O brincar, a delinqüência e a positividade da tendência anti-social.

Resumo

O texto é fruto de reflexões surgidas a partir de uma aula proferida junto aos alunos de graduação da faculdade de Serviço social em 2005 na PUC/SP. Na ocasião fui convidado a falar sobre algumas das possibilidades de entendimento da situação de vulnerabilidade psicossocial e de modelos de atendimento possíveis as crianças e adolescentes no Estado de São Paulo; imediatamente pensei: a partir de que ponto poderia estabelecer uma conversa sobre tema tão importante e com pessoas de formação profissional tão diferente. O caminho encontrado no texto foi o de destacar, a partir de uma experiência clínica,  a diferença entre a tendência anti-social – entendida como expressão da esperança de jovem em condições de abrigamento e que, por meio dessa expressão de seu sofrimento, procurava algo ou alguém capaz de “cuidar” de sua dor – e o que seria propriamente um comportamento delinqüente. Enquanto conceito, tais manifestações são trabalhadas a luz da teoria de D.W.Winnicott a fim de possibilitar uma compreensão do mecanismo defensivo utilizado por um jovem frente a situações conflitantes, geradoras de sofrimento. No texto ainda se discute a posição que os “cuidadores” adotaram durante a relação com o jovem atendido. Acreditamos na possibilidade de ampliar essa questão ao propor outras posições ao “cuidador”, como a de proporcionar, via relação “assistente-assistido”, a oportunidade ao assistido de encontrar alguém com quem possa experimentar suas emoções e sentimentos ao ponto de constituir uma relação de alteridade, em vez de o jovem cristalizar o fracasso dessa busca pelo reconhecimento afetivo através de condutas delinqüências.

Palavras chaves: Cuidador; delinqüência; anti-social; vulnerabilidade; sofrimento.

A construção desse texto nasce de uma aula vivida com alunos de graduação em Serviço Social na PUC-SP no ano de 2005. Desde então, surgiram algumas reflexões aqui elaboradas na tentativa de receber as primeiras sistematizações. Na ocasião fui convidado a falar sobre algumas das possibilidades de entendimento da situação de vulnerabilidade psicossocial e de modelos de atendimento possíveis as crianças e adolescentes no Estado de São Paulo; imediatamente pensei: a partir de que ponto poderia estabelecer uma conversa sobre tema tão importante e com pessoas de formação profissional tão diferente?

Frente à brevidade do tempo e perante a profundidade das questões a serem abordas no tema achei interessante conversar a partir do atendimento de Gilson[1], uma criança[2] que na época bordejava os 15 anos de idade. Uma das razões para a escolha desse caso foi o fato de haver profissionais do Serviço Social diretamente envolvido no caso, já que se tratava de uma criança em condições de abrigamento. Dentre as inúmeras questões desveladas sobre o “pathos psíquico”[3] de Gilson, despontava a presença de traços de “tendência anti-social” (Winnicott, 1956).

Iniciando pela maneira do paciente manifestar seu sofrimento, pretendemos conversar sobre o caráter positivo que sua conduta transgressiva representou, no sentido da mesma falar em favor de um pedido de ajuda. Outra questão que abordaremos aponta para o tipo de intervenção ofertada pelos profissionais responsáveis por cuidar de Gilson e as reverberações suscitadas em mim, na medida em que me foi possível ocupar-me do sofrimento do paciente. Começarei então pelo primeiro contato com o jovem, por esse ter se mostrado rico em informações, sendo algumas delas ditas e outras, “malditas”.

O primeiro contato vivido após o encaminhamento do jovem[4] foi com a coordenadora do abrigo “Balança Mas Não Cai”. A coordenadora por telefone apressa-se em relatar o que acreditava ser a queixa do paciente: “Esse menino está precisando de terapia, ele está conosco há alguns meses e tem realizado fugas, está apático, agressivo, e faz pequenos furtos”.

No primeiro encontro – agora ao vivo, mas em cores opacas – compareceram a educadora[5] Meire e Gilson. No início da conversa, estavam na sala: a educadora, o paciente e eu. Gilson permaneceu calado na maior parte do primeiro encontro, mantinha cabeça baixa e demonstrava um olhar vacilante. A questão trazida por Meire falava da vivência silenciosa mantida por Gilson no abrigo onde residia e apresentava dificuldade de relacionamento com outras crianças. Parte dessa dificuldade era atribuída ao fato dele “pegar coisas alheias” e nas constantes fugas empreendidas durante o trajeto de retorno ao abrigo logo que saía da escola: “Ele sempre desvia o caminho, acaba indo para a casa de sua avó materna”.

