Falha Orgânica e Sujeito: O desejo do Outro e a constituição psíquica

FALHA ORGÂNICA E SUJEITO:
O desejo do Outro e a constituição psíquica

Bruna Garzella Michael
Acadêmica do 9°semestre do Curso de Psicologia, Unijui campus Santa Rosa

O bebê já existe antes mesmo de seu nascimento, já é falado e nele são projetadas expectativas e desejos por aqueles que o aguardam. Uma criança nasce com um corpo carne, orgânico. O modo como o agente materno simboliza o órgão é que vai permitir que o órgão da carne se torne o órgão da pulsão. É a partir da linguagem, dos significantes do Outro, que os buracos do corpo de uma criança se tornam zonas erógenas, mapeadas pelo desejo, marcas de um laço com o Outro. “A palavra da mãe para seu filho é aquilo que transborda o funcionamento da função; ela é aquilo que o carrega de libido, de gozo, aquilo que o erotiza” (JERUSALINSKY, 2002, apud BERGÉS e BALBO, 1997, p. 159).
O cuidado com o corpo do bebê é para além da função, nele há desejo e gozo, tanto da mãe quanto do infans. A mãe pensa ser a única capaz de entender seu filho, “toma o peito como dom, o cocô como presente, a voz como chamado, o olhar como interpretação” (JERUSALINSKY, 2004, p. 26-27), nesse contato regado pelo simbólico com o corpo do pequenino, ela instaura a dimensão da borda e do vazio. Perceber o balbucio como fala, o espasmo como sorriso é uma aposta na criança, uma antecipação. A criança responde à antecipação da mãe com a precipitação, sendo necessário que o Outro sustente a alteridade e possa se surpreender com a realização da criança, para que assim, o bebê advenha como sujeito. Como nos situa Jerusalinsky (2002 p. 161) “função materna não é feita apenas de sustentar a função do bebê, é preciso também que ela lhe ofereça este espaço no qual o bebê terá que se precipitar, se lançar e se implicar como sujeito em uma realização”.
E quando os ideais dos pais são afrontados com a realidade de uma falha orgânica, uma deficiência? Para muitos pais, a falha orgânica é sinônimo de impossibilidade. O que representa para a constituição psíquica de uma criança ser representado como um incapaz? Mannoni (1999) vai dizer que para uma mãe, o nascimento de um filho nunca corresponde com exatidão o que ela espera, e que após o parto, deveria vir a contrapartida que a faria uma mãe feliz. Se um filho “normal e saudável” não corresponde as expectativas, como fica o desejo de uma mãe cujo filho vem com uma falha?

Se, diante do real da prematuridade do corpo de um bebê não se opera a sustentação simbólica dos fatos que acometem sua vida, produz-se, então, um desamparo propriamente dito: um desamparo psíquico, de ordem do simbólico, diante do qual emerge o traumático. E tal cena se repete sem poder ser ressignificada. (JERUSALINSKY, 2002, p. 198-199)

Se um filho, como Freud nos indica em Sobre o Narcisismo: Uma Introdução, representa para os pais a possibilidade de um renascimento de seu próprio narcisismo, a deficiência da criança faz retornar aquilo que é essencial do sujeito, sua própria castração. “A mãe (ou o pai) irá manifestar então, através de seu desnorteio, o seu próprio problema de castração, marcado até então pelo filho que tinha a missão de o significar” (MANNONI, 1999, p. 75). Em casos de patologia orgânica, pode não existir na estrutura familiar a construção do lugar deste filho, sua subjetivação, nem a aposta de que na criança exista um sujeito. “Os pais são transformados nos perseguidores incapazes de reconhecer no filho suas potencialidades” (MEIRA, 2008, p. 69). Além desse retorno da própria castração, a criança pode ser percebida pelos entes parentais com estranhamento, já que não era ele que os pais esperavam:

Ao nascer uma criança deficiente, o contraste entre o filho esperado e o que acaba de nascer afeta centralmente a função materna, já que a mãe se debate com o luto da perda do filho imaginado, sentindo o recém-chegado como um impostor, ou, no melhor dos casos, como um verdadeiro desconhecido. (JERUSALINSKY, 2004, p. 99)

O medo de pegar o bebê no colo, de machuca-lo, além dos cuidados mecânicos de higiene e alimentação problematizam a inscrição do infans no circuito pulsional. Segundo Jerusalinsky (2002, p. 226), a maneira como o bebê é “tomado no circuito de desejo e demanda dos pais é decisivo para sua constituição como sujeito e para seu acesso a diferentes realizações instrumentais”, e apresentar uma patologia “pode vir a obstaculizar tal circuito, causando secundariamente danos que não são impostos pela patologia em si, mas pela representação simbólica e pelos efeitos imaginários que ela engendra”.
Quando um bebê ou criança pequena que apresenta alguma patologia orgânica chega para atendimento é preciso que aconteça um trabalho juntamente com os pais, pois é “no inconsciente dos pais que, muitas vezes, é preciso procurar o inconsciente da criança, para poder fazer com eles um trabalho determinado que torne possível o tratamento da criança” (MANNONI, 1999, p. 47). É preciso entender como o discurso dos pais se coloca enquanto marca no filho. O trabalho com os pais diz de um espaço de fala onde eles podem se escutar, perceber como o seu desejo se coloca na relação com o filho, e assim, então, deslizar os significantes que eles possuem da criança e sua patologia. Por isso a importância de trabalhar com os pais o modo como eles inscrevem o filho nas suas telas simbólicas, a possibilidade de que eles apostem na existência de um sujeito e consigam enxergar para além da patologia.

O clínico, a partir da transferência parental, passa a integrar a constelação do Outro primordial do bebê; ele opera como um agente articulador do circuito do desejo e demanda que possa vir a repuxar a corda pulsional do bebê e enlaçá-la ao campo do Outro; e opera com os pais no sentido de propiciar que eles possam situar-se como agentes das funções maternas e paterna para o bebê. Tal articulação que, se encontra com obstáculos, impedimentos ou fraturas, é inicialmente suportada pela transferência depositada na pessoa do clínico. (JERUSALINSKY, 2002, p. 134)

O brincar está para a criança, assim como a associação livre está para o adulto. É expressão fundamental, pois, o pequenino consegue reviver ativamente aquilo que vivenciou, outrora, de forma passiva. Coriat (1997, p. 191) nos diz que “o brincar é o cenário no qual a criança apropria-se dos significantes que a marcaram”. Ou seja, é nesse ato de brincar que a criança irá elaborar as situações vivenciadas, transformando então, vivência em experiência. No entanto, uma criança só brinca se nela há aposta, uma suposição de sujeito. “Para que o bebê possa brincar algum dia, para que possa chegar a pôr ativamente seu desejo em jogo, é preciso que, num primeiro tempo, um Outro não anônimo tenha feito o jogo, tenha apostado na suposição de um sujeito no bebê” (JERUSALINSKY, 2002, p. 132).
Se o psicólogo, através da transferência com os pais, passa a integrar a constelação do Outro primordial do bebê, é possível que ele faça uma aposta na criança, supondo nela um sujeito de desejo. Coriat (1997, p. 216) diz “a função do analista é a de dar sustentação ao livre brincar do brincar, contribuindo com os elementos necessários, tanto maturais quanto significantes para que o brincar da criança se produza”. A sua maneira, o brincar aparece. É nesse momento que novamente os pais são chamados ao atendimento, para que presenciem a aparição do sujeito, sustentando a aposta na criança. A intervenção acontece no intuito de que os pais percebam que é possível demandar algo do filho, que mesmo com as limitações do corpo, o faz-de-conta dá conta.

Referências

CORIAT, Elsa. Psicanálise e Clínica de Bebês. Tradução de Julieta Jerusalinsky. Porto Alegre: Artes e Ofícios Ed., 1997. 310 p.

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução [1914] in: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 394 p.

JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise e desenvolvimento infantil: um enfoque transdisciplinar. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2004, 318 p.

JERUSALINSKY, Julieta. Enquanto o futuro não vem: A Psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês. III Série. Salvador: Álgama, 2002. Calças curtas 3. 306 p.

MANNONI, Maud. A Criança Retardada e a Mãe. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 196 p.

MEIRA, Ana Marta Goelzer. Quando o ideal falha. In: Escritos da criança nº 4. Porto Alegre: Publicação do Centro Lydia Coriat, 2008. 96 p.

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