Se você não é feliz com o seu trabalho, porque não consegue largá-lo?

Como psicólogo imerso no âmbito organizacional, convivo com reclamações trabalhistas diariamente, reclamações não necessariamente de ordem legal / trabalhista, mas psicológicas, físicas, financeiras, profissionais e afins.

Porque será que pessoas que reclamam do seu emprego não largam o empregador em busca de novos desafios? Algumas possibilidades são claramente definidas por profissionais de RH, principalmente Coachings, dentre elas, as mais conhecidas são:

A) Estagnação;
B) Acomodação (“Ta ruim, mas tem coisa pior”, “está ruim, mas está bom”);
C) Falta de melhores oportunidades;
D) Medo de mudanças (“Melhor um pássaro na mão do que 2 voando!”, “melhor pingar do que secar”);
E) Falta de qualificação para concorrer com o mercado – de – trabalho;
F) Preguiça;
G) Sadomasoquismo (“Funcionário mulher de malandro”); H) Etc.

Embora vivamos em um mundo capitalista, há quem defenda a democracia, o livre arbítrio para escolhas e condutas. Será que o capitalismo de certa forma nos coloca medo, nos classificando como usuários de pensamentos “melhor pingar do que secar?”, ou que perdemos a motivação a ponto de nos estagnarmos, ou pior, a ponto de mesmo sob condições aversivas de trabalho, não consigamos proceder com mudanças e ejeções de ânimo e desenvolvimento profissional?

Apenas para conhecimento, há na psicologia, dentre as mais diferentes vertentes teóricas utilizadas para compreensão do homem, do mundo e das relações entre eles, uma abordagem denominada “Análise do Comportamento Humano”, cujas raízes filosóficas estão vinculadas ao Behaviorismo Radical de B.F. Skinner.

Devido à sua preocupação com controles científicos, Skinner realizou a maioria de suas experiências com animais inferiores – principalmente pombo e rato branco. Desenvolveu o que se tornou conhecido como "caixa de Skinner", aparelho adequado para o estudo animal, onde, tipicamente, um rato é colocado dentro de uma caixa fechada que contém apenas uma alavanca e um fornecedor de alimento. Quando o animal aperta a alavanca sob as condições / critérios estabelecidos pelo experimentador, uma bolinha de alimento cai sobre a tigela, recompensando-o. Após o animal ter fornecido determinada resposta, o experimentador pode colocar o comportamento deste animal sob controle de uma infinita variedade de estímulos. Além disso, tal(is) comportamento(s) pode(m) ser modelado(s) ou modificado(s) gradativamente até aparecerem resposta(s) que ordinariamente não faziam parte do repertório comportamental do indivíduo. Êxito nestes esforços levaram Skinner a acreditar que as leis da aprendizagem aplicam-se a todos os organismos vivos.

Avançando, em outro experimento, Ratos privados de alimentação há dias colocados na Caixa de Skinner tem a opção de apertar a barra levando um choque considerável, porém, como conseqüência empareada, teêm acesso a uma pelota de comida.

Pergunta-se, caso a fome do rato e o choque fosse realmente muito grande, ele optaria por morrer de fome ou morrer de choque? Certamente, não sabemos…a resposta para esta pergunta é: “Depende de cada rato / organismo”, pode ser que uns morressem de fome e outros de choque.

De volta às organizações, transpondo estes experimentos analogicamente para o âmbito organizacional, imagine-se como um rato, entre a fome e o choque (Entre ficar com o emprego ruim e poder achar um pior), você opta pela fome ou pelo choque?
Há pessoas que conseguem procurar outros empregos, há pessoas que não. Será que se o ratinho aprendesse a falar e reclamar, ele desligaria o choque ou eliminaria a fome com resmungos? Se reclamar como um ranzinza, não melhora o seu salário, nem mesmo a relação com o seu chefe, por que as pessoas que optam por se submeter às condições ditas como inadequadas em termos de qualidade de vida continuam lá, firme e forte à reclamar?

A gama de contingências que mantém o comportamento do funcionário ranzinza e “reclamão” trabalhando em uma organização, mesmo quando tem o livre arbítrio para se desvincular em busca de melhores condições do trabalho perpassam, segundo a abordagem da Análise do Comportamento aplicada às Organizações por determinates Ontogenéticas (historia de vida de cada sujeito), Filogenéticas (história e carga genética do sujeito) e Culturais (Sociedade ao qual o sujeito está imerso).

O Sujeito pode ter pré – disposição a acomodação, pode ter aprendido em sua relação com o mundo, pode estar sob controle de aspectos culturais (como por exemplo, não ter estabilidade no emprego é condição fundamental para ser taxado pela sociedade como “péssimo” funcionário), como pode ter fatores destas 3 determinantes!

Compreender o comportamento humano sob este olhar experimental ajuda não apenas a compreender como e porque um trabalhador se mantém como tal, mas também, a compreender porque pessoas não param de fumar e reclamam, porque não conseguem fazer regime e reclamam, por que não conseguem largar o namorado agressor e reclamam, e assim sucessivamente.

Até que ponto podemos dizer que somos livres para escolher, quando na verdade, somos afortunados pelas conseqüências de nossa conduta? Até que ponto você diz que optou por ficar no emprego por vontade própria, quando na verdade está sob controle de fuga de medo de achar coisa pior, de ser taxado como funcionário que pula de “galho em galho”, ou seja, quando está sob influência de uma ou mais determinantes aqui mencionadas?

Quando o meu eu diz “quero alguma coisa”, mas não consigo, quando o seu funcionário diz “eu quero”, mas não consigo, podemos inferir aspectos subjetivos de outras vertentes teóricas da psicologia para ampliar a discussão, mas vou, a partir de minha prática teórica, acadêmico e profissional, continuar a frizar que tanto Skinner (pioneiro da Análise do Comportamento), como Murray Sidman (Contemporâneo) tinham / têem completa razão: O nosso livre arbítrio está em jogo quando descobrimos que nossa conduta é controlada pela suas conseqüências e não pelos seus antecedentes.

Interessados ou leigos em análise do comportamento, sugiro que visitem no psipédia do redepsi, os conceitos de controle de estímulos, comportamento operante, estímulo reforçador e esquemas de reforçamento. O conceito de "Caixa de Skinner" é apenas um introdução para aguçar os leitores.

About Eduardo Alencar

Psicólogo comportamental do Cais/USP (2009), pós graduado em Psicologia Comportamental e cognitiva pela USP, com formação técnica em administração de empresas, extensão universitária em OBM e em Acompanhamento Terapêutico pelo Núcleo Paradigma, especializ
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