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Discutindo Psicanálise
A psicanálise e a mentira
04 Nov 2007
Denise Deschamps

Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante”* (Nietzsche). O presente artigo procurará tratar do complexo tema que envolve o que são fantasias em análise ou distorções de material por aquilo que popularmente costuma chamar-se de “mentira”. Pretende uma breve reflexão acerca do uso que o psicanalista poderá fazer das diferentes dinâmicas presentes no setting frente a esses aspectos.
Sabemos da existência de um quadro, onde se perde totalmente a dimensão do que é real, daquilo que é fantasia, naquele que padece dessa dinâmica, ou mais apropriadamente conceituando diríamos dessa economia, conhecida como mitomania, ou seja, uma compulsão a contar pequenas ou complexas “inverdades”. O sujeito que dela padece não tem o menor controle sobre seus impulsos, mente sobre questões, muitas vezes, aparentemente, sem nenhuma importância. Move essa compulsão uma grande necessidade de ser admirado apoiada em grave e intenso sentimento inconsciente de menos-valia, onde traços fortemente narcisistas determinarão o impulso para o ato de mentir. Há também a existência de uma compreensão de que essas supostas “mentiras” guardariam sempre traços associativos acerca de mentiras sexuais a que esse sujeito teria sido submetido em sua infância, de certa maneira apontando para uma dinâmica ligada ao que se conhece em psicanálise como lembrança encobridora( cena primária - ligada à visão da cena sexual de seus pais).
“No entanto, o fato de haver, em algumas fantasias, simulação clara da realidade tanto mostra tentativa de retornar ao mundo objetivo quanto serve aos fins da defesa” (1)
“Nem toda mentira patológica tem, necessariamente, esta estrutura particular. Ela também pode exprimir, de modo menos específico, as lutas que a pessoa empreende para manter a sua auto-estima” (1)
Fato é que em curso de uma análise a questão das fantasias, devaneios, lembranças encobridoras ou mentiras compulsivas, estarão sempre presentes na relação transferencial, e que não há análise sem sua existência em maior ou menor grau, como cadeia associativa, ou ainda, apontando para forte padrão de resistência. Dentro do curso normal de uma análise o psicanalista deverá estar apto a lidar com suas gradações e variações e possibilitar um padrão de associação que possa trazer a tona seus diferentes usos.
É comum o relato de pacientes, movidos por fortes sentimentos de culpa, dentro do manifesto, dirigido ao fato de ter construído para seus analistas pequenos ou grandes relatos que entendem como mentira. Pesquisados em suas cadeias associativas apontarão quase sempre para relatos de material fortemente recalcado que guardam traços por deslocamentos com seu representante que permanecerá inconsciente. A resistência nesse caso se apoiará fortemente em um sentimento superegóico de culpa e vergonha pela “mentira”, assim como a repetição do padrão do medo de ser rejeitado por seu analista, agora na relação transferencial, ocupando o analista, o lugar da mãe abandonadora e não “continente”. Mas, ao alimentar essa evitação, na verdade o analisando alimenta o silêncio da resistência, tão característico, e que serve para ocultar a possível cadeia associativa que poderia ser estabelecida a partir de sua “mentira”. É importante para o psicanalista, em momentos como esse, trabalhar mais do que nunca com sua contra-transferência bem compreendida, evitando a todo custo seus núcleos de acusações superegóicas. Não será desse lugar, que poderá cumprir sua função dentro do enquadre. Toda “mentira” é então resistência e como tal oculta, mas também revela, trazê-la para a associação deverá então ser a meta, bem claramente delimitada e buscada.
Poderemos ainda pensar na característica das “verdades” que um paciente traz para a análise, partindo da suposição que são fantasias ou idéias delirantes, exemplo comum na clínica dessa variação, vem a nós pelos parceiros que desconfiam de seus pares. Como definir o que é delírio de ciúmes, do que está realmente acontecendo e do que se apresenta como algo que é um perigo inconsciente ou ainda uma projeção? Será que cabe ao psicanalista ocupar esse lugar? Como se atua aí com o teste de realidade, fundamental para que se lide com as duplas mensagens envolvidas quase sempre nessas situações? Algumas dessas desconfianças nos chegam com o forte sentimento de que são loucura, o que mais tarde, com um ego mais fortalecido, esse sujeito poderá entender como percepção e entendimento. Isso nos leva a situação inversa que analisávamos antes. Outro exemplo, infelizmente não tão incomum, é o de lidar com sujeitos adotados e que não foram informados sobre isso, que convivem todo tempo com forte sentimento de mentira e engano, tendo na desconfiança seu mote principal que dinamiza seus vínculos. Aí a verdade está oculta até para ele, o discurso manifesto é a mentira que viveu e vive enquanto realidade com grandes conseqüências para sua estrutura de ego.
“A primeira vista, a mentira parece encobrir a verdade, mas Helen Deutsch mostrou que ela revela a verdade; ao que se acrescentou que a maneira por que se faz esta revelação fixa a negação” (1)
Lembrança encobridora – cena originária
“Para além da discussão sobre as partes relativas do real e do fantasmático na cena originária, o que Freud parece ter em vista e querer sustentar, nomeadamente contra Jung, é a idéia de que esta cena pertence ao passado – ontogénico ou filogénico – do indivíduo e constitui um acontecimento que pode ser da ordem do mito, mas que já lá está, antes de qualquer significação introduzida posteriormente.” (2)
Estaria presente a questão da cena primária, entendida como “cena da relação sexual entre os pais, observada ou suposta” (2) e que pertence entre aquilo que Freud nomeou de protofantasias.
De alguma maneira essa suposta cena determina todo um curso da construção psíquica de fantasias, que poderão tomar o curso de uma tendência ao ato compulsivo de mentir. Em quantidade, dentro do que se supõe como normalidade, determinará o livre curso de fantasias que alimentam inclusive a passagem pelo Édipo e sua posterior dissolução.
Essa é sem dúvida, uma concepção teórica que tenta delimitar o campo da mentira e da fantasia em psicanálise, embora quase nunca se possa demonstrar com precisão a diferença de uma para outra, demonstrará de maneira inequívoca, a importância de uma e de outra, igualmente, para o trabalho analítico. Lembrando-nos sempre da relevância que traz, tudo aquilo que tem como meta ocultar, será sempre o melhor indicador do trabalho a seguir, como já pudemos tratar aqui nessa coluna, no texto “Trabalhando com a Resistência”.
