Psicologia e a leitura do social – O entrelace entre a Psicologia e a Sociologia

Uma estudante de psicologia me encaminhou para responder, perguntas que achei bastante interessantes e resolvi colocar as respostas que fiz para ela aqui, no formato de um artigo. Deixo o convite para a discussão do tema.
Para Usted la Psicología es una ciencia social?

A Psicologia é uma ciência que traz como característica própria a sua especificidade um entrelace de vários atravessamentos teóricos por tratar do relacionamento do sujeito psíquico com seus vínculos. Como está posto em S. Freud esse sujeito, desde sempre, é um ser social, atravessado todo tempo por questões que estão incluídas em uma cultura com seus representantes enquanto cuidadores, ou em outra leitura, que exercem as funções primordiais que formam todo psiquismo.

“Na vida mental individual o outro aparece sempre integrado, como modelo, objeto auxiliar ou adversário e, deste modo, a Psicologia individual é ao mesmo tempo e desde sempre, Psicologia social num sentido amplo, mas plenamente justificado” (S. Freud – “Psicologia das Massas e Análise do Ego”).

“Os sentimentos sociais repousam em identificações com outras pessoas, na base de possuírem o mesmo ideal do ego”.(“O Ego e o Id” in “Obras Completas – vol XIX- Sigmund Freud)

Sob roupagem tão peculiar uma nova corrente da Medicina o vem fazendo de maneira radical, a tentativa de debitar todo o sofrer humano às causas de natureza bioquímica, e não como resposta às situações de conflito e inerentes à gênese daquela angústia que tem nascedouro no embate entre a demanda pulsional e os impedimentos civilizatórios. Logo vemos que entender esse homem fora das demandas sociais, resulta em uma leitura reducionista do psiquismo não podendo dessa maneira entender ou propor intervenções psicoterápicas que dêem conta da angústia formadora dos sintomas individuais ou de grupos sociais. Hoje, penso, cabe à Psicologia ampliar essa leitura devolvendo a leitura sobre o indivíduo para um lugar onde seja visto também a partir de suas relações com o mundo externo e realidade.

É preciso situar primeiramente esse real, que para a psicanálise é também instância. Apoiar esse psiquismo no planeta onde habita, interage, atua e realiza suas ações motoras que lhe fornecem a possibilidade corpórea de satisfação.
Inevitável que nos perguntemos o que essa “realidade”, representada pelo “mundo externo” com seus vínculos afetivos e seus laços sociais, pedirá a esse sujeito psíquico e, conseqüentemente, o quanto que a psicologia compactuará ou não com distorções perversas que poderão estar se originando do tal conceito de real.

Cuáles son los factores que hacen a la Psicología una ciencia social?

Um dos primeiros fatores que inscreve a Psicologia enquanto uma ciência social é o fato que ela estuda o homem e seus vínculos dentro do conceito de realidade, e isso a caracterizará como um estudo do homem inscrito em modelos de cultura atravessado pelas variáveis do seu meio social, inclusive sua inserção de classe social. Gosto particularmente de uma citação de Gilberta Royer de Garcia Reinoso.

“É necessário redefinir o que se entende por realidade.

Concebemo-la como algo dado? Como fato consumado, como ordem estabelecida?

Ou como conexão e construção sempre móvel de nossa práxis?”

“A realidade humana é uma realidade psicológica e esta é sempre uma realidade social”ª

(in “Questionamos a Psicanálise e suas Instituições”- “Violência e Agressão ou Violência e Repressão?” )

Outro fator residirá no fato de que a ciência Psicologia também volta seu olhar para tudo aquilo que constrói o mundo onde esse sujeito vive, trabalha, ama e produz, incluindo aí o estudo sobre os modos de produção e a inserção do homem nos dispositivos sociais, presentes enquanto elementos fora dele e representados em seu psiquismo.

“O indivíduo deve ser pensado como um ser cuja existência é social desde o primeiro dia de sua vida: seu ambiente não é um ambiente natural, mas social; seu intercâmbio com este vai estruturando a realidade como uma realidade psíquica, realidade simbólica na qual toda experiência é experiência ‘objetal"(“Questionamos a Psicanálise e suas Instituições” – Gilberta Royer de Garcia Reinoso – “Violência e Agressão ou Violência e Repressão?”)

Qué es un proceso social?

Entenderemos processo social como: “Qualquer mudança ou interação social em que é possível destacar uma qualidade ou direção contínua ou constante. Produz aproximação – cooperação, acomodação, assimilação ou afastamento – competição, conflito”

Ou seja, estaremos todo tempo estudando relações que se originam e terminam no sujeito, ou em seu agrupamento formando uma identidade social que será ao mesmo tempo individual e coletiva. Não poderemos nos abster do fato de que quando estudamos um processo social também deveremos inscrevê-lo e situá-lo dentro de uma estrutura sócio-econômico-política, que constrói crenças e que é ao mesmo tempo contituída por questões de ideologia que perpassam o psiquismo.

