Dilma, Eleições 2010 e a queda do patriarcado.

Este artigo trata-se de uma análise de um ponto de vista Psicanalítico/filosófico da eleição de uma mulher como presidente do maior país da américa latina. Buscamos elucidar qual a significância desse evento, seu contexto histórico e suas implicações simbólicas.

A algumas décadas mulheres simplesmente não podiam votar, no entanto agora temos a décima primeira mulher eleita presidente na America latina. Isso pode soar um fato de mera curiosidade para muitas pessoas, no entanto é importante se analisar os aspectos sócio-culturais contemporâneos dos quais são um sinal a eleição de uma mulher como chefe maior de um estado em qualquer país.

Muito antes da civilização ou da história surgirem, tribos primitivas adoravam o feminino. Havia uma deusa, não um Deus. As mulheres eram idolatradas pelo misterioso dom de gerar a vida. Predominavam nessa época os aspectos cognitivos que muitas religiões consideram femininos como o instinto e a emoção.

Houve então uma drástica mudança, dominando então dimensões masculinas da cognição humana como a lógica e a razão, antes disso foi tirado o poder místico de conceber a vida das mulheres para que aspectos masculinos da humanidade pudessem predominar.

Nos rituais das religiões pagãs o sexo e a concepção eram adorados assim como em filmes como "de olhos bem fechados" de Kubrick. No entanto as religiões "fálicas" surgiram a poucos milênios adorando um Deus masculino e ditador de leis. Rituais como os de adoração do deus córneo Moloch eram realizados através de sacrifícios de bebês, símbolo maior do poder da feminilidade. Até mesmo o sinal maior de suas deusas, como o pentagrama fora invertido e de cabeça para baixo passou a simbolizar outro deus córneo: Baphomet.

Não é preciso grande estudo sobre as religiões pagãs para perceber a violação do sagrado feminino, pois já deve estar impressa em sua mente a idéia do ritual em que uma virgem é sacrificada para algum deus ou semelhante e esse arquétipo está embutido em obras cinematográficas de"sessões da tarde"aparecendo em filmes como King Kong.

No entanto o paganismo é vetado pela entidade religiosa maior da contemporaneidade que é chamada curiosamente de A Igreja, como se fosse a única. É perceptível uma violação clara do sagrado feminino no cristianismo, onde o filho de Deus é concebido por uma virgem para ser sacrificado, o que pode ser entendido com uma versão complexa do ritual pagão de sacrifício do produto do poder feminino.

Aliás A Igreja sempre negou o controle das mulheres sobre tal poder, sendo contra a nova investida delas de exercer o controle sobre a concepção sendo contra pílulas anticoncepcionais, camisinha e agora o aborto.

É então interessante a manifestação de uma religião patriarcal contra a eleição de uma mulher levantando a bandeira do não arbítrio da mesma sobre o seu poder de concepção em sua faceta de aborto. O que significa claramente um suspiro enfermo de um modelo prestes a cair. A igreja perdeu muito poder ao longo dos séculos; no entanto este poder tinha sido perdido para uma entidade também paternalista que era o estado, contudo, hoje, principalmente no Brasil, temos um estado maternal. Neste caso, um estado que indeniza ao invés de punir; que provê a satisfação das faltas ao invés de regular os excessos.

O gênero do governo não deve ser julgado, mas sim analisado buscando entender a coerência com a demanda social e de sua tendência. 

Há aí uma vindoura extinção do desejo por via desta constante negação à falta, visto que a sociedade de hoje tende voltar ao feminino. E lembramos que como nos diz a psicanálise francesa sem falta não há desejo, e sem desejo não há sujeito. Falamos de um retorno a um pretenso estágio sensório-motor onde, assim como os bebês recém nascidos, o sujeito não sabe onde ele termina e onde começa a "grande mãe", no qual ele tem uma relação simbiótica de anulação de si mesmo e do contato com exterior.

A massificação do mundo chamada de globalização é um dos sinais dessa tendência onde de forma esquizofrênica a sociedade tende a se conectar cada vez mais e criando satisfações para as demandas e faltas que formam o sujeito conhecido pela psicanálise.

Tende então a sociedade a se tornar uma colônia de abelhas ou formigas regidas por uma rainha que detém o governo baseado em seu poder de reprodução? É arriscado dizer. A única coisa sobre a qual se pode discursar com certa margem de segurança é que o modelo de sociedade o qual conhecemos está mudando, a eleição de uma mulher para presidente de um dos países mais importantes desse continente é um dos muitos sinais disso. Se para melhor ou pior somente o tempo dirá.

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