Medo de ir ao médico

Coincidindo com a criação da Política Nacional de Atenção à Saúde do Homem, anunciada em março pelo Ministério da Saúde e que, entre outras ações, visa a elaborar uma pauta de projetos voltados ao combate de problemas como câncer de próstata, tabagismo e obesidade, a revista Cadernos de Saúde Pública destacou o tema na edição do mesmo mês.
Coincidindo com a criação da Política Nacional de Atenção à Saúde do Homem, anunciada em março pelo Ministério da Saúde e que, entre outras ações, visa a elaborar uma pauta de projetos voltados ao combate de problemas como câncer de próstata, tabagismo e obesidade, a revista Cadernos de Saúde Pública destacou o tema na edição do mesmo mês.
Um artigo destaca os resultados de uma pesquisa realizada no Instituto Fernandes Figueira (IFF) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e que teve como objetivo identificar os principais motivos da baixa freqüência com que os homens vão ao médico.

O estudo teve como ponto de partida trabalhos anteriores que constataram que, em geral, a presença masculina nos serviços de atenção primária à saúde no Brasil é menor do que a feminina.

Foram entrevistados 28 homens divididos em dois grupos, dez com baixa escolaridade e 18 com ensino superior completo. Como um dos enfoques da pesquisa era a prevenção do câncer de próstata, todos os entrevistados tinham mais de 40 anos de idade.

A representação do cuidar como tarefa feminina foi o motivo que apareceu com mais freqüência. “A perspectiva cultural e moral, que está fortemente atrelada ao imaginário social, foi o fator mais marcante em todas as entrevistas realizadas. Embora os dois grupos analisados tivessem perfis diferentes em termos de experiências de vida, eles lançaram mão dos mesmos estereótipos”, disse Romeu Gomes, coordenador do estudo e professor do programa de pós-graduação do IFF, à Agência FAPESP.

“Ao contrário do que ocorre com as mulheres, que aprendem desde criança a ter cuidados com a beleza e com a saúde, tradicionalmente o homem não é educado para se cuidar”, disse.

O estudo aponta que, para os indivíduos de menor escolaridade, os horários de funcionamento dos serviços públicos de saúde também dificultam a procura por consultas médicas. “Eles dizem que os horários das consultas coincidem com a carga horária de trabalho”, explicou Gomes.

Questão da masculinidade

A falta de serviços mais bem organizados e voltados exclusivamente para o universo masculino foi uma das principais justificativas entre os entrevistados com ensino superior. Segundo a pesquisa, para os homens em geral, os serviços de saúde costumam ser percebidos principalmente como um espaço feminino.

O medo de descobrir doenças graves foi outro motivo comum nos dois grupos analisados. “Mais uma vez, temos aqui um componente cultural. Como o homem é criado para ser ‘forte e invencível’, ir ao médico e identificar algum problema de saúde pode ser uma maneira de afetar sua masculinidade”, afirma.

Gomes participa atualmente de outra pesquisa conduzida em cinco cidades – Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Natal – que avalia a qualidade dos serviços de saúde voltados para os homens e como tais serviços lidam com as questões da masculinidade.

O estudo tem apoio financeiro do Ministério da Saúde e, além da Fiocruz, conta com a participação da Universidade de São Paulo e das universidades federais de São Paulo (Unifesp), do Rio Grande do Norte (UFRN) e de Pernambuco (UFPE).

“A idéia é fazer uma ampla avaliação de como os homens estão sendo abordados pela atenção básica de saúde no país. Os primeiros resultados, que terão caráter quantitativo e qualitativo, serão divulgados no fim de 2008”, disse Gomes, que coordena os trabalhos na capital fluminense.

Comments are closed.