En qué momento la Psicología social se vuelve una rama de la Psicología?

A psicologia social se transforma em um ramo da psicologia a partir do momento que irá estudar questões que demandem o entendimento de grupos ou processos sociais, da articulação do homem com seu meio. Não poderemos ler um psiquismo sem entender onde está inscrito e quais os modelos sociais que o oprimem ou facilitam suas gratificações. Hoje se pensa que, desarticular a psicologia social do entendimento da psicologia como um todo, seria reduzir o indivíduo a somente uma parte dele, sem entender as complexas operações que forma ao longo de sua existência e que formam o mundo onde vive.
A psicanalista Marie Langer diz: “Freud e Marx descobriram igualmente por detrás de uma realidade aparente, as verdadeiras forças que nos governam: Freud, o Inconsciente; Marx, a luta de classes”.

Desde su punto de vista la Psicología y la sociología tiene algo en común?

Sim, embora mantenham cada uma sua especificidade, possuem algo em comum a partir do momento que as duas se voltam a estudar as relações do homem com seus dispositos sociais. “Compreender como as configurações culturais dependem do desenvolvimento de linguagens sociais articuladas sobre chaves referenciais estratégicas”(Luiz Fernando D. Duarte )

Penso que enquanto a sociologia buscará entender o social, a formação de grupos e instituições, a psicologia verá o homem que constrói o fato e dessa forma tendo que voltar seu olhar também para onde ele está inscrito, assim como os ideais introjetados como “ideal de ego” que o formarão e resultarão na construção do processo social. Se estudarmos o homem emprestando a leitura da Análise Institucional poderemos observar que esse sujeito psíquico possui dentro de si, representado em seu psiquismo todo o instituinte, tudo que resultará nas instituições que o governam. A Psicologia irá propor mudanças não somente em suas grandes questões de saúde psíquica, mas também em tudo aquilo que o constrói mediante atos cotidianos, na intimidade dos lares, na construção das relações mais próximas e mais significativas. Ao estudar o grupo ou processos sociais a sociologia se deparará lá, com a psicologia, e a aliança entre uma e outra será imprescindível tanto para entender o fato social como para entender o homem que o constrói.

Cree que la Psicología puede presindir de la sociología?

Não, nunca, sob o risco de se transformar em uma prática de opressão e adaptação do homem ao seu meio, seja este opressor ou facilitador de sua liberdade e autonomia. A prática da psicologia, em qualquer uma de sua áreas, quando desvinculada de uma leitura social a levará sempre para o perigoso caminho de algo que Aldous Huxley, de alguma maneira nos alertou em sua obra “Admirável Mundo Novo”, sobre a possibilidade de existência, de uma sociedade onde a subjetividade teria sido praticamente banida. Mas, também, não deveremos incorrer no erro de explicar o homem apenas por sua inserção social.
Um conflito individual ou mesmo uma patologia só poderá ser devidamente entendida quando a lemos dentro de uma realidade social, podemos ver isso com facilidade frente a situações de agressão e conflito, como durante o estabelecimento de ditaduras ao longo da História, momentos de pressão advindas do conflito da luta de classes etc; quando o homem responde em linguagem de adoecimento frente a eles e que, não poderemos tratar ou entender isso, sem a leitura do que o oprime.

Esse assunto proposto é muito interessante, por entendermos que hoje há uma tendência a se buscar fundamentação na ciência biológica apenas, para todo sofrimento humano, levando maioria das vezes, para o entendimento do adoecer psíquico como resultante de algo puramente individual, ou familiar no sentido da genética, como se ambos, indivíduo e família, não fossem todo o tempo formados e atravessados por questões inconscientes advindas dos dispositivos que formam a sociedade onde vivem. Assim como também, há no seio das ciências psicológicas, uma tendência a querer explicar tudo por falhas em aprendizagem ou puramente inscritas em uma questão relacional içada do modelo social onde ela acontece, quase asséptico nesse sentido. Penso ser esta hoje, uma tendência muito perigosa, que teremos que questionar todo tempo enquanto profissionais da psicologia e nesse aspecto a sociologia poderá estar caminhando em conjunto com a psicologia, braços dados em direção a teses libertárias e não aprisionantes desse sujeito e seu mundo.

Como disse Freud em seu texto “Recordar, repetir e elaborar” (Obras Completas – vol XII):

" A Transferência cria, assim, uma região intermediária entre a doença e a vida real, através da qual a transição de uma para a outra é efetuada"

Muito mais haveria para se falar de tão estimulante assunto, mas não pretendemos de maneira alguma aqui, nesse brevíssimo comentário, aprofundar ou esgotar essa questão, até porque essa não é uma tarefa possível. Linhas teóricas e correntes de estudos outras, discordarão de muitos dos pontos aqui levantados, porém para nossa leitura, no caso bastante fundamentada nos teóricos Institucionalistas, todos esses aspectos abordados serão fundamentais para se entender o aparelhamento psíquico e a construção da subjetividade humana com suas instituições onde esse se faz presente.

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".
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