Há um caso dos primórdios da psicanálise, relatado por Freud no volume II onde se encontram vários outros por ele tratados, que falará dessas distorções, Katharina, onde no relato que ela faz acerca do tio, Freud pode construir aquilo que chama “conjecturas” que apontavam para uma compreensão dos sintomas desenvolvidos pela jovem.
“Se alguém afirmasse que o presente relato não é tanto um caso analisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eu nada teria a dizer contra ele. É certo que a paciente concordou que aquilo que introduzi em sua história provavelmente era verdade, mas ela não estava em condições de reconhecê-lo como algo que houvesse experimentado.” (3)
Podemos também pensar na questão da substituição da Teoria da Sedução pelo Complexo de Édipo pela vertente da impossibilidade de se averiguar com precisão até onde se fala em fantasia e até onde está situado no corte do real.
É preciso então se ter em mente que em psicanálise a questão da fantasia, mentira, verdade e realidade é algo que estará sempre em suspeição para que a escuta analítica não se perca. Mesmo quando falarmos das neuroses narcisistas, a psicose, deverá manter a mesma postura de suspensão de valores, muito do que a psicose diz na crueza de seu discurso delirante, aponta para a mais absoluta veracidade dos jogos inconscientes, diretamente projetados no mundo externo. A precisão e profundidade da concretude da fala psicótica apontam para o “não-dito” mais evidente e real no que diz respeito ao vínculo ao qual se refere e que está nele referido. Talvez na psicose e suas distorções quanto ao teste de realidade possamos entender, ainda de maneira mais evidente, a importância do fantasmático para a psicanálise, sem perder a dimensão do quanto à realidade é nela também uma instância. Poderíamos dizer que:
“O significado de uma atitude delirante pode e deve ser compreendido e referido à estrutura da qual emergiu esse delírio. Sem um conhecimento de tal estrutura nosso conhecimento do delírio será parcial, como será parcial a relação de causalidade”. (4)
Poderemos pensar, a título de uma exemplificação de beleza incomparável, na personagem do filme “Dom Juan de Marco”, interpretado pelo charmoso Johnnie Deep e na abordagem feita por seu psiquiatra, Jack Mickller, interpretado pelo impagável Marlon Brando. Ali, naquele filme, a personagem delirante em seu amor, teria que ser resgatado pela medicação e tratamento. Ao final do filme, ficamos em dúvida de quem será que afinal resgatou quem, o quanto o seu terapeuta, implicado no processo de resgate de seu ego, foi modificado pelo padrão de vínculos restitucionais com a realidade, contido no quadro delirante do apaixonante Don Juan de Marco.
O trabalho analítico então, baseia-se na questão da formulação da instância do real em concordância com a cadeia associativa produzida pelo analisando, levando sempre em consideração o fato de que:
“O pensamento lógico pressupõe um ego forte, capaz de adiar, de tolerar tensões, um ego rico em contracatexias e disposto a julgar a realidade conforme a sua experiência” (1)
(...) e que:
“Sempre que a realidade se torna desagradável, procuram-se substitutos mais pictoriais do sonho acordado” (1)
(...) ou ainda:
“Na medida em que ato algum se lhe segue o pensamento é a chamada fantasia. Existem dois tipos de fantasia: a fantasia criativa, a qual prepara algum ato posterior, e o sonho acordado, refúgio para desejos que não se podem satisfazer” (1)
Então já estamos aptos a essa altura a tirar conclusões que apontem para uma atitude de receptividade do analista frente a qualquer uma das manifestações de distorção de material frente à realidade até aqui exemplificadas e descritas, e entendendo sua origem, trabalhar a partir e de dentro dela, não para a dissipar, mas para ressignificá-la. Sempre atuando dentro da relação transferencial, onde cada associação ganhará vida e aspectos de repetição, a partir dela, e assim poderá ser, de alguma maneira, transposta para o ato de viver, que busca em seus vínculos com a saúde, aquele analisando.
Entre o delírio, o devaneio e a fantasia criativa, ou ainda potência criativa, encontraremos abundante material para ser, de alguma maneira trabalhado, e que poderá assumir, ali, entre as quatro paredes do setting analítico, aspectos de releitura dos vínculos estabelecidos por aquele ser que sofre.
“A utilização do mecanismo infantil de defesa que é a negação constitui a primeira mentira” (1)
Há que se pensar também, apenas a título de “devaneio”, que tudo que de melhor produzimos, partirá sempre de uma idéia fantasiosa, sonhadora ou louca mesmo. Será nossa capacidade de transportá-las para uma ação produtiva no mundo exterior que dará o sentido de realidade. Talvez as mentiras compulsivas sirvam, em última instância, a esse fim, uma tentativa de modificação que inverteu a lógica e busca no mundo exterior a mudança e construção de identidade pertencente ao subjetivo e ao mundo interno. Trazê-las para o divã será sempre uma tentativa de recolocar a questão, entendê-la e transformá-la em ação produtiva de realização de um desejo em um ego bem aparelhado.
“O devaneio é então um pouco de matéria noturna esquecida na claridade do dia” **
Bibliografia:
1 – Teoria Psicanalítica das Neuroses - Otto Fenichel
2 - Vocabulário da Psicanálise - J.Laplanche e J.-B. Pontalis
3 - Obras Completas – vol II – Caso Katharina - Sigmund Freud
4 - Teoria do Vínculo - Enrique Pichon-Rivière
Complementares:
* Assim Falou Zaratustra - Nietzsche * A Poética do Devaneio - Gaston Bachelard * O Umbigo do Sonho - Laurence Bataille
Discutindo Psicanálise: Denise Deschamps é formada pela UGF/RJ - 1984 com Formação Psicanalítica e Socio-analítica pelo IBRAPSI - 1989. Sua área de atuação: Clínica e Ensino/Supervisão Clínica.
