Etnopsicopatologia Clínica

I. Diversidades de culturas

Ruth Benedict (1934), em sua obra, não somente mostra a diversidade do comportamento em várias Culturas, mas também mostra como o comportamento anormal pode ser relativo a um determinado ponto de vista. Enquanto algumas culturas valorizam determinados comportamen­tos, outras, pelo contrário, condenavam, além de que, praticamente todas prescrevem a seus membros a noção de bom ou ruim, de normal ou anormal e assim por diante.

Nós vivemos num mundo onde o poder econômico e tecnológico tendem a uniformizar as condutas humanas. Por vezes, no Ocidente, temos mais dificuldades em aceitar as diversidades culturais do que entre os povos primitivos, que vêem através do contato com seus vizinhos, que exis­tem diversos costumes, às vezes completamente adversos de sua própria Cultura. A postura radical e reducionista de alguns autores no Ocidente, se valendo da Ciência sem a consciência crítica de suas limitações, como por exemplo, dentre outros, o trabalho de Wilson, que despreza a influência da Cultura no comportamento e na saúde de um indivíduo. Um exemplo de diversidade cultural pode ser encontrado dentre os Guayakis da América do Sul, região do Paraguai.

Os Guayakis têm sua sexualidade praticamente liberada, pois quando um homem não tem mulher, ele divide a de seus companheiros. Há um maior número de homens nesta sociedade, pois eles geralmente matam uma menina para compensar a morte de um homem estimado. Quase que sempre o amante é secreto e quando o marido pre­nuncia problemas com seu concorrente, ele obriga sua esposa a casar com este amante, oficializando a relação e colocando-o hierarquicamente numa posição inferior. O padrão de beleza deste povo é bastante diferente do nosso, pois eles preferem se apresentar gordos e se alimentam de carne rica em lipídios e com excesso – os Guayakis têm horror de ser magros. Outro detalhe é que um homem nunca consome sua caça, oferecendo-a aos ou­tros. A poliandria, como dentre os Guayakis, ocorre tam­bém entre os Yanomami do norte do Brasil, os Toda da Índia e os tibetanos do Tibete que praticavam infanticídios femininos, mas a poligamia (casamento de um homem com várias mulheres) é mais comum dentre os povos em geral.

II. Diversidade das doenças mentais

Émile Kraepelin, figura de histórica importância para a psiquiatria, remarcava em sua publicação de 1904, que numa etnia diferente da sua, a doença mental também se manifestava diversamente, na sua incidência ou quali­dade. Este autor buscava a validação dos diagnósticos psiquiátricos por ele elaborado, considerando observações e dados levantados em outras sociedades. Descobriu, por exemplo, que dentre o povo de Java, na Indonésia, eram raras a melancolia e a mania. Porém a pesquisa de dis­túrbios exóticos do comportamento já datava desde a época de Freud, segundo a lista sugerida por Opler. Para os "distúrbios exóticos" muitos termos foram sugeridos co­mo: ''Neurose e Psicose Étnica ou Cultural"; a noção de "rare-zero differential" de Robert Le Vine; "The Culture­-Bound Reactive Sydromes" sugerido por Pow Meng Yap, em 1969 e, ainda, "Psychogenic Psychoses" des­crito por Faergeman. Sem entrar no mérito das justifi­cativas para os termos empregados por estes autores, prefiro chamar de Distúrbios Mentais Espe­cíficos de Culturas, considerando a natureza multifatorial dessas doenças.

Não há um consenso dentre os autores na classificação destas síndromes, embora prevaleça a tendência de se classificar como distúrbio psicogênico, quando fatores so­ciais e culturais modulam o quadro. Pow Meng Pap lembra a proposição de Anthony Wallace de 1961, onde ele anunciava uma teoria ecológica da doença mental tentando uma explicação biocultural e se utilizando para isso, de interessantes observações dentre os esquimós. Wallace já defendia uma abordagem interdisciplinar para en­tender as alterações de comportamento do indivíduo no seu meio e na sua cultura. Este autor chegou a sugerir que a deficiência na ingestão de cálcio entre os esquimós era responsável pela Histeria do Ártico.

