Danos cerebrais por traumas psíquicos

Martin Teicher (2002) relata ter verificado que pacientes borderline por ele examinados, que tinham sido vítimas de maus-tratos na tenra infância (físicos ou psíquicos, incluindo abuso sexual), apresenta­ram desenvolvimento imperfeito do sistema límbico.

Martin Teicher (2002) relata ter verificado que pacientes borderline por ele examinados, que tinham sido vítimas de maus-tratos na tenra infância (físicos ou psíquicos, incluindo abuso sexual), apresenta­ram desenvolvimento imperfeito do sistema límbico. O déficit de desenvolvimento caracterizava-se por diminuição do tamanho das referidas estruturas subcorticais, sendo a anomalia restrita ao hemis­fério esquerdo, particularmente nas regiões frontal e temporal. Esses pacientes apresentavam um traçado eletroencefalográfico semelhante ao da epilepsia do lobo temporal, isto é, com lesão do hipocampo e sobrecarga de excitação na amígdala. Essas experiências, iniciadas em 1984, foram confirmadas sucessivamente por diversos cientis­tas, sendo que, em 2001, Martin Driessen, na Alemanha, "relatou uma redução de dezesseis por cento no tamanho do hipocampo e de oito por cento no tamanho da amígdala de mulheres adultas com transtorno de personalidade borderline e uma história de maus-tra­tos na infância". (Teicher, p. 52)

Teicher mostra que a ação devastadora do estresse sobre o hipocampo se deve a este núcleo possuir quantidade de receptores de cortisol (hormônio da supra-renal relacionado com o estresse) muito maior que a maioria dos outros núcleos cerebrais. Desse modo, durante um incidente traumático de natureza emocional, quando uma grande quantidade de cortisol é liberada, o hipocampo sofre a maior carga. Uma vez que a maturação desse componente do sistema límbico é lenta, somente se completando aos 2 anos de idade, se o trauma for muito precoce, suas conseqüências podem ser desastrosas, em razão de aquele núcleo ainda não estar plenamente desenvolvido.

Quanto à amígdala, sua alteração se deve ao impacto sobre seus receptores de ácido gama-aminobutírico (GABA), um neuro­transmissor que tem ação inibitória primária sobre os processos de excitação dos neurônios, diminuindo-Ihes a intensidade. Com a defi­ciente inibição dos processos de excitação, os neurônios na amígda­Ia são deflagrados com facilidade, produzindo exagerado nível de irritabilidade, de modo que emoções primárias, em especial as de medo adquirido e condicionado, bem como as reações agressivas, eclodem com grande intensidade. Por seu turno, estando o hipocampo com seus neurônios atrofiados, sobretudo pela ação do cortisol, per­de parte de sua capacidade de recuperação das lembranças verbais e emocionais, dificultando a ação do córtex (razão) sobre os estados emocionais primitivos originados da amígdala.

É importante observar, a esse respeito, que um estímulo recebi­do pelo cérebro percorre dois circuitos:

1. primeiro, agindo em nível exclusivamente subcortical, isto é, inconsciente, passa do tálamo di­retamente para a amígdala e daí para a descarga (emoção);

2. segun­do, antes de chegar à amígdala, passa pelo córtex, daí tomando o caminho do hipocampo, de onde prossegue para a amígdala, a partir da qual se descarrega como emoção.

Portanto, o córtex intermedeia a descarga emocional através do hipocampo. Estando este lesado, a ação racional perde a capacidade de interferir no processo, que se manifesta sob a forma de impulsividade.

São mostrados ainda outros efeitos do estresse provocado por negligência e maus-tratos na infância. Além das ações acima descri­tas sobre os hemisférios, há ainda um efeito sobre o verme cerebelar, estrutura do cerebelo que modula a produção e liberação pelo tronco cerebral dos neurotransmissores dopamina (com ação maior no he­misfério esquerdo) e noradrenalina (com ação maior sobre o hemis­fério direito).

O verme cerebelar ainda é mais vulnerável que o hipocampo à ação do cortisol e outros hormônios produtores de estresse. Isto se torna tanto mais relevante quando se tem notícia de achados recentes que, segundo Teicher, relacionam anomalias do verme cerebelar com o Transtorno Afetivo Bipolar, a Esquizofrenia, o Autismo, o Distúrbio de Atenção e a Hiperatividade.

