O Efeito do Observador (português: Diogo Ferreira)

Texto traduzido do site da OBM Network

Em T.McSween (no prelo). The Values-based safety process (2nd ed.). NewYork: Van Nostrand-Reinhold

AliciaM. Alvero e John Austin
Western Michigan University


Na primeira edição de Values-based Safety Process, oautor Terry Mcsween escreveu “ninguém conduziu até agora uma pesquisa definitiva sobreos efeitos de empregados conduzindo observações nos seus próprios locais de trabalho” (p. 24). Nós achamos essa afirmação interessante e merecedora de umainvestigação mais detalhada. Ao discutir estaquestão com outros pesquisadores e praticantes da área, decidimos que existia interesse geral suficiente para que pesquisas adicionais sobre o processo de observação fossem realizadas. Muitos praticantes que foram questionados achavam que era evidente que empregados que conduziam observações a respeito da segurança de seus colegas trabalhavam de maneira mais segura como resultado de tais observações. No entanto, essa afirmação não havia sido cientificamente comprovada. Feedback e processos de observação são componentes críticos do gerenciamento de segurança comportamental (behavior-basedsafety, BBS), mas, curiosamente, existem vários estudos sobre os efeitos de feedback, enquanto estudos sobre os efeito da observação são quase inexistentes. Estes fatores fizeram nossa tarefa mais interessante e mais desafiadora. Então com essas consideração, começamos nossa busca para determinar se empregados que conduzem observações desegurança de fato trabalham de forma mais segura como resultado dessas observações. Nós nomeamos esse efeito hipotético de “efeito do observador”.

Nosso primeiro passo foi determinar se conduziríamos a pesquisa em um contexto do mundo real (um empresa real) ou em um contexto laboratorial. Nós preferiríamos um contexto do mundo real, mas as vantagens praticas que apontavam em direção ao laboratório. Em primeiro lugar, nós achamos que seria muito difícil convencer uma organização a gastar tempo e recursos com o único propósito de testar a existência de um “efeito do observador”. Empregador teriam que ser removidos de seus postos para serem treinados como observadores, e,a não ser que a organização estivesse interessadaem implementar um processo de segurança comportamental, seriamuito difícil conseguir o comprometimento do empregado que é critico para o sucesso do BBS. Alem disso e mais importante, num situação laboratorial, seriamos capazes de eliminaros fatores estranhos que estariam presentes no contexto organizacional e com isso estaríamos melhor capacitados para atribuir os efeitos, caso existissem, à intervenção e não outro evento que ocorresse dentro da organização. Neste caso, antes de tentar em um ambiente organizacional, queríamos estar seguros que a mudança no comportamento do observador estava diretamente relacionada a condução das observações do comportamentode seu colega. Baseado nesses fatores, decidimos começar apesquisar o “efeito do observador” no laboratório.

As dependências do laboratório de nossa universidade são constituídas de duas salas vazias, ambas contento uma câmera de vídeo montadas no canto esquerdo da sala e uma sala de controle com duas televisões e um vídeo-cassete, cada uma conectada a uma das salas vazias. Para a condução desta pesquisa, nós equipamos as sala com os seguintes materiais, com o intuito de simular um escritório: uma mesa, cadeira, um computador, um telefone, caixas de papelão, e uma estante. Ambos os estudos relatados neste capítulo foram realizados nessas dependências.

Para o primeiro estudo, nós recrutamos 12 estudantes de graduação para participarem da pesquisa. Cada um dói aleatoriamente designado a um de dois grupos, A ou B, e lhes foi dada uma lista de instruções que descrevia o trabalho que deveriam fazer durante o experimento. As tarefas foram escolhidas de modo a simular o trabalho de um escritório e envolviam levantar objetos leves, usar o telefone e digitação. Os participantes forma informados que cada sessão seria gravada em vídeo para que os dados pudesse ser coletados em um momento futuro. Ao longo de todas as fases do experimento nós medimos desempenho de segurança para os oito comportamento a seguir: 1) postura das costas, 2) posição dos joelhos durante o levantamento de objetos, 3) posição do pescoço e 4) dos pulsos durante a digitação, 5) posição das costas, 6) ombros e 7) pés quando sentados, e 8) posição do pescoço ao atender o telefone 1.