A Tanatomania ou Morte Psicogênica é rara, porém ocorre diversamente em várias sociedades e envolve fa­tores psicofisiológicos. Collomb demonstra que enquan­to o Ocidente tem mais familiarizado o termo "morte psi­cossomática", os estudos de culturas africanas sugeririam o termo "morte sociossomática". Ele lembra que a morte é familiar a todas as sociedades, mas ela não é a mesma para todos os indivíduos e nem para algumas culturas. Na cultura onde Collomb realizou sua pesquisa, a imagem da doença ou da morte era a conseqüência da agres­sividade do meio sobre o indivíduo ou do conflito deste com a coletividade, segundo a representação daquele po­vo. Como exemplo de morte sociossomática cita: a morte do feiticeiro e três síndromes específicas que afetam as crianças: "Nit-Ku-Bon"; ''Tjid a Paxer" e, "Kwashiorkor").

Nos casos descritos por Collomb, na África, nem todos­ morrem propriamente, mas no processo representativo a morte está em jogo. A morte-psicogênica é um fato importante para a psicossomática e as explicações cientí­ficas vêm desde Cannon que mostra que ela ocorre a partir de uma atividade simpática excessiva resultando, por fim, perda de plasma e do volume sanguíneo com uma queda total da pressão arterial. Dentre os tipos de morte psicogênica, temos a rápida e a lenta. Das rápidas a forma africana está ligada à quebra de um tabu; na Polinésia seria por conseqüência de uma vergonha social; e na Austrália e Melanésia (conjunto de ilhas na Oceania que inclui Nova Guiné, Nova Caledônia, Fiji etc.) o que mata é a magia. A forma lenta ocorre entre migrantes ou prisioneiros, é mais comum e foi descrita principalmente no Japão e Polinésia – está ligada a uma saudade intensa e uma desadaptação.

O suicídio é um tema polêmico e impressionante. Talvez represente o maior grau de violência humana: o de destruir a si mesmo. Ocorre em diversos povos com incidências diferentes. É conhecido o alto índice de suicídio na Suécia, no Japão, nas cidades catarinenses colonizadas por alemães e dentre alguns povos não tecnicizados.

O suicídio pode ter sua incidência aumentada num determinado povo e em determinado contexto cultural, como cita Bastide, referindo-se ao suicídio do negro bra­sileiro. O negro foi trazido à força para o Brasil, passando do regime tribal para o regime escravagista e em seguida para o de liberdade com a lei de 13 de maio de 1888. Enquanto que na África o suicídio era um fenômeno raro, na mesma época, as mesmas etnias imigradas à força para o Brasil tinham uma incidência de suicídio infinitamente superior. Aos que explicavam as altas incidências desse quadro dentre os migrantes em geral, alegando que é o "cicIotímico" ou o "emotivo" que, na maioria das vezes, deixa o seu país, com esses dados sobre a migração forçada de escravos, ficaram com suas explicações infundadas.

Recentemente os índios Caiuás do centro-oeste brasi­leiro eram noticiados pela imprensa como "índios suici­das", devido à taxa assustadora de tentativas de suicídios, muitas delas com êxitos. Aculturados e distribuídos no mesmo espaço físico com os Guaranis e Terenas, os Caiuás são de temperamento dócil, diferenciando-se de outras tribos. Eles pregam desde a infância a serenidade. Atual­mente eles estão afastados de seus rituais e as instituições religiosas dos brancos influenciaram seu comportamento, alterando diversos hábitos e concepções místicas. Sem a integração cultural de épocas passadas, até mesmo notícias como a Guerra do Golfo Pérsico geraram boatos nessa comunidade, trazendo ansiedade e levando ao suicídio.

A tentativa de Yap de relacionar os diversos distúrbios mentais específicos de culturas com o conhe­cimento da psicopatologia atual é válido no sentido de facilitar a exploração da natureza destas síndromes e aprimorar o conhecimento sobre síndromes reativas. Os estudos epi­demiológicos, a partir destas considerações, poderia am­pliar sua atenção a fatores culturais e sociais que nestas sociedades foram significativos, ao pesquisarem a com­plexa sociedade ocidental.