Esse conjunto de dados levam o autor a concluir que o distúrbio de personalidade borderline e o comportamento anti-social são pro­dutos de conduta inadequada do ambiente no desenvolvimento in­fantil, conducente a lesões do sistema límbico, com irritabilidade elétrica geradora de sintomas de agressividade anômala e angústia paroxística, com repercussão nos processos cognitivos. Cita, a pro­pósito, a clássica experiência de Harlow com macacos criados por mães artificiais imóveis (de arame e de pelúcia), que se tornaram transviados e altamente agressivos quando adultos. Descobriu-se depois que "esses distúrbios eram menos severos quando as mães ar­tificiais, em vez de imóveis, eram balançadas e movidas de um lado para outro, sendo a melhora atribuída ao efeito do balanço sobre o cerebelo do bebê-macaco". Estando o cerebelo envolvido no equilí­brio do corpo, o efeito do balanço sobre o verme cerebelar contri­buiu para atenuar o devastador efeito estressante da ausência da mãe natural, presumindo-se que o movimento desta (no ato de embalar) contribui para a estabilização do verme cerebelar do filho.

No caso do ser humano agressivo, particularmente o de trans­torno grave de personalidade (borderline e anti-social), o efeito do cortisol sobre a amígdala impede a ação inibitória do ácido gama­-aminobutírico (GABA), tornando suas células irritáveis e prontas para a descarga. A ação desse hormônio sobre o verme cerebelar tem repercussão sobre os neurotransmissores produzidos e liberados pelo tronco cerebral (dopamina e noradrenalina), prejudicando a integração entre os dois hemisférios, sobretudo no que concerne à atenção. A atrofia do hipocampo prejudica a influência cortical sobre os proces­sos emocionais. Por seu turno, a atrofia do hemisfério esquerdo pa­rece ser uma atitude defensiva, de natureza adaptativa, contra a massacrante incidência de experiências afetivas negativas percebi­das pelo hemisfério direito. Todo esse conjunto de anomalias contri­bui para a eclosão de impulsos pertencentes a estágios evolucionários primitivos do padrão luta e fuga, ou ataque e defesa, que colocam os indivíduos em situação de riscos constantes. Dentre esses estágios primitivos, Teicher lembra a conduta de promiscuidade sexual que costumam ter os portadores de transtornos graves de personalidade, que precisam, dessa forma pri­mitiva de sexualidade, como meio adaptativo – ou seja, para darem seqüência à vida têm de relacionar-se sexualmente de forma intensa e indiscriminada, já que suas condutas os levam a riscos constantes, sendo elevado o índice de comportamento autodestrutivo entre eles. Enfim, para sobreviverem em um ambiente inóspito e hostil, têm de retornar a uma etapa anterior da evolução humana em que o hemis­fério esquerdo ainda não predominava,

Os estudos que levaram a essas conclusões foram feitos com portadores de transtornos de personalidade, mas é presumível que algo semelhante ocorra em outras patologias, inclusive nas neuro­ses, uma vez que, segundo Teicher, anomalias na regulação da dopamina e da noradrenalina, neurotransmissores cuja regulação sofre a influência do verme cerebelar, estão implicadas na esqui­zofrenia, na depressão, no autismo, na hiperatividade com distúrbio da atenção, bem como em quadros epilépticos.

É notável a semelhança dessa descrição com alguns conceitos básicos de Freud, especialmente o de regressão como mecanismo adaptativo de defesa. Inclui também outros mecanismos de defesa, como a repressão, resultante da ação de um ego frágil, por ser ainda pouco desenvolvido. No caso, a fragilidade do ego coincidiria com a atrofia do hemisfério esquerdo, que se resguardaria do excesso de in­formação de emoções negativas transmitidas pelo hemisfério direito.

Teicher relata ainda pesquisas que mostram haver em crian­ças vítimas de negligência e maus tratos diminuição do volume não somente do hemisfério esquerdo, como também do corpo caloso, ponte que liga os hemisférios, tornando mais agudo o desequilíbrio inter-hemisférico. A esse respeito, conclui:

"Esses achados, em conjunto, sugerem um intrigante modelo que explica o modo pelo qual o transtorno de personalidade borderline pode emergir. A redução da integração entre os hemisférios e a diminuição do tamanho do corpo caloso pode predispor esses pacientes a mudarem abruptamente os esta­dos de dominação do hemisfério esquerdo para o direito, com percepções e lembranças emocionais muito diferentes. Essa dominância hemisférica polarizada pode levar uma pessoa a ver amigos, família e colegas de trabalho de modo extremamente positivo num momento e de forma diametralmente oposta em outro momento – o que é a ca­racterística distintiva desse transtorno." (2002, p. 61)

