Educação – Os filhos da classe média

Esse trabalho é mais um “pensar em voz alta” do que qualquer outra coisa. Visa muito mais partilhar impressões e sentimentos, do que pretensiosamente apontar caminhos.  Foi escrito há algum tempo e guardado. Nesse “ventilado” fórum Rede Psi, pensei que ele poderia promover outros frutos, outros pensamentos, outros textos etc, concordando ou não, suprimindo ou acrescentando. É então bem mais um relato de uma experiência do que um texto que oriente sobre como educar, até porque desacredito totalmente dessa possibilidade, a de ensinar como educar. Vamos a ele, então!

Hoje, muito se discute em torno de como retomar a imposição de limites nas diferentes etapas de crescimento das nossas crianças.  Certo está, de que a velha maneira não mais se aplica, a "inocente palmada já não mais é tolerada, castigos longos e intermináveis também já se comprovaram sem efeitos positivos; a retirada de benefícios se mostrou alcançando efeitos contrários aos desejados. O que fazer? Perguntamo-nos a todo instante. Como fazer para que nossas crianças e jovens entendam que:” para cada ação corresponde uma reação de efeito igual ou contrário “e que sempre enfrentaremos, queiramos ou não, as conseqüências de nossas escolhas? Como diria o oráculo:” A resposta está na pergunta”. Precisamos ajudar nossas crianças a encararem as conseqüências de suas escolhas, sem desespero e sem nos sentirmos avaliados. Precisamos entender, que aprendemos muito com nossas tentativas, e que temos a obrigação de respeitar o direito ao erro de nossas crianças, e, mostrar-lhes que essa experimentação tem limites bem definidos e claros. O diálogo e a proximidade se constituem em nossa maior tarefa e desafio, ao mesmo tempo em que é nossa maior conquista. Começa ela, ali na infância, quando mesmo exaustos após um dia de trabalho, podemos nos sentar e assistir com prazer à programação animada de desenhos e animes junto aos nossos filhos, verdadeiramente interessado em compartilhar com eles, esse estranho mundo da criação. Ou quando o professor entra em sua sala de aula, e embora com seus problemas pessoais, cria uma atmosfera de alegria e troca dentro da classe e promove uma fala de acolhimento e inclusão. Quando toda a família trabalha no sentido de criar, manter e explicitar o lugar que ocupa a criança dentro de uma dinâmica que já se determinava antes de sua existência.

Deixamos de conversar com nossas crianças, já não temos tempo, e suas respostas desconcertantes não nos permitem atuar dentro do papel de "adulto" que aprendemos com nossos pais. Sem que nossos chavões funcionem, paramos perplexos, e estamos deixando que cresçam sozinhos, perdidos em seus mundos, muitas vezes exercendo uma crueldade ímpar, porque as crianças são naturalmente capazes de crueldades impensáveis e, diferente de nós, elas têm a exata noção do prazer que isto lhes causa.

Escuto todos os dias comentários acerca do desvio de comportamento de muitos de nossos jovens.  Os índices de consumo de drogas está quase ao nível de calamidade pública. Embora sabendo que isso deve ser analisado dentro de uma leitura de um contexto sócio-histórico, com efeitos diferentes nas diferentes classes sociais, há que se pensar nessas gerações que hoje são nossas crianças e adolescentes.

Não podemos e não devemos mais adiar a tarefa de buscar um canal possível de diálogo, mesmo que para isso, em muitos momentos, nos afastemos de velhos conceitos de autoridade (como impor horário rígido de dormir em plenas férias, não deixar autoritariamente que assistam tal programa, porque mesmo sem conhecer, alguém nos falou que é pernicioso, etc.).  Temos que tentar construir uma nova dinâmica, reconfigurar papéis e descobrir novos rumos.  Só poderemos fazer isso falando francamente, sem abanarmos a esmo o velho manual de regras.