(a) Pibloktoq – Histeria do Ártico

A Histeria do Ártico aparece dentre os povos do pólo norte, como, por exemplo, os lapões e os esquimós na Sibéria, no Canadá (GroenIândia) e no Alaska. O trabalho mais amplo sobre este quadro foi o de Foulks, que dividiu em duas síndromes: a) uma mania imitativa irracional encontrada só na Sibéria; b) um estado dissociativo fre­nético entre todos os grupos circumpolares. Ambas as formas voltam ao estado de normalidade após o compor­tamento bizarro. O paciente apresenta um quadro seme­lhante a uma crise conversiva que conhecemos: canta e grita "iah-iah-iah-iah-ha" e, sobre a neve, se atira de costas, imitando o golfinho, talvez, ou uma convulsão, e ainda rasga suas roupas. Diversas explicações já foram dadas para o quadro. Desde psicanalíticas tradicionais, até as por deficiências dietéticas sugeridas por Wallace.

Este autor afirma que os esquimós, em determinadas épocas do ano, têm um nível de cálcio muito baixo. O cálcio é o elemento essencial na transmissão química dos impulsos neurais, e esta subdosagem provocaria anorma­lidades no comportamento. Foulks, como aluno de Wal­lace, estudou o Pibloktoq para testar essa hipótese e con­cluiu que embora a hipocalcemia seja compatível com o quadro, a maioria dos esquimós que apresentam crise, tinham níveis normais de cálcio e a hipótese de Wallace ­ficou descartada.

Outras hipóteses foram testadas por Foulks, como a influência do dia e da noite, que nos pólos são totalmente atípicos no verão e no inverno, sobre a fisiologia humana. Os esquimós ficam, às vezes, dias sem descansar no verão, onde o sol não se põe e na noite eterna do inverno, por vezes, eles hibernam. O autor testava a possibilidade deste ritmo circadiano atípico para o ser humano afetar o sistema nervoso central levando o indivíduo à irritabilidade e excitação, porém não conseguiu explicar o Pibloktoq sem considerar fatores predisponentes, como por exemplo, patologia ce­rebral.

Revisando 10 pacientes observou que apenas três demonstravam evidência de patologia cerebral, obrigando ­Foulks a considerar então os fatores psicossociais. Como­ causa comum descobriu que todos que tinham crises estavam ameaçados ou incapazes de manter um modo de vida que fosse gratificante socialmente. A conclusão do trabalho de Foulks mostra que o comportamento humano é determinado por diversas causas e que não existe outra maneira de estudá-lo, que de uma forma abrangente.

A tendência do comportamento tipo histérico dos es­quimós é explicada pela relativa permissividade para com as crianças, com as quais procuram evitar qualquer frustração através da dependência e afeição. Os esquimós formam uma sociedade onde a cooperação dentre os in­divíduos é essencial para a sua sobrevivência, devido à inospitalidade do clima em que vivem. As alterações so­ciais acabam também gerando conflitos e oferecendo pou­cas opções para resolvê-los. Talvez o Pibloktoq seja a única manifestação encontrada pela população, principalmente feminina, para anunciarem seu mal-estar – o comporta­mento dramático aguardando a ajuda dos outros.

(b) Malgri

O Malgri ocorre quando se quebra um tabu dentre os índios do norte da Austrália. É um exemplo de um estado de angústia associado a crença sobrenatural. Esta síndro­me, segundo John E. Cowte, carac­teriza-se por ansiedade incapacitante, com sonolência e dor abdominal, exclusiva das ilhas Wellesley, e prevalece uma preocupação fóbica, principalmente pela violação de tabus alimentares específicos.

(c) Doenças dos guerrilheiros

Durante a Segunda Guerra Mundial, observava-se que quadros histéricos eram mais comuns entre os soldados indianos, por exemplo, do que entre soldados ingleses. En­quanto a Neurose de Guerra era ausente entre os eslove­nos, qualquer etnia da Iugoslávia a apresentava e com freqüência. O doente entra num quadro de agi­tação e confusão mental a partir da notícia da morte de um camarada ou ao ouvir um canto de guerra. Ele se agacha e como ­tivesse portando uma metralhadora invisível começa a atirar e dá ordens de combates para os companheiros. No final só lembra que teve uma crise e pede desculpas, mas não se lembra do que fez durante ela.

