Voltando aos gregos I

Necessário versus Contingente

Essência versus Acidente

A Ciência deve estabelecer teorias baseadas em leis universais daquilo que é necessário e não daquilo que é contingente

Aristóteles também determinou isso pela primeira vez. O conceito de  "universal" inclui todos (absolutamente todos) os elementos de uma categoria estudada. Por exemplo: Se a teoria refere-se a doenças de cachorros, essa teoria deve abranger todos os cachorros de qualquer local do planeta e em qualquer tempo. Servirá para os cachorros medievais, para os atuais e para aqueles que ainda não nasceram.

O conceito de necessário refere-se "àquilo que tem que ser de qualquer modo". Ou ainda, "àquilo que não pode não ser". Exemplo de evento necessário: "Todo dia, ao amanhecer, o sol nasce". Ou ainda, "Toda vez que deixamos água no fogo, ela ferve".  Nós não conseguimos conceber colocar a água no fogo e ela congelar. Aquilo que é inconcebível que seja de outro modo, é o que chamamos de evento necessário.

O conceito de contingente refere-se àquilo que "pode ser ou pode não ser". "Tanto faz uma coisa ou outra, ambas podem ocorrer, eventualmente". Exemplo de evento contingente: "O meu cachorro latirá ao ver o padeiro, ou não". "A flor que nasceu no meu jardim desabrochará hoje, ou não". O contingencial é aquilo que pode variar, que não é sempre do mesmo modo.

Não dá para fazer ciência de coisas imprevisíveis. Coisas contingentes não possuem a capacidade de fundamentar teorias científicas. Também não conseguimos fazer qualquer tipo de conhecimento verdadeiro sobre situações contingentes. Por exemplo: uma teoria que dure um dia. Somente as necessárias são, a argamassa da ciência. Aristóteles já postulava isso há 3 mil anos. Além disso, o cientista não pode fazer uma teoria sobre seres particulares ou singulares. Precisa ser sempre sobre os universais.


As leis universais da teoria científica são fundamentadas em conceitos essenciais e não nos acidentais

Essa é uma distinção de Platão, devidamente reelaborada e aplicada na ciência por Aristóteles. Conceito de essência refere-se "àquelas qualidades que sem elas um ente deixa de ser ele mesmo". São propriedades que somente aquele tipo de ente possui, e nenhum outro mais. A essência é a propriedade que sem a qual, o ente deixa de ser aquilo que ele é, na sua especificidade. É aquilo que determina a diferença específica de um ente. É o que faz, por exemplo, com que você reconheça que um passarinho é um tico-tico em vez de um bem-te-vi. São as propriedades corporais que fazem com que você saiba que uma tartaruga não é um camelo. Ou que um filhote de ser humano não é um macaco antropóide.

A "essência" para Aristóteles era muito diferente da "essência" para Platão! Para este pensador matéria e forma eram separadas. As essências eram pura forma e existiam em um mundo à parte do nosso: no mundo das Idéias, onde não havia matéria.  Este era um dos pontos que Aristóteles divergia de seu mestre Platão. Aristóteles criou o conceito de "substância", e este conceito colava  "matéria e forma", ou seja, "matéria e essência" eram grudadas em qualquer um dos seres desse mundo. Com isso, quando um filósofo procurava a essência de algum ente, procurava-a no seu próprio corpo. Isso possibilitou um saber verdadeiro sobre nosso planeta Terra e não sobre o mundo das Idéias.

Além disso, dá para perceber que no pensamento grego, a Lógica, a Metafísica e a Ciência eram inseparáveis. Quando você descobria uma "definição" (Lógica), você ao mesmo tempo descobria a essência do ente estudado (Metafísica) e aumentava o seu corpo de conhecimento verdadeiro sobre o mundo (Ciência).

O interessante é que os gregos, nessa época clássica, tinham uma visão de mundo onde as partes principais da Filosofia andavam indissoluvelmente ligadas e integradas entre si. Por exemplo: a Ciência (o saber verdadeiro) gerava o bem (a Ética), que por sua vez resultava no esplendor do Belo (a Estética). As áreas do saber eram integradas entre si. E o ser humano sentia-se integrado no cosmos, pois o saber verdadeiro era uma forma de realmente desvendar como era o mundo.  


Qual é a essência do ser humano
?

Toda vez que se faz essa pergunta, alguém responde: é a alma. Quando respondemos a essa pergunta dessa maneira, fica implícito que a "alma" é uma "essência individual". Por exemplo: a minha alma caracteriza a minha individualidade, a minha "essência" e não a sua. Esse modo de encarar a "essência" é hebraico-cristã e não grega ou filosófica. Quando um filósofo pergunta "Qual é a essência do ser humano", quer as características que fazem com que o gênero humano seja diferente de qualquer outro ente do planeta. Só as diferenças específicas. Por exemplo, se a resposta for: o ser humano é um ser mamífero, bípede, sem bico. Quantos tipos de seres se encaixam nessa descrição? Muitos tipos de macacos, pelo menos.

Existe uma história pitoresca, porém real, que ocorreu na Academia de Platão. Conta-se que Platão e seus discípulos estavam numa discussão acirrada, havia vários dias, exatamente pretendendo resolver essa questão: "Qual é a essência do homem"?  Após muito debate, chegaram a um veredicto: "O homem é um bípede implume". (bípede = anda sobre duas pernas, e não quatro; Implume = não possui penas sobre o corpo).  Após essa definição do homem ser espalhada por Atenas, a Academia recebeu uma visita dos Cínicos, grandes rivais da famosa Academia. Os cínicos depositaram uma galinha depenada em cima da mesa e falaram: "Eis aí um homem!"

Essa história serve para ilustrar a dificuldade de se encontrar racionalmente a essência dos entes do mundo. Foi Aristóteles quem conseguiu obter a descrição daquilo que é a essência do ser humano "O homem é um animal racional". A racionalidade complexa, como a dos humanos, é a grande diferença que existe entre nós e os outros seres do planeta Terra. Ou seja, a essência do ser humano é a racionalidade. É isso que nos diferencia de qualquer outro ente do universo.

Qual é a essência de uma ave? Segundo a Ciência atual, a essência da ave é "uma das cinco classes de vertebrados, de sangue quente, bípede, ovípara, de corpo coberto de penas, com bico córneo, e não tem dentes".   Como se pode descobrir a essência de um ente do mundo na atualidade? Simples: é só abrir um dicionário. Esse trabalho de detectar a essência de cada coisa já foi realizado pelas diversas Ciências e transferido aos dicionários. Portanto, a essência, a partir de Aristóteles, descobre-se fazendo a definição do ente estudado.


O que é acidental?

Os seres do mundo não possuem somente características essenciais. Possuem também várias outras características que não entram na definição da essência, que são as características acidentais.

Propriedades acidentais são aqueles atributos corporais que se existirem ou não, não modificam a essência do ente estudado. Por exemplo: Propriedades que podem existir ou não no ser humano: ser careca; ter olhos azuis; ser magro; ser muito falante; ter cabelo enrolado; ser branco ou negro etc.

Não devemos confundir "características acidentais" com "acidentes": acidente de carro, de moto, outros. Devemos lembrar ainda, que "contingente" refere-se a situações, eventos da natureza ou do homem. E "acidental" não se refere a situações, acontecimentos, mas sim a propriedades do corpo de um ente estudado.

Por isso, a Ciência se preocupa principalmente com as características essenciais, para realizar as suas teorias. Ou então, ela universaliza algumas características acidentais e as estuda em separado.


Passemos essas noções para a Psicopatologia.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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