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| Anônimo |
Publicado: 8/11/2007 20:24 Atualizado: 8/11/2007 20:24 |
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 sobre a mentira infantil Ola Denise, boa noite<br />seu novo artigo me ensinou muito... me trouxe para uma reflexão teórico-clínica que em parte difere do manejo que tenho de fazer ao tratar crianças com comportamento anti-social, mesmo que a contra transferência seja a ferramenta importante (e muitas vezes a única que nos resta) nesses casos de roubo, destrutividade e de atuação para revindicação de algo que se perdeu mas antes lá estivera.<br />eu já escrevi e estudei a questão da mentira infantil<br />hoje você me traz a questão da mitomania e do manejo clínico desta na relação transferencial e contra-transferencial e com suas explicações muito aprendi<br />Mas ficou em mim uma questão ( me desculpe se ela soar meio ingênua, ainda estou em minha formação e acredito que sempre estarei nela... falta ainda muito caminho a ser trilhado) : como fica a questão da mentira infantil aquela constituinte do primeiro segredo desta criança, assim como seu primeiro sonho? e como fica a questão da mentira como Winnicott descreve dentro da tendência anti-social, como uma consequência de uma pergunta incessante dos adultos a uma criança de-privada de por que ela roubou ou ela agrediu, e não sabendo o porquê, ela mente já que se assim não o fizer, pior ficará sua situação? <br />Só para eu continuar a pensar dentro de uma perspectiva mais freudiana, que é o que pretendo "aprender " a fazer através dos otimos textos que leio por aqui , principalmente os seus... <br />Um abraço Vicky
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| denisedeschamps |
Publicado: 9/11/2007 21:00 Atualizado: 9/11/2007 21:03 |
Da casa...   Usuário desde: 26/5/07 localidade: Rio de janeiro Mensagens: 389 |
 RE: sobre a mentira infantil <p class="MsoNormal">Olá Vitória!</p> <p class="MsoNormal">Bom demais conhecer uma carioca, psicanalista, que assim como eu, se encontra em permanente formação. Eu costumo considerar que para termos a psicanálise, em qualquer de suas vertentes, como instrumento de trabalho e leitura, deveremos estar sempre em formação. Analista pronto é analista surdo.</p> <p class="MsoNormal">Não sou uma profunda conhecedora de Winnicott, estudei-o mais, quando fiz formação em clínica infantil há muitos e muitos anos atrás. Dediquei-me algum tempo ao atendimento a esse público, mas depois me voltei exclusivamente aos atendimentos de adultos ou adolescentes. Vou tentar fazer um, como chamamos aqui em nosso balneário, “esforço de reportagem”, para tentar acompanhar sua indagação super interessante.</p> <p class="MsoNormal">Costumamos pensar o anti-social <span> </span>pp dito depois dos 15 anos e confirmar diagnóstico somente depois dos 18, não é assim? Agora, entender determinados comportamentos anti-sociais em crianças em tenra idade, penso que terá a mesma questão da gradação que está posta nesse texto sobre as demais formas de apresentação do que se nomeia como “mentiras”. Crianças apresentam em seu desenvolvimento “normal”, atos e comportamentos que chamaríamos de anti-sociais ou ainda perversos(no sentido da perversão da psicanálise e da perversidade tb), Freud nomeou nossos pequenos de “perversos polimorfos” para escândalo da sociedade de sua época. Penso que toda criança apresentará variações desses comportamentos sem, no entanto, estarmos necessariamente diante de um futuro adulto anti-social. A resolução do Édipo e a construção do Superego, seu herdeiro, domarão e orientarão essas tendências de maneira saudável ou ainda em sintomas neuróticos, perversos, ou ainda anti-sociais.</p> <p class="MsoNormal">Crianças com inscrição muito fortemente marcada por esses atos, no meu entender, estariam<span> </span>dentro da máxima winnicottiana: “repetem ativamente o que sofrem passivamente”. Geralmente criança maltratada quer seja de forma direta e fisicamente, ou ainda indireta e emocionalmente, penso eu, traria como pedido de resgate e socorro esses comportamentos sublinhados e aumentados para sua idade.</p> <p class="MsoNormal">No estudo que buscamos nesse texto, essa mentira estaria remetida a cena primária, ou seja, a suposta visão da relação sexual dos pais, vista como uma agressão, mas que se inscreve tb no Édipo enquanto desejo. </p> <p class="MsoNormal">Poderemos supor tb que, crianças que são submetidas, elas mesmas, a violência sexual desde a mais tenra idade, muitas vezes sem nem conseguir nomear tal ato, que só ganha contornos de sexual lá na idade adulta quando serão apresentadas à atividade sexual, tendem a esses atos com maior freqüência, já muitas vezes da maneira dissimulada e cindida.</p> <p class="MsoNormal">Vou deixar o link para um texto que gosto muito, sobre borderlines, do psicanalista tb aqui do Rio, que aborda alguns aspectos da questão trazida pelo comportamento anti-social, não sei se o conhece, ou se verá qq relação com o que propôs para o nosso debate.</p> <p class="MsoNormal"> </p> <p class="MsoNormal"><a href=" http://www.saude.inf.br/nahman/tenden ... l.pdf</a></p> <p class="MsoNormal"> </p> <p class="MsoNormal">O assunto que vc propõe é complexo e dá continuidade realmente ao estudo trazido nesse texto. Aguardarei suas novas considerações. Abraços e agradeço por comentar aqui o meu texto.</p> <p class="MsoNormal">Denise </p>
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| Anônimo |
Publicado: 10/11/2007 19:02 Atualizado: 10/11/2007 19:02 |
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 RE: sobre a mentira infantil Denise, <br /><br />sim conheço muito Nahman. Ele é amigo de papai, faz parte do CPRJ e igualmente da SBPRJ, estudei com ele no grupo do Outeiral na SBPRJ e muito aprendi com ele, seu livro é realmente esclarecedor. Obrigada por me responder e vou tentar levar adiante o que começamos a discutir...<br /><br />Winnicott não marca a tendência anti-social como estrutura ( acho que você evidentemente sabe disso) e assim não sei te dizer se aos 15 anos estaríamos diante de um pp ou de um adolescente que ainda acredita que vá ter algum retorno desse suposto meio deprivador. Na minha tese eu comento um texto de Hélio Pelegrino, falencia do pacto social, falencia do pacto edipico referente a questao da delinquencia... pp está para mim para muito alem da delinquencia e não sei se garotos com 15 anos seriam já pps...mas.. tenho pouca experiencia com adolescentes nesse quadro acima de 15 anos...<br /><br /> Concordo contigo, tratar de um adolescente com 15 anos que já rouba ou agride como forma de expressão na sua relação com o outro e com o mundo é algo árido, difícil e muitas vezes fadado ao fracasso porque há os famosos ganhos secundários... já perdi antes dessa idade algumas crianças-pré adolescentes para o tráfico e isso nos dá o limite de nosso trabalho, mas sei que fiz o que pude, até muitas vezes além do que poderia, para , sobrevivendo, os fazerem sobreviver também e tentarem ter uma vida digna de ser vivida , como diria mais uma vez meu adorado Winnicott... <br /><br />Bem vou relatar para você como lido com essas crianças em minha clínica, já que elas trazem para nosso consultorio algumas questões sobre a tecnica psicanalitica e algumas imensas questoes sobre o papel do analista.... <br /><br /><br />Lidar com essas crianças é sobreviver todos os dias, marcar limites e cuidar e ensinar a cuidar do setting construido com muita dificuldade. para eles o que vale é muito mais o vínculo transferencial, e muitas vezes mais ainda o vínculo com você pessoa... a solicitação é imensa e a concretude das palavras é algo muito dificil de lidar... tentar faze-los desenhar, pintar ou qualquer outra coisa é perda de tempo. Falar entao quase que impossivel.