Sem a loucura, o homem estaria na idade da pedra

Um livro sério mas pouco divulgado nos Estados Unidos explica o papel das
doenças mentais no reservatório genético da humanidade
Por Luiz Carlos Lisboa

Um livro sério mas pouco divulgado nos Estados Unidos explica o papel das
doenças mentais no reservatório genético da humanidade
Por Luiz Carlos Lisboa

As taxas de doença mental são altas em famílias de poetas,
escritores e artistas em geral, sugerindo que os mesmos genes, o mesmo temperamento
e a mesma capacidade imaginativa estão atuando na insanidade e na ação
criadora.

Daniel Nettle tomou Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, como
exemplo da composição traiçoeira que pode ser o consolo
dos medíocres e a vergonha dos talentosos. Nesse enredo do teatro elizabetano
é mostrada a dificuldade de separar inspiração e loucura,
atribuídos ambos a uma “forte imaginação”. Mas
será tudo tão simples?

Em Strong Imagination. Madness, Creativity and Human Nature (Imaginação
Poderosa. Loucura, Criatividade e Natureza Humana), Daniel Nettle, psicólogo
formado em Oxford e antropólogo preparado no University College of London,
além de muita vivência nas artes e ofícios do teatro da
Inglaterra, vai fundo na antiga discussão sobre o alto preço da
genialidade entre os homens.

No seu livro ele não é jamais ingênuo ou politicamente
correto, examinando a doença mental do ponto de vista genético,
na sua relação com o poder criativo, essa dádiva que poucos
merecem e quase todos invejam.

A obra quer estudar o gênio saudável, dentro dos propósitos
da evolução, mas não se furta a descobrir nele sua racionalização
dos avanços sutis da insanidade, examinando custos e benefícios,
e diferençando o aprendizado do dote hereditário, para fins de
compreensão do processo. Desde logo, para saber por que a loucura existe
no animal humano, contrapõe as duas formas de doença mental: a
esquizofrênica e a psicótica, ou afetiva. Lembra que o psiquiatra
alemão Emil Kraepelin aborda de um modo o problema, e Sigmundo Freud
de outro. As observações do livro não são críticas
dessa corrente ou daquela.

A esquizofrenia é a loucura em sua forma pura. A psicose maníaco-depressiva
já pode expressar-se pela depressão dos poetas, de alguns existencialistas
e dos infelizes de todo gênero. Segundo Nettle, a esquizofrenia e a desordem
afetiva são diferentes na medida em que uma começa no pensamento
e a outra na emoção. A frieza de sentimentos na esquizofrenia
pode não ser falta de emocionalidade, mas a experiência de emoções
inapropriadas, ou conflitantes.

Isso lembra o paciente bipolar na depressão maníaca. De uma certa
perspectiva, os chamados esquizóides são simplesmente aqueles
que se recusam a compartilhar as crenças comuns da sociedade em que vivem.
Não seriam doentes, mas simplesmente rebeldes.

Homem comum

Investigando as diferentes formas de loucura, assim como a relação
do cérebro com elas, o autor examina a fundo (sem esquecer o apelo popular
do assunto) os arranjos genéticos no nosso destino, admitindo que eles
não explicam tudo que desejamos saber, até mesmo porque os genes
apenas predispõem, e não pré-determinam de forma absoluta.
Na segunda metade da obra, Daniel Nettle estuda a aparente falta de sentido
contida na presença da enfermidade mental num reservatório genético
humano que se aprimora sempre. Para ele, a loucura teima em aparecer ali porque,
embora desvantajosa em si mesma, está intimamente ligada a um traço
raro e precioso do homem – a criatividade.

Essa então é a tese central de Strong Imagination, desenvolvida
com notável brilho por Nettle nos últimos capítulos do
livro. Quem primeiro brincou com a idéia, mostrando sua tremenda importância
até para o homem comum, não foi algum ilustre psicólogo,
geneticista ou antropólogo do nosso tempo, mas talvez o maior mestre
em matéria de humanidade, William Shakespeare, na sua comédia
ao mesmo tempo refrescante e profunda, Sonhos de Uma Noite de Verão.