(d) Estados de possessão

Não é incomum em nosso país, considerando a grande repercussão das religiões espiritualistas, o indivíduo, se dizendo "possuído", buscar a atenção da comunidade para o seu problema. A Possessão seria um estado de dissociação consciente e reversível e pode ser vista por algumas culturas como um estado místico, uma doença, perda da alma, ou então, possessões por bons ou maus espíritos. Geralmente o campo religioso costuma "resol­ver" estes quadros, que chegam ao clínicopsi somente quando caem no descontrole. A atuação do xamã muitas vezes é mais aparelhada do que a do clínicopsi diante da possessão, pois está integrada ao culto em que o in­divíduo está inserido e tem a participação dos demais integrantes de sua comunidade.

(e) Latah

Latah é um quadro histérico peculiar encontrado na Malásia e Indonésia, na Oceania. Na Sibéria é denominado "Myriakit" e no norte do Japão "Imu", mas há relato também do mesmo quadro no norte da África. Na América do Norte, por um curto período, se manifestou entre imi­grantes canadenses no norte dos Estados Unidos. Há duas categorias gerais de Latah: 1) uma reação de sobressalto e estupefação com perda do controle por vários minutos e "coprolalia" (falar palavrões). Um pavor, uma situação embaraçante ou um repentino barulho po­dem desencadear o quadro; 2) outra reação é o impulso de imitar um estrondo ou ações que chamam a atenção do doente ou que o apavoram, A diferença do Latah com a Síndrome de Gilles de Ia Tourette (tiques em geral, acompanhados de palavrões) é que esta ocorre desde a infância com tiques motores, enquanto que o Latah começa, após a infância e os tiques são raros.

Na Ásia a incidência do quadro é, na maioria das vezes, sobre as mulheres e de baixa classe social. Porém é significativa também sua ocorrência dentre os soldados e mostra a ambivalência entre o desejo de obedecer e de se rebelar, ou agir espontaneamente. Estes pacientes se alternam com comportamento dócil e nervoso. As manifestações reativas, como a de dizer um nome obsceno após um susto, ou mais grave através de tremores e liberação dos esfíncteres, são acompanhadas de escusas por parte do paciente, que fora da crise, não apresenta nenhum traço de pa­tologia mental.

As explicações para a etiologia do Latah se baseiam na educação na infância orientada para aceitar passiva­mente a submissão, ou então o estabelecimento de modelos do comportamento para se obter satisfação muito diversa daquela cultura. Não descartando o uso secundário da doença pelo paciente, considerando os ganhos obtidos através das crises, o quadro seria a expressão do material inconsciente reprimido que se manifesta oportunamente no momento do descontrole.

(f) Neurose obsessiva Putzwut

Na Índia a mania de limpeza é coletiva em certos lugares, de tal forma, que às vezes, um clínicopsi do local não se dá conta desses sintomas. No Japão, como o "ta­ tami" é muito difícil de limpar, as crianças são treinadas, desde cedo, para deixarem seus calçados ao entrarem nas casas, recebendo assim uma noção precoce de limpeza.

Mas vale a pena citarmos a Neurose de Limpeza das Donas-de-Casa na Suíça, a "Folie du Nettoyage" (die Putz­wut), que evidentemente ocorre entre as mulheres e revela uma necessidade irracional de limpar toda a casa. Elas não aceitam nenhuma proposição para facilitar o trabalho e se colocam como vítimas que se sacrificam pela família. Não é fácil tratar o quadro se não se tiver conta das causas implicadas. Uma causa é indi­vidual, tais como, sentimento de inferioridade, de culpa (re­sultado de uma rígida educação moral) e ressentimento. A outra causa é cultural, onde se vê que na Suíça alemã o dever da mulher é o de zelar pela ordem e limpeza, onde o trabalho árduo é valorizado. Elas não param, ­sempre se ocupando de alguma coisa – e acusam de "mo­lengas" as pessoas de temperamento mais calmo e passivo.

