Capítulos Abertos

Lidar com as coisas nossas mais íntimas, é deixar sempre capítulos em aberto. A colega Denise desta Coluna foi cutucar um vespeiro muito atípico: falar do crescimento humano interior, na sua formação (em artigo avulso). Para quem é pedagogo, isto ele o faz profissionalmente, o que para mim, vale dizer, teoricamente. Quando o objeto deste desafio são nossos filhos, aí é pura prática tipo tentativa-e-erro.
Nós somos inequacionáveis, e nossos filhos, enquanto não forem comprados como robôs programáveis, também o são e serão. Não há fórmulas, parâmetros, paradigmas, seja lá o que for.

Vê-se de tudo no desenvolvimento do indivíduo da fauna humana.

Famílias implodidas, e com filhos exemplares, sem uma avó, babá, vizinha que tenha dado algum afeto. O inverso é absolutamente concordante.

Todos falam em dar o exemplo, pois é dele que a criança se nutre. Lembro-me de uma recente entrevista feita com Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones. Perguntaram-lhe se ele não se preocupava com a educação de seus filhos, ao que ele respondeu:- "Mas eu dou o exemplo, o mau exemplo. Daquilo que eles não devem fazer". Até onde eu sei seus filhos são "caretas".

Se nós formos buscar na obra de Werner Jaeger, Paidéia, só encontraremos a educação formal do jovem grego. No varejo do dia-a-dia com estes jovens nada diz.

O que é perfeitamente compreensível. Dividimos a tarefa com nossos filhos ou filhos dos outros com sua genética, sua norma de reação ao meio, com o misterioso amálgama que constitui sua saúde mental, quer dizer com o acaso dos deuses.

E tudo isso me parece nos leva a pensar naquilo que é o óbvio: não existe o Homem Padrão. Portanto, não existe, também, o filho padrão deste homem. Nem na Índia, na Grécia, em Nova Iorque, ou no Complexo do Alemão.

Como não tenho virtudes para falar do amor, ou desamor aos filhos, vejo-me na obrigação de terceirizar esta fala.

Primeiro a espera:

Benvinda (Chico)

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente que há um lugar na minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor, ou venha coberta de amor
Seja lá como for, venha sorrindo
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Que o luar está chamando, que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho
Cheio de anseio e de esperança, comunico a toda gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha morar por aqui, ou venha pra se despedir
Não faz mal pode vir até mentindo
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Que o meu pinho está chorando, que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho
Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro
Todo novo da manhã
Oh vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada
Vem amada, vem urgente, vem irmã
Benvinda, benvinda, benvinda
Que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho
Certo de estar perto da alegria, comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Ah, que bom que você veio, e você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda, benvinda, benvinda. benvinda, benvinda
No meu coração
Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente que há um lugar na minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor, ou venha coberta de amor
Seja lá como for, venha sorrindo
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Que o luar está chamando, que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho
Cheio de anseio e de esperança, comunico a toda gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha morar por aqui, ou venha pra se despedir
Não faz mal pode vir até mentindo
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Que o meu pinho está chorando, que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho
Vem iluminar meu quarto escuro, vem entrando com o ar puro
Todo novo da manhã
Oh vem a minha estrela madrugada, vem a minha namorada
Vem amada, vem urgente, vem irmã
Benvinda, benvinda, benvinda
Que essa aurora está custando, que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho
Certo de estar perto da alegria, comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda
Ah, benvinda, benvinda, benvinda
Ah, que bom que você veio, e você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda, benvinda, benvinda. benvinda, benvinda
No meu coração

Se elas já estão crescidas na adolescência, a preocupação:

As minhas meninas (Chico)

Olha as minhas meninas As minhas meninas
Pra onde é que elas vão
Se já saem sozinhas As notas da minha canção
Vão as minhas meninas Levando destinos Tão iluminados de sim
Passam por mim E embaraçam as linhas
Da minha mão As meninas são minhas Só minhas
Na minha ilusão
Na canção cristalina Da mina da imaginação
Pode o tempo marcar seus caminhos Nas faces com as linhas
Das noites de não E a solidão maltratar as meninas
As minhas não As meninas são minhas
Só minhas As minhas meninas Do meu coração

Ou, uma gravidez indesejada:

Uma Canção Desnaturada (Chico)

Por que cresceste curuminha
Assim depressa, estabanada
Saíste maquiada dentro do meu vestido
Se fosse permitido eu revertia o tempo
Pra reviver a tempo de poder
Te ver as pernas bambas curuminha
Batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira
E eu te negar meu colo
Recuperar as noites curuminha
Que eu te deixei em claro
Ignorar teu choro e só cuidar de mim
Deixar-te arder de febre curuminha
Cinqüenta graus tossir bater o queixo
Vestir-te com desleixo
Tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca curuminha
Raspar o teu cabelo
Ir te exibindo pelos botequins
Tornar azeite o leite do peito que mirraste
No chão que engatinhaste salpicar mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido te recolher pra sempre
R escuridão do ventre curuminha
De onde não deverias nunca ter saído.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley
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