVALHO RODRIGUES NETTO*

DAYANE MÜLLER**

GRACIELE RODRIGUES NUNES***

ANDREIA MARTINS****

RESUMO A partir das normas estabelecidas pelo SUAS – Sistema Único de Assistência Social, foram implantadas unidades de Assistência Social, com o intuito de levar maior qualidade de vida a população, garantindo os direitos de acesso a educação, saúde e lazer. Uma das unidades previstas pelo SUAS é o CREAS – Centro de Referência Especializada em Assistência Social. Com base nesta realidade, o presente artigo visa demonstrar o trabalho realizado no CREAS de uma cidade do litoral norte se Santa Catarina. Através da experiência de estágio realizada por acadêmicas do curso de Psicologia, objetivou-se por construir um artigo que abordasse os trabalhos ofertados pela unidade, e depoimentos da coordenadora e um psicólogo do CREAS, tanto quanto a fala de uma usuária dos serviços. Diante dos depoimentos, fica evidente a qualidade dos serviços prestados a comunidade, assim como a finalidade dos mesmos, no entanto, se evidencia a necessidade de melhoras, tais como: maior número de técnicos e uma relação mais eficaz entre os vários setores da Assistência Social.

Palavras-chave: Psicologia. CREAS. Assistência Social.

ABSTRACT – From the standards established by ITS – Unified Social Assistance, units were deployed Social Assistance in order to bring higher quality of life population, guaranteeing the rights of access to education, health and leisure. One of the units covered by the ITS is the CREAS – Specialized Reference Center for Social Assistance. Based on this reality, this article aims to demonstrate the work done in CREAS of a city on the north coast to Santa Catarina. Through the internship experience held by academic psychology students, the aim was to build for an article that addressed the work offered by the unit, and testimony of a psychologist and coordinator of CREAS as far as the speech of a user of services. Given the testimony, it is clear the quality of services provided to the community, and the purpose thereof, however, highlights the need for improvements, such as: more technical and more effective relationship between the various sectors of Social Work.

Keywords – Psychology. CREAS. Social Assistance.

1. INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como objetivo a apresentação dos dados obtidos, através da realização de um estágio acadêmico, que está inserido na matéria de Estágio Básico IV, do curso de Psicologia. A execução do estágio se deu no CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social) em uma cidade do litoral norte de Santa Catarina.

A realização do estágio teve como finalidade a experiência prática, por meio da observação participante, e posteriormente, a realização de entrevistas com o psicólogo, a coordenadora, e um usuário do CREAS. “O curso progressivo dos diálogos, tanto nas situações de entrevista como fora delas, se converte em fonte importante de informação sobre o problema estudado” (REY, 2011, p. 85).

Através deste método, pôde-se observar a interação profissional nas áreas da Psicologia e Assistência Social, analisar os casos de violência ou suposta violência que chegam até o CREAS, como se dá sua resolubilidade e também como são estabelecidas as questões jurídicas entre a assistência prestada pelo CREAS e os casos que são encaminhados através do Ministério Público.

Duas semanas antecedentes a realização do estágio, o grupo de estagiárias entrou em contato com a unidade, a qual haviam escolhido para a realização da prática, sendo agendada uma reunião com a coordenadora do espaço, com o intuito da aceitação para a realização do trabalho acadêmico. O pedido de estágio foi aceito, e posteriormente, a equipe colocou em execução o seu projeto.

O grupo de estágio continha três integrantes, no entanto, a pedido do local, a realização da prática se deu em dias alternados para cada integrante, de modo a facilitar a elaboração do estágio e a interação entre profissionais, estagiários e usuários do sistema. O início do estágio se deu no dia 08 de setembro de 2014 para a estagiária Dayane, dia 09 de setembro de 2014 para a estagiária Graciele e dia 12 de setembro de 2014 para a estagiária Cristiani. A finalização do período de estágio ocorreu no dia 07 de novembro de 2014, totalizando 09 semanas de vivência na unidade.