Foi interessante perceber o sofrimento do paciente, impresso em um cenário de cores opacas, provocando no analista a sensação de que a qualquer momento algo ruiria. Gilson parecia impedido de criar uma narrativa sobre sua psicopatologia pelo acesso representativo das palavras,[6] me fazendo pensar: o que significava aquela necessidade de ser falado pelo outro? Por que ele não falava por si?

Nesse encontro experimentava uma sensação angustiosa que me instigava a pensar em começar a falar, falar, falar… Parecia que o silêncio denunciava a presença de uma ameaça, uma desconfiança e um vazio insuportável, até mesmo para quem buscava acompanhá-lo. Talvez, um sentido possível para o que se manifestava sob a forma de angústia em mim, retratasse algo do paciente, vivido já no primeiro “encontro”; afinal, não tinha como ser negada – pelo menos não o analista – a sensação de impotência absurdamente presente que parecia demarcar o vazio manifesto na apatia do paciente.
Quando lhe dirigia algum questionamento Gilson respondia monossilabicamente, porém, essas curtas respostas, não encobriam a grandeza de sua angústia, de forma a transbordar na relação com o analista e provocando, neste atendimento, certa confusão. Frente a essa percepção, optei por comunicar ao paciente o vivido na “contratransferência”[7].

Assim, impregnado pela vivência, me foi possível comunicar ao paciente a sensação de algo que parecia ser importante, talvez fundamental. Ao comunicar-lhe que percebia o quanto sofria por viver algo que parecia desconhecer, foi possível a Gilson falar que experimentava essas sensações diariamente, mas não atribuiu sua origem a nada; na seqüência, fala das fugas da escola para ver sua avó materna, com quem morava antes de ser abrigado.

Com uma feição triste, Gilson declara que, no funcionamento geral do abrigo, situações de fuga acontecem com freqüência e é comum ocorrerem reuniões no abrigo, com o claro objetivo de criar conseqüências às atitudes tomadas pelos jovens, mas algo de estranho ocorreu após sua última fuga da escola: “Eles fizeram reunião, mas era para resolver o assunto das férias”. A temática central da reunião esteve pautada na elaboração de atividades das férias que se aproximavam e não – aqui sua fala demonstra uma melodia ainda mais triste – sobre sua volta à casa da avó; Gilson estava desapontado, pois esperava pacientemente que nessa reunião tomassem a decisão do que fazer com ele, como aconteceu com outro garoto que fugia constantemente do abrigo.

Perguntado se queria sair do abrigo, ele diz que sim, mas que isso não aconteceu. Digo a ele que parece desejar coisas e não conseguir falar para ninguém, talvez até para ele mesmo. Gilson fala que não expõe suas emoções e isso já acontecia quando morava com sua avó. Marco o desafio que é para ele fazer o exercício de falar do que sente e pensa e, que apesar de querer, não sabia ainda como ajudá-lo. Pergunto se quer voltar outra vez ao consultório e ele, acenando com a cabeça para cima e para baixo, me dá a entender que sim.

No encontro seguinte, as dificuldades de contato pela fala permaneciam fortemente presentes e originavam em mim a questão de como poderíamos acessar o que se manifestava na relação. Seria apenas pela via contratransferencial? Haveria trabalho de análise possível nessa situação?

Ao fim desse último encontro, converso com Meire sobre o funcionamento do abrigo, mas ela logo se precipita em justificar o fato de não ter em mãos o pagamento das sessões já contratado. Meire alegava ter vivido um “desencontro” nos horários com a coordenadora do abrigo[8].

Em outro encontro, uma nova “cuidadora” chamada Eulina, pede, no fim da sessão, para entrar na sala de atendimento – o paciente foi para ante-sala – e conta do que observou em Gilson, após ele ter vindo “falar” comigo, que ele demonstrara “sensível melhora”, e mais: “ele tem brincado e conversado mais com as crianças menores, pois ele andava triste, mas não sei o porquê”. Procuro, sem sucesso, marcar a importância dessa aparente posição de “cuidadora”.

Eulina parecia preocupada em falar de questões práticas, como o fato dele ter fugido na semana anterior e com isso, ter perdido uma consulta odontológica. Essa atitude do paciente fez a “cuidadora” colocar como condição para agendar-lhe nova consulta que ele estivesse junto a ela: “queria fazê-lo suar, para poder dar valor às coisas”.