Sempre me espanto, quando freqüento uma reunião de pais, com o nível de debate que acontece nessas ocasiões, saio sempre quase convencida que criamos verdadeiros monstros, e que nós os adultos, devemos ser quase beatificados.  Olho pra dentro de mim e tenho pena de meus filhos, porque não sou tão pura, tão ética, nem tão maravilhosa como os outros pais que falam.  Olho para o meu lado, sentada está minha amiga, me lembro rindo de quando matávamos aulas para falar dos namorados ou simplesmente desfrutar da sensação de liberdade.  Acho que nesta reunião ninguém, além de minha amiga e eu, cometeu tamanho desatino.  É um vozerio, todos reclamam ao mesmo tempo: “- as meninas dobram os shorts, os meninos usam calças desbotadas, casais se agarram despudoradamente na frente da escola, meninos gritam palavrões, etc.” Meio incomodada, levanto o dedo e espero pelo menos uns dez minutos até que o mediador da reunião, também inflamado, me passe à palavra.  Faço uma única e simples pergunta: quando foi a última vez que você se lembra de ter só perguntado, sem engatilhar nenhuma crítica, verdadeiramente preocupado e atento ao seu filho, se ele é feliz? Silêncio…  É deste silêncio e dessa tal felicidade que me proponho a falar. Lembrando que vivemos hoje em uma sociedade bastante perdida e conturbada, essa é a fundamentação dessa reflexão aqui empreendida.

Aqui, abordarei o problema da chamada "crise dos limites em nossas crianças", analisando-a de maneira óbvia, porque acredito que, às vezes, temos que nos lembrar das regras mais evidentes e das conclusões mais banais.

A criança nos encanta em sua primeira infância pela capacidade de se mostrar feliz.  Quem nunca se surpreendeu sorrindo ao ouvir a explosão de gargalhada de uma criança?  Quem nunca experimentou aquele momento de diversão, junto a um ser mandão e cheio de ordens que te pediu para repetir a brincadeira umas mil vezes, esbarrando no limite de sua paciência?  Ainda assim, conheço poucas pessoas que não se deixam encantar por esses pequeninos e sua capacidade de ser feliz, e da sua inesgotável tendência a dar ordens imitando o padrão do mundo adulto, de uma maneira caricatural que nos faz rir de nós mesmos e talvez acessar um pouco antigas lembranças que nos fizeram quem somos hoje.

Mas então, de repente a tempestade, a disputa dos titãs irmãos ou amigos, o embate de dois egos, pancadaria e choradeira.  Quem será que está com a razão?  Um chora e diz que a culpa foi do outro, enquanto este grita desesperado porque apanhou primeiro.  Ou ainda, está na hora em que temos que interromper a brincadeira prazerosa porque terão que executar alguma, das muitas tarefas obrigatórias (como tomar banho, ir para a escola, dormir, fazer os deveres de casa, etc.).  Quem não sonha em dar a ordem e ser imediatamente obedecido, sem argumentação ou o famoso: – "Espera um pouquinho!”.

Sem dúvida são as situações do dia a dia que mais esbarram na questão dos limites, e quase sempre, é mais fácil deixar pra lá. Mandar simplesmente ou negociar dá muito mais trabalho e é infinitamente mais desgastante, porém são nestas situações do cotidiano que se constrói a subjetividade e a noção do eu e do outro, do sentido mais exato do mundo coletivo e do social.  É preciso entender que os limites não são somente castradores, mas são também, e principalmente, protetores e socializantes, desde que sejam operados no seu sentido mais exato de afeto e cuidado. Por essa razão mesmo, devem conter em si sempre alguma flexibilidade e possibilidade de escuta.

A criança até a aproximação da pré-adolescência é capaz de expressar com muita franqueza o que está sentindo, não esconde nem dissimula.  Estes são os aprendizados que nos mostram a aproximação da zona de conflito da adolescência, com seus jogos e testes, que são capazes de enlouquecer verdadeiramente alguns pais.