A efetivação do estágio teve como escopo, o confronto entre a teoria acadêmica e a prática do psicólogo na Assistência Social, possuindo o presente trabalho, a finalidade de concretizar a vivência no CREAS.

Neste sentido, o artigo se subdivide em introdução, que de forma concisa explana os objetivos da elaboração do artigo, posteriormente é apresentada a fundamentação teórica que aborda uma breve contextualização histórica do SUAS, especificamente os serviços ofertados pelo CREAS, em seguida, a realização do estágio que de forma clara apresenta a vivência do estágio e os relatos de entrevistas realizadas durante a prática, e por fim, as considerações finais que finalizam o artigo com a apreciação das acadêmicas sobre a prática do estágio.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Em uma sociedade regida pelo capitalismo, onde o trabalhador serve puramente como servidor da mão de obra para a produção industrial, este acaba por ficar completamente a mercê das situações adversas decorrentes de acidentes trabalhistas, carga horária abusiva, e sem qualquer política na área da Assistência Social. Neste contexto, surge a necessidade da implantação de uma organização destas políticas de assistência aos trabalhadores, como uma forma de amenizar a opressão gerada pelo capitalismo vigente (GUZZO; et al., 2013, p. 155).

No Brasil este contexto capitalista surgiu com maior predominância no século XIX, mais tardiamente que nos Estados Unidos e em outros países da Europa. Com os conflitos gerados pela exploração da categoria operária, os trabalhadores se organizaram no sentido de exigir uma organização da classe e reivindicar por direitos que assegurassem sua qualidade de vida dentro e fora das empresas. De acordo com Guzzo et al. (2013, p. 160) “entende-se por políticas sociais o conjunto das políticas executadas diretamente pelo poder público, ou através de parcerias público-privadas, voltadas para o campo de proteção social, e que atendem aos direitos sociais expressos na Constituição Federal de 1988”.

A partir da constituição de 1988, foi implantado no ano de 1990 o SUS (Sistema Único de Saúde), tendo como base fundamental a promoção de saúde, também nesta esfera, foi instituído no ano de 2005 o Sistema Único de Assistência Social – SUAS, através da Resolução n° 145 do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), da Política Nacional de Assistência Social (PNAS, 2004) e da Norma Operacional Básica – NOB/SUAS, 2005 (SILVA; CORGOZINHO, 2011, p. 14).

O SUAS foi instituído com o objetivo de garantir ações integradas de Assistência Social a população. Nesta mesma vertente, o psicólogo obteve papel importante nesta conquista, alcançando o reconhecimento da Psicologia como ciência em outro campo de atuação (ROSA; SOUZA; PINHEIRO, 2010, p. 6).

O SUAS abrange uma diversificada rede de proteção social, como a prevenção de riscos sociais e pessoais, por meio da oferta de programas, projetos, serviços e benefícios a indivíduos e famílias em situação de vulnerabilidade social e proteção social especial, destinada a famílias e indivíduos que já se encontram em situação de risco e que tiveram seus direitos violados por ocorrência de abandono, maus-tratos, abuso sexual, uso de drogas, entre outros aspectos. Estes serviços estão presentes para a comunidade através dos CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), e dos CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social).

Através das normas que regulam o SUAS, os dois principais eixos centralizadores da assistência prestada a comunidade, são o CRAS e o CREAS. No entanto, suas competências possuem papeis distintos, porém, com o mesmo objetivo, onde visa a integração dos serviços ofertados nas unidades. A responsabilidade do CRAS fica a cargo da Proteção Social Básica em Assistência Social, que são principalmente, a oferta de programas e projetos socioassistencias, a prevenção às situações de risco, o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, e a garantia de direitos (BRASIL a. 2014).

O compromisso do CREAS se dá na Proteção Social Especial, que se designa essencialmente, em ofertar e referenciar serviços especializados de caráter continuado para famílias e indivíduos em situação de risco pessoal ou social, por violação de direitos, e o relacionamento cotidiano com a rede e o registro de informações, sem prejuízo das competências do órgão gestor de Assistência Social em relação à unidade (BRASIL b, 2014).

Além dos psicólogos, outros profissionais trabalham em conjunto no atendimento ao SUAS, incluindo advogados, pedagogos e assistentes sociais, realizando um trabalho multidisciplinar e interdisciplinar, abrangendo as diversas áreas que atendem as necessidades da vida social. Os serviços prestados por estes profissionais são implantados de acordo com o porte, nível e demanda dos municípios, também estando de acordo com suas necessidades e complexidades (SILVA; CORGOZINHO, 2011, p. 14).

O papel do profissional assistente social, além de demandar o desenvolvimento de novas habilidades de competência para a gestão pública nos âmbitos da assessoria, planejamento, avaliação, monitoramento, entre outras, é a expressão de um movimento que articula conhecimentos e luta por espaços no mercado de trabalho, competências e atribuições privativas que têm reconhecimento legal nos seus estatutos normativos e reguladores (regulamentação profissional, código de ética, e diretrizes curriculares da formação profissional) (RAICHELIS, 2010, p. 753).

A atuação do psicólogo juntamente com a Assistência Social, é realizada com o intuito de promover ações, objetivando proteger as famílias e os indivíduos que tenham seus direitos violados, realizando um trabalho de acordo com as determinações da Política Nacional de Assistência social e o SUAS (CRUZ; RODRIGUES; GUARESCHI, 2013, p. 12).

Para Trindade e Teixeira (1998 apud SILVA; CORGOZINHO, 2011, p. 13) “a inserção do psicólogo na atenção primária, como é o caso dos CRAS, é um importante ponto de partida para o desenvolvimento das comunidades, pois é através do bem estar dos sujeitos e dos grupos sociais que se pode construir a autonomia destes, proporcionando sua inserção na sociedade de forma digna”.

Estes profissionais psicólogos, da área da Assistência Social estão organizados de forma a realizar um trabalho conjunto, com um atendimento abrangente e não setorializado, para que desta forma, possam comtemplar um atendimento efetivo envolvendo as questões pertinentes de cada sujeito.

As leis, normas e regulamentações que norteiam as Políticas de Assistência Social, foram elaboradas com o intuito de oferecer a comunidade, a prestação de serviços que garantam a qualidade de vida e o bem estar do cidadão, de forma a resguardar seus direitos básicos, como o acesso a saúde, a proteção e a educação. No entanto, muito se questiona sobre o real papel das políticas de assistência, uma vez que ela ainda é pouco divulgada, deixando uma boa parcela da sociedade sem as divulgações e orientações necessárias para que se possa realizar o uso efetivo destes serviços.

3. REALIZAÇÃO DO ESTÁGIO

O início da vivência no CREAS se deu no dia 08 de setembro de 2014, onde desde então, realizou-se a experiência de estágio na unidade, observando-se a rotina dos psicólogos que prestam serviço na área da Assistência Social. A unidade possui um total 14 funcionários, sendo especificados seus cargos, logo abaixo na entrevista realizada com a coordenadora do local.

Dentre os serviços ofertados na unidade, estão as Medidas Socioeducativas a Jovens Infratores, o PAEFI – Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos e o Serviço de Proteção Social Especial para Idosos. A prática do estágio foi direcionada para os Serviços de Proteção aos Idosos Vítimas de Agressão Física e/ou Psicológica, o direcionamento a este serviço, se deu pela disponibilidade do psicólogo e também das acadêmicas quanto aos horários de estágio.

Os casos de denúncia de violência contra o idoso chegam ao CREAS através de ofício do Ministério Público ou denúncias realizadas na própria unidade, porém, grande parte dos casos são encaminhados diretamente pelo Ministério Público. De acordo com as especificações do caso descritas no ofício, o psicólogo já sabe o que irá analisar chegando a residência da possível vítima, no entanto, muitos são os casos que chegam sem maiores especificações ou com descrições que não condizem com a realidade de fato, presenciada posteriormente através das visitas ao local.