Esses relatos coincidem com a experiência de Schore (1994), segundo a qual o período compreendido entre os seis e os doze pri­meiros meses de vida são fundamentais para o desenvolvimento da capacidade de regulação das emoções pelo córtex pré-frontal. Nessa fase, o bebê fica muito excitado diante da posição face a face com o objeto com o qual está interagindo, ocasião em que ocorrem, sorrisos de parte a parte, de forma tão espontânea quanto intensa. A excita­ção do bebê nessa situação é regulada pela capacidade de resposta do objeto, sendo esse estado afetivo responsável pela liberação de dopamina por neurônios cujos corpos celulares se situam na porção medial do cérebro do bebê (mesencéfalo), cujos axônios se esten­dem ao córtex pré-frontal. Esse neurotransmissor (dopamina) pro­move intensa proliferação de sinapses no córtex pré-frontal, sendo importante fator de desenvolvimento da capacidade cognitiva. Além disso, há um retorno dessa malha pré-frontal em direção à porção medial originalmente liberadora do neurotransmissor, formando uma interconexão responsável pela regulação das emoções pelo córtex pré-frontal. Nota-se, pois, a estreita ligação entre os estados afetivos e cognitivos através dessa intensa produção de sinapses. Portanto, o córtex pré-frontal, que regula as emoções do sistema límbico, deve em parte seu desenvolvimento e a capacidade reguladora a substân­cias químicas produzidas no sistema subcortical que tem sua ativida­de regulada.

Reside aqui, provavelmente, a essência da dominância cortical, ou, psicanaliticamente, a dominância do ego e do princípio da reali­dade. No caso das experiências descritas por Teicher, pode-se depreender que a negligência afetiva pode ter contribuído para o empobrecimento da liberação de dopamina no córtex pré-frontal nesse período crucial do desenvolvimento, como conseqüente déficit cognitivo de regulação das emoções.

Portanto, não há praticamente quadro psicopatológico que não possa estar relacionado com lesões de núcleos cerebrais causadas pela conduta dos adultos durante as primeiras fases do desenvolvi­mento infantil. É fundamental que esta noção seja retida, pois é o ponto crucial para a compreensão da importância que a psicanálise continuará a ter como doutrina científica independente, mesmo de­pois da verificação de que a mente se manifesta pelo trabalho do cérebro.

Além do que foi descrito, existem outras evidências neurais da existência do funcionamento mental inconsciente, em proporção tão extraordinária, que não deixa qualquer dúvida de que os fenômenos psíquicos são inconscientes e produzidos em circuitos neurais. Dentre esses fenômenos inconscientes, não se pode deixar de lado o so­nho, de onde Freud extraiu a essência de sua teoria.

Observação: Para quem quiser conhecer mais e melhor das relações da psicanálise com a neurociência recomendo enfaticamente o livro "Um diálogo entre a Psicanálise e a Neurociência", de Victor Manoel Andrade. São Paulo: Casa do Psicólogo, 207 p., 2003.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra - Pós-doc em Filosofia Membro do Viktor Frankl Institute Vienna Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

One Response to Danos cerebrais por traumas psíquicos

  1. Francisco Araujo 1 de abril de 2016 at 14:03 #

    Prezado Dr. Adalberto, bom dia!

    Pode parecer uma mera coincidência, mas hoje acordei a idéia: vou ler algo sobre os a "ação invisível dos traumas" sobre o desenvolvimento e efeitos do processo hipofise-adreno-cortical que ocorrem nos estados de estresse.

    Para minha grande surpresa, o primeiro site que pesquiso me deparo com a preciosidade de seu texto. Ou seja, encontro muito mais que esperava.

    Foi um enorme prazer ler o seu artigo, especialmente por duas razões. A relação entre compreensão psicodinâmica da mente e a neurociência me chama muito a atenção, e também porque o Senhor consegue traduzir de forma clara, objetiva e agradável estas conseqüências neurológicas da ação de traumas, especialmente, aqueles precocemente ocorridos na infância.

    Imagino quantas informações preciosas poderei encontrar em seu. Espero ter a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente e poder cumprimentá-lo.
    Grato,
    Francisco das Chagas Araujo