(g) Koro

Devereux sugere o termo "Desordem Étnica" aos qua­dros que se relacionam ao modelo cultural específico do grupo. Ele afirma que se analisarmos estas desordens em uma dada cultura, poderemos conhecer o grau de orien­tação psicológica dessa cultura. Um Pibloktoq é fruto das características sociais e culturais dos esquimós e não ocorre, por exemplo, na Malásia. Por sua vez o Latah, que aparece na Indonésia e na Malásia, não é observado dentre os esquimós. A cultura tende a oferecer, às vezes à contra­gosto, certos meios de expressão de um conflito. Assim ocorrem também com neuroses sexuais, como o Complexo do Berdache (travesti), o Koro, o Jiryan e o Sook Yong.

O Berdache nada mais é que uma solução cultural, reconhecida oficialmente, mesmo que marginal, dentre os Índios dos Planos na América do Norte. Para título de comparação, enquanto que dentre esses índios a solução para um covarde não ser difamado é de tomar-se um "berdache", ou seja, um travesti, dentre os Tanala de Ma­dagascar o travestismo é um refúgio para o homem sexual­mente deficiente que corre o risco de ser anunciado como impotente para a comunidade. Outras for­mas institucionalizadas de homossexualidade e de traves­tismo aparecem também na Sibéria, no Taiti, nas Ilhas Célèbes e dentre os mohave.

O Koro foi descrito pela primeira vez nas Ilhas Célèbes e é restrito à Indonésia. Trata-se da crença de que os órgãos sexuais são reabsorvidos pelo organismo e que em seguida se morre. Quando ocorre nos homens, durante a crise o paciente segura seu pênis para se proteger da suposta ameaça. Enquanto que após a crise do Koro o paciente volta rapidamente ao normal, o Jiryan, do norte da Índia, tem tendência a ser mais crônico. Neste quadro, o que ocorre é a perda da força vital quando se expele o esperma. Nesta região não se permite ao casal de ma­nifestar seu afeto na frente dos parentes e a educação é anti-sexual, de tal forma que os noivos, ao se casarem, ignoram totalmente a sexualidade, ou então, somente o homem teve oportunidades, mas em bordéis. Estes aspec­tos justificam a ambivalência da população em relação à sexualidade e, o Jiryan é apenas a manifestação por alguns, dessa ambivalência.

O Shook Yong dos chineses é muito parecido com o Koro, onde se crê que os órgãos sexuais se enrugam e após isto se morre. Em Cingapura e na Tailândia esse quadro ocorreu como uma breve epi­demia, e como no Koro, após conflitos sociais decorrentes de mudanças importantes e ameaça de perda da identi­dade cultural.

(h) Amok

O Amok foi descrito desde o século XIX no arquipélago Malaio, e mais tarde foi observado na ilha de Java, na Malásia e nas ilhas Célèbes. É uma reação psicótica com confusão mental, seguida de amnésia, desencadeada, em geral, por uma frustração. Este quadro ficou desaparecido por muito tem­po, reaparecendo somente em 1960. Frustrado, o paciente repentinamente com uma espada curta (kris), passa a ata­car o primeiro que vê em sua frente, sem salvaguardar sua própria vida. Dentre eles o grito Amok! Amok! soa como um alarme e todos já sabem do que se trata. Quando esse quadro reapareceu em 1960, dentre as tribos das colinas da Indochina, a arma utilizada era a granada. A maneira clássica de acabar com uma crise do Amok é matando o paciente. Linton contou a Devereux que quando os holandeses impediram de dar a morte gloriosa, ao paciente com Amok, que ele procu­rava, e no lugar disso, condenava-o a trabalhos forçados, aos pacientes que se conseguia capturar, a incidência des­sas crises reduziram-se sensivelmente. Enquanto que o Amok afeta os homens, neste mesmo povo o Latah ocorre dentre as mulheres. O Negri-Negri da Nova Guiné é uma corrida homicida semelhante à do Amok, sendo precedido também por alguma frustração. Usualmente associada à morte, perda de um parente, ou a uma possessão espi­ritual.

(i) Windigo

O Windigo é outro exemplo de uma síndrome de pos­sessão associado a um modelo cultural que ocorre dentre os índios do nordeste do Canadá. Trata-se de um com­portamento indesejável e desviante que pode culminar em homicídio através do canibalismo. Crê-se que um es­pírito come a carne humana e que pode forçar a qualquer um a fazer o mesmo.

Em 1991 a "antropofagia" tomou conta dos noticiários do mundo: primeiro com o sucesso do filme "O Silêncio dos Inocentes" com a curiosa figura do psiquiatra canibal Hannibal e, depois com a prisão de Jeffrey Dahmler, um psicopata canibal de Milwaukee, WI, USA e, a fuga de um outro em Moscou. Talvez o que há de comum entre estes dois últimos casos e o Windigo é a base depressiva e ansiosa que precede o canibalismo. No Windigo a chave do problema talvez esteja no conflito que estes índios enfrentam diante da falta de alimento, no rigoroso inverno ártico, onde se está ameaçado a morrer de fome. Alguns, quando pressentem a crise, procuram o xamã para ser curados e outros pedem para ser mortos, antes que comecem a atacar e comer as pessoas.

(j) Susto

Descrito na América Latina, o Susto pode ocorrer diante de um trovejar ou ao topar com um feroz animal. Os sintomas são: insônia, astenia, apatia, perda de apetite e peso, depressão e ansiedade. Também é conhecido como "mau ar", "mau vento" e por vezes é o resultado de má experiência com um agente sobrenatural. Ata­cam as pessoas quando elas estão sós – tanto as crianças como os adultos. Langdon e MacLennan, citando Seijas, contam que havia casos dentre crianças pequenas rea­gindo com o Susto, diante de uma queda, de um acidente ou ao presenciarem briga dos pais. O tratamento é feito pelo curandeiro através de um ritual ou pelo uso de ervas, como ocorre dentre os Sibundoys. Nesta sociedade muitos conhecem o uso de ervas medicinais para as enfermidades mais comuns. Às vezes, como ocorre na Amazônia, o curandeiro faz uso de subs­tância alucinógena para realizar seu ritual de cura.

(k) Drogadições étnicas

O uso de uma determinada droga pode ser peculiar em algumas civilizações e nem sempre causam danos, como se observa em nossa sociedade, podendo servir até de instrumento de integração e equilíbrio do grupo que a consome. As drogas variam tanto como sua forma de consumo e seus objetivos. Dentre elas existem bebidas fermentadas, o álcool, o tabaco, a maconha, o haxixe, o peyote, a epena, a cocaína, as anfetaminas, a heroína, o LSD e assim por diante. Podem ser consumidos individualmente ou em grupo e com várias finalidades como: aliviar tensões, preencher vazios, fugir de dificul­dades, ou então para buscar uma "intoxicação religiosa" ou "embriaguez divina".

Dentre os grupos tribais o uso de alucinógenos está ligado à prática xamanística, onde o pajé (xamã) procura realizar sua benfeitoria ou conduzir um ritual de cura em estado de êxtase. Por exemplo: o pajé, dentre os índios Tapirapé no Brasil, engole fumaça do cachimbo para entrar em êxtase. O fumo tem unicamente caráter medicinal e religioso dentre este povo. Para curar o doente, o pajé assopra a fumaça sobre a parte afetada, ou sobre todo o corpo do doente. Dentre os Yanománi (norte do Brasil) o tabaco é acessível a todos, inclusive para as crianças. Na nossa sociedade o tabagismo é problema sério de Saúde Pública segundo a própria Organi­zação Mundial de Saúde e, que não só afeta o fumante, mas também, os que com ele convivem: os fumantes passivos, que se calcula absorverem 30% de quem está fumando.

Vivendo próximos e sendo parecidos com os Yanomá­ni, os Waikas da fronteira do Brasil com a Venezuela foram os inventores dos venenos para flechas, o "mami­korima" e de um alucinógeno de nome "epen" segundo as descobertas de Georg J. Seitz (nos registros da Funai). A preparação deste alucinógeno é bastante complexa e ele é consumido em grupo através de um ritual, onde as mulheres podem estar presentes, porém estão proibidas de aspirarem a droga. O consumo é por dupla, ficando um deles de assoprar na narina do outro aIternadamente, geralmente até duas doses (o uso de alta dosagem pode levar a morte). A "epena" não causa dependência e seu principal utilizador são os curandeiros/feiticeiros, que co­m o efeito, dançam, se agitam e cantam.

