O corpo e a sua doença

Numa tentativa de se abordar as doenças do corpo advindas pelo viés psíquico, tentamos essa apresentação, tomando como base a doença oriunda dos processos de "culpa inconsciente". Apenas numa tentativa de ampliação para nossas reflexões, acrescentaríamos que os processos relativos ao "remorso", também estariam na base do processo de "adoecimento".

"Assim é o corpo: um conjunto de lugares nos quais a ordem se mostra conflitante"  (Serge Leclaire, em "Desmascarar o Real").

Na verdade estamos diante da pergunta milenar: "Por que adoecemos?" E como ler a doença do corpo na perspectiva da "traição"?

Com relação à primeira questão, foi afirmado por Luís Chiozza: "O homem adoece porque oculta a si mesmo a história cujo significado lhe é insuportável. Geralmente a sua doença é uma resposta simbólica que tenta inconscientemente alterar o significado da história ou, o que é o mesmo, a sua conclusão. Em outras palavras, da necessidade de ocultar a indiferença e o silêncio da natureza a respeito desse evento que é a vida humana, nasceu a fantasia de que ela é um dom divino. Assim, a doença poderia ser interpretada como a inserção da morte na vida. A doença se presta a ser vista como caso exemplar da insensatez da "justiça divina"; ela é a denúncia do limite da misericórdia e do amor de Deus que deve ser remediado de alguma forma. A doença é desafio, prova de fogo da fé, e aparece unida à expiação de uma culpa. Dessa forma, então a vida seria um eterno caminho para a redenção, uma vez que supostamente teríamos "traído" os ditames da lei divina.

O doente seria um contaminado que pode contagiar, sendo que a doença propõe ao doente perguntas extremas sobre o significado da existência. Ao reduzir a doença à punição divina, o cristianismo exprime a realidade psicológica, ao menos inicialmente, à luz da dinâmica persecutória.

O doente acaba como que sendo expropriado injustificadamente de seu projeto de vida. Nada pode ser mais aniquilador para um ser humano do que ser privado de sua perspectiva de futuro. A doença se apresenta como sendo uma advertência; o doente concretiza o perigo que pesa sobre cada um de nós. O corpo que adoece "sai do silêncio". Em decorrência a essa presença inexorável, foram criados os mitos do elixir da vida eterna, da pedra filosofal, para se poder imaginar uma juventude sem fim.

O órgão doente nos põe, quem sabe pela primeira vez, diante do "perseguidor" mais devastador e junto com o seu "progenitor": aquele que hospedamos dentro de nós. Pobre daquele que considera a doença unicamente como fato somático: há alguma coisa que entrou em crise e essa é a ocasião certa para se lançar um pouco de luz sobre a relação complexa que nos liga ao nosso corpo. Sabemos que psicologicamente falando, a somatização da doença é uma conseqüência da perda de contato com o conflito patogênico, cujo acesso à consciência foi impedido. Devemos, enquanto analistas, sempre nos perguntar qual é a "função" da doença dentro do aspecto psíquico.

A doença psicossomática aparece quando o nosso nível psicológico é muito pouco evoluído, não tem força para exprimir-se em termos simbólicos, atingindo o nível mais fraco, o corporal. Pode parecer estranho, mas o mal "nos acusa" sempre. É sabido que os estados depressivos produzem enfraquecimento do sistema imunológico e expõem o indivíduo às infecções. Aqueles que dificilmente adoecem possuem um nível psicológico muito elevado, porque conseguem traduzir simbolicamente os estados internos sem "mostrá-los" externamente.

Quando se expressa a linguagem do corpo, isso significa que a nossa capacidade de enfrentar conflitos é mais primitiva. Então o mal nos acusa, mas nos permite ao mesmo tempo, acusar os outros, canalizando uma agressividade dirigida para si próprio, e para os outros. Quando alguém adoece na família, esse fato é entendido como sendo uma censura tácita a todos; o doente se torna o portador do sintoma, aquele que se encarrega de exprimir e, ao mesmo tempo, de manter o equilíbrio patológico da família.

A trágica realidade é que o corpo "deve" ceder à doença. Essa realidade é simbolizada pelas imagens que retratam pessoas lendo com uma caveira na mão, indicando a dramática inseparabilidade e a inelutável co-presença do projeto e do seu limite.

Citaremos, agora como uma ilustração do "silêncio" que a doença nos impõe, um pequeno trecho de autoria de T. S. Eliot, A Terra Desolada.

Estou com os nervos em frangalhos esta noite.

Sim, em frangalhos.

Fica comigo.

Fala alguma coisa. Por que não falas? Fala.

Em que estás pensando? Pensando em que? Em que?

Não sei no que estás pensando. Pensa.

Penso que esse "diálogo" ou mesmo essas "questões", poderiam perfeitamente representar um questionamento entre a mente e o corpo adoecido.

Ocorre que o corpo "não pensa", e sim reage neuroanatomofisiologicamente e, por não poder pensar, reage através da doença. Daí a necessidade daquilo que chamamos em psicanálise, de "psicologizarmos o sintoma ou a sintomatologia" que o paciente nos apresenta. Freud foi incansável em se pronunciar, quanto à existência de além de um corpo real, um corpo simbólico, de um corpo erógeno ou ainda um corpo do desejo. Parece-nos que é sobre essas noção que estudos incessantes em Psicossomática estão fundamentados, como, por exemplo, os do citado Luís Chiozza e colaboradores do Instituto Weiszaecker.

Como um rápido exemplo dessa psicologização do sintoma, me recordo que atendi, certa feita, um paciente que me procurava por sofrer de episódios de hipertensão arterial. Nada tendo sido comprovado quanto a qualquer tipo de organicidade envolvida na sua sintomatologia. De posse desse diagnóstico diferencial sempre indispensável para nós clínicos, passei a me questionar sobre quais as possíveis facetas de sua vida presente e pretérita que poderiam estar sofrendo de uma "pressão alta". Não demorou para se encontrar, na sua relação conjugal, uma situação desse tipo, por onde começamos a trabalhar em seu processo de análise.

About TOVAR TOMASELLI

SUPERVISOR CLÍNICO E CONDUTOR DE GRUPOS DE ESTUDO SOBRE PSICANÁLISE, ESPECIALMENTE SOBRE AS OBRAS DE FREUD E LACAN.
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