A inserção do Psicólogo numa Clínica de Reprodução Assistida

Atuar como Psicólogo dentro de uma Clínica de Infertilidade propõe reflexões e questionamentos sobre a singularidade do sujeito que atravessa a porta da Clínica, que se envolve – e é envolvido – no processo de Reprodução Assistida.

Introdução

Os avanços da Medicina e da Biotecnologia mudaram radicalmente os rumos do tratamento da Infertilidade. O desejo de ter um filho, antes impossível viabilizar, se torna possível. A equipe de Reprodução Assistida é composta por profissionais altamente qualificados que trabalham no contexto da multidisciplinaridade.Trata-se de um processo cujas nuances científicas muitas vezes são inacessíveis aos pacientes, tanto pela complexidade técnica, quanto pelos conteúdos emocionais que são mobilizados.

Atuar como Psicólogo dentro de uma Clínica de Infertilidade propõe reflexões e questionamentos sobre a singularidade do sujeito que atravessa a porta da Clínica, que se envolve – e é envolvido – no processo de Reprodução Assistida.

Descrição

A infertilidade apresenta-se como uma crise, um obstáculo. Saber-se com dificuldades para engravidar faz emergir sentimentos de exclusão, anormalidade, impotência e desmerecimento.  Focaliza a sexualidade e o inconsciente, o narcisismo, as relações objetais, a continência, a fertilidade psíquica, a frustração, a falta, o sofrimento e a dor, a constituição psíquica de vínculos, etc. (Ribeiro,M. 2004).

Do ponto de vista médico a infertilidade pode ser definida como um ano de coito descoberto sem gravidez. Além dos casais que se enquadram na definição acima, vemos com freqüência mulheres que optam pela maternidade tardia, casais homossexuais que querem filhos, úteros de substituição, homens vasectomizados que reavivam o desejo de serem pais, ou seja, o universo de sujeitos que busca o serviço é muito mais amplo e variado daquele que pode caber na definição médica.

O ponto comum de cada um destes sujeitos é o desejo de ter um filho e para tanto é necessário que haja um campo emocional onde a fertilização possa ocorrer em todos os aspectos, não só do ponto de vista biológico.

Observa-se, nos casos acompanhados, que a rotina, especialmente das mulheres, é totalmente absorvida pelas sucessivas tentativas de engravidar. Os procedimentos médicos exigem sua presença quase diária na Clínica e, conseqüentemente, sua atividade psíquica voltada para o tratamento. Horário para injeções, ultra-sons regulares, punções e transferências de embriões. O médico participa e assiste podendo, às vezes, vir a ocupar o lugar de pai simbólico da criança concebida.

O lugar da psicologia é intermediar e facilitar o vínculo médico-paciente, propiciando a escuta apropriada e o suporte emocional necessários durante o tratamento.

As estatísticas apontam para 50% de casos de êxito. Aqueles que não obtém o sucesso necessitam de apoio mais pontual, visto que, mesmo sendo advertidos da possibilidade do fracasso, o sujeito não consegue lidar com o luto da gravidez que simbolicamente ocorreu.

Conclusão

Historicamente a maternidade foi construída como o ideal maior da mulher, o caminho para alcançar a plenitude, realização da feminilidade indispensável para a mulher biologicamente normal. Para o homem, a paternidade é associada à descendência, perpetuação do nome da família e, principalmente à virilidade.

Se o tratamento tem êxito, pode-se dizer que se cumpriu o objetivo, sendo esvaziada esta demanda da paciente. Porém, frente ao insucesso, cabe abrir espaço para o questionamento do lugar não preenchido, do vazio e da continuidade dos sentimentos perturbadores.  

E afinal, refleti, ter filhos não seria nosso
único acesso à imortalidade? Freud, 1900.

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