Gianecchini e o câncer como uma dádiva

Muitos devem ter ficado impressionados com a seguinte e notória declaração de Reynaldo Gianecchini sobre o câncer do qual padece: "Acredito que isso possa ser uma dádiva para mim".

É uma declaração forte. Demonstraforça de espírito. É admirável e ao mesmo tempo impactante. Traz à tona alguns conceitos alardeados pelo senso comum. Por exemplo, a sentença geralmente atribuída a Nietzsche: "o que não mata, fortalece"; ou a questão da utilidade ou não do sofrimento.

Traz à tona o reencarnacionismo, muito presente nas declarações de Gianecchini, o qual concebe que todo sofrimento é útil, que todo sofrimento tem finalidade ou sentido, os quais dizem respeito a um processo de evolução que se remete a outras vidas, em outro de plano de existência.

Neste sentido, o reencarnacionismo age como um lenitivo, como consolação para se aceitar melhor o sofrimento e os males do mundo. Para quem segue esta crença é valioso este tipo de concepção. O sentimento é de produção de sentido e finalidade para a existência: "Não estamos aqui por acaso, estamos aqui para evoluir. Mesmo nosso sofrimento, por mais extremo e incompreensível que possa parecer, é justificado por esse processo de evolução, o qual se remete para além desta vida encarnada".

Confesso, não me sinto muito à vontade com esse tipo de ideia. O problema é a espiral de sofrimento extremo e injustificado para a qual muitos pacientes são tragados, sem qualquer possibilidade de escolha sobre seu próprio corpo e sua vida.

Aprender algo valioso com uma enfermidade e poder assim se fortalecer como ser humano é sem dúvida louvável. Contudo, conceber que todo sofrimento tem finalidade para quem sofre, pode ser também, em alguns contextos, muito perigoso. Exemplifico: o contexto de muitas UTIs pelo mundo afora. O que ocorre nesses contextos? Quando há a presença de pacientes terminais, ocorrem dilemas acerca de se prolongar ou não uma vida condenada a sofrimentos extremos e irreversíveis.

Até mesmo o Papa João Paulo II escolheu nesse tipo de situação. Escolheu morrer em casa. Escolheu não ir para uma UTI, não ser entubado, não prolongar sua vida desnecessariamente, já que estava condenada a se perpetuar em sofrimentos. Acreditar que a vida deve ser vivida, prolongada, a qualquer custo, é algo que nem mesmo o papa fez. 

Acho mais prudente se pensar que todo sofrimento é na verdade inútil, e que a questão central não é essa. Não se trata de utilidade ou inutilidade. Trata-se de se pensar em sofrimentos evitáveis e inevitáveis. Há sofrimentos evitáveis e inevitáveis e a fronteira entre uns e outros é móvel: o que é inevitável hoje, pode não ser amanhã. Há como se evitar uma série de sofrimentos sem que isso enfraqueça quem sofre ou coisa similar. Para isso é que existe a constante produção de novas técnicas e saberes, além da simples utilização de sensatez e empatia, é claro. Nem toda sobrevida é fortalecedora.

A ocupação de um leito de UTI custa cerca de mil dólares por dia. Muitas pessoas, pacientes terminais, padecem de sofrimentos absurdos nesse tipo de situação, tendo sua vida prolongada indefinidamente, sem qualquer consideração pelo volume obsceno de sofrimentos a que são submetidas. Ficam muito geralmente encarceradas em seus corpos e leitos, sem qualquer possibilidade de escolha sobre si mesmas, sobre seu destino. Sacralizar a vida humana em desfavor do sofrimento é masoquismo ou insensibilidade às dores e direitos fundamentais das pessoas sobre seus próprios corpos e vidas.

A ocupação de um leito de UTI não custa somente mil dólares por dia. A ocupação desse leito por quem já está condenado e sofrendo horrores à sua revelia, custa também seu próprio sofrimento (e de seus próximos) e a vida de várias outras pessoas que poderiam ter sido salvas caso esse mesmo leito estivesse livre. A ilegalidade da eutanásia pode, em muitos casos, transformar uma UTI em um ambiente duplamente desumano, antieconômico e
antiecológico.

Duplamente desumano, pois: 

1. Não respeita o direito de quem padece de terminalidade a uma morte tranquila e livre de sofrimentos evitáveis, desnecessários. Impõe a obrigação da vida sob todo e qualquer custo. Viver deixa de ser somente um direito e passa a ser uma obrigação. E a vida, assim entendida, não é de quem vive, mas sim do estado. Sua vida, neste contexto, não é sua não; é do estado.

2. Deixa assim morrer outros pacientes, recuperáveis, justamente pela ocupação de leitos por quem pede para morrer de modo tranquilo e já está condenado.

É desumano com quem está condenado, sem direitos sobre si e sofrendo no ambiente de UTI, assim como com quem vem a falecer por falta desses mesmos leitos. Os aspectos antieconômicos e antiecológicos são facilmente dedutíveis a partir do que já foi exposto.

A sacralização da vida humana e o prolongamento irracional de sobrevidas podem ser piores do que tortura. Nos mais notórios métodos de tortura já produzidos pela humanidade, a vida acabava com uma parada cardiorrespiratória. Em uma UTI isso tende a se prolongar, pois há muito geralmente a opção pela ressuscitação. Ou seja, a tortura não termina. Quase nunca existe a importante distinção entre parada e morte. Morte: trata-se de terminalidade, logo o paciente está morrendo, e não parando. Logo, não cabe ressuscitação. Parada: o paciente não é terminal, tem condições de se recuperar. Neste caso uma vida é salva, e o bem se produz. No primeiro, um
sofrimento é prolongado, e o mal se perpetua.

Portanto, a declaração de Gianecchini é muito bonita e elevada se não nos esquecermos deste outro lado da história: o de respeitarmos o direito fundamental que cada um de nós tem sobre nossas vidas e nossos corpos. A
importância de se respeitar a escolha das pessoas e a variação de crenças.

Dizer que todo sofrimento é útil (ou dádiva) e lutar contra a eutanásia voluntária, contra o direito de pacientes terminais decidirem sobre o destino de suas vidas, é autoritarismo e egoísmo. Não respeita o que é mínimo em termos de direitos individuais.

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