Catatimia

Apenas um lembrete que penso ser fundamental em nosso ofício.

Já insistimos que a divisão da personalidade em áreas tem somente uma utilidade para a didática de ensino, com o grande perigo de levar à falsa idéia de que essas instâncias pudessem ter alguma autonomia entre si. Na verdade, somos um permanente resultado final da fusão sincrônica destas três áreas: emoção, razão e vontade. Entretanto, poderá haver valências diferentes para cada setor, e, efetivamente, é o que acaba acontecendo em qualquer transtorno mental: um desequilíbrio vetorial das forças que estão em conflito no núcleo da personalidade.

A meio termo da patologia encontramos um humano fenômeno universal, decantado por poetas e filósofos, como em: "O coração tem razões que a própria razão desconhece" (Pascal). Os povos de "sangue mais quente" que o digam: não há dúvida que um latino, por exemplo, é mais passional do que, por exemplo, um anglo-saxão. Em uma metáfora: o coração fala mais alto que o cérebro.

Catatimia é o fenômeno observado quando a emoção turva a razão. É ela que provoca os chamados estados passionais, previstos em lei pelo Código Penal Brasileiro: "… quando o indivíduo cometer o delito sob forte emoção…", o que permite atenuar a aplicação da pena judicial, pois o réu não estaria, assim, plenamente consciente (razão) no momento do delito, e, portanto, não podendo ser totalmente responsável (responder) pelo mesmo, diminuindo a sua imputabilidade legal e jurídica.

Dificilmente irei esquecer de uma senhora idosa que visitava regularmente, aos domingos, seu filho interno no Manicômio Judiciário de São Paulo. Levava-lhe, sempre, seu bolo preferido, e dizia a todos os demais visitantes que seu filho era a melhor pessoa do mundo, e que era uma injustiça ele estar ali naquela situação. Bem, essa mãe não conseguia avaliar, racionalmente, a condição de seu filho, um psicopata homicida contumaz, já ter, naquela altura, praticado três latrocínios (assalto seguido de morte), e de modo cruel.

O povo brasileiro tem duas grandes paixões: futebol e carnaval. O time e a escola de samba de cada um é sempre o melhor do mundo.

Mesmo um soldado em frente de guerra também é movido pela catatimia: o amor pela pátria. Em outras palavras, um pedaço de terra acaba valendo mais que a vida de um ser humano. E assim vai.

Tem-se falado muito em quociente emocional, o QE, que, para efeitos de empregabilidade tem valido mais que o QI, quociente de inteligência. Pois é, a inteligência emocional é decisiva na hora de alguém ter de mostrar seu intelecto. É comum na hora de uma prova, mesmo o candidato estando bem preparado, dar "branco" acompanhado de angústia, e o resultado final acabar em reprovação.

A realidade da catatimia nos mostra que nunca devemos tomar decisões importantes para as nossas vidas enquanto estivermos fortemente comovidos.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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