O que é Psicologia Comportamental – Roosevelt R. Starling

O Centro Acadêmico de Psicologia da FUNREI, realizou uma entrevista por e-mail com o Professor de Psicologia Roosevelt R. Starling, o qual gentilmente autorizou sua publicação na RedePsi.

[b]01} O que é Psicologia Comportamental?[/b]

[b]RESPOSTA:[/b]
“Psicologia Comportamental” é uma denominação excessivamente genérica. De uma maneira imprópria, esta denominação pode englobar visões-de-mundo, pressupostos e conjuntos tecnológicos muito diferentes, muitas vezes incompatíveis entre si, tais como, por exemplo, o behaviorismo primitivo tal como formulado por Watson em 1913 e conhecido como Behaviorismo S-R, o behaviorismo mentalista de Hull e o behaviorismo mediacional de Tolman, a análise do comportamento de inspiração skinneriana, o neobehaviorismo metodológico que encontra sua expressão mais madura nos cognitivismos contemporâneos, o conjunto eclético e empirista das chamadas “comportamentais-cognitivas” e ainda outras práticas que eventualmente usam o adjetivo “comportamental” para qualificar, muitas vezes inapropriadamente, o seu substantivo. Assim, embora de uso comum por profissionais estranhos à área, a denominação “psicologia comportamental” simplesmente não faz sentido e não se pode saber o que se deve entender por ela.

Pessoalmente, sou um estudante – esforçado! – da análise do comportamento ou, mais precisamente, da [i]Ciência do Comportamento[/i], uma [i]matriz conceitual[/i] que engloba como componentes necessários (1) o Behaviorismo Radical, que é uma filosofia da ciência, (2) a Análise Experimental do Comportamento (AEC), que é uma estratégia de investigação, (3) a Análise do Comportamento (AC) propriamente dita, que é o corpo de conhecimentos conceituais indutivos derivados da Análise Experimental do Comportamento e (4) a Análise do Comportamento Aplicada, que são conjuntos tecnológicos aplicados derivados da AC e da AEC destinados à intervenção nