Breves considerações acerca do modelo de causalidade da terapia cognitiva e da terapia analítico-comportamental

Determinar as causas dos comportamentos, pensamentos e sentimentos é de fundamental importância em uma ciência psicológica comprometida com o objetivo de compreender e explicar o ser humano em sua totalidade.
Dentre as centenas de abordagens psicoterápicas que existem, a terapia cognitiva e a terapia analítico-comportamental merecem destaque, na medida em que têm demonstrado eficácia em manejos clínicos e produzido inúmeras pesquisas e publicações científicas. Neste sentido, o objetivo deste texto é explicitar o modelo de causalidade da terapia cognitiva e da terapia analítico-comportamental.

Inicialmente, é importante observar que a terapia cognitivo-comportamental (TCC), embora muitas vezes referida como sinônimo de terapia cognitiva, é uma tentativa de mesclar conceitos, métodos e práticas da terapia cognitiva com a terapia analítico-comportamental. Contudo, como aponta Costa (2002), "defender a compatibilidade, complementaridade e/ou integração entre Behaviorismo Radical e Cognitivismo constitui em uma incoerência teórica que só pode ser explicada pela ausência de familiaridade com os pressupostos de uma ou outra orientação" (p. 44). Por conseguinte, os modelos de causalidade a serem examinados no presente texto dizem respeito às propostas originais da terapia cognitiva e da terapia analítico-comportamental.

Embora exista mais de 25 tipos distintos de terapia cognitiva no mundo (ABREU, 2004), o modelo discutido aqui se refere ao de Aaron T. Beck, seguramente o mais conhecido e utilizado. Beck, um psiquiatra norte-americano insatisfeito com os resultados do tratamento psicanalítico em seus pacientes, desenvolveu na década de 1960 um modelo cognitivo de psicoterapia para o tratamento de depressão, modelo este que foi aperfeiçoado por ele e seus colaboradores em seus aspectos teóricos e aplicados para dar origem a moderna terapia cognitiva (FALCONE, 2001; ABREU, 2004).

Segundo a terapia cognitiva de Beck, os comportamentos e os sentimentos são determinados pelos processos de pensamento, ou cognições, caracterizadas em crenças centrais, crenças intermediárias e pensamentos automáticos. As crenças centrais são estruturas cognitivas constituídas pelas convicções básicas que cada indivíduo tem sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo (por exemplo, "eu sou imprestável"). As crenças intermediárias são compostas por regras e suposições e, em geral, assumem formato de dever (por exemplo, "eu tenho que tirar a melhor nota da classe"). Os pensamentos automáticos, que se desenvolvem a partir das crenças centrais, são interpretações imediatas, rápidas, espontâneas e involuntárias das experiências (por exemplo, "serei reprovado na entrevista de trabalho") (BECK, 1997; BECK, RUSH, SHAW & EMERY, 1979; FALCONE, 2001).

Nesta perspectiva, as estimulações ambientais (experiências da vida) geram interpretações da realidade que, por sua vez, produzem os sentimentos e comportamentos. Portanto, não é a situação ambiental que causa os comportamentos e os sentimentos, mas sim o modo como os fatos da realidade são interpretados em cada situação. Em poucas palavras, os eventos cognitivos são as variáveis fundamentais na explicação do comportamento humano.

Em decorrência dessa conceituação teórica, a terapia cognitiva busca produzir mudanças nas cognições, nos processos de pensamento. Como explicitam Beck, Rush, Shaw & Emery (1979), o objetivo da intervenção psicológica é "controlar pensamentos negativos automáticos, reconhecer as relações entre cognição, afeto e comportamento, examinar as evidências a favor e contra pensamentos automáticos distorcidos, substituir as cognições tendenciosas por interpretações mais orientadas para o real e aprender a identificar e alterar as crenças disfuncionais que predispõem a distorcer experiências" (p. 4). Portanto, o foco da análise e da intervenção psicológica é o mundo das cognições do indivíduo, sendo que o ambiente externo possui um papel secundário na explicação do comportamento.

A terapia analítico-comportamental é uma prática clínica embasada nos pressupostos filosóficos do Behaviorismo Radical e nos conceitos e métodos da Análise do Comportamento, que vem desenvolvendo procedimentos de intervenção terapêutica desde 1953, ano em que B. F. Skinner cunhou o termo "Terapia Comportamental" (ZAMIGNANI, 2007).

Skinner designa o modelo de causalidade do seu sistema psicológico de modo causal de seleção por conseqüências, no qual propõe que as causas do comportamento estão nas conseqüências que ele produz. Segundo este modelo, a determinação do comportamento é produto de processos básicos de variação e seleção, de maneira semelhante à teoria da seleção natural proposta por Charles Darwin, ou seja, os comportamentos são selecionados a partir do efeito que produzem no mundo.

O comportamento humano, na perspectiva behaviorista radical, é determinado por três níveis de variação e seleção – a genética, a história individual e o ambiente social. Nas palavras de Skinner, "o comportamento humano é o produto conjunto (1) das contingências de sobrevivência responsáveis pela seleção natural das espécies e (2) das contingências de reforçamento responsáveis pelos repertórios adquiridos por seus membros, incluindo (3) as contingências especiais mantidas por um ambiente social que evoluiu" (SKINNER, 1981/1987, p. 55).

Por conseguinte, os psicólogos de orientação analítico-comportamental investigam como os comportamentos de cada indivíduo foram selecionados pelos efeitos que produziram e produzem no mundo, isto é, buscam pelas contingências instaladoras e mantenedoras de cada repertório comportamental.

Embora o modelo de causalidade behaviorista radical seja claramente voltado para as relações do indivíduo com o ambiente que se situa "fora de sua pele", os eventos privados, compreendidos como respostas e estímulos que ocorrem "sob a pele" do indivíduo, são objeto de investigação. Skinner explicita a utilidade prática dos eventos privados: "eles são pistas (1) para o comportamento passado e as condições que o afetaram, (2) para o comportamento atual e as condições que o afetam, e (3) para as condições relacionadas com o comportamento futuro" (SKINNER, 1974/1995, p. 31).

Neste sentido, os chamados "fenômenos mentais" ou "processos psicológicos superiores" não são vistos como entidades mentais de uma natureza especial, mas como respostas que são diferentes apenas por ocorrerem "sob a pele" do indivíduo e, por isso, terem acessibilidade limitada.

Além disso, Skinner, em diversas obras (por exemplo, 1953/2003 e 1974/1995), lida com os eventos privados como constituintes do ambiente do indivíduo que se comporta, o que implica em admiti-los como parte do controle do comportamento (TOURINHO, 1997). Nas palavras de Skinner (1953/2003), "(…) o termo ‘ambiente' significa presumivelmente qualquer evento no universo capaz de afetar o organismo. Mas parte do universo está circunscrita no interior da própria pele do organismo" (p. 281).

Ainda, Skinner aponta que os sentimentos não são determinados pelos pensamentos, mas são estados corporais produzidos pela interação do indivíduo com o mundo. Dito de outra forma, os sentimentos são subprodutos das contingências em vigor, sendo que mudanças nestas contingências alteram aquilo que o indivíduo sente. Skinner explica que "nós não choramos porque estamos tristes ou sentimos tristeza porque choramos, nós choramos e sentimos tristeza porque aconteceu alguma coisa" (SKINNER, 1989/2005, p. 103).

Enfim, como aponta Zamignani (2003), na terapia analítico-comportamental "os estímulos e respostas que ocorrem sob a pele do terapeuta ou do cliente podem estar envolvidos em diferentes processos comportamentais e podem exercer um papel importante na construção de um repertório de autoconhecimento" (p. 7), objetivo de qualquer psicoterapia.

Em resumo, a terapia cognitiva de Beck enfatiza que os eventos cognitivos – crenças centrais, crenças intermediárias, pensamentos automáticos – são as variáveis determinantes dos comportamentos e dos sentimentos; consequentemente, o recorte da sua intervenção é internalista. A terapia analítico-comportamental, embora atribua extrema importância para os eventos privados no setting clínico, assevera que é nas relações com o ambiente externo que devem ser buscadas as explicações pertinentes para todo e qualquer comportamento, ou seja, o recorte da análise e da intervenção é externalista.

Por fim, é importante ressaltar que a contraposição dos modelos de causalidade da terapia cognitiva e da terapia analítico-comportamental não é meramente uma discussão de ordem teórica, na medida em que são os pressupostos filosóficos e conceituais de uma abordagem psicológica que orientam sua prática clínica. Neste sentido, as diferentes compreensões que o psicólogo tem das causas dos comportamentos, pensamentos e sentimentos originam intervenções terapêuticas absolutamente diferentes. Em suma, a teoria é, e sempre deve ser, o sustentáculo de qualquer prática psicológica.

Referências:

ABREU, C.N. (2004). Introdução às terapias cognitivas. In: C. N. ABREU; H. J. GUILHARDI (org), Terapia comportamental e cognitivo-comportamental: práticas clínicas (pp. 277-285). São Paulo: Roca.

BECK, A. T.; RUSH, A. J.; SHAW, B. F.; EMERY, G. (1979). Cognitive therapy of depression. New York: The Guilford Press.

BECK, J. S. (1997). Terapia cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Artes Médicas.

COSTA, N. (2002). Terapia analítico-comportamental: dos fundamentos filosóficos à relação com o modelo cognitivista. Santo André: ESETec.

FALCONE, E (2001). Psicoterapia Cognitiva. In: B. RANGÉ (org), Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria (pp. 49-61). Porto Alegre: Artmed.

SKINNER, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

SKINNER, B. F. (1974/1995). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix.

SKINNER, B. F. (1981/1987). Selection by consequences. In: B. F. Skinner, Upon further reflection. Englewood Clifs, NJ: Prentice Hall.

SKINNER, B. F. (1989/2005). Questões recentes na análise comportamental. São Paulo: Papirus.

TOURINHO, E. Z. (1997). Evento privado: funções e limites do conceito. Psicologia Teoria e Pesquisa, 13, 2, (pp. 203-209).

ZAMIGNANI, D. R. (2003). O papel dos eventos privados para a construção do autoconhecimento na terapia. ABPMC Contexto, 28 (pp. 07-10).

ZAMIGNANI, D. R. (2007). Por que terapia analítico-comportamental? RedePsi (disponível em http://www.redepsi.com.br/portal/modules/soapbox/article.php?articleID=113), 07 mar. 2007.

* Agradeço à Profa. Ms. Yara Claro Nico pelas sugestões e revisão crítica deste texto.

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