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Memória Coletiva

A questão da memória está na interseção entre história e identidade coletivas. Assim a memória é imprescindível para a reconstituição do passado, seja individual ou coletivo, sendo considerada, portanto, um recurso fundamental para a apreensão da identidade e da história. Halbwachs (1950/1990) propôs o exame do homem enquanto sujeito inserido na trama coletiva, exame este que não pretendia reduzir o homem ao coletivo. Assim, afirmou a existência da memória individual, mas destacou que a mesma se inscrevia em quadros sociais. Para Halbwachs (1950/1990) a memória coletiva se refere a uma identidade coletiva que explica uma experiência e um passado vivido por participantes de um mesmo grupo. Dito por ele: “(…) se a memória individual pode, para confirmar algumas de suas lembranças, para precisá-las, e mesmo para cobrir algumas de suas lacunas, apoiar-se sobre a memória coletiva, deslocar-se nela, confundir-se momentaneamente com ela, nem por isto deixa de seguir seu próprio caminho, e todo esse aporte exterior é assimilado e incorporado progressivamente à sua substância.

A memória coletiva por outro lado, envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas” (p.53). Explicitando melhor essa questão, ele menciona:"Diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios” (p.51). Para ele a memória não consistiria em reprodução do passado, envolvendo sim reconstrução do mesmo a partir de experiências coletivas. Lembrar não consistiria em reviver, mas refazer, reconstruir com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. Logo, a memória não seria sonho, mas trabalho. Tampouco a memória seria individual, pois seria coletiva.

A memória do sujeito dependeria do relacionamento com sua família, classe social, escola, enfim dos grupos de referência e pertencimento do indivíduo em questão. A lembrança enquanto conservação total do passado torna-se impossível na medida em que o adulto não poderia manter intacto o sistema de representações, hábitos e relações sociais da sua infância. Isto porque, qualquer mudança do ambiente atingiria a qualidade íntima da memória, amarrando então a memória da pessoa à memória do grupo, e, esta última, à esfera maior da tradição, que representaria a memória coletiva de cada sociedade. Halbwachs distingue dois tipos de memória: memória autobiográfica e memória histórica. “A primeira se apoiaria na segunda, pois toda história de nossa vida faz parte da história em geral. Mas a segunda seria, naturalmente, bem mais ampla do que a primeira. Por outra parte, ela não nos representaria o passado senão sob uma forma resumida e esquemática, enquanto que a memória de nossa vida nos apresentaria um quadro bem mais contínuo e denso."Neste trabalho o foco é a memória autobiográfica, onde através da história de vida de cada membro do grupo captaremos aspectos tanto de sua vida pessoal como os da sociedade mais ampla, assim como de seu grupo mais restrito.

Bosi (1994) levanta o seguinte questionamento:

"Qual a forma predominante de memória de um dado indivíduo? O único modo correto de sabê-lo é levar o sujeito a fazer sua autobiografia. A narração da própria vida é o testemunho mais eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar. É a sua memória."

Assim buscaremos ouvir quem tem muito a nos contar, os idosos. Como nos foi dito por Bosi (1994):

“Um mundo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pela memória dos velhos. Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu e até humanizar o presente. A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: repassada pela nostalgia, revolta, resignação pelo desfiguramento das paisagens caras, pela desaparição de entes amados, é semelhante a uma obra de arte. Para quem sabe ouvi-la, é desalentadora, pois contrasta a riqueza e a potencialidade do homem criador de cultura com a mísera figura do consumidor atual.”

“O velho, ou seja, o homem que já viveu sua vida, ao lembrar o passado não está descansando, por um instante, das lides cotidianas, não está se entregando fugitivamente às delícias do sonho: está ocupando consciente e atentamente do próprio passado, da substância mesma da sua vida” e fazendo com que a história se reproduza de geração a geração, gerando muitas outras. Pois cada geração tem sua memória de acontecimentos que permanecem como pontos de demarcação em sua história, esta pode reproduzir-se de geração a geração, gerando muitas outras histórias que prolongam a original através da memória de outras pessoas.

Referências bibliográficas

HALBWACHS, Maurice (1877-1945). A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. 189 p.; 20 cm.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade – lembranças de velhos. 3ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994. 484p.; 23 cm.

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