<br /><br />Em um artigo que eu ja postei aqui conto o caso de um atendimento meu de um pre-adolescente que faço ha 4 anos... ainda estou vencendo o tráfico... mas ele já desenha, ja quer ser desenhador e não mais traficante... algo nesse menino-jovem está mudando e muitas vezes não entendo o que fiz para isso acontecer... por mais de 2 anos jogamos damas... depois ele comecou a desenhar e colocar suas coisas atraves do desenho... depois ele passou a falar... mas muitas vezes a sensação que tenho é de que nada acontece... mas quando digo a ele que talvez seja a hora de tirarmos férias ( jamais digo a eles que é hora de pararmos porque sempre deixo a porta aberta para eles voltarem... ) ele me diz Não, você me ajuda muito , não não vou sair antes dos 18 anos... Ele jamais falta e odeia quando eu tiro férias....<br /><br />Esse garoto mente muito mas jamais quis saber se o que ele me contava era verdade ou mentira, hoje não mente tanto, a nao ser em relacao ao colegio mas , enquanto jogamos alguma coisa ou ele desenha, ele vai contado homeopaticamente o que lhe incomoda e o que esta acontecendo, como nas ultimas sessoes, sobre a gangue que ele faz parte dentro do colégio...<br /><br />Enfim Denise, gostaria de continuar a conversar contigo sobre essas crianças que muitos não querem perto e tentar entender o quanto eu consigo estar dentro de uma visão psicanalítica ou quanto eu faço aquilo que Winnicott nos fala, quando nao se pode fazer psicanálise standard fazemos outra coisa e isso não significa não estarmos fazendo psicanálise.. <br /><br />Essas crianças que mentem, muitas vezes compulsivamente, estariam elas tentando lidar com um mundo que mentiu primeiro para elas? ( acho que aqui quase chegamos perto de quem veio primeiro o ovo ou a galinha nesse mundo contemporâneo)<br /><br />bem essas sao algumas reflexoes, me desculpe se escrevi muito , mas a acolhida foi muito carinhosa e seus textos são realmente muito bons e me fazem pensar mais e mais sobre minha formação e minha lida clinica<br /><br />Um abraço de fim de sabado a tarde abafado e eu aqui trabalhando e parando para tb me entreter com algumas coisas , entre elas esse ambiente que estou adorando de participar<br />Vicky<br />
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| denisedeschamps |
Publicado: 10/11/2007 21:58 Atualizado: 10/11/2007 22:01 |
Da casa...   Usuário desde: 26/5/07 localidade: Rio de janeiro Mensagens: 389 |
 RE: sobre a mentira infantil Oi Vicky,<br /><br />Vou aderir ao chamado dos cariocas, já que tb estou aqui em nossa estação de veraneio. Hoje está mesmo um calor danado. Merece amanhã um bom programa ao ar livre, tomara que não chova.<br />Admiro muitos os textos do psicanalista Nahman por sua capacidade explicativa e pelo trabalho que anuncia que desenvolve, mas só o conheço por textos e eventos. Gosto de indicar seus textos porque encontro neles uma psicanálise que acredito mais.<br />Suas considerações estão trazendo grande contribuição para esse texto, ajudando muito a que possamos desenvolve-lo mais. Além da beleza imensa contida nos relatos que fez.<br />Algo que sempre reflito sobre, é que havemos de pensar tb com o corte da realidade. Falamos de adolescentes iguais ou diferentes de acordo com sua posição de classe social? O que há de comum entre os comportamentos que apresentam vindos de camadas da sociedade diferentes? Gostaria que, se vc quiser, falasse um pouco de como vê esse aspecto dentro de sua experiência.<br />Quanto a sua pergunta, eu costumo pensar que a criança "apreende" a mentira, seja como proteção, seja como atalho à realização. Haveria sempre algo que precede a mentira infantil. O que acha disso tb?<br />Muito bom trocar impressões com vc. Abraço carioca,<br />Denise <br /><br /><br />
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| TOVARTOMASELLI |
Publicado: 11/11/2007 15:40 Atualizado: 11/11/2007 15:40 |
Da casa...   Usuário desde: 26/4/07 localidade: São Paulo Mensagens: 334 |
 "A Psicanálise e a Mentira" <strong>Penso que eu seria absolutamente redundante ao escrever o quanto me agradou este novo artigo da colega Denise Deschamps, uma vez que sou seu fã declarado no que tange à Psicanálise. Prova é que chegamos a escrever um trabalho em conjunto aquí para o Rede Psi, o qual muito carinhosamente chamei de "um piano tocado à quatro mãos". Penso que , primeiramente teremos que tirar todo o matiz pejorativo que possa envolver o termo "mentira", principalmente quando tratamos de Psicanálise. A "mentira", seja ela prá mais ou prá menos, é e deverá sempre ser entendida como um grande pedido de socorro, o qual estará sendo endereçado ao analista, dentro de uma esteira absolutamente transferencial. Uma manifestação de um incrível sentimento de menos -valia, baixa auto-estima e, que reclama desesperadamente por um reconhecimento daquele que está na posição do Outro. Sabemos que , dentro de uma perspectiva lacaniana, é muito comum ouvirmos que o analista está sempre sendo colocado na posição do "Sujeito-Suposto-Saber", o que garantiria à condição para o estabelecimento do processo transferencial, onde repetiria as relações primárias de objeto. Notemos que quando falamos do "sujeito-Suposto-Saber", devemos estar atentos para o termo "SUPOSTO", o que nos levaria à uma reflexão clínica, no sentido do quanto não estaríamos aquí também diante de uma mentira. Como correlato dessa reflexão, encontramos em Freud a afirmação de que "O Histérico sofre de Reminiscências", o que vale dizer que a chave para o descobrimento e para a solução do seu grande sofrimento, estaria dentro dele mesmo, restando ao analista, a função de uma facilitador desse processo, através de uma técnica muito bem fundamentada. Pensei em outras tantas reflexões,mas me despeço por aquí, voltando oportunamente a este tema de fundamental importância trazido por esta competente colega. Parabéns Denise, pelo excelente trabalho. TOVAR</strong>
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| denisedeschamps |
Publicado: 11/11/2007 16:50 Atualizado: 12/11/2007 0:46 |
Da casa...   Usuário desde: 26/5/07 localidade: Rio de janeiro Mensagens: 389 |
 RE: "A Psicanálise e a Mentira" <div align="left">Tovar Que nosso texto fomente outros vários, seguindo nessa linha entre o amor pela psicanálise e o questionamento necessário para o seu crescimento.Abraços e agradeço muito ao colega colunista por comentar aqui o meu texto. Denise <br /> </div>
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| Anônimo |
Publicado: 11/11/2007 19:42 Atualizado: 11/11/2007 19:42 |