Durante a linha de base (quando nenhuma intervenção estava em vigor), os participantes simplesmente desempenharam as tarefas de escritório descritas na lista de instruções, e dados forma coletados sobre o desempenho de segurança para os 8 comportamentos supracitados. A fase seguinte do experimento foi uma fase de informação. Os participantes receberam uma lista com quatro comportamentos que incluía a descrição de como realiza-los de forma segura. (os participantes do grupo A foram informados sobre oscomportamento 1 – 4 e o grupo B sobre os comportamento 5 – 8). E lhes foi dito que esses comportamentos seriam mensurados ao longo do experimento. Essa informação sobre os quatro procedimentos de segurança era dada antes de cada sessão durante esta fase. Decidimos apresentar aos participantes as descrições em uma fase separada da linha de base para garantir que qualquer efeito que observássemos durante a fase de observação pudesse ser atribuído à condução das observações, e não aos participantes tentando “descobrir” qual seria a maneira segura de fazertais tarefas. Um dado interessante foi que os participantes não mudaram seus comportamentos somente com o conhecimento da definição de segurança e risco: comportamentos de segurança não aumentou significativamente para a maioria dos comportamentos durante a fase de observação.

O desempenho seguro geral ficou, em média, em 13.1% para o grupo A e 10.1% para o grupo B. Durante esta fase, aumentos de 6.4% e 0% respectivamente, acima da linha de base. A posição dospés enquanto sentado foi o único comportamento que aumento significativamente durante a fase de informação. Durante a linha de base, a posição dos pés nogeral ficou, em média, em 8,3% e aumentou para 84,1% para ogrupo B, consistindo de 6 participantes para os quais foram apresentadas descrições de segurança durante a fase de informação. Nós especulamos que esse crescimento ocorreu porque colocar a palma do pé no chão talvez seja o comportamento mais facilmente entendido e o que requer menos esforço para ser desempenhado de forma segura.

Durante a fase de observação, os participantes foram solicitados a conduzir observações de segurança enquanto assistiam a um vídeo de um confederado (um ator que foi instruído a desempenhar exatamente as tarefas que os participantes foram solicitados a desempenhar no mesmo escritório simulado com o único objetivo de criar umvídeo de “gabarito”). Foi dado aos participantes uma folha contendo uma lista de comportamentos, descrições de como desempenhar cada um deles de forma segura, e colunas para classificar cada comportamento como seguro ou não-seguro. As observações de segurança foram realizadas imediatamente antes dos participantes começarem seu “trabalho” para a sessão. A lista de observação primeiramente dada a cada participante listava apenas os quatro comportamentos para os quais eles haviam recebido descrições durante a fasede informação (grupo A: comportamentos 1-4; grupo B:comportamentos 5-8). Os quatro comportamentos estantes forma adicionados a folha de observação em um momento posterior. Com isso,pudemos investigar o impacto que conduzir observações temsobre os comportamentos que não estavam incluídos nasfolhas de observação.

Os efeitos de conduzir observações de segurança sobre comportamentos de segurança forma substanciais. O total de desempenho de segurança durante a fase de observação foi de 77.2%, em media para o grupo A e 74.4%para o grupo B, aumentos de 70.5 e 64.4%, respectivamente, acima da média da linha de base. As figuras abaixo representam os percentuais de segurança para cada comportamento,em média para todos os sujeitos e fases. As Figuras 1 e 2 mostram o desempenho de segurança para os grupo A e B, respectivamente. A Figura 3 lista a) a média geral de comportamentos seguros para cada fasee b) a media de comportamentos seguros para cada grupo porcomportamento e fase.