A partir do momento em que as denúncias são direcionadas ao CREAS, estas são classificadas em ordem de urgência ou de chegada. Nas experiências vivenciadas nos estágios, pôde-se acompanhar o profissional psicólogo nas residências dos idosos. As visitas são realizadas com um carro que fica disponível em todo período de funcionamento do CREAS, que possui horário de atendimentos das 08:00h as 19:00h. O psicólogo que trabalha com a proteção aos idosos, atua juntamente com uma assistente social que lhe acompanha nos casos, agregando os saberes de ambas as áreas de conhecimento.

A vivência do estágio na área de assistência social possibilitou o enfrentamento da realidade, experenciada diariamente pelo profissional que decide por atuar na prestação de serviços socioassistencias. O embate com esta realidade, obriga o confronto da realidade idealizada e a realidade de fato, onde ficam evidentes muitas vezes as incongruências e congruências entre a prática e as teorias expostas em academia.

Abaixo, os trechos principais de conversas realizadas com o psicólogo, a coordenadora da unidade, e uma usuária dos serviços ofertados pelo CREAS, na área de proteção ao idoso.

Relato do psicólogo:

O psicólogo que trabalha nas medidas de proteção ao idoso, relata que acabou indo trabalhar no CREAS por acaso, pois antes ele atuava na área da educação, porém, diz permanecer neste setor por pensar que é uma proteção que possui com os mais fragilizados, com quem mais necessita de atenção e de cuidados, como os idosos, por exemplo, uma vez que no início de seu trabalho no CREAS, ele diz já ter trabalhado durante dois anos com crianças que passavam por situações de abuso sexual, físico e psicológico.

Quanto a especialização para atuar juntamente ao Serviço Especializado de Assistência Social, o psicólogo relata que não necessitou realizar uma especialização para entrar no CREAS, porém, depois que começou a atuar na unidade, ele afirma se manter atualizado, realizando cursos na área da Assistência Social, por incentivo da própria rede de atendimento. O relato do psicólogo vai ao encontro do que afirma Silva e Cezar (2013, p.13):

promover a reflexão acerca do aprimoramento e mudanças do trabalho que deve ser desenvolvido pelos profissionais de Psicologia no CREAS favorece a compreensão da complexidade das situações atendidas, buscando discutir os referenciais teórico-metodológicos, bem como as estratégias de intervenção que poderão ser planejadas e efetivadas de acordo com as diferentes demandas”.

Sobre as fragilidades do serviço, o psicólogo comenta que uma das dificuldades é a burocracia do sistema, ele relata ocupar muito tempo elaborando relatórios dos casos para encaminhar ao Ministério Público ou outros setores como o Departamento Municipal de Assistência ao Idoso, outra dificuldade citada, foi a falta de adesão de muitas famílias aos atendimentos ofertados, e também a dificuldade do trabalho em rede, segundo ele: “ todos estes setores de atendimento precisariam se conversar mais, e em muitos casos um acaba por não saber claramente a atividade realizada pelos outros setores”.

A realidade exposta pelo psicólogo é a de muitos outros profissionais deste setor de Assistência, onde o interesse e o acesso a estas informações possibilitam aos profissionais o esclarecimento e o planejamento da prática de atuação, permitindo o diálogo entre os demais profissionais da equipe inter e transdisciplinar.

Quando questionado sobre o ponto alto dos serviços ofertados pelo CREAS, o psicólogo responde: “o ponto alto do meu trabalho realizado aqui, é o olhar para a família, aqui temos a oportunidade de reunir a família para conversar sobre o caso, é um atendimento “para” a família. Eu não acredito que os casos sejam resolvidos 100%, mas que conseguimos dar uma mexida com esta família, conseguimos”.

Como afirma Baró (1996, p. 15):

O saber mais importante do ponto de vista psicológico não é o conhecimento explícito e formalizado, mas esse saber inserido na práxis cotidiana, na maioria das vezes implícito, estruturalmente inconsciente, e ideologicamente naturalizado, enquanto adequado ou não a realidade objetiva, enquanto humaniza ou não as pessoas, e enquanto permite ou impede os grupos e povos de manter o controle de sua própria existência.