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 RE: sobre a mentira infantil Oi Denise ai vamos nós refletindo sobre reflexoes...<br />acho bom essa troca... acho bom ter com quem falar sobre minha clínica que muitas vezes me demanda posicoes e manejos que , temerosa, faco-os acontecer mas muitas vezes me pergunto, estarei eu certa? Davy, comentando um comentario meu sobre seu texto disse-me que estaria no caminho correto ao lidar com essas crianças e jovens anti-sociais... entao posso agora com menos agonia responder a você<br />vamos la...<br /> Voce me pergunta ( meu teclado esta horrivel por isso falta acentos e tudo mais que uma professora de portugues nao poderia admitir , peco desculpas) <br /><br />Falamos de adolescentes iguais ou diferentes de acordo com sua posição de classe social? <br /><br />Na minha experiencia nao ha questao de classe social quanto a mentira e quanto aos comportamentos anti sociais. Winnicott marca isso com enfase em seu privacao e delinquencia, o quadro anti social é um quadro que se apresenta em qq fase da vida , desde que haja uma deprivacao, qual seja, algo havia e se perdeu e sabemos que nao fomos nós que provocamos a perda , ela se deu e nos deixou a deriva ( digo isso aqui mas claro que isso é um sentir e uma vivencia inconsciente por parte de criancas e jovens) <br /><br />O que há de comum entre os comportamentos que apresentam vindos de camadas da sociedade diferentes?<br /><br /><br />O que ha de comum eu te diria que é a perda de algo tido como sempre estando ali, esse é o disparador de um comportamento anti social, a perda computada ao meio... o roubo significa a procura da funcao materna perdida, o jovem pede que os bracos da mae e suas extensoes o contanha e deem a ele carinho e silencio, compreensao e docura.. è como houvesse a bala que ele comera e guardara o papel mas de repente o papel some do bolso... a destrutividade aparece quando o limite pedido é maior, ou seja, é pedido um limite amoroso que a funcao paterna significa e engendra.. os dois pedidos de SOS como Winnicott nos fala sao igualmente marcados pela mentira quando pedimos que nos expliquem o que nao tem palavras para ser significado, ha um vazio.... nao importa a classe, a sensacao é sempre a mesma, vazio, perda e .... raiva e atuacao... e choro quando algo aparece diante do espelho que diz a esses jovens que esse tipo de comunicacao é fadada ao insucesso porque nao é simbolica... <br /><br />Estranhamente, Denise, na classe popular, a rede social do "morro" muitas vezes acolhe essa crianca e da a ela uma comunidade de destino, utilizando aqui meu querido mestre Safra... entende e acolhe o idioma pessoal desse adolescente ... mas na sociedade classe media, poucos acolhem esses garotos , preferem muitas vezes nao ver ou dizer, como no caso daqueles jovens adultos da barra da tijuca , meu filho nao é assim, sao os outros que o fazem ser assim... ou era somente uma prostituta, por isso brincamos... nao vejo isso acontecer dessa forma quase perversa na classe mais popular que atendo em meu consultorio nos horarios sociais... <br /><br />Um abraco espero ter ajudado para continuarmos a pensar essa clinica especial, ou essas criancas especiais que como diz manoel de barros... era nascido para ser lata, mas foi merecedor de pedras, rios... e quase chegou a ser mago... essas criancas se sobrevivem e se nos sobrevivmeos com elas a tudo isso chegam a ser magos de si mesmos... pode ter certeza disso, é uma luta que vale a pena de ser vivida e lutada por nos comeles<br /><br />Um abraco agora saindo do ambiente<br />Vicky<br />
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| denisedeschamps |
Publicado: 12/11/2007 19:08 Atualizado: 12/11/2007 19:08 |
Da casa...   Usuário desde: 26/5/07 localidade: Rio de janeiro Mensagens: 389 |
 RE: sobre a mentira infantil <p class="MsoNormal">Olá Vicky,</p> <p class="MsoNormal"> </p> <p class="MsoNormal">Realmente é na lida, na prática cotidiana da clínica, onde as dúvidas nos tomam, incertezas e questionamentos sobre direções a serem tomadas. Mas faz tempo que acredito, que analistas (psicoterapeutas) que não entram em crise vez ou outra, não se questionam sobre sua prática, já teriam perdido muito de sua capacidade de escuta. Tenho falado disso de maneira até já enfadonha aqui no Rede Psi. Volto e meia me pergunto o que e para o que estou sendo psicanalista e se sei mesmo o manejo adequado e se faço a leitura correta. </p> <p class="MsoNormal">Vamos à continuação das reflexões sobre as reflexões das reflexões...Penso que quando vc fala: <em>“.. o roubo significa a procura da função materna perdida, o jovem pede que os braços da mãe e suas extensões o contenha e dêem a ele carinho e silencio, compreensão e doçura.. é como houvesse a bala que ele comera e guardara o papel mas de repente o papel some do bolso... a destrutividade aparece quando o limite pedido é maior, ou seja, é pedido um limite amoroso que a função paterna significa e engendra.. os dois pedidos de SOS como Winnicott nos fala são igualmente marcados pela mentira quando pedimos que nos expliquem o que não tem palavras para ser significado, ha um vazio.... não importa a classe, a sensação é sempre a mesma, vazio, perda e .... raiva e atuação... e choro quando algo aparece diante do espelho que diz a esses jovens que esse tipo de comunicação é fadada ao insucesso porque não é simbólica...”</em> vc produz um parágrafo de uma beleza extrema e penso que explica de maneira clara algo que precisa ser incorporado ao discurso dominante sobre o tema criminalidade e juventude, principalmente quando tratam dessa criminalidade dentro das classes mais favorecidas, ou seja, o que dirá que há algo anterior a essa necessidade de colocação de limites que passam pela imposição de regras e normas, há um limite anterior que é a própria constituição desse sujeito psíquico e que aí talvez resida a grande falha que tem sido deixada de lado, ficando inscrita em um não dito. </p> <p class="MsoNormal">Por outro lado, penso que a inscrição social de classe tb tem papel relevante nessa criminalidade, pela presença de suas normas e regras de identificação(superego/Realidade). Talvez algo que venha assombrando muito a leitura desses fatos, que deixam de se inscrever somente na questão individual e se tornam um fenômeno coletivo, seja a inversão da dominância dos padrões que são valorizados pelo jovem das classes favorecidas, seus padrões sociais de identificação e onde esses tem sido buscados. O que acha?</p> <p class="MsoNormal">Mais uma vez agradeço a oportunidade de debater o tema que nos traz para pensarmos. Escrevi algo a respeito que está na sessão artigos, está em duas partes, pra nós aqui seria mais a 2ª parte(“Filhos da<span> </span>Classe Média”) que nos interessaria, se quiser e puder dê uma passadinha por lá.</p> <p class="MsoNormal">Até a próxima reflexão aqui ou ali. Abraços cariocas</p> <p class="MsoNormal">Denise</p>
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| Anônimo |
Publicado: 13/11/2007 21:58 Atualizado: 13/11/2007 21:58 |
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 RE: sobre a mentira infantil Denise<br />que bom que podemos continuar a pensar por aqui ou como voce disse em outro lugar<br />vou ler sim seu artigo para comentar<br />nao te respondo agora pq acabei de acabar no consultorio e ja sao 22 e ate chegar onde moro vai uma eternidade ( moro na barra ) <br />deixo para vc tb abracos cariocas em dia de chuva, calor e sei la mais o que que vem, tunel pra barra engarrafado desde de tarde e lagoa parada aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa<br />Vicky
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| denisedeschamps |
Publicado: 15/11/2007 15:41 Atualizado: 15/11/2007 15:41 |
Da casa...   Usuário desde: 26/5/07 localidade: Rio de janeiro Mensagens: 389 |
 RE: sobre a mentira infantil Oi Vicky!<br /><br />Que caos andou nossa cidade por esses dias! Abre Rebouças, fecha Rebouças, chove, faz sol, feriadão... <br />Dei uma passadinha tb pelo seu excelente artigo, que disponibilizou aqui no Rede Psi(<span class="itemTitle">"O corpo sem morada: a doença psicossomática como expressão do desfundamento da pessoa humana na sociedade contemporânea")</span>, fiz um pequeno comentário por lá, acho que de certa maneira os temas abordados acabam se entrelaçando.<br />Bom feriado! Abçs,<br />Denise<br />
