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Discutindo Psicanálise

A técnica psicanalítica - I

06 Sep 2007
Denise Deschamps

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“A dor não é o contrário ou o inverso do prazer: sua relação é assimétrica. A satisfação é uma ‘experiência’, o sofrimento é uma ‘provocação’”. Vamos abordar no texto de hoje, algumas dentre tantas, das variadas possibilidades da psicanálise lidar com a dor (sofrimento) que é trazida para seu divã. Há na dor que chega à clínica um apelo para que cesse e outro para que se fortifique seu laço na vida daquele que a sofre, sem esse entendimento, pouco ou nada se pode avançar em uma abordagem em psicanálise.

Há sempre no discurso de quem sofre um apelo a analgesia (cessar a dor) e outro, como um canto da sereia, para que se façam alianças com esse permanente “sofrer”, a isso chamamos de “benefício secundário da doença” ou ainda “formação de compromisso” que é parte formadora do sintoma, e este, sem dúvida, mostrará um campo de desequilíbrio nesse compromisso.

Há também nela algo de prazer, ela não é contrária a esse sentimento, como nos mostra S. Freud em seu texto “Para Além do Princípio de Prazer”, onde introduz a questão da Pulsão de Morte, compulsão a repetição e ao prazer do que chamou de Nirvana, movida por Thanatos, o impulso de destruição que se origina e retorna para o próprio organismo.

Freud nos conta em seu magnífico texto “Luto e Melancolia” algo muito esclarecedor, enquanto explica o trabalho que há em um processo de luto e sua semelhança com processos inscritos já na patologia:

“Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando em uma expectativa delirante de punição”.

A questão do sofrimento e seus compromissos nos remetem a inúmeras possibilidades de seu aparecimento em nossa prática clínica, cada uma delas se apresentará com um enigma a ser decifrado pelo analista, que ao não fazê-lo, poderá ver-se tragado por uma aliança indissolúvel com a dinâmica do sofrer do seu paciente. É preciso que se esteja sempre preparado, para se for o caso, dar alguma guinada na técnica que interfira diretamente nessa possível aliança. Isso porque inicialmente o psicanalista de certa forma, obrigatoriamente, terá que fazê-la, a essa aliança, mantendo-a sob supervisão e questionamento permanente, para não se ver tragado para dentro do jogo transferencial/contra-transferencial. Porém, sem essa aliança, dificilmente esse tratamento terá início.

Devemos perceber nesse ‘sofrer’, o primeiro aliado, aquele quem irá conduzir o analisando até ao divã. Perceber nele o lado, que na verdade, promove a ação da cura, e não somente como a um inimigo que precisa ser eliminado. É crucial entendermos isso ao iniciar um tratamento, ao estabelecer o contrato terapêutico do qual já falamos aqui em outro texto. Perceber nessa ‘dor’, nesse ‘sofrer’, também uma tentativa de resgate do sujeito por ele mesmo.

“Ela ocupa todos os lugares e eu não existo mais como Eu: a dor é” (1)

Essa afirmação de Didier Anzieu dá uma dimensão emocional ao conteúdo que chega ao consultório, existindo aí a vivência da dor física mesmo ou referindo-se aquela dor, proveniente de uma grande ferida na alma, uma elaboração de um luto, da necessidade premente de desvincular-se do objeto amado, ao mesmo tempo que é aquilo que ainda o mantém em uma desejada relação com esse objeto.

Todo ser em processo de mutação viverá essa dor, traduzirá isso em seu corpo, em seus gestos e ações. Olhar para isso é perceber o sujeito que adentra as portas que levam ao interior de um consultório de psicanálise. Nem sempre o luto é anterior a esse sofrimento, às vezes ele antecipa a mutação necessária: “o sofrimento é uma ‘provocação’”, aquilo que ainda está em processo apenas de desvinculação ou angústia antecipatória.