Na fala do profissional, pôde-se identificar a importância e o entusiasmo pela contribuição na qualidade de vida dos usuários da unidade, que levam consigo sua carga emocional, suas idiossincrasias e a esperança de que de fato algo nelas seja tocado, e mesmo que mínimo, também possa ser modificado.

Relato da coordenadora:

Em conversa realizada com a coordenadora do CREAS, que atua na unidade desde 2009, ela explica quais são as principais atribuições da unidade:

A gestora afirma que o papel do CREAS frente a comunidade é a oferta de atendimento às pessoas que supostamente se encontram em violação de direitos ou que sofreram violência, o trabalho visa o fortalecimento dos indivíduos ante a situação que os vulnerabiliza, e contribui na identificação das potencialidades de seus usuários. O CREAS também atua na proteção dos usuários, na garantia do acesso a direitos e outras políticas, no restabelecimento de vínculos familiares e capacidade protetiva, desnaturalizando-se a violência. Os serviços ofertados no CREAS estão previstos na Tipificação dos serviços socioassistencias.

O depoimento da coordenadora, vai ao encontro com revista CREAS (2008, p. 11):

Os serviços dos CREAS têm impacto direto na reorganização e reestruturação da família, e até mesmo de comunidades. Têm o potencial de promover o desenvolvimento pessoal e comunitário, promovendo o resgate da autoestima, a identificação e desenvolvimento de potencialidades e capacidades e de promoção de inserção e participação social.

Ainda quando questionada sobre os serviços ofertados no CREAS, a gestora cita que a Tipificação dos serviços socioassistencias de 2009 prevê a oferta de cinco serviços, quais sejam, Serviço de Atendimento a Pessoas em Situação de Rua, Serviço de Abordagem Social; Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos-PAEFI; Serviço de Atendimento a Adolescentes em Cumprimento de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto, e Serviço de Proteção Social Especial para Idosos e Deficientes.

No entanto, os serviços ofertados atualmente na unidade são as Medidas Socioeducativas, o PAEFI e a Proteção aos Idosos, uma vez que o atendimento a pessoas em situação de rua é realizado pelo Resgate Social, Departamento da Secretaria de Inclusão Social, e a Abordagem Social ainda não é existente no município.

O depoimento da gestora demonstra o que preconiza as políticas que sustentam a implantação dos CREAS, visando que este esteja de acordo com as especificidades de cada município, o que leva em consideração a quantidade da população e o perfil desta, de modo a incluir os serviços levando em conta as particularidades sociais de cada território.

Quanto a formação da equipe técnica e os demais funcionários do CREAS, a coordenadora comenta: “O CREAS atua com um total de 14 servidores. A equipe técnica é composta por três assistentes sociais; três psicólogos; e uma pedagoga; na administração são três auxiliares administrativos; uma coordenadora; uma assistente de coordenação; um motorista e uma agente de serviços gerais. A divisão da equipe técnica, se dá em três grupos, uma assistente social, uma psicóloga e a pedagoga para as Medidas Socioeducativas; um psicólogo e uma assistente social para as questões da Violência contra o Idoso; e uma assistente social e uma psicóloga para os atendimentos do PAEFI, pois duas vagas estão aguardando servidores do concurso”.

A composição da equipe técnica do CREAS, está estabelecida nas leis e resoluções que norteiam os serviços assistenciais:

Além de psicólogos, assistentes sociais e advogados, os serviços a serem ofertados no CREAS podem contar, em suas equipes, com outros profissionais de nível superior ou médio, cuja área de formação e perfil (conhecimentos teóricos, habilidades metodológicas, postura profissional) devem ser definidos com base nos serviços existentes, observado o disposto na Resolução CNAS nº 17/2011 (BRASIL c.2014).

Sobre o espaço físico da unidade, a coordenadora responde: “Onde o CREAS está instalado atualmente é alugado, uma vez que a Prefeitura já forneceu um terreno próprio para construção da sede da unidade, o qual estará em novo endereço a partir de 2015. No espaço atual, para a realização dos atendimentos aos usuários, existe uma sala para reuniões familiares, três salas para atendimento individual ou até 4 pessoas e uma sala multiuso”.