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| Anônimo |
Publicado: 18/11/2007 20:51 Atualizado: 18/11/2007 20:51 |
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 RE: sobre a mentira infantil Denise<br />que bom que arranjei uma otima interlocutora...<br />énossos temas e interesses acabam nos interlaçando<br />vou colocar em artigos um meu sobre a mentira infantil, faz parte do doutorado e foi um artigo acho que um dos primeiros que apresentei em 2003 em um congresso e ficou muito legal<br />quem sabe por ele nao entrelaçamos mais um pouquinho nossos caminhos <br />gosto de ler vc<br />nao esqueci de te responder mas estive fora do ar, computador com problemas, agora mesmo uso o de minha filha mas te respondo ou hoje ou no feriado MAISUM MEU DEUS<br />é nossa linda cidade está beirando o caos, nossa quanta chuva depois dia lindo de sol com lua pela metade encantando nossa janela<br />bem um abraco de fim de feriado<br />Vicky<br />
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| TOVARTOMASELLI |
Publicado: 25/11/2007 0:10 Atualizado: 25/11/2007 18:30 |
Da casa...   Usuário desde: 26/4/07 localidade: São Paulo Mensagens: 334 |
 " A Psicanálise e a mentira " <strong><font size="1">Denise: como de vez em quando retorno a alguns textos, hoje foi o caso do seu excelente trabalho sobre a psicanálise e a mentira. Por uma dessas cadeias associativas, as quais estamos tão acostumados, me lembrei do livro do grande Bruno Betelheim: "A Psicanálise dos contos de fadas", onde a questão da "mentira" acaba tomando uma grande parte do seu trabalho. O que ou que tipo de conceitos são passados através dos contos de fadas que muitas vezes, nós mesmos, enquanto pais, contamos para os nossos filhos.? Fica aquí uma reflexão a esse respeito,a qual pretendo voltar oportunamente. Um abraço, TOVAR</font></strong>
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| Anônimo |
Publicado: 26/11/2007 9:51 Atualizado: 26/11/2007 9:51 |
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 RE: " A Psicanálise e a mentira " Tovar por muito tempo fui professora de literatura infanto-juvenil e essa questao que agora você aqui levanta é interessante, acredito que para as crianças que criamos e para as crianças que igualmente cuidamos na nossa pratica clinica... <br />Os contos de fadas têm sua origem há muito tempo atras e eram contados para adultos, uma forma de dar a eles a ilusao de que um dia seriam donos de um feudo ou reis, assim se submetiam ao que tinham de fazer pq alguem, normalmente o senhor feudal, dizia a eles que eles teriam a sua recompensa no final de tudo<br />Com o advento da infancia os contos de fadas foram transformados e contados agora para as criancas para que elas se subjulgassem aos preceitos morais da igreja ou da sociedade na qual viviam<br />Portanto o latente nesses contos, há muito tempo atras, existia para conformar o manifesto, ou seja, se eu me comporto, eu ganho as uvas, se eu desdenho das uvas eu nao fico sabendo se elas sao docer...<br />Ai vc fala do livro de Betelheim... logo no inicio ele nos diz da relacao dos contos com a perplexidade existencial e fala-nos da dualidade deste mundo de fadas, ou boas ou mas, assim como o mundo infantil, ou a crianca é boa ou é má... Mais adiante ele nos fala da singularidade do conto de fadas e nos diz " enquanto diverte a criança, o cnto de fadas a esclarece sobre simesma, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade. Oferece significado em tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança de tantos modos que nenhum livro pode fazer justiça à multidão e diversidade de contribuições que esses contos dão à vida da criança ( p.20)<br />O importante no conto de fadas é o encantamento que ele engendra e constrói... por isso eu trabalho com contos de fadas quando trabalho com crianças , elas constroem e reconstroem as historias, e atraves desses desmontes e montares elas vao se significando, se entendendo, podendo falar daquilo que elas nao saberiam falar de outra forma...<br />Voce nos fala aqui da questao da mentira, eu diria que no conto de fadas nao temos mentira, temos sim fantasias, mundo mágico, que dá à criança a ilusao de poder ir para uma passargada onde muitas coisas podem ser vividas e resolvidas<br />Voce nos fala dos pais, que somos, e o quanto passamos de moral, bons costumes etc para os filhos ao ler essas historias.... sim passamos mas serao os nossos atos como pais, nossa fala como pais que significarao essas morais encantadas em moralidade infantil, atraves dos contos de fadas eu, particularmente, nao acho que falamos de moralidade imposta e nem de mentiras ... o contar historia é milenar e, atraves deles engendramos vida, porque a geracionalidade se faz presente e dada um de nos lê esses contos e dele retira novas "lições" a cada vez que re-contamo-nos.<br />Outro livro sobre contos de fadas que muito gosto se chamaFadas no divã de Mario Corso, Artmed.... faz um bom dueto com Bettelheim<br />Um abraço com carinho da palpiteira novata do rede psi Vicky
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| Anônimo |
Publicado: 26/11/2007 13:03 Atualizado: 26/11/2007 13:03 |
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 RE: sobre a mentira infantil Ola denise<br />Estava procurando palavras para falar na abertura de dois dias de banca de monografia de final de curso da qual terei de participar e encontrei uma poesia de Affonso Romano de Sant`Anna sobre esse tema <br />Quis dar continuidade a ele por aqui para além do que já falei respondendo Tovar...<br />Quis trazer poesia para esse espaço já que no outro já tanto trocamos também<br /><br />Um abraço com carinho da sua colega carioca indo para Curitiba logo, logo<br />Vicky<br /><br /><font face="Arial" size="4" color="#ba231b">A implosão da mentira</font> <p align="right"><font face="Arial" size="3" color="#000000"><strong>Affonso Romano de Sant'Anna</strong></font></p><blockquote><blockquote><p align="justify"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><strong><br />Fragmento 1</strong></span></p></blockquote></blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Mentiram-me.Mentiram-me ontem</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>e hoje mentem novamente. Mentem</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>de corpo e alma, completamente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>E mentem de maneira tão pungente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>que acho que mentem sinceramente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Mentem, sobretudo, impune/mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Não mentem tristes. Alegremente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mentem. Mentem tão nacional/mente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>que acham que mentindo história afora</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>vão enganar a morte eterna/mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>falam. E desfilam de tal modo nuas</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>que mesmo um cego pode ver</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>a verdade em trapos pelas ruas.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Sei que a verdade é difícil</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>e para alguns é cara e escura.