O Surto das Chiquititas Quando os filhos inocentes pagam pelo sonho dos pais.

Um episódio que ocorreu quando uma emissora de TV abriu inscrição para seleção de novas "chiquititas" me chamou a atenção e me fez meditar. Nada mais nada menos de 31.000 candidatas! Houve tanto tumulto que, à certa altura, os funcionários perderam o controle e jogaram as fichas para o ar, piorando a situação. A mãe de uma criança de 7 anos, professora que ganha 400 reais por mês, morando a 350 km. de Salvador, gastou todas suas economias para chegar a S. Paulo de avião para esta inscrição. O que move tamanha ambição?

Tive a oportunidade de conhecer diversas mães que nutrem as esperança de que seus filhos sejam astros, durante alguns destes chamados testes de seleção para propaganda. O que pude observar é que, em primeiro lugar, o objetivo delas é o brilho, o palco para sua filha (filho). A maior alegria e a grande esperança da vida delas é ver, um dia, seu rebento na capa de uma revista. As crianças vão chegando trazidas pelas mães, às vezes carregando um irmãozinho – muitas vezes não tão bonito – mas que tem que fazer esta via sacra para a glória do preferido. Depois é preciso aguardar em absoluto silêncio. Quanto tempo? Ninguém informa. Muitas vezes o dia todo. Se as crianças se juntam e brincam, são imediatamente repreendidas ou pelo funcionário ou pela mãe. É proibido conversar, rir, correr, enfim, é proibido agir como criança. Vi mães trazendo seus pimpolhos com febre, vi mães comentando entre si (e na frente das crianças) que enganaram o patrão para estar ali.

Isto gera uma confusão no psiquismo infantil porque ele se sente órfão de cuidados verdadeiros, aprende um código de valores baseado em futilidades e aparências. Afinal, "quem é que cuida de mim?, quem me protege?"- devem ser suas questões básicas. Onde está o instinto protetor dessas mães com a sua cria? Isto porque o ser que alimenta e acalanta é o mesmo que expõe sua figura nessa vitrine insana. Não parece ser a mesma mãe que vai tirar satisfação na escola quando alguma coisa acontece e não ficou clara. Ela não leva em conta a formação do caráter da criança. Sabemos que foi encoberto pelo seu narcisismo. É um narcisismo que é ativado quando nasce uma criança bonita. Ela se sente reconhecida através desta criança, portanto o filho tem uma missão quase impossível de trazer holofotes para a mãe, que até então, não conseguiu se realizar com seus próprios recursos.

Por outro lado, os profissionais encarregados em preencher as fichas de inscrição lidam com crianças como se elas fossem máquinas. Operam em lugares improvisados, muitas vezes sem lugar para as pessoas sentarem, são galpões com algumas coisas perigosas, como vidros grandes apenas encostados, ferros de passar ligados, etc., onde circulam dezenas ou centenas de crianças! Na minha opinião as agências responsáveis por esses testes teriam que funcionar tendo uma infra-estrutura para atender crianças. Poderiam agendar um número menor de pessoas de cada vez, poderiam ter um atendimento onde houvesse filmes infantis, monitores especializados, atividades lúdicas, etc. No entanto isso está fora de cogitação porque "tempo é dinheiro" e eles não podem perder tempo.

A criança vira objeto e é usada tanto pelas agências como pelas próprias mães que não se dão conta disso. É assim que vamos chegar no ano 2000: com uma informática fantástica mas com as relações humanas totalmente deterioradas, com uma sociedade de consumo sem critérios pessoais e a mídia esmagando e triunfando sobre a ética.

Ana Maria Lemos Nielsen
Psicóloga clínica – Pós graduada em
Psicoterapia Psicanalítica pela USP, atende em
consultório particular (tel.:3862 2251)
e mail: cnielsen@uol.com.br

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