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Artigo

Psicanálise Social: Desvendando os Laços Inconscientes da Sociedade

1. Origens da Psicanálise Social
A Psicanálise Social não surgiu como uma escola independente da psicanálise clássica, mas como um desdobramento da teoria freudiana que visa ampliar sua aplicação além do consultório. Sigmund Freud, ao desenvolver os fundamentos da psicanálise, não deixou de considerar a influência da cultura e da sociedade sobre o psiquismo. Em obras como “Psicologia das Massas e Análise do Ego” e “O Mal-Estar na Civilização”, Freud já apontava para o fato de que o sujeito se forma em relação a um meio social, sendo atravessado por normas, interdições e valores coletivos. A partir dessas ideias, diversos psicanalistas e pensadores sociais passaram a integrar os conceitos do inconsciente com a análise das estruturas sociais, dando origem ao que se convencionou chamar de psicanálise social.

2. Diferença entre Psicanálise Clínica e Psicanálise Social
Enquanto a psicanálise clínica se dedica ao sujeito singular, explorando seus conflitos internos, traumas e desejos inconscientes, a psicanálise social amplia esse olhar para o coletivo. O foco da psicanálise social é compreender como o inconsciente do sujeito é atravessado por dinâmicas sociais, culturais e históricas. A escuta não se limita ao sintoma individual, mas o interpreta como expressão de um mal-estar que também é social. Assim, a psicanálise social entende o sujeito como um ser que se constitui na e pela relação com o Outro, seja ele familiar, institucional ou cultural.

3. Inconsciente e Sociedade
O inconsciente, na visão da psicanálise social, não é um espaço isolado das influências sociais. Pelo contrário, ele é moldado por discursos, ideologias e normas culturais. Desde a infância, o sujeito é atravessado por valores que orientam o que pode ou não ser dito, sentido ou desejado. Assim, a repressão, mecanismo fundamental para a constituição do inconsciente, é também social. O que é recalcado, muitas vezes, são os desejos que contrariam as expectativas do meio. Portanto, compreender o inconsciente é também compreender a sociedade que o produz.

4. Laço Social e Subjetividade
A subjetividade é resultado das relações que o sujeito estabelece com o Outro. Jacques Lacan, ao reler Freud, destacou a importância do laço social na constituição do sujeito. O “Outro”, para Lacan, é aquele que nomeia, que representa a lei e que estrutura o desejo. Esse Outro pode ser o pai, a mãe, a escola, a religião ou o Estado. A forma como o sujeito se inscreve nesse laço define seu lugar no mundo e seus modos de sofrer e desejar. Assim, a psicanálise social investiga como as diferentes configurações sociais geram diferentes formas de subjetivação.

5. Cultura, Identidade e Psicanálise
A cultura é um dos principais elementos que influenciam a construção da identidade. Ela oferece os modelos de identificação que os sujeitos utilizam para se reconhecer e se diferenciar. A psicanálise social estuda como essas identificacões são construídas e como podem gerar conflitos internos. Por exemplo, um sujeito que pertence a uma cultura que reprime expressões de gênero ou sexualidade pode desenvolver sintomas decorrentes desse conflito entre desejo e norma. A identidade, portanto, não é algo fixo, mas uma construção atravessada por história, linguagem e poder.

6. Psicanálise e Poder
A relação entre psicanálise e poder é fundamental para entender como o sujeito se submete a regras e normas que, muitas vezes, o alienam. A psicanálise social investiga como as estruturas de poder operam na formação do inconsciente e na produção de subjetividades. Michel Foucault, embora não fosse psicanalista, influenciou essa abordagem ao mostrar como o poder não é apenas repressivo, mas também produtivo: ele cria saberes, normaliza comportamentos e define o que é considerado “doente” ou “normal”.

7. Psicanálise e Ideologia
A ideologia, segundo Louis Althusser, atua como um sistema de representação que interpela os sujeitos, ou seja, os constitui como tais. A psicanálise social dialoga com essa ideia ao entender que o inconsciente é atravessado por discursos ideológicos que moldam o desejo e a percepção de si mesmo. Slavoj Žîžek, por exemplo, utiliza conceitos lacanianos para analisar como as ideologias contemporâneas exploram os mecanismos do desejo. Assim, a psicanálise social ajuda a desnudar os discursos que nos fazem crer que somos livres, quando na verdade estamos presos a determinadas lógicas sociais.

8. Racismo, Exclusão e Psicanálise Crítica
A psicanálise social também se debruça sobre os mecanismos inconscientes do racismo, do machismo e de outras formas de exclusão. Esses não são apenas problemas políticos ou culturais, mas também psíquicos. O racismo, por exemplo, se sustenta em fantasias inconscientes que atribuem ao outro características desumanizantes. Trabalhar esses elementos em nível clínico e social é fundamental para combater as violências simbólicas e materiais que afetam grupos marginalizados.

9. Psicanálise em Espaços Institucionais
A atuação do psicanalista em espaços como escolas, hospitais e instituições públicas é uma das formas mais significativas de aplicação da psicanálise social. Nesses contextos, o analista se coloca como escuta qualificada para compreender os sintomas coletivos que surgem em função das relações institucionais. O sofrimento psíquico não é visto apenas como um problema do sujeito, mas como uma expressão de disfunções organizacionais, pedagógicas ou sociais.

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