Segundo as normas para o espaço físico do CREAS, estas constituem: espaço para recepção; Salas específicas para uso da Coordenação, equipe técnica ou administração; Salas de atendimento (individual, familiar e em grupo), em quantitativo condizente com o (s) serviço (s) ofertado (s) e a capacidade de atendimento da Unidade (BRASIL d. 2014).

Com relação às dificuldades enfrentadas pela unidade, a gestora cita as seguintes questões: “Seria necessária uma equipe maior para a efetivação dos atendimentos, uma vez que a demanda é muito grande e requer atendimento e acompanhamento continuado. Outro aspecto seria a melhora do entendimento entre os setores, e uma maior preocupação com a divulgação e a compreensão dos serviços da Assistência Social, pelos gestores do município, pela comunidade, rede e governantes em geral”.

A fala da gestora deixa explícito um dos maiores problemas enfrentados pelos CREAS, a grande demanda e a insuficiência de equipes técnicas para suprir tal necessidade, uma vez que a quantidade de famílias ultrapassa a estipulação de atendimentos prevista por profissionais, tornando o trabalho menos efetivo, do que de fato deveria ser. A desarticulação entre setores e a não compreensão dos trabalhos oferecidos pela Assistência Social, como CRAS e CREAS, também se demonstram empecilho para uma melhor eficácia entre a relação dos órgãos de assistência e a população.

Quando questionada sobre o que poderia ser feito para melhorar ainda mais os atendimento ofertados pelo CREAS, a coordenadora assegura: “Se faz necessário um documento regulamentador que norteie a função de cada cargo existente no CREAS, com protocolos e fluxos internos de trabalho, com o objetivo de facilitar as ações e esclarecer os afazeres de cada profissional dentro da unidade”.

Na visão de Silva e Cezar (2013, p. 87):

O CREAS quando estabeleceu seu contexto de atuação, propôs o trabalho interdisciplinar, porém, para que o trabalho da equipe se faça eficaz, sugere-se que os profissionais tenham estabelecido seus respectivos papeis, funções e atribuições junto à equipe de forma esclarecida, bem como os serviços ofertados, rotina, procedimentos e instrumentos necessário para atuação na unidade CREAS.

De acordo com a fala supracitada, é evidente a importância de uma regulamentação para os profissionais que atuam junto ao CREAS, uma vez que, ao ser bem estabelecido o ofício de cada técnico, haverá uma maior facilidade para a elaboração dos serviços, tanto para os usuários, quanto a própria relação interdisciplinar destes profissionais.

Relato da usuária dos serviços:

Ao ser questionada sobre como havia ficado sabendo da existência do CREAS, a usuária responde que foi através da Delegacia de Polícia, ela complementa que já sabia da existência dos serviços da Assistência Social, porém, não do CREAS especificamente. A usuária ainda complementou sua fala, afirmando que havia sido muito bem atendida e teve bons esclarecimentos acerca de sua situação familiar (motivo da visita) no CREAS.

Com relação à expectativa de êxito nas reuniões familiares, a senhora responde que em parte os serviços do CREAS conseguiram solucionar seus problemas, principalmente no que tange às reuniões familiares. Esta usuária teve a oportunidade de esclarecer questões muito antigas da família, e que se não fosse através da intervenção do CREAS, a mesma não haveria tido esta oportunidade, no entanto, segundo ela, o conflito familiar ali instaurado era muito antigo, portanto, difícil de conseguir ser solucionado em algumas reuniões familiares, mas a mesma afirma que a partir da intervenção do CREAS, adquiriu novo olhar acerca de seus conflitos envolvendo a família.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da análise dos resultados obtidos, através da experiência de estágio no CREAS, pôde- se observar a preocupação da equipe em conseguir dar o suporte necessário aos usuários, uma vez que estes profissionais desempenham um papel de extrema importância às famílias que estejam passando por situações de risco e, portanto, necessitam de orientações de profissionais capacitados para lhes assegurar um pouco mais de qualidade de vida, e também para que juntos consigam alcançar uma resolução para as suas adversidades.