Eulina tráz uma delicada situação: a mãe de Gilson perdeu sua moradia em outro abrigo, no qual estava lotada com seus três filhos menores. O que originou essa decisão do “abrigo”, foi o fato da mãe de Gilson ter dormido na casa de dona Rosa (avó de Gilson) e, ao retornar, encontrou os portões do abrigo fechados. Esse “abrigo” ficou com os filhos menores e tinha como discurso, requerer junto ao juizado de menores a perda do “pátrio poder” das crianças, para futuramente, possibilitar o encaminhamento desses filhos para adoção.

A “cuidadora”, ao falar, mostrou-se indignada e fez notar sua impotência mediante a falta de compromisso do outro abrigo para com seus assistidos[9]. É quando transparece seu desejo de fazer algo pela família de Gilson, mas em seguida, é novamente a impotência quem ganha fala: “não temos pernas para isso, são muitas crianças”. Acolho a educadora dizendo não precisar sentir-se impotente, sendo de mais valia alimentar sua inquietação. Ela toma fôlego e coloca suas idéias na tentativa de elaborar meios para (re)criar e fortalecer os vínculos dessa família com seus filhos.
 
É possível trabalhar com crianças trabalhosas?
 
Essa foi a questão que me atravessou como analista após os encontros com os “educadores-cuidadores” de Gilson. Para além do que possa parecer um simples jogo de palavras, fazia-se necessário escutar o que foi revelado ainda no primeiro encontro. Estavam latentes duas grandes questões: o que essa conduta anti-social de Gilson representava para ele? Como essa conduta estava sendo entendido por parte dos “educadores-cuidadores”?

Parto da última questão por ter como pressuposto que os “cuidadores”, para realizar um trabalho com essas crianças, devem atentar para a solicitação de um “algo a mais” que elas trazem. Já é possível marcar que não é de profissionais que essas crianças necessitam[10]. Esse “algo a mais” pode ser entendido como um apelo dessas crianças para que seu sofrimento seja escutado.

Para o avanço dessa questão, retomamos a manifestação da psicopatologia de Gilson e, ao mesmo tempo, mostra-se útil relembrar a definição de “tendência anti-social”. Essa definição, cunhada por Winnicott (1956), fala do estágio do desenvolvimento emocional da criança, no qual a intervenção do “cuidador” pode ter maior alcance. A tarefa de “cuidar” (manejo) dessas crianças pode ficar difícil e mesmo impedida, caso venha a se transfigurar numa “defesa anti-social” fortemente organizada e atuante. Nessa última situação existe a presença de um “ganho secundário” por parte daquele que sofre e, ao mesmo tempo, mantém suas “reações sociais” superinvestidas ou mesmo cristalizadas. É essa última situação, que Winnicott define como “delinqüência”. Estando a “delinqüência” instaurada, prevalece a dureza ou mesmo a aridez do contato afetivo.

Voltando a falar no caso de Gilson, no qual parece prevalecer a “tendência anti-social”, ainda existe certa “mobilidade afetiva[11]”, por isso a opção pelo uso do termo brincar no título do texto, enquanto representante de um movimento psíquico – e de um investimento – possível de ser vivido na relação com o outro. Nesse caso, só seria possível avançar na análise e mesmo no processo de desenvolvimento emocional “normal” de Gilson se, por parte dos “cuidadores”, fossem considerados alguns elementos: um primeiro elemento aponta para a importância de encontrar naquele que está na função de “cuidador” a disposição para realizar sua tarefa (manejo) com criatividade, capacidade de continência e o que chamo de trato[12] em vez de apenas impor limites aos assistidos; como diz Winnicott (1956): “ir ao encontro do momento de esperança e corresponder-lhe”[13].

É fundamental ter um “cuidador” que entenda a manifestação da “tendência anti-social” como um elemento que marca a importância de se compreender as falhas encontradas no ambiente onde essa criança foi criada, ou seja, esse “tipo” de criança obriga alguém tomar conta dela. O que motiva os atos anti-sociais na criança parece ligado à perda de algum aspecto essencial da vida em família, instalando o chamado “complexo  de-privação”[14].

