NA CONTRA MÃO: Uma crítica à prática do cotidiano

CAMPANHA: “Faça silêncio e desligue o celular”

De tempos em tempos, surgem novas ondas que representam os fenômenos contemporâneos do consumismo desenfreado e a política do “Eu quero, eu posso, eu tenho!”.

Fenômenos estes que variam à medida que surgem novas descobertas e apresentam-se a um público cada vez mais dependente e, por que não dizer, cada vez mais alienado1. Esse processo de alienação não é assim tão simples. Não basta apenas surgir uma nova moda ou um novo conceito para que ele se faça acontecer. Não! É preciso muito investimento e inteligência para reduzir obras complexas em termos medíocres que irão conduzir o percurso deste novo conceito, ou seja, tudo tem que ser traduzido e deve
estar ao alcance do dedo como o botão de um controle remoto. Difícil não?
De acordo com Karl Marx2, (fi lósofo alemão que desenvolveu preocupação com o regime e relações de produção do sistema capitalista e, como conseqüência, o processo de alienação provocado por ele), um indivíduo torna-se alienado quando passa a ter um trabalho mecanizado, com um grau elevado de objetivação e deixa de pensar por si só, em função da “pseudo-necessidade” de manter- se vivo enquanto mera mercadoria de troca dentro de uma organização. Isto porque se este indivíduo mostrar- se de fato e suas idéias não estiverem de acordo com os interesses gerais do grupo no qual está inserido, ele determinará sua própria morte dentro do sistema.
Para citar um exemplo, vejamos a maneira como utilizamos o telefone celular: não importa o quanto este aparelho será inconveniente se for acionado em momento inoportuno, isto sem contar os atrativos dos modelos mais caros
que trazem recursos como câmera digital, tocador de música, etc.

O importante mesmo é mantê-lo ligado e, de preferência, no máximo volume para que não percamos a chamada, nem sempre imprescindível. E aí, tanto faz estarmo numa biblioteca, num cinema, num teatro ou numa sala
de aula, pois, o ambiente é que na verdade será mero acidente de percurso. Pior do que ouvir a campainha ou aquelas “musiquinhas legais” personalizadas do telefone alheio, só ouvir o sujeito atender e iniciar a conversa como se nada mais existisse à sua volta. Neste caso, a alienação funde-se com a permeação3 na máxima cotidiana do “Oras, mas isso todo mundo faz!”. Cada vez que nos deixamos levar por esse pensamento, alimentamos a ideologia4 do “mal necessário” para nos mantermos conectados uns aos outros. Mas a banalização da necessidade de relacionamentom não estaria corrompendo os preceitos desta
necessidade? Sendo assim, sugiro a criação da campanha:“Faça silêncio e desligue o celular!” para desenvolvermos alguma consciência (se é que ainda nos sobra alguma) e evitarmos o processo de “anulação da personalidade individual5 enquanto membros de uma sociedade.
Porém, cabe uma questão: Até que ponto isto também não se torna reprodução de ideologia?

Sugestão de leitura: Psicologia Social: o homem em movimento. Silvia Lane e Wanderlei Codo (Org.) 1984.

Rudemberg de Almeida é coordenador do jornal
zinePREPSICO e aluno de Psicologia – UPM/SP.
[rudemberg@gmail.com]

1-Alienar – do latim alienare. Tornar alheio; perder o juízo;
2-(1818 – 1833). Visite o Wikipedia.org para obter mais
informações sobre Karl Marx;
3-Permear – do latim permeare. Fazer passar pelo meio;
penetrar.
4- Ideologia – do grego idea + logos. Ciência que trata da
formação das idéias sem levar em conta a história dos fatos.
5-http://pt.wikipedia.org/wiki/Aliena%C3%A7%C3%A3o

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