Nas falas do psicólogo e da coordenadora, ficou evidente a necessidade de uma maior articulação entre os órgãos e unidades que ofertam os trabalhos de assistência e os demais setores envolvidos direta ou indiretamente com estas questões, para que se mantenha uma melhor articulação nas esferas da Assistência Social, onde um possa saber exatamente o papel do outro, efetivando assim, os atendimentos, de forma a encaminhar corretamente os usuários da assistência, em um trabalho interdisciplinar, e conseguir suprir as demandas da população e assegurar seus direitos e qualidade de vida.

No depoimento da usuária, o que se constatou é a satisfação com o atendimento e sua proposta, mesmo que a usuária não tenha conseguido sanar o problema que lhe levou até o CREAS, a mesma reconhece que é algo difícil, uma vez que implica em questões muito antigas e particulares, mas reconhece a intenção do trabalho ofertado, e demonstra-se satisfeita com o resultado já alcançado, o olhar diferenciado que teve com a família a partir do momento em que foi atendida pela unidade.

Na prática do estágio, obteve-se a oportunidade de realizar visitas de acompanhamento nas residências dos usuários e participar das reuniões de família, que é uma das propostas do CREAS, para que os familiares possam confrontar seus argumentos e suas questões emocionais com os demais. Estes encontros também possibilitam a resolução de conflitos através dos conhecimentos técnicos do profissional de Psicologia. Nesta mesma oportunidade observou-se a relação interdisciplinar entre a equipe técnica da unidade, que é realizada de forma muito bem articulada e integrada.

No entanto, verificou-se que há pouca divulgação dos serviços de assistência, uma vez que este é um aspecto fundamental para o conhecimento da população, de forma a saber onde a comunidade pode buscar diretamente por ajuda nos casos de violência, tanto física quanto psicológica, e a melhor forma de resolução destes problemas.

Sugere-se algumas contribuições no sentido de fortalecer a melhora nos atendimentos: a colaboração de um integrante da equipe do CREAS, nos atendimentos familiares ou individuais, uma vez, que pela própria experiência de observação, pôde-se constatar que as informações retiradas do diálogo dos usuários nas reuniões de família, possuem grande capacidade de serem bem analisadas, através de observação. Posteriormente a observação, sugere-se a troca destas informações e análise juntamente com o psicólogo que realizou a intervenção.

Também foi observada a possibilidade de implantação de uma caixinha de sugestões, para que os usuários possam contribuir com a melhora dos atendimentos, e desta forma se integrar ainda mais com a unidade, estabelecendo uma relação de maior proximidade ao CREAS.

Com a finalidade de aprimorar os conhecimentos acerca dos trabalhos propostos pelo SUAS, e enriquecer a quantidade de artigos acadêmicos realizados neste setor, evidencia-se que é de extrema relevância, a realização de maior número de pesquisas nesta área, de forma a esclarecer a população acadêmica sobre uma das possíveis áreas de domínio do psicólogo, e cientificar a população, sobre os serviços prestados nas Políticas de Assistência Social previstas no Brasil, também assegurando a crítica construtiva quanto a finalidade e eficácia destes setores, enriquecendo assim, o suporte teórico a despeito das Políticas Públicas.

A experiência do estágio e a elaboração do artigo contribuem de forma significativa para a vivência acadêmica, uma vez que a prática em campo enriquece as teorias expostas em aula e elucidam a realidade diária dos profissionais de Psicologia que optam por trabalhar na área da Assistência Social. Uma vez disponibilizada a oportunidade das realizações de estágio desde os primeiros semestres de graduação, ao final da formação, os acadêmicos dispõem de melhor preparo e experiência para a realização da escolha de sua área de atuação.

A interação realizada entre o CREAS e os estudantes, foi fundamental para a realização de um estágio eficaz e de êxito. O órgão em questão, proporcionou todos os esclarecimentos, entrevistas e a realização das visitas nas residências dos usuários do sistema. Indubitavelmente, a desprendida e aprazível receptividade, foi o ponto fundamental para a execução do projeto de estágio.