Essa discussão ganha fôlego quando falamos de outro elemento importante de ser considerado por parte do “cuidador”. Tal elemento fala das conseqüências para as crianças que vivem em um “ambiente” não-confiável e cujos efeitos foram vividos por elas muito antes de terem contato com um terapeuta, psicanalista ou mesmo qualquer outro profissional. Essa afirmação se fundamenta em algo muito “simples” e é parte da idéia sobre a qual buscamos conversar. Trata-se dos “possíveis estragos subjetivos” que a criança possa ter vivido no início de seu “desenvolvimento emocional”. Antes mesmo desse sofrimento se manifestar como “tendência anti-social” na cultura, tais estragos revelam-se diretamente ligados às vivências dos “primeiros cuidados” vividos na relação “mãe-bebê”; relação essa tomada como protótipo para o entendimento da formação de um psiquismo que poderá ou não ser saudável.

Em vários de seus textos Winnicott considera a vivência do “processo de maturação do psiquismo” como base para o “desenvolvimento emocional do bebê”, no entanto “é claro que certas condições externas são necessárias para que os potenciais de maturação se concretizem”[15]. É esse o momento em que podemos implicar outros profissionais no entendimento e na intervenção com pessoas que apresentam “tendências anti-sociais”.

É importante recuperarmos outros elementos do pensamento de Winnicott para dar “estofo” a essa construção. Para Winnicott é importante, do ponto de vista do bebê, ter vivido uma experiência (encontro) com uma mãe (ambiente) em condições boas, o suficiente, para ter suas necessidades atendidas, e mais: “sem os cuidados maternos adequados, os estágios iniciais do desenvolvimento não podem acontecer”[16].

Para tentar dar conta do tema proposto dentro de um curto espaço de tempo, é necessário se pensar em um bebê que viveu em um “ambiente suficientemente bom”, nos moldes de Winnicott[17], nos estágios iniciais da vida e assim entrar na questão a ser mais trabalhada.

Pretendo, de forma simplificada, porém esperando não ser superficial, resumir o complexo pensamento sobre as vivências iniciais encontradas na relação “mãe-bebê” e marcar, dentro das inúmeras implicações, aquelas que mais fortemente podem ser relacionadas como conseqüências da manifestação da “tendência anti-social” de Gilson.

Para Winnicott, o “bebê” já possui um potencial para o desenvolvimento emocional saudável, que é diretamente afetado pelo tipo de cuidado proporcionado quase sempre pela mãe: “na vasta maioria dos casos a mãe é capaz de iniciar, de maneira satisfatória, por ser orientada a fazer exatamente esta única coisa, qual seja, o cuidado do bebê que esteve carregando durante nove meses”[18]. Esse tipo de cuidado acontecerá até que, gradualmente, a mãe fique
“distraída” por outras coisas do mundo, além do cuidar do bebê já “integrado”[19].

É possível entender a origem da “tendência anti-social” como uma reação do bebê à ocorrência de uma “falha do ambiente” na fase em que, inicialmente, o bebê era atendido em suas necessidades mais imediatas, dentro de um tempo razoavelmente suportável para que ele não viesse sentir os elevados níveis da “angústia impensada”[20].

O “furto”, entendido juridicamente enquanto infração, delito, serve para representar o sofrimento vivido pela criança e, por meio de tal “conduta”, comunicar que vem a procura de algo ou alguém próximo que pudesse reparar o rasgo vivido a partir dessa ‘falha do ambiente”, mas em “fracassando seu intento, procura-o em outro lugar, quando tem esperança”[21]. Esse outro aspecto de base, que deve ser considerado na tendência anti-social, pode ser visto como uma tentativa de recuperar a confiança no ambiente, antes vivido como “suficientemente bom”. Esse ambiente (cuja relação mãe-bebê é o protótipo) sofreu “rupturas” por um tempo insuportável do ponto de vista do bebê, provocando fortes angústias, mas que, por alguma razão, pôde ter sua condição anterior (de ambiente seguro) restabelecida. Assim, o entendimento da infração ultrapassa o que se poderia precipitadamente definir como um desejo de possuir um objeto qualquer para si, no sentido popular dado à inveja. A infração no caso de Gilson parece representar uma busca em avaliar as condições atuais do ambiente para manter viva a esperança e a confiança de ter reencontrado um ambiente capaz de atender suas necessidades e sem recorrer no risco de nova ruptura.

O pensamento construído por Winnicott (1956) deflagra algumas considerações importantes como: a mudança de olhar sobre a questão da infração e do infrator; a importância de se disponibilizar condições boas o suficiente para que uma pessoa ao revivê-la, possa regredir a um momento de seu desenvolvimento maturacional, no qual sofreu uma ruptura, uma fratura no ambiente. Antes de considerar ambiente como um seguro continente, o chamado “holding”, poderá o paciente testar e retestar a confiabilidade do ambiente, no sentido da “capacidade de suportar a agressão, de prevenir ou reparar a destruição, de reconhecer o elemento positivo da tendência anti-social, e de prover e preservar o objeto que deve ser buscado e encontrado”[22].