Alguns se enganam, acreditando que sua relação com o filho era muito boa até sua entrada na adolescência.  Isso tem se demonstrado um engano, uma leitura errada da subjetividade desta relação.  Acredito que para que pais e filhos estejam bem preparados pra atravessar esse período da adolescência, será sempre necessário que se tenha organizado uma boa bagagem durante toda a infância do filho.  Isto é feito, quando se aplica tempo e afeto na proximidade, quando procuramos ir mantendo a conversa através das diferentes áreas de interesse, que mudam durante este período, e então, quando a adolescência vem chegando, se percebe a lenta mudança de assuntos, algumas áreas de silêncio, um certo desconforto na aproximação corporal que se alterna com grandes momentos onde você tem no colo uma criança de corpo grande e desengonçado.  As mudanças são graduais, avançam e retrocedem como se quisessem nos ensinar a lidar com elas, não devemos nos fazer de surdos, nem se recusar a entendê-las, muito menos freá-las tentando nos dar mais tempo.  Tem que ser como se deixar levar por uma música, mesmo que muitas vezes não seja a nossa predileta.  É preciso entender que não se trata de nós, os adultos, mas deles, os nossos queridos e adoráveis (às vezes intratáveis) adolescentes.
            
Enquanto alguns pais se esforçam em tentar diminuir a velocidade do crescimento de seus filhos, outros sonhando com o retorno de sua total liberdade (falsa ilusão, porque como dizem as avós: "filhos criados, trabalho dobrado") querem acelerar este crescimento, forçando muitas vezes ao enfrentamento de situações para as quais ainda não estão emocionalmente preparados, embora até a desejem.  Liberdade que não é conquistada traz um travo, um gosto amargo de rejeição.  Eles se sentem como alguém que está incomodando e passam a agir desta maneira, então começam a chegar reclamações de todos os lados: do condomínio, da escola, dos avós, da mãe do amigo, etc., ou seja, de todos os lugares onde ele é avaliado socialmente.  Quando esta situação é entendida logo de início, muitas vezes basta dar uma freada na aquisição de liberdade e a situação se transforma.  Paradoxo: àquele que clama veementemente por liberdade vira um gatinho bem alimentado.  Em última instância é sempre uma questão de demonstração do nosso afeto. Resta saber se esses cuidadores podem afetivamente retroceder, para cuidar.

Até aqui estou falando de relações que possam atravessar dificuldades, mas onde não haja situações mais graves ou pais com fortes e perversos bloqueios ou traumas, nestas outras situações, a melhor coisa ainda a se fazer, é procurar ajuda especializada.  Eu sugiro sempre que antes que se apressem em mandar para a psicoterapia o jovem, que a busquem os pais, juntos ou separados, ou pelo menos um deles.  Muitas vezes os problemas apresentados são resultados de uma dinâmica familiar que precisa ser esclarecida e corrigida.

Há pouco tempo tomei conhecimento de uma situação que usarei como exemplo, embora eu mesma não tenha tido a oportunidade de trabalhar com a jovem.  Essa menina, uma jovem já fora da faixa etária conhecida como adolescência, vive desde muito nova, na cobertura do apartamento onde pretensamente mora com os pais, embora tenha uma localização totalmente isolada.  Vive assim desde seus 14 anos, eles não sabem quando ela sai, quando entra ou mesmo com quem.  Sempre avisam respeitosamente quando vão subir para falar com ela.  Muitas jovens suspirarão pensando que sonham com essa situação.  Engano!   Essa menina vive totalmente infeliz e não se dá conta das inúmeras agressões que faz a si mesma, seja através de um namoro onde é o tempo todo física e psicologicamente maltratada, seja pelas inúmeras vezes em que se coloca em situações onde há um evidente risco de vida.  Temo pela integridade desta jovem e pouco ou nada posso fazer.  Seus pais são surdos, cegos e insensíveis ao seu sofrimento e ela atormentada segue pela vida repetindo seu padrão de abandono e rejeição.  Tem uma vida confortável e à sua disposição tudo que o material pode oferecer, mas não tem o principal: o afeto que orienta e protege.  Ela sai e comete desatinos, e eu me pergunto quem precisa de limites, quem precisa de interdição, ela ou seus pais?

A verdade é que somos os pais que viveram os anos 80 e não estamos querendo falar disso, pulamos envergonhados dos anos 70 para os 90.  Precisamos com urgência discutir limites, mas antes deles discutir afeto e relação. E, nessa discussão, seria bem melhor começarmos a nos incluir e parar de culpar a mídia (que é construída por nós), a tecnologia ou a liberdade que demos tanto duro para conquistar.  Acho que temos que ter um certo orgulho de nossos acertos e sincero arrependimento quanto aos desacertos, mesmo e principalmente frente aos nossos filhos.  Vamos realizar essa tarefa?