Figura 1: Média de comportamentos seguros para todosos participantes do Grupo A.

Figura 2: Média de comportamentos seguros para todosos participantes do Grupo A.














COMPORTAMENTOS
GRUPO A

GRUPO B

LDB

Info.

Observação

LDB

Info.

Observação
Levantamento: costas
0

1.2

53.1

2.2

n/d

52.9
Levantamento: joelhos
0

24.9

85.9

12.7

n/d

56.2
Digitação: pulsos
0.2

0.7

73.6

0.1

n/d

68.5
Digitação: pescoço
27.5

25.5

83

30.4

n/d

82.3
Sentar: costas
6.9

n/d

83.4

8.9

7.8

76.9
Sentar: ombros
3.3

n/d

83.3

2.1

3.6

70.6
Sentar: pés
8.3

n/d

83.3

8.3

84.1

98.6
Usando o telefone: pescoço
7.8

n/d

84.7

6.7

12.2

71.7
GERAL
6.7

13.1

77.2

10

10.1

74.4

Figura 3: Media dos comportamentos seguros para os grupo A e B.

Nosso segundo estudo 2 sobre o efeito do observador comparou os efeitos de conduzir observações aos efeitos do feedback. Os poderosos efeitos do feedback tem sido frequentemente documentados tanto em situações laboratoriais quanto em contextos aplicados. Nós queríamos saber como os efeitos deconduzir observações poderiam ser comparados aqueles de receber feedback no nosso escritório simulado.

Nós recrutamos 8 participantes. Quatro foram designados para ogrupo de observação e quantro para o grupo de feedback. O ambiente e o procedimento para este estudo forma idênticos àqueles descritos nos estudo acima, com exceção do grupo de feedback. Participantes do grupo de feedback foram expostos as mesmas condições de linha de base e de informação que o grupo de observação. Durante a fase de feedback, os participantes recebiam feedback, apresentados como percentuais escritos, do seu desmpenho em comportamentos seguros na sessão anterior, imediatamente antes de iniciar cada sessão de trabalho. A descrição sobre como desempenhar cada comportamento de maneira segura foram incluídos nas folhas de feedback, para garantir que os paticipantes deste grupo teriam recebido informações necessárias para melhorar, ou manter, seu desempenho seguro. Adicionalmente, para garantir um estudo bem delineado, nós queríamos tratar ambos os grupos da mesma maneira, então nós fornecemos as descrições de como desempenhar cada comportamento de maneira segura para ambos os grupos, de feedback e de observação.

Em seguida estão os achados para dois participantes, um do grupo de observação e outro do grupo de feedback, que são representativos dos achados gerias deste estudo. A Figura 4 mostra o desempenho de comportamento de segurança para o participante do grupo de observação e a Figura 5, o desempenho de comportamentos de segurança para o participante do grupo de feedback. A Figura 6 lista a media de desempenho seguro para cada comportamento e inclui o total de de comportamentos seguros para cada fase. A informação, isolada, teve o efeito mais forte nos comportamentos relacionados a levantamento para ambos participantes. Os efeitos de conduzir observações de segurança e de feedback escrito tiveram efeitos consideráveis e bastante comparáveis. O total de comportamentos seguros ficou em 86.7%, em media, durante a fase de observação e 88.9% durante a fase de feedback, aumentos de 77% e 68.1% respectivamente acima da media da linha de base. Os resultados deste estudo parecem sugerir que os efeitos de conduzir observações são similares aqueles de um feedback escrito, dentro do contexto de um ambiente laboratorial.

Figura 4: Comportamentos seguros dos participantes do grupode Observação.

Figura 5: Comportamentos seguros para os participantes dogrupo de feedback.