O Peyote tem a mescalina como princípio ativo e é usado até hoje pelos índios da América do Norte (México) como um produto sagrado e ritualístico. O uso desta droga por um ocidental e um índio Huichuls produz visões diferentes. Os ocidentais vivem uma expe­riência individual estética, consciente e desordenada. Os índios vivem uma experiência comunitária, religiosa, in­terpretando como verdadeiras suas alucinações e se mo­vimentam com certa organização. A legislação americana que antes reprimia o uso de Peyote, hoje aceita seu culto como religião e não como toxicomania. ­

No Brasil é polêmica a situação do Santo Daime fun­dada em 1930 por Irineu Serra no estado do Acre. Há toda uma divisão de trabalho, conforme o sexo, na pre­paração da Ayahuasca e a cerimônia chega a durar sema­nas. Os efeitos são alucinogênicos, embora os usuários não estejam livres dos efeitos colaterais, como diarréia e vô­mitos. Até 1991 o Conselho Federal de Entorpecentes consi­derava o uso da Ayahuasca ilegal, por não haver es­tudos suficientes sobre suas conseqüências. Sabe-se que as alucinações visuais são provocadas pela dimetil-tripta­mina encontrada nas folhas da chacrina e a função do cipó mariri é de retardar a metabolização do alucinógeno.

A maconha, da qual o haxixe é derivado, já foi consu­mida por milhões de seres humanos, por vários séculos e em vários países. Quando Colombo chegou ao México, os astecas usavam maconha na sua prática religiosa. Os astecas também utilizavam os cogumelos alucinogênicos (psilocibina ou psicilocina) em busca de visões durante os rituais religiosos. Mesmo na Sibéria, os Ostiak e os Koryak produziam alucinógenos com base em cogumelos (Amanita muscaria). Durante as visões acreditavam que o princípio tóxico era eliminado pela urina, que era bebida pelo mesmo indivíduo ou por seus companheiros. Na Nova Guiné, quem consome cogumelos, são os índios da tribo Kuma e estão ligados a rituais e, as manifestações são diferentes conforme o uso.

A folha de coca é consumida pelos índios peruanos, com objetivo de aliviar o cansaço ou a fome, ou para tirar a monotonia durante as atividades. O governo permite a venda moderada das folhas aos nativos, porém a cocaína, conhecida por todo o Ocidente, atualmente recebe forte reação de órgãos de combate à droga, em vista dos trans­tornos da saúde e sociais por ela acarretados.

Lembremos, também, o variado e extensivo uso de substâncias fermen­tadas. Fatores culturais estão relacionados ao uso como, por exemplo, entre os chichicastenango na Guatemala, on­de só se bebe em público e nas festas cerimoniais. Entre os chamula no México, todo mundo bebe durante as ce­rimônias, inclusive as crianças. Ninguém tem o direito de recusar a bebida alcoólica se lhes oferecem. Bunzel, citado por EIlenberger, escreve em 1940 sobre o papel exercido pelo álcool nestas sociedades da América Central. No Brasil, os índios Urubus, outrora ferozes e caçadores de cabeça, quando embriagados, cantavam e dançavam com seus inimigos.

Esses exemplos não são somente ilustrativos do re­lativismo das questões do que é normal e anormal nas culturas, mas a reunião dos estudos de várias décadas, comprovam que componentes sócio-cuIturais, indiscu­tivelmente, têm seu papel na formação e resolução do transtorno mental e não podem ser desprezados pelos profissionais da área.

Os quadros citados representam apenas uma amostra de Distúrbios Mentais Específicos de Culturas, ou de de­terminada Cultura numa dada região, numa época específica. Mesmo com as considerações do relativismo cultural da escola antropo­lógica, Cultura e Personalidade, não podemos negar a existência destes quadros, em suas próprias culturas, como tendo caráter patológico.

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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