Drogas Lícitas: Ansiolíticos e Hipnóticos – Álcool e Tabaco

Este é um capítulo delicado de se tocar devido ao seu elevado uso pela classe médica, principalmente pelos não-psiquiatras.

Ansiolítico é aquela substância que causa a lise, ou seja, a destruição da ansiedade=angústia. O grupo químico que domina o mercado internacional chama-se benzodiazepínico. São inúmeras as formulações que foram sendo manipuladas pelos grandes laboratórios farmacêuticos ao longo dos anos. Apenas a título de exemplificação vamos citar as mais conhecidas em nosso meio.

diazepam – Valium; lorazepam – Lorax; bromazepam – Lexotan; cloxazolam – Olcadil; alprazolam – Frontal (nos USA: Xanax), e por aí vai.

Claro que eles têm sua indicação, principalmente em início de tratamento, quando a angústia é um sintoma predominante. Mas este é um tipo de remédio que nós receitamos já pensando em qual dia iremos suspendê-lo. A angústia é o sintoma mais superficial de qualquer transtorno psíquico, e raramente falta. Assim que descobrimos o que está por detrás dela, partimos para uma medicação mais específica. Por exemplo, o mais comum é que seja uma angústia depressiva, então prescrevemos antidepressivo, ou um quadro paranóide-persecutório, o que traz uma angústia psicótica, assim, entramos com um antipsicótico, e por aí vai.

Como não conhecemos a verdadeira relação cérebro/mente, não podemos falar em causas em psiquiatria, apenas em correlatos neurofisiológico-mentais. Um diagnóstico em psiquiatria será, sempre, no máximo sindrômico, isto é, a identificação de um conjunto de sintomas que se repete com freqüência, independente de sua causa – que é desconhecida. Portanto, sindrômico quer dizer sintomático.

Com o exercício da prática clínica podemos ir reconhecendo quais sintomas são mais escondidos, mais profundos na mente humana, e quais são mais superficiais. Assim, nos dois exemplos que demos o antidepressivo e o antipsicótico são remédios com os quais pretendemos atingir as raízes do mal. São drogas para tratamento, isto é, de uso contínuo, por um prazo determinado, e devem ser tomados regularmente para atingir um determinado nível terapêutico. Eles não trazem efeitos imediatos. Alguns fármacos para atingirem o seu nível terapêutico demoram semanas. Isto quer dizer: um dia em que o paciente estiver se sentindo pior não adianta tomar mais comprimidos do que os prescritos. Estes fármacos têm efeito cumulativo que vai se expressar através de seu platô terapêutico na corrente sangüínea. Um, dois, três comprimidos isolados a mais num único dia não trarão resultados imediatos, pois devem acumular-se lentamente para chegar ao platô plasmático.

Aos meus leitores eu alerto: aquele que for a uma consulta médica e sair de lá com uma prescrição única de ansiolítico não está sendo tratado de nada. Pior, corre o risco de criar dependência e de entrar em depressão psíquica. Sobretudo quando for consulta por convênios que pagam no máximo, em média, uns vinte reais por consulta. O resultado é que este paciente será "examinado" em dez minutos, se tanto, e para aliviar sua angústia lá vai o ansiolítico (em geral o Lexotan que os clínicos não-psiquiatras têm um gostinho especial por ele?!).

Vejam o seguinte: o ansiolítico é um remédio para o aqui-e-agora. Tomou, em quinze ou vinte minutos ele entra em ação, seu efeito pode durar três, quatro, cinco horas, dependendo da dose, ele é digerido pelo nosso organismo e eliminado. Seu uso pode ser comparado ao uso de um analgésico ou antitérmico, como dipirona (Novalgina), AAS (Aspirina) ou um paracetamol (Tylenol). Só se toma quando for realmente necessário, sabendo-se que não serão eles que irão tratar o seu quadro clínico. Ansiolítico não é fármaco para tratamento.

Tudo o que eu disse para ansiolíticos vale também para os hipnóticos, que drogas para regularizarem o sono. Se houver insônia nós temos de ir atrás do que poderia estar por trás desta sinalização. Freqüentemente é uma depressão. Mas pode ser também uso de drogas ilícitas ou lícitas, como é o caso do álcool. O álcool continua sendo a pior das drogas. Ele acaba com o corpo e com a mente do alcoolista. Eu nem fiz uma seção só para ele, pois me parece ser redundante. Falar que álcool faz mal e dá dependência até meu cachorrinho de casa sabe disso.

                                           Crise de abstinência

Quando um indivíduo já desenvolveu dependência por alguma droga, na sua interrupção brusca vai se gerar uma crise supressiva, ou de abstinência. Na minha experiência as crises mais graves que já tratei foram por interrupção abrupta de álcool. Aí é que encontramos com maior freqüência o popular Delirium Tremens (DT). Pode ser letal, mesmo com todos os cuidados de que dispomos hoje.

Em seguida, por gravidade, vem a heroína, cuja crise provoca dores insuportáveis, como já dissemos. O número de óbitos também é grande.

Nunca vi abstinência de maconha e cocaína, embora veja muito dependência psíquica com elas e pseudo-crises de abstinência.

Com os ansiolíticos e hipnóticos a abstinência trará exatamente os sinais e sintomas que eles combatem, isto é, abstinência com fortes crises de angústia e insônia, além da distonia do Sistema Nervoso Autônomo, com tonturas, tremores, hipersudorese, queixas digestivas etc.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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