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Mas não se chega à verdade</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>pela mentira, nem à democracia</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>pela ditadura.</span></p><blockquote><blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal" align="center"><strong><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />Fragmento 2</span></strong></p></blockquote></blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Evidente/mente a crer </span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>nos que me mentem </span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>uma flor nasceu em Hiroshima </span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>e em Auschwitz havia um circo </span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>permanente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Mentem. Mentem caricatural-</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Mentem como a careca</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente ao pente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mentem como a dentadura</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente ao dente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mentem como a carroça</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>à besta em frente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mentem como a doença</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>ao doente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mentem clara/mente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>como o espelho transparente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Mentem deslavadamente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>como nenhuma lavadeira mente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>com a cara limpa e nas mãos</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>o sangue quente. Mentem</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>ardente/mente como um doente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>em seus instantes de febre.Mentem</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>fabulosa/mente como o caçador que quer passar</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>gato por lebre.E nessa trilha de mentiras</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>a caça é que caça o caçador</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>com a armadilha.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>E assim cada qual</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente industrial?mente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente partidária?mente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente incivil?mente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente tropical?mente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente incontinente?mente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente hereditária?mente,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mente, mente, mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>E de tanto mentir tão brava/mente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>constroem um país</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>de mentira</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span> —diária/mente.</span></p><blockquote><blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal" align="left"><strong><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />Fragmento 3</span></strong></p></blockquote></blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Mentem no passado. E no presente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>passam a mentira a limpo. E no futuro</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mentem novamente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Mentem fazendo o sol girar</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>em torno à terra medieval/mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Por isto, desta vez, não é Galileu</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>quem mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mas o tribunal que o julga</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>herege/mente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Mentem como se Colombo partindo</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span> do Ocidente para o Oriente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>pudesse descobrir de mentira</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>um continente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Mentem desde Cabral, em calmaria,</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>viajando pelo avesso, iludindo a corrente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>em curso, transformando a história do país</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>num acidente de percurso.</span></p><blockquote><blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />Fragmento 4</span></strong></p></blockquote></blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Tanta mentira assim industriada</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>me faz partir para o deserto</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>penitente/mente, ou me exilar</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>com Mozart musical/mente em harpas</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>e oboés, como um solista vegetal</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>que absorve a vida indiferente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Penso nos animais que nunca mentem.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>mesmo se têm um caçador à sua frente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Penso nos pássaros</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>cuja verdade do canto nos toca</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>matinalmente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Penso nas flores</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>cuja verdade das cores escorre no mel</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>silvestremente.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Penso no sol que morre diariamente</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>jorrando luz, embora</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>tenha a noite pela frente.</span></p><blockquote><blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><strong><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><br />Fragmento 5</span></strong></p></blockquote></blockquote><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>Página branca onde escrevo. Único espaço</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>de verdade que me resta. Onde transcrevo</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>o arroubo, a esperança, e onde tarde</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>ou cedo deposito meu espanto e medo.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>Para tanta mentira só mesmo um poema</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>explosivo-conotativo</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>onde o advérbio e o adjetivo não mentem</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>ao substantivo</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>e a rima rebenta a frase</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>numa explosão da verdade.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span><br /> </span>E a mentira repulsiva</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"><span> </span>se não explode pra fora</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoNormal"><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana"> </span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">pra dentro explode </span><span style="font-size: 10pt; font-family: Verdana">implosiva.</span></p><p style="text-align: justify" class="MsoPlainText"><font face="Verdana" size="2"><em><br /></em></font></p>