Essa forma de pensar o desenvolvimento emocional e suas agruras é aparentemente simples, mas porta uma preciosa contribuição no entendimento e na proposta de intervenção dos mais diversos profissionais que estarão em contato com essas pessoas. Na concepção winnicottiana o ambiente, ao falhar, enquanto “espaço potencial”, deixará fortes marcas no psiquismo, gerando possivelmente uma vivência social complicada num futuro próximo. Por isso, é importante que os profissionais disponibilizem o espaço de “holding” no encontro com esses jovens, proporcionando a vivência de momentos bons, na medida da suficiência, para o restabelecimento da saúde, sem os quais tais pessoas não poderão desenvolver a capacidade de “envolvimento”, de vivência da “culpa” e da possibilidade da “reparação” para com o outro.

Havendo condições favoráveis, e não ocorrendo repetições daquela experiência angustiosa, nessas novas intervenções, ou melhor, interações, a criança poderá encontrar uma pessoa a quem poderá amar, criando um espaço para que a alteridade apareça em vez de “continuar a busca por meio de exigências sobre objetos substitutos que perderam seu valor simbólico”[23].

Aos envolvidos no trabalho com crianças nessa situação, cabe a indicação de não se precipitar em rapidamente dar um sentido, rotular, criar preconceitos em torno do que se manifesta na relação, mesmo que detenha o benemérito intuito de nomear os acontecimentos para apaziguar a dor do outro[24] ou mesmo criar um ambiente permissivo, onde “tudo vale”, “tudo pode”. É mais saudável que possam escutar o sofrimento de cada criança, ou seja, que esse encontro entre o que está na condição de “cuidador” e a criança possibilite o resgate de uma trilha há muito perdida: o acesso à condição humana, de lidar com seu desamparo. Garantindo a essas crianças uma sobrevivência psíquica ante os momentos de catástrofes, por já terem adquirido recursos internos para lidarem com as ameaças advindas do contato com o mundo externo e seus excessos.

Esse caso comporta em suas entranhas outra questão a ser pensada pelo analista: é necessário “cuidar” dos “cuidadores”?  Esta, porém, já será motivo de outra conversa.

Bibliografia

Berlinck, Manoel Tosta. – Psicopatologia Fundamental. São Paulo, Escuta, 2000.

Fedida, Pierre – A angústia na contratransferência ou o sinistro (a Inquietante Estranheza) da transferência. In: A Clínica Psicanalítica: Estudos. São Paulo, Escuta, 1988.

Ferenczi, Sándor – Elasticidade da técnica psicanalítica. In: Obras Completas vol. IV. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

Winnicott, D.W. – A tendência anti-social (1956). In: Da Pediatria à psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro, Imago, 2000.

______________ – O desenvolvimento da capacidade de envolvimento (1963). In: Privação e Delinqüência. 3ª edição. São Paulo, Martins Fontes, 1999.

______________ – Ausência de um sentimento de culpa (1966). Idem.

______________ – Fisioterapia e relações humanas (1969). In: Explorações Psicanalíticas. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.

______________ – Da teoria do instinto à teoria do ego In: Natureza Humana, Imago, 1990.
 

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[1] Todos os nomes citados no texto, inclusive o da instituição, são fictícios.

[2] Apesar da idade do paciente definir cronologicamente o período da adolescência, nesse caso, emocionalmente, foi visto como criança. O paciente apresentou indícios relevantes de fixações em seu desenvolvimento emocional. Ele, por exemplo, urinava em toda tampa do vaso sanitário, da lixeira e o chão; apresentava aparência e fala infantilizada. Esses indícios nos fizeram pensar se não se tratava de uma possível falha de borda psíquica.

[3] Pathos, na tradição da psicopatologia fundamental apresentada por Berlinck (2000), coincide com sofrimento, paixão ou passividade de um sujeito, que ao viver “momentos catastróficos” em seu cotidiano sofre verdadeiras reviravoltas. Tais vivências atravessam sua “posição subjetiva”. Aos interessados remeto ao livro Psicopatologia Fundamental. (Berlinck, 2000).

[4] Esse paciente veio encaminhado pela Rede de Atendimento do CEP/SP, da qual participamos.