5. REFERÊNCIAS

BARÓ, Ignácio Martín. O papel do Psicólogo. Estudos de Psicologia, Natal, v. 1, n. 2, p.7-27, 1996.

Brasil a. CRAS – Institucional: O que é o Centro de Referência da Assistência Social – CRAS?. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/assistencia-social/psb-protecao-especial-basica/cras-centro-de-referencias-de-assistencia-social/cras-institucional>. Acesso em: 02 nov. 2014.

BRASIL b. CREAS – Institucional: O que é o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social)?. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/assistencia-social/pse-protecao-social-especial/creas-centro-de-referencia-especializado-de-assistencia-social/creas-institucional>. Acesso em: 02 nov. 2014.

BRASIL c. CREAS – Recursos Humanos: Como deve ser a composição da equipe de referência do CREAS?. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/assistencia-social/pse-protecao-social-especial/creas-centro-de-referencia-especializado-de-assistencia-social/creas-profissionais>. Acesso em: 05 nov. 2014.

Brasil d. CREAS – Infraestrutura: Como deve ser o espaço físico do CREAS?. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/falemds/perguntas-frequentes/assistencia-social/pse-protecao-social-especial/creas-centro-de-referencia-especializado-de-assistencia-social/creas-espaco-fisico>. Acesso em: 05 nov. 2014.

CRUZ, Lílian Rodrigues da; RODRIGUES, Luciana; GUARESCHI, Neuza. M. F.. Interlocuções entre a Psicologia e a Política nacional de Assistência Social. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2013. 271 p.

GUZZO, Raquel Souza Lobo; et al. O Psicólogo e a Questão Social: Desafios e obstáculos para a prática profissional. In: BERNARDO, Marcia Hespanhol; GUZZO, Raquel de Souza Lobo; SOUZA, Vera Lucia Trevisan de. PSICOLOGIA SOCIAL: perspectivas críticas de atuação e pesquisa. São Paulo: Atomo Alinea, 2013.

RAICHELIS, Raquel. Intervenção profissional do assistente social e as condições de trabalho no Suas. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 104, p.750-772, dez. 2010.

REVISTA CREAS: Centro de Referência Especializado de Assistência Social. Ano 2, n. 1, 2008. – Brasília : MDS, 2008 –. v. : il.

REY, González. Alguns pressupostos gerais do desenvolvimento da pesquisa qualitativa em psicologia. In: RAY, González. Pesquisa Qualitativa em Psicologia. 1. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2011. Cap. 2. P. 53 – 95.

ROSA, Z; SOUZA, E; PINHEIRO, G. [Editorial]. Diálogos: Política de Assistência Social, v. 7, n. 1, p. 06, jul., 2010.

SILVA, Janaína Vilares da; CORGOZINHO, Juliana Pinto. Atuação do psicólogo, SUAS/CRAS e Psicologia Social Comunitária: possíveis Articulações. Psicologia & Sociedade, Palmas. V. 23, p. 3 – 4. 21. Dez. 2011.

SILVA, Rafael Bianchi; CEZAR, Patrícia Cristiane Nogueira. Atuação do psicólogo no CREAS em Municípios de pequeno porte. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 4, n. 1, p.80-98, jun. 2013.

WACHHOLZ, Thaís; PANCERI, Regina. A atuação do psicólogo no Município de Araranguá, na interface com a rede de proteção social para populações em situação de vulnerabilidade. Disponível em: <http://www.egem.org.br/arquivosbd/basico/0.571375001296753502_a_atuacao_do_psicologo_na_assistencia_social.pdf>. Acesso em: 04 nov. 2014.

About RedePsi

Portal de Psicologia com Notícias, Artigos, Links e Serviços de Divulgação de Cursos, Eventos e Produtos da Área.

One Response to Relato de estágio: uma experiência no CREAS do litoral norte de Santa Catarina

  1. Sandra Pereira 30 de maio de 2015 at 0:02 #

    Parabéns amigas. Ótimo trabalho!!!!



loading...