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| denisedeschamps |
Publicado: 26/11/2007 20:14 Atualizado: 26/11/2007 20:25 |
Da casa...   Usuário desde: 26/5/07 localidade: Rio de janeiro Mensagens: 389 |
 RE: sobre a mentira infantil <p class="MsoNormal">Olá Vicky e Tovar!</p> <p class="MsoNormal">Queridos colegas!</p> <p class="MsoNormal">Eu penso que histórias infantis, contos de fadas, lendas folclóricas, construções poéticas etc são importantíssimas para a elaboração de uma criatividade que nos permita a curiosidade permanente no ato de viver. O que posso pensar a partir das contribuições que trouxeram para esse artigo, parte da minha experiência, leitora voraz de contos de fadas durante a infância, que muito devem ter representado em minhas vivências simbólicas, com suas mensagens que passam por uma elaborada simbologia, algumas delas calcadas nos mais profundos arquétipos no sentido que Jung deu a isso. </p> <p class="MsoNormal">A intenção desse artigo, que tive ao escrevê-lo, foi justamente resgatar a mentira no que ela tem de aspecto de curiosidade e construção, enquanto fantasia ou enquanto mesmo uma compulsão um tanto “delirante” que tenta resgatar o vínculo com a realidade. Um convite para que, psicanalistas e psicoterapeutas de uma maneira geral, possam acolhê-la enquanto parte do trabalho que realizam.</p> <p class="MsoNormal">Afinal, se formos pensar profundamente sobre tudo isso, diante do mundo virtual que vivemos desde sempre, sublinhado hoje pelas novas tecnologias, o que teremos a certeza como algo real ou virtual dentro de nossas experiências? Talvez a criança em seu mundo mágico, possa nos resgatar alguma coisa a esse respeito.</p> <p class="MsoNormal">Abraços carinhosos,</p> <p class="MsoNormal">Denise</p> Essa poesia que encontrei, acho que ela cabe muito bem aqui.<br /><br />RECORDO AINDA<br /><br /><em>Recordo ainda... e nada mais me importa...<br />Aqueles dias de uma luz tão mansa<br />Que me deixavam, sempre, de lembrança,<br />Algum brinquedo novo à minha porta...<br /><br />Mas veio um vento de Desesperança<br />Soprando cinzas pela noite morta!<br />E eu pendurei na galharia torta<br />Todos os meus brinquedos de criança...<br /><br />Estrada afora após segui... Mas, aí,<br />Embora idade e senso eu aparente<br />Não vos iludais o velho que aqui vai:<br /><br />Eu quero os meus brinquedos novamente!<br />Sou um pobre menino... acreditai!...<br />Que envelheceu, um dia, de repente!...<br /></em><br />Mario Quintana <p class="MsoNormal"> </p><p class="MsoNormal"> </p>
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| Anônimo |
Publicado: 1/12/2007 21:52 Atualizado: 1/12/2007 21:52 |
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 RE: sobre a mentira infantil Denise<br />continuando reflexoes nao sei se somente sobre a mentira mas agora acredito sobre o criar nos dias de hoje como uma possibilidade de advir um sujeito onde pouco dele existe... você nos pergunta<br /><br />Afinal, se formos pensar profundamente sobre tudo isso, diante do mundo virtual que vivemos desde sempre, sublinhado hoje pelas novas tecnologias, o que teremos a certeza como algo real ou virtual dentro de nossas experiências?<br /><br />Esse mundo virtual/real no qual vivemos nos traz mais agudamente uma questão que a literatura já nos trazia... o que é realidade?? Diz-nos os teóricos da literatura que o que existem, e com eles concordo plenamente, são verossimilhanças, ou seja, semelhança com o vero, com a verdade... Hoje, já distante da teoria da literatura, e agora mais perto da psicanálise eu diria que lidamos com verossimilhanças... não perguntamos se é ou não verdade aos nossos clientes... acreditamos .... e nesse sentido acredito que você nos traga uma questão mais importante ainda quando nos diz que Talvez a criança em seu mundo mágico, possa nos resgatar alguma coisa a esse respeito... Com certeza isso acontece, porque através da imaginação elas nos falam de um espaço que, ao crescermos, perdemos, o espaço potencial, espaço onde habitamos na análise, num interjogo entre analista e analisando... criamos algo que não precisa ser verificado se real ou não, simplesmente sabemos que naquela hora é real, é partilhado e confiamos...<br />O que vejo em oficinas que dei há algum tempo atrás e igualmente nas aulas que dou que os futuros psicanalistas e os futuros psicopedagogos não sabem brincar realmente, eles observam as crianças brincarem e aí o precioso da criação a dois em uma sessão se perde, porque a criança pára de brincar ou brinca sozinha, sem um olhar interessado para aquilo que ela faz...<br />Quintana diz belissimamente<br />Eu quero os meus brinquedos novamente!Sou um pobre menino... acreditai!...<br />Eu acredito que não somente as crianças precisam dos seus espaços de brincar novamente resgatados para além daqueles que tudo por elas fazem ... elas não aprenderam a brincar como criação ou criam de outra forma nesse mundo virtualizado... mas esses versos me remeteram aos analistas que diante do brincar ou do nao brincar tentam resgatar em si esse espaço ludico e não o encontram... talvez eles peçam a si mesmos o que Quintana aqui nos diz e me emociona... muitas vezes jogando com uma criança ela me diz você joga na vera, é eu jogo, eu pinto, eu sento no chão o dia todo, e resgato em mim a menina que subia em arvores, soltava pipa, corria por Santa Tereza e pela Praça Afonso Pena achando que voava na sua caloi azul... sim muitas vezes diante de crianças que não conseguem brincar, concretas eu peço a mim que advenha que reemerja os meus briquedos novamente para que eu possa dar a elas a possibilidade de vivenciar o que muitas vezes se perdeu...<br />lembro-me do que um dia aconteceu em uma sessão com uma criança que só brincava com jogos eletronicos, ele achou na caixa de trabalho dela ( eu colocara pensando em trazer para cena algo não eletronico) o jogo que hoje chamamos 5 marias e no passado teve o nome de nente.... ela primeiro estranhou, achou esquisito... passou o tempo... e essa criança-adolescentes ( com 11 anos acredito que sejam já pré-adolescentes) resolveu entender a regra do jogar... e foi jogando, jogando comigo, perdia, ganhava e foi inventando regras para o nosso jogo partilhado.. hoje os saquinhos de arroz que fiz está na caixa dela somente ( tenho outros e para ela era importante algo nosso estar por ali) e muitas vezes ela me pede para levar no estojo para brincar de algo diferente do que tem em casa... <br />Nesse sentido penso que resgatar o brincar é o melhor caminho para que um segredo se construa, um espaço lúdico realmente partilhado advenha...<br /><br />Bem eu e meus longos caminhos a partir de um mote...<br />Obrigada por mais uma vez poder me proporcionar um espaço de reflexão depois de uma semana muito pesada<br />Um abraço <br />Vicky
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