O que ele mostrou em diálogos eternamente atuais, Nettle nos revela
quando reorganiza as noções e as diferenças de esquizofrenia
e psicose de afetividade, ou quando explica como funcionam as drogas bloqueadores
da dopamina, ou ainda como agem no homem os mecanismos delicados e perfeitos
da atenção e da cognição. Nossos delírios,
zangas, depressões, simpatias, rejeições e quietude são
tratados sem o excessivo apego que nos prende a velhos conceitos e a novos preconceitos.

Salvador Dali punha as coisas assim: “A única diferença
entre mim e um louco, é que eu não sou louco.” Por que sabemos
a diferença entre idéias revolucionárias e idéias
destrambelhadas? Para nós, leigos, capazes de perceber a loucura num
parente mas proibidos de receitar um tratamento ou fazer oficialmente um diagnóstico,
não adianta falar em timotipia e esquizotipia, bastando dizer que nosso
cérebro “sabe” a diferença. Segundo Nettle, há
um grande risco de psicose naqueles que se destacaram nas artes criativas. O
autor mostra uma lista dos grandes artistas que resvalaram (e às vezes
se recuperaram) entre um campo e outro. Os mais notórios são Nietszche,
Strindberg, Van Gogh, Virginia Woolf, Guy de Maupassant e Modigliani, mas a
relação completa é quase infinita. O que foi loucura em
sua obra, o que foi arte na sua loucura? Nós podemos talvez saber, eles
nunca souberam.

Depois de viajar por Kraepelin, Shakespeare, Schumann, insetos, caudas de pavão,
genes e neurotransmissores, Daniel Nettle chega às suas conclusões
finais sobre o significado das psicoses no homem. Para ele, não faz sentido
crer que os interessados em criatividade devem buscar experiências de
natureza psicótica, vivendo vidas conturbadas. Esse é um erro
romântico que muitos cometeram. Drogas como a cocaína e um modo
de vida meio louco podem caricaturar a vida criativa, mas no fundo isso é
somente mímica e imaturidade. As célebres experiências da
mescalina e do LSD nunca deram a ninguém algo que o experimentador já
não tivesse anteriormente. Nada além de tema de conversa.

Utilidade biológica

É a psicose inevitável para os marcados geneticamente? A doença
se desencadeia em cerca de 50% dos “premiados” no nascimento.

Acontecimentos traumáticos podem abrir as portas da doença mental,
assim como uma vida metódica e tranqüila pode conservar o mal em
latência. Na psicose, o lítio e o ácido valpróico
(no paciente bipolar, que alterna depressão e mania) e os antidepressivos
(no doente unipolar), são remédios bem sucedidos de manutenção,
permitindo uma vida quase normal. É certo que a psicose é universal,
assim como a criatividade de origem genética. A competição
social que um indivíduo marcado pela criatividade e a psicose entrelaçadas
tem de enfrentar é imensa nas modernas sociedades capitalistas, e às
vezes pode modificar de modo dramático a estatística acima.

A esquizofrenia e as psicoses em si não têm “utilidade”
biológica, e à primeira vista não justificam sua presença
no mundo. Mas se as entendermos como variações anômalas
da criatividade humana, dado seu paralelismo e vizinhança nos genes,
vamos ter de concluir que sem essa contrapartida do gênio que é
a loucura, o mundo ainda estaria engatinhando, se é que teria existido
alguma vez uma coisa chamada civilização.

Luiz Carlos Lisboa é escritor e jornalista

STRONG IMAGINATION. MADNESS, CREATIVITY AND HUMAN NATURE, de Daniel Nettle.
Oxford University Press, 235 págs., R$ 95,00. O livro pode ser encomendado
na Livraria Cultura (tel 3258-4033)

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