COMPORTAMENTOS
PARTICIPANTES DA OBSERVAÇÃO

PARTICIPANTES DO FEEDBACK

LDB

Info.

Observação

LDB

Info.

Observação
Levantamento: costas
0

94.7

100

0

89.2

100
Levantamento: joelhos
0

100

100

0

98.7

100
Digitação: pulsos
1.6

12.3

68


3


37.5

71.8
Digitação: pescoço
45.4

38

98.2

92.3

84.5

100
Sentar: costas
13

n/d

91

30.1

n/d

78.1
Sentar: ombros
5.9

n/d

52.3

20

n/d

73.8
Sentar: pés
2.7

n/d

83

29.1

n/d

90.3
Usando o telefone: pescoço
10.5

n/d

89.9

0

n/d

85.4
GERAL
9.7

61.3

86.7

20

77.5

88.9

Figura 6: Média dos comportamentos seguros para osparticipantes dos grupo de Observação e Feedback.


Os resultados desta pesquisa fornecem evidencia preliminar a favor do efeito do observador. Em outras palavras, os dados indicam que em uma situação laboratorial, pessoas que conduzem observações realmente desempenham tarefas de maneira mais segura como resultado das observações realizadas.

É importante notar, no entanto, que devemos exercitar um cuidado extremo ao interpretar estes dados por diversos motivos. Primeiro, estes são os primeiros estudos a isolar e investigar cientificamente o componente principal do processo de observação. Assim sendo, dados e análises adicionais são necessários para se chegar a conclusões verdadeiramente confiáveis sobre as possíveis implicações deste componente para um processo de segurança comportamental. Em segundo lugar, como nós isolamos o processo observacional, nós estamos incapacitados de discutir qualquer possível interação com outros componentes de um processo de segurança comportamental. Alem disso, o efeito do observador foi encontrado em uma situação laboratorial que não tinha várias variáveis comuns que podem afetar o desempenho seguro, como pressão social e demanda de produtividade. Assim, não somos capazes de confirmar que um efeito de observador semelhante ocorrerão em uma situação no mundo fora do laboratório. Nós sugerimos que empreendimentos de pesquisa vindouros deveriam tentarr eplicar um estudo semelhante dentro de uma organização, e nós temos trabalhado em tais replicações.

Deve-se, também, exercitar o cuidado na interpretação dos efeitos de conduzir observações versus receber feedback. Apesar de cada componente ter efeitos substanciais no desempenho de comportamentos de segurança, nós não estamos advogando a favor do uso de um componente no lugar de outro, nem afirmando que um é mais critico que o outro. No entanto, estas descobertas são bastante interessantes ao sugerir que pode ser mais benéfico treinar todos os funcionários para que sejam observadores de comportamentos seguros.

Pesquisas mais detalhadas serão conduzidas para determinar porque o comportamento do observador muda após conduzir observações. Um ponto que os dados sugerem, no entanto, é que este efeito é mais pronunciado em alguns tipo de comportamentos que em outros. Nos inferiríamos que os efeitos da observação serão mais pronunciados quando o observador estiver julgando comportamentos difíceis de julgar ou de desempenhar, tais como postura, levantamento e outros comportamentos ergonomicamente relacionados. Um comportamento como o uso de capacetes [hard hat] provavelmente produziria um pequeno efeito do observador, exatamente porque o observador já sabe as regras do uso do capacete (use-o ou não o use). Ver alguém usando o capacete não dá informações adicionais sobre como desempenhar o comportamento seguro. Por outro lado, ver uma pessoa se posicionar de determinada maneira pode esclarecer bastante as definições discutidas durante o treinamento e, assim, produz um maior efeito do observador.






1 Para definições completas, entre em contato com JohnAustin, Western Michigan University, Department of Psychology, Kalamazoo, MI 49008, john.austin@wmich.edu.

2 Esta pesquisa foi financiada pelo Cambridge Cconter for Behavioral Studies Safety Grant.

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