O suicida

                      

"Tenho 27 anos de idade e há muito tempo carrego no espaço vazio de minha existência escura a constante ideia, em carne viva, de que tanto faz estar vivo ou morto.

Desde minha adolescência não consigo navegar meus pensamentos de outro modo, longe do porão turvo de ideologias sobre o qual venho construindo o edifício de minha alma.

Se me dissessem assim, agora: "você vai morrer com um tiro na nuca". Se me garantissem que a morte fosse instantânea, como o desligamento repentino de tudo, meu sentimento seria marcado também por uma certa indiferença.

Provavelmente ficaria muito tenso, temendo o tiro, a dor, a explosão, o impacto arrebatador do projétil. Porém, existencialmente, em relação à vida, nada me coloca em outro ponto além de meus desejos mórbidos.

A infinitude do universo, seus mistérios cintilantes, surdos, escuros ou o absurdo de qualquer realidade inconcebível, somente alimentam meu desejo de voltar a não existir, como um dia já foi, antes de meu nascimento. A imensidão de tudo traga meu espírito para a boca dos ímpetos mais animalescos a querer dar cabo de mim mesmo ou lançar a existência aos seus cumes imprevisíveis e incontroláveis.

Sou um homem (apesar de nunca ter me sentido como homem algum) que carrega nos ombros o peso de uma história desprezível, e também a inveja dos mais miseráveis com quem me defronto nos rincões tristes de saber que a realidade da vida é tão injusta e o sofrimento a experiência primeira de nossa colisão brutal com a existência.

Existimos tão pouco na existência de tudo. E existimos demais para nós mesmos. Não me suporto. Não dou conta da luta voraz que explode em mim, a querer devassar o campo flagelado de minha racionalidade.

Solidão, esse sempre foi o meu nome, minha identidade diante de nunca ter encontrado qualquer reflexo amoroso para o povo faminto de meu rosto no espelho da vida."

(Texto de ficção)

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