Pequenos ditadores

“Donos de uma personalidade forte, os “chefinhos” são, segundo especialistas, fruto de um tipo de educação que não impõe limites, praticada muito mais por culpa (pais que trabalham fora, por exemplo) ou comodidade (para evitar desgaste) do que por confiança numa criação liberal.”
“Donos de uma personalidade forte, os “chefinhos” são, segundo especialistas, fruto de um tipo de educação que não impõe limites, praticada muito mais por culpa (pais que trabalham fora, por exemplo) ou comodidade (para evitar desgaste) do que por confiança numa criação liberal.”
Isadora vai ao salão de beleza todas as semanas e se recusa a sair de casa sem seus colares e a tiara preferida. Quando não gosta do esmalte, dá um escândalo e obriga a manicure a trocá-lo por outro, purpurinado. Vaidade normal de adolescente? Poderia até ser, mas, embora fale com a autoridade de quem sabe que manda, ela tem apenas três anos.

Filha única da publicitária Marise Silva Bussab, 39, Isadora é o retrato de um personagem cada vez mais comum nas famílias modernas: o pequeno ditador. Autoritários, eles fazem o que querem e raramente ouvem um “não” -quando isso acontece, reagem com birra. “Ela chora e eu amoleço: abraço, peço desculpas e dou o que ela quer”, confessa a mãe.

Donos de uma personalidade forte, os “chefinhos” são, segundo especialistas, fruto de um tipo de educação que não impõe limites, praticada muito mais por culpa (pais que trabalham fora, por exemplo) ou comodidade (para evitar desgaste) do que por confiança numa criação liberal. “Ao deixar que a criança decida tudo por si só, o adulto lhe delega poderes com os quais ela não é capaz de lidar”, afirma a psicóloga infantil Rosalba Filipini, 40, professora de psicodrama da PUC-SP. “Apesar de resistente às regras, a criança precisa delas para crescer e se sentir segura”, diz.

Alimentação, horário de dormir e de comer são os maiores pivôs de discussão entre pais e filhos pequenos -e são aqueles que mais exigem atenção. “Uma criança menor de sete anos não deve, por exemplo, levar dinheiro para a escola e decidir o que vai comer”, afirma Rosalba.

“Eu prefiro não impor nada. Ontem, a Isadora foi dormir à meia-noite, depois de comer um pote de pipoca”, conta Marise, que gostaria de ver a filha na cama por volta das 21h. “Mas acho que essa fase de birra vai passar”, acredita.

A psicóloga não concorda e diz que, para que a situação não fuja do controle, os limites devem ser estabelecidos desde cedo, conforme a capacidade de compreensão em cada faixa etária. “A birra que é premiada gera uma falta de respeito que tende a crescer com a idade. Mesmo que a criança chore, o correto é colocá-la na cama, para que se acostume com o novo horário.”

Com crianças mais velhas, a negociação pode envolver também uma espécie de prêmio, concedido quando fazem algo positivo. Mas é preciso cuidado para não induzir a criança a “mercantilizar” tudo. “Ela tem que entender que seus deveres devem ser cumpridos, mesmo sem premiação”, diz.

Os castigos morais não são recomendados, mas, quando necessários, devem ser proporcionais e imediatos ao erro. Se ela responder com grosseria aos pais, por exemplo, pode ser colocada no quarto para pensar no que fez. “Mas não por toda a tarde pois, depois de meia hora, ela vai dispersar, esquece por que está ali, e o castigo deixa de fazer efeito”, diz. Castigos físicos, nem pensar. “A agressão cria medo, não respeito, e não pode fazer parte da relação entre pais e filhos”, explica.

Dois pesos A psicopedagoga Geraldina Porto Witter,67, livre-docente do departamento de psicologia da PUC-Campinas, que pesquisa a consequência de diferentes educações na formação da personalidade de crianças e adolescentes, garante que o caminho certo a seguir é o do meio termo. “Em educação, tudo que é radical é ruim”, diz. “Pais muito autoritários, por exemplo, acabam gerando filhos tímidos e com pouca criatividade.”

Por outro lado, é o medo do autoritarismo que leva muitos pais a serem permissivos demais. “O pai liberal cria filhos para o mundo, ensinando-os a pensar e ser independentes, não a ser autoritários e insubordináveis”, diz.

Outro erro muito recorrente é a incoerência entre o comportamento dos pais, que deixa as crianças sem parâmetros. “Quando a mãe diz não e o pai, sim, a criança não consegue compreender se sua atitude é certa ou errada”, diz.

A tendência dos pequenos é sentir quem é o mais “light” da dupla e correr para ele quando querem algo.

“Ela pede tudo para mim, pois sabe que sou mais ‘mole'”, conta Deise Rense Fróis, 40, mãe de Carolyne Rense Fróis, 8. “Ela vai largando a mala na sala, o tênis na escada e os cadernos em cima da cama, e quem recolhe tudo sou eu; é mais fácil do que conseguir que ela faça isso”, lamenta.

Na hora de se vestir, Carol tem total autonomia, que a mãe não costuma desafiar. “Escolho uma roupa e ela argumenta que a etiqueta incomoda, que o detalhe é feio, que não gosta do modelo, e veste aquela de que mais gosta, mesmo que esteja em desacordo com a ocasião. Desse ponto eu já desisti!”, conta.

Mas, embora admita ser muito flexível com a filha, Deise não acha que isso possa prejudicar sua educação. “Ela é muito madura e independente, e isso vai ajudá-la no futuro”, acredita. “Também não quero gastar o pouco tempo que temos juntas com brigas.”

A diferença entre a família e a escola também dificulta a adaptação da criança, que pode ter problemas de convivência social. Se ela manda em casa, vai tentar mandar nos amigos de classe, e tende a ser rejeitada ou ignorada. “No grupo de iguais, ela só será líder se for escolhida, não por imposição”, diz a psicopedagoga.

Os mais espertos podem sentir a diferença entre os ambientes e tomar posturas adaptadas a cada um. Nesse caso, ele pode ser um “santinho” na escola, onde as leis foram bem estabelecidas, e um verdadeiro ditador em casa, onde as regras são mais frouxas.

Lição de casa As mudanças ocorridas nas últimas décadas deixaram os limites muito mais “esgarçados” e alteraram os papéis sociais. Na década de 50, a hierarquia escolar era rígida e o mestre tinha poder absoluto. “Ninguém ousava dizer um palavrão em sua presença, e isso se estendia aos lares”, relata Geraldina Porto.

De lá para cá, os poderes se dissolveram e já não é mais tão óbvio o limite entre certo e errado. “Agora é papel dos pais, por exemplo, dizer quando um palavrão é aceitável, já que as crianças os ouvem dentro da própria casa.”

Além disso, o excesso de informação a que estão expostas as novas gerações atenuou a ascendência dos pais. “A formação biológica da criança e do adolescente influencia de 20% a 25% de sua personalidade”, diz. O resto ela aprende em sua relação com o ambiente em que vive: amigos, televisão, computador etc. E esse “mundo exterior” é muito mais interessante para eles do que os valores familiares.

“O Guilherme insiste em vestir roupas que não combinam. Eu não gosto, mas como vou exigir que ele se vista diferentemente dos amigos?”, pergunta a jornalista Haydée Tuan Aguiar, que assume parte da culpa pelo comportamento do filho. “Sempre fizemos tudo o que ele quis e, por comodismo, recolho as coisas que ele espalha em vez de forçá-lo a fazer”, diz. Ela acredita que faria diferente se tivesse outro filho. “Me imporia mais e colocaria numa escola com mais disciplina”, afirma.

Na dúvida entre o que impor e o que negociar, a psicóloga Rosalba Filipini recomenda o bom senso: se a decisão do filho atrapalha a rotina familiar ou faz mal à sua saúde, deve ser vetada. “Comer sanduíches todos os dias e usar jogos ou computador por mais de quatro horas seguidas podem atrapalhar o desenvolvimento”, diz. Mas, se ele quiser dormir meia hora mais tarde do que a mãe considera ideal ou comer salgadinhos um dia só na semana, isso pode ser negociado.

Os limites também podem ser relaxados à medida que a criança cresce e começa a assumir responsabilidades. “Na adolescência, ele não precisa de horários estritos para a lição de casa, contanto que mantenha o bom rendimento escolar”, diz.

As rotinas que eles entendem

Recém-nascido
Na primeira fase do bebê, a amamentação em intervalos regulares faz com que ele saiba que a mãe vai, mas volta. Esse contato com a ausência é o início de uma organização emocional e temporal que gradualmente vai se estabelecer

0 a 3 anos
Nessa fase, a criança não tem noção de regras e infração. É preciso ser objetivo nas ordens, usando mais a ação do que a palavra. Em vez de dizer “não mexa”, tire, delicadamente, a mão da criança do objeto. Ela deve ter horários certos para comer e dormir e guardar brinquedos junto com um adulto

3 a 7 anos
Ela espera que os adultos lhe dêem ordens e determinem o certo e o errado. Aproveite essa fase para fixar melhor a rotina e estabelecer hábitos saudáveis. Delimite espaços em que a criança pode fazer bagunça (como o quarto dela) e aqueles que devem permanecer intactos (como a sala)

7 aos 12 anos
A criança começa a internalizar as regras, ainda encaradas como “coisa de adulto”. É hora de explicar os porquês das exigências, mas sem abrir mão do cumprimento das consideradas importantes. Essa é uma boa fase para estabelecer direitos e deveres, horários para as atividades escolares, de lazer e sono: ela já tem o “direito” de ir a festas com os amigos, contanto que cumpra o “dever” de voltar no horário combinado

12 anos em diante
Os jovens já devem ter adquirido autonomia e capacidade de pensar por si mesmos. O diálogo precisa funcionar e eles devem participar da construção e/ou reformulação das regras que organizam sua própria vida. Seja coerente, porque eles geralmente reproduzem os padrões familiares. O que é dito como errado para ele não deve ser feito pelos pais.

Fonte: Equipe Multidisciplinar do CAD (Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento) de São Paulo

Fonte: Revista da Folha 04/03/2002
CARLA GOMES da Revista da Folha

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