Diálogos entre Oliver Sacks e B. F. Skinner – Antifrágil

Nos artigos anteriores da presente coluna pudemos constatar como Sacks e Skinner defendem que o comportamento humano está em constante transformação, sendo afetado pelo meio em que cada ser humano vive e pelas condições biológicas de cada organismo. Na vasta obra literária de Sacks podemos encontrar diversos exemplos de enfermidades que acometeram o sistema nervoso de seus pacientes e, por consequência, alteraram o comportamento destas pessoas significativamente.

Mas uma enfermidade não produz única e exclusivamente restrições. Sacks e Skinner concordam que diante de uma situação problema o organismo pode encontrar uma forma de se reinventar, superando a limitação ou situação problema existente. Skinner evidencia esta realidade em Ciência e Comportamento Humano (1953):

Um meio de encorajar a emissão de resposta que talvez prove ser a solução é a manipulação de estímulos. Um exemplo simples cobre a situação problema.  Frequentemente este é o efeito do comportamento exploratório casual e portanto se costuma agrupá-lo sem mais na aprendizagem por ensaio e erro. Mas o efeito não é emitir uma resposta que provará ser uma solução, mas descobrir os estímulos que possam controlar essa resposta. Aperfeiçoar ou ampliar a estimulação disponível é especialmente eficiente; aumentamos as probabilidades de uma solução quando examinamos cuidadosamente um problema, quando consideramos todos os fatos, ou quando apontamos estímulos relevantes colocando o problema em seus termos mais claros. Um passo além é arranjar ou rearranjar estímulos. (p. 241).

Tanto é possível superar problemas, como as limitações oriundas de uma enfermidade, que Pontes e Hubner (2008) destacam a abundância de procedimentos tanto para diminuição de comportamentos problema como para a instalação de novos comportamentos desejáveis. Os analistas do comportamento vêm aprofundando os estudos sobre tratamentos comportamentais para diversas enfermidades, inclusive aquelas que acometem o cérebro do indivíduo.

O tratamento comportamental das limitações do Alzheimer, por exemplo, envolve o estabelecimento de objetivos explícitos e com dificuldade e complexidade graduais, avaliação integrada ao planejamento da intervenção, tratamento individualizado e possibilidade de treinamento de cuidadores para auxiliar e gerenciar as atividades propostas; sendo que os resultados levantados pelos estudos publicados evidenciam a eficácia desta proposta de tratamento.

Para Nicolino (2013), assim como para Sacks e Skinner ao longo de suas obras, não há motivos para as pessoas envolvidas em problemas de saúde desistirem de lutar por uma melhora:

Mesmo quando a probabilidade é baixa, há esperanças de que o trabalho multidisciplinar do neurologista, do fonoaudiólogo, do fisioterapeuta e do psicólogo possa resgatar através da aquisição e fortalecimento de repertórios comportamentais as habilidades perdidas.

Esta linha de raciocínio é fundamentada pela plasticidade cerebral, abordada direta e indiretamente ao longo das obras de Sacks e Skinner. Nicolino (2011) afirma que:

Superar uma lesão e criar uma nova circuitaria cerebral para produzir o mesmo movimento, o mesmo conhecimento, ou outro comportamento é um exemplo da plasticidade cerebral. O cérebro não é limitado, pois do ponto de vista funcional e estrutural ele sempre está em mudança. O funcionamento do cérebro, assim como o comportamento, é dinâmico, mutável, plástico.

Assim, podemos constatar que a plasticidade do organismo em se adaptar a situações adversas é o motor da evolução de nossa espécie, que permitiu ao ser humano se desenvolver e construir suas grandes obras e conquistas. Contudo, a sociedade em que vivemos e seus fundamentos atuais buscam incessantemente construir uma vida sem percalços, sem dificuldades, dores ou frustrações.

Vivemos uma época onde os pais tem dificuldade em impor limites aos filhos com receio de magoá-los, onde os adultos buscam o prazer durante 24 horas por dia.  Mas este ambiente perfeito, feliz, será favorável para a nossa espécie e para o nosso desenvolvimento pessoal?

Alguns autores não pensam desta forma, e encontramos em Taleb e sua obra uma interessante forma de ver o prazer e o desprazer em nossas vidas. Nassim Nicholas Taleb foi empresário e operador da Bolsa de valores durante duas décadas de sua vida. Em 2006 se tornou um filósofo ensaísta e pesquisador acadêmico em tempo integral. Atualmente ministra a cadeira de engenharia de risco no Instituto Politécnico da New York University.

Ele é autor do best-seller A lógica do Cisne Negro, onde evidencia que eventos altamente improváveis e imprevisíveis são o estopim para quase tudo em nosso mundo, sendo a incerteza algo desejável e necessário. Taleb é um autor que dedicou anos de sua vida à analise de problemas ligados á incerteza, á probabilidade e ao conhecimento.

Para Taleb o ambiente estritamente positivo, sem desafios, não estimula a pessoa a se desenvolver. Ao contrário, produz uma acomodação que interrompe o desenvolvimento pessoal do indivíduo, deixando-o vulnerável à mudanças drásticas no ambiente que o cerca. Mudanças estas que podem acontecer na natureza, em nossas relações interpessoais, profissionais, ou mesmo em nosso corpo com o passar dos anos ou após sermos acometidos por alguma enfermidade.

Diante de adversidades, muitas pessoas defendem a resiliência como a melhor alternativa diante de uma situação problema. De acordo com alguns dicionários resiliência significa a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica, ou mesmo a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

Para Taleb, o problema da resiliência está na não transformação do objeto ou pessoa diante do que o afetou. Ele acredita que a pessoa acaba não aprendendo com os acontecimentos, pois após a situação problema ou estressora ter ocorrido o indivíduo volta a ser como ele era. Como se a pessoa só tivesse resistido ao ataque, e não aprendido com ele.

A saída, segundo o autor, seria o caminho da antifragilidade. Cada um de nós precisaria buscar sair de sua zona de conforto, se desenvolver, antes que algum problema aconteça. Buscar a todo o momento o desenvolvimento pessoal, desenvolvendo novas habilidades, aumentando o repertório diante de cada situação do cotidiano.

Para Taleb (2014):

Basicamente, se a antifragilidade é uma propriedade de todos aqueles sistemas naturais (e complexos) que sobreviveram, privar esses sistemas de volatilidade, aleatoriedade e agentes estressores os prejudicará. Eles enfraquecerão, morrerão ou serão destruídos. Viemos fragilizando a economia, nossa saúde, a vida política, a educação, (ou seja, quase tudo…) ao suprimir a aleatoriedade e a volatilidade. Assim como passar um mês na cama (de preferência, com a versão integral de Guerra e paz e acesso a todos os 86 episódios de Família Soprano) causa atrofia muscular, os sistemas complexos se enfraquecem e até mesmo morrem quando são privados de agentes estressores. Grande parte do nosso mundo moderno e estruturado tem nos prejudicado com políticas de cima para baixo e mecanismos (apelidados neste livro de “ilusões soviéticas de Harvard”) que fazem precisamente isto: ofendem a antifragilidade dos sistemas. (p. 23).

Para o autor precisamos nos afastar de ambientes onde não exista volatilidade, aleatoriedade, imprevisibilidade. Estes ambientes são criados pelo homem e acabam enfraquecendo o organismo, pois geram a privação do que naturalmente aumenta sua força. Sem esquecer que a resiliência, segundo Taleb, também enfraquece o homem.

Sacks, Skinner e Taleb evidenciam ao longo de suas obras que o ser humano tem a capacidade de se desenvolver e se adaptar em diferentes contextos. Dotado desta plasticidade, o homem pode escolher entre mudar e não mudar. Porém, quando por algum motivo o homem escolhe não mudar, se acomodar, ou não se desenvolver, ele acaba agindo contra sua própria natureza.

Mudar, encarar dificuldades, se desenvolver faz parte de todos os organismos complexos que existem em nosso planeta. Por que o homem vai querer caminhar na contramão da natureza? Vamos encarar as dificuldades como oportunidades de crescimento pessoal, para que assim possamos desfrutar plenamente o que a vida tem a nos oferecer.

REFERÊNCIAS:

NICOLINO, Victor Faria. (2011). Diálogos entre Oliver Sacks e B.F. Skinner – A plasticidade humana. Disponível em: < www.redepsi.com.br/2011/07/18/di-logos-entre-oliver-sacks-e-b-f-skinner-a-plasticidade-humana/>. Acesso em 01 jan. 2016.

NICOLINO, Victor Faria. (2013). Diálogos entre Oliver Sacks e B.F. Skinner – Acidente vascular cerebral. Disponível em: <http://www.redepsi.com.br/2013/12/30/dialogos-entre-oliver-sacks-e-b-f-skinner-acidente-vascular-cerebral/>. Acesso em 01 jan. 2016.

PONTES, Livia Maria Martins, HÜBNER, Maria Martha Costa. (2008). A reabilitação neuropsicológica sob a ótica da psicologia comportamental. Revista de Psiquiatria Clínica, 35 (1); 6 – 12.

SKINNER, Burrhus Frederic. (1953). Ciência e Comportamento Humano. The Macmillan Company.

TALEB, Nassim Nicholas. (2014). Antifrágil. Rio de Janeiro, Best Business.

About Victor Nicolino

Graduado e bacharelado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atua na área clínica atendendo crianças, adolescentes, adultos e idosos. Enquanto pesquisador, é estudioso de Análise do Comportamento, Psicologia Clínica, Psicologia na Educação, Geriatria, Neurologia e Neuropsicologia.

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