[5] Definição fornecida pela Assistente Social que compareceu ao primeiro entrevista com o paciente. A mesma forneceu outra denominação, a de “cuidador”.

[6] Para Berlinck (2000), a palavra e a fala são importantes invenções do humano que visam recuperar a normalidade, pela via do representacional, que sendo devidamente apropriada pelo humano, poderá constituir uma experiência (p.28).

[7] Fédida (1988) fala da contratransferência como efeito do afeto que, sendo apropriado subjetivamente pelo analista, gera uma compreensão do paciente (e dos restos transferenciais não resolvidos da análise do analista) e, futuramente possa gera uma interpretação. A contratransferência, implicitamente, revela ser uma “relação fictícia mãe-filho, na qual a mãe se faz receptora do que acontece com seu filho: experimenta uma angústia que a desperta para o perigo, que aumenta a acuidade da percepção de si mesma e do filho, restituí a este, através de palavras e de gestos adequados, a significação distinta do que ele experimenta, sem confusão com a sua própria” (p.74-5).

[8] A coordenadora do abrigo insistiu durante a primeira conversa telefônica para acertarmos o preço da sessão: “temos inúmeras limitações”. Essa fala carregada de significado me fez pensar que, para além das limitações financeiras, a equipe dispunha de pouco recurso afetivo para lidar com a dor que o paciente manifestava em suas ações. Resolvo que já acertaríamos um preço possível para ambos, mas só manteríamos o contrato se ele aceitasse fazer o tratamento.

[9] Termo de uso comum na área social ao ser referida a pessoa que está sendo “cuidada”.

[10] O termo profissional está aqui referido ao aspecto técnico, burocrático ou funcional que o “cuidador” possa propor na “relação” com o assistido.

[11] Ainda nas primeiras entrevistas, notei a ausência de determinados objetos logo após o atendimento  desse jovem. De início sumiu uma “bola de gude” que compunha o meu porta-cartão, mas o que mais chamou atenção e, ao mesmo tempo, serviu como disparador de um elo afetivo entre o paciente e o analista foi o sucessivo sumiço de duas das três velinhas dispostas na anti-sala. Mais precisamente, quando da entrada do paciente, percebi o sumiço da segunda velinha. O paciente ao sentar mexe em seu casaco, deixando cair a tal velinha. Olho para o objeto e no que ele olha, pergunto-lhe se foi ele quem pegou. Segundo o paciente, essa conduta acontece nos momentos que se sente invadido por um “aperto no coração” do qual não consegue se livrar e que precisa pegar algo para experimentar um alívio imediato, porém, temporário.

[12] Ao reler meu texto, deixei essa expressão por servir para me remeter a referência de Ferenczi em 1927/28 ao definir “tato” como um “sentir com”. Essa definição serve para falar de elementos presentes na relação com o paciente, no qual “torna presentes as associações possíveis e prováveis do paciente”, ainda não acessíveis ao paciente, mas que demanda do analista perceber “quando e como se comunica alguma coisa ao analisando”. (Ferenczi, 1992 p 27).

[13] Winnicott, D.W. A tendência anti-social (1956). In: Da pediatria a psicanálise, p.409.

[14] Idem.

[15] Winnicott, D.W. O desenvolvimento da capacidade de envolvimento” (1963) In: Privação e Delinqüência. p.112.

[16] Idem.

[17] Aos interessados, remeto ao texto de Winnicott, D. W. Desenvolvimento emocional primitivo
(1945).

[18] Winnicott, D.W. Fisioterapia e relações humanas (1969). In: Explorações psicanalíticas, p.429.

[19] “A integração significa responsabilidade, ao mesmo tempo, que consciência, um conjunto de memórias, e a junção de passado, presente e futuro dentro de um relacionamento (…)
praticamente significa o começo de uma psicologia humana” p.140. Da teoria do instinto à teoria do ego In: Natureza humana, 1990.

[20] Condição encontrada quando a lembrança ou imagem mental da mãe esmaeceu no longo tempo da ausência desta na relação com o bebê.

[21] Winnicott, D.W. A tendência anti-social (1956). In: Da pediatria a psicanálise: Obras Escolhidas, p.411.

[22] p. 415.

[23] Idem.

[24] Essa atitude pode representar, de fato, uma projeção da dificuldade do “cuidador” em lidar com sua dor frente o desconhecimento gerado a partir de um não saber o que fazer perante a manifestação da dor do outro.

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