Penso que está na hora de virarmos sujeitos de nossas sentenças, incluirmo-nos em cada frase, comecem elas por: os pais, os brasileiros, os adultos, etc. Na próxima vez que numa conversa for construir uma crítica, se inclua, por exemplo:- Nós, os brasileiros somos… Ou Nós, pais não… Ou ainda Nossos filhos estão se tornando…, Etc. e se experimentará a sensação de tornar-se de repente um crítico bem mais complacente e bem menos severo, mas com certeza mais comprometido e responsável.

A cada vez que uma criança ou um jovem apresenta um problema os pais se sentem imediatamente avaliados.  Penso que esta foi uma conseqüência de uma popularização equivocada de alguns conceitos psicanalíticos, e de uma prática um tanto quanto selvagem destes conceitos, por profissionais igualmente equivocados.  Popularizou-se uma versão acusatória dos pais, o que criou imediatamente um movimento de defesa dos mesmos.  A solução de todo este equívoco, de conseqüências lamentáveis, poderá estar, talvez, em pararmos de procurar culpados e estabelecer relações causais recíprocas entre os fatos, ou mesmo dialéticas.  Todos somos culpados e inocentes, algozes e vítimas, responsáveis e dependentes.  Sofremos todos: adultos, crianças, jovens.  Estabelecendo conexões ao invés de culpas talvez possamos encontrar novas saídas que desemboquem em diálogo e salvação para pais e filhos, educadores e educandos, docentes e discentes, avós e netos, etc.

Analisemos então o seguinte: Cada novo problema exige uma nova escuta e nova abordagem.  É preciso escutar seus sussurros, enfrentá-lo não como obstáculo, mas sim como percussor de um novo fato.  Não existem problemáticas iguais, porque cada uma se refere a um sujeito único em situação de vida inigualável.  Então, se surgiu um problema, escute-o, veja o que ele te diz a respeito de possíveis equívocos. Converse com a criança ou jovem, coloque-se no seu lugar e veja se consegue fazer com que ele faça o mesmo em relação a você.  Caso seja uma situação menos complexa não demorará mais que alguns minutos para que os dois estejam sorrindo, compreendendo verdadeiramente o universo de seu opositor e procurando junto um acordo que contemplem os dois interesses, já não tão antagônicos, como pareceu à primeira vista.  Os dois procuram afeto e harmonia, o objetivo é igual para ambos, só os meios é que são diferentes.  Nada é tão trágico ou incontornável, nem tão definitivo. Um ano que se repete na escola é só isso, um ano a se repetir e muito a se encontrar mais à frente.  Não obstrua a estrada com entulho de mágoas e avaliações.

Autoridade é ter a certeza de que nossos filhos pensam a vida como uma possibilidade de ser feliz; como respeitam o próximo, são solidários e incapazes de agressões gratuitas como forma de exibição de sua força; como também não se agredir e não experimentar o que sabem que os colocam em sérios riscos.  Isto é autoridade, é o que demonstra uma criança amada e orientada e um jovem seguro, que conhece os limites como algo que protege e não que castra sua possibilidade de ser.  No que se começa a fazê-lo, percebe-se um conforto e uma facilidade nunca pressentida ou pensada.

A vida seria algo menos tempestuoso se tivéssemos um manual que nos dissesse como lidar com cada situação, mas isso não existe e é pouco provável que seja possível, já que cada situação é única porque parte de seres únicos, inconfundíveis e individualizados em seus sentimentos e história.  Então, já que temos de desistir desse manual que tal aprendermos a utilizar nossas emoções ao nosso favor e não contra nós mesmos? Que tal usá-las para resolver problemas ao invés de culpá-las por nossos equívocos?  Nada é tão simples, porém também não tão complexo.  Todos queremos fazer o nosso melhor, só que cada um entende o "melhor" dentro de sua própria subjetividade.

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".
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