“Ainda em outros casos nos sentimos justificados em sustentar a crença de que uma perda dessa espécie ocorreu; não podemos, porém, ver claramente o que foi perdido, sendo de todo razoável supor que também o paciente não pode perceber conscientemente o que perdeu”.(2)

O paciente trará a perda para ser entendida, muitas vezes essa perda foi esquecida em sua contabilidade psíquica, porque adveio de um ganho, de algo conquistado. Toda conquista traz junto a si perdas inumeráveis. Ou ainda será conseqüência dos ganhos que são provenientes do próprio ato de viver, de crescer, de se desvincular dos objetos infantis e seus moldes de investimento (narcísicos). A dor e o prazer que se misturam no ato de crescer, quase indissolúveis, com limites imperceptíveis, maioria das vezes. Nesse aspecto a atuação do psicanalista deverá ser tomada como algo de uso consciente da técnica, lendo e avaliando sessão a sessão, para não cair em tentação e acabar em paralisia. O paciente ansioso vomita sua dor, recolhe-a, vai e volta, e novamente vomitará sua dor, até que algo se interponha e o convide a um desembrulhar-se ou desenrolar-se de si mesmo, do seu ensimesmado discurso sobre sua dor, que sabemos também é prazer. É o momento onde a beleza da técnica e da humanidade envolvente alcançarão rara dimensão.

“Ser um Eu é sentir-se único” (1)

Ao lançar-se a esse momento, o psicanalista administrará um uso da técnica absolutamente preciso, ao mesmo tempo, terá que contar com toda a tempestade que aquele manejo trará para o interior da relação de transferência. Cena emocionante sobre isso encontrará no filme “O Príncipe das Marés” quando a psicanalista interpretada por Barbra Streisand rompe com essa aliança e avança em direção ao recalcado do discurso de seu paciente interpretado por Nick Nolte, aquela cena é de uma beleza incomparável, ao mesmo tempo em que revela com bastante acuidade o uso da técnica na situação analítica. Ele, o paciente, se livra das lembranças encobridoras e acessa a cena traumática, esse ato devolve-lhe então, a possibilidade de “sofrer” e com isso a possibilidade de avançar em sua vida desejante, libertando-o da paralisia e do não desejo.

Freud fala sobre mecanismos presentes na Melancolia, aspectos que poderão nos ajudar em nossas considerações desse texto:

“É assim que encontramos a chave do quadro clínico: percebemos que as auto-recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente”. (2)


O que é temido por esse sujeito psíquico se constitui na magnitude de sua atitude de hostilidade frente ao objeto amado, a ambivalência contida nessa relação que traduz em sintomas sua dor. Quebrar essa cadeia associativa é lançar esse sujeito a sentimentos de tamanhos insuportáveis para o seu frágil ego. Por essa razão o psicanalista espreita, faz alianças, fortalece esse ego, até que ele possa se defrontar com o que está ali encerrado, que traduz de certa maneira toda volta que sua busca de vida tem empreendido.

“No último caso, é necessário dar tempo para a regressão do paciente a essas falhas, para a investigação delas, para sua perlaboração, antes que o paciente passe de uma transferência em espelho (nas personalidades narcísicas) ou de uma transferência idealizante (nos estados limite) pra uma transferência edipiana”.(1)

A esse manejo é que chamaremos de utilização da técnica, que pressupõe um analista hábil e que não apenas “escute”, mas sim que lance mão de algo que parte de suas próprias sensações para que o oriente no manejo das prescrições da técnica, que possa contextualizar sempre sua aplicação.

Nesse sentido ouvir a dor do paciente, conversar com ela, aliar-se a ela dando-lhe as mãos para juntos caminhar em busca da saída, sabendo que quem saberá o caminho será aquele que toma a mão e não quem a estende. Essa dor, sofrimento, é parte integrante e necessária ao tratamento psicanalítico, e caso seja necessário por conta de uma intensidade muito significativa, amortecê-la com uso de medicamentos, que isso sirva apenas para que se alcance o nível onde ela ainda possa “trabalhar”, ali onde Thanatus ainda realiza sua missão que é fundamental para a economia psíquica.

“Continuamos procurando no parceiro a tranqüilidade, o relaxamento, à igualdade e encontramos a diferença, o estimulante, o espicaçante. Procuramos a paz, o nirvana, à” morte “e encontramos o estímulo, o conflito, a vida. Na clínica psicanalítica deparamo-nos com a mesma espécie de comportamento, a mesma busca de paz, completude, nirvana. O analisando insiste em conseguir estados de fusão, simbiose, complementação, nos quais analista/analisando seriam um único ser, esperando assim dar aquele suspiro de alívio de quem, liberto das tensões da vida, encontrou ou paraíso. O analista, porém, a partir de sua alteridade, quebra a expectativa do analisando introduzindo na relação à tensão, o conflito, a vida”.(A)


É necessário porem entender, que isso não significará uma atitude de fomentar ou intensificar a dor, mas acompanhá-la, ali bem de perto, encorajando como se encorajaria um atleta que busca a vitória apesar dor muscular pela qual é alcançado nessa tentativa.

Não significará jamais dizer que a técnica psicanalítica não busca a cura, apenas significará que a técnica psicanalítica apoiada em seus constructos teóricos e no seu método busca uma nova aliança entre conquista, vida, tristeza, dor, alegria etc. Eros e Thanatos. Mas que, em última instância, a busca sempre será para que, aquele sujeito psíquico, que a ela procura, diminua seu sofrer imobilista, que acesse a possibilidade de fazer relações objetais satisfatórias (amar) e sentir a tal da felicidade, mesmo tendo noção que ela sempre será incompleta, falha e desejante.

Continuaremos no próximo texto, a analisar a técnica, no manejo de fenômenos comuns na clínica psicanalítica!

“Num mundo que nasce dele, o homem pode tornar-se tudo” (Joé Bousquet) (3).


Bibliografia de apoio:


1. Didier Anzieu - O Eu-pele
2. S. Freud - Obras Completas – vol XIV – “Luto e Melancolia”; “Além do Princípio de Prazer” vol XVIII.
3. Gaston Bachelard - A Poética do Devaneio

Artigo consultado em link:

A- EROS/THANATOS - Uma exegese e uma pragmática de “Além do Princípio do Prazer” - Nahman Armony

www.saude.inf.br/nahman/erosthanatos.doc
Discutindo Psicanálise: Denise Deschamps é formada pela UGF/RJ - 1984 com Formação Psicanalítica e Socio-analítica pelo IBRAPSI - 1989. Sua área de atuação: Clínica e Ensino/Supervisão Clínica.

Artigo lido 3158 vezes | Avaliando: 8.75 | Votos: 8.

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Enviado por Tópico
TOVARTOMASELLI
Publicado: 6/9/2007 11:22  Atualizado: 6/9/2007 11:22
Da casa...
Usuário desde: 26/4/07
localidade: São Paulo
Mensagens: 334
 TÉCNICA PSICANALÍTICA---I
<p><font size="2">DENISE: como sempre, o trabalho que você nos apresenta reúne dois componentes essenciais, que aliás,tenho notado em seus outros trabalhos. Um apurado rigor teórico-técnico,além de uma veia poética bastante exacerbada. Você faz juz à consigna de que: " Um amador,nunca pode se tornar um profissional ",no sentido de deixar de amar aquilo que faz. Freud já nos dizia que as duas principais "capacidades" do homem ,residem em ter capacidade para amar e trabalhar. Penso que,quanto à segunda,fica explícita em seus trabalhos e, a primeira, só pode vir a ela acoplada.<br />Você se utilizou do Eu-Pele,de Didier Anzieu e,para resumir à minha impressão sobre o seu trabalho,eu diria que poder executá-lo,indubitávelmente,foi uma " Questão de pele ".!!! Parabéns,&nbsp;&nbsp; TOVAR</font></p>
TOVARTOMASELLI
Publicado: 6/9/2007 11:28  Atualizado: 6/9/2007 11:28
Da casa...
Usuário desde: 26/4/07
localidade: São Paulo
Mensagens: 334
 RE: TÉCNICA PSICANALÍTICA---I
<strong><font size="2">DENISE: em tempo: estarei aguardando com muita expectativa pela publicação da técnicas psicanalíticas II,III,etc. Penso que poderemos vir a "trocar muitas figurinhas" a esse respeito. Prá mim,a questão da técnica e do seu subsequente domínio,sempre foi algo que muito me encantou, aliás em todos os domínios da expressão humana. Só não nos faça esperar muito,tá? Um abraço,&nbsp; TT</font></strong>
denisedeschamps
Publicado: 6/9/2007 12:21  Atualizado: 6/9/2007 12:21
Da casa...
Usuário desde: 26/5/07
localidade: Rio de janeiro
Mensagens: 389
 RE: TÉCNICA PSICANALÍTICA---I
Oi Tovar!<br /><br />Vc como sempre muito gentil! Nossas "figurinhas" continuarão em trocas constantes, e tenho a certeza que serão sempre muito produtivas para mim. <br />Realmente vc acerta quando toca na questão da poesia. Afinal o que seria da vida sem ela? E não será a psicanálise, em última instância um resgate dela em nossas vidas? Agradeço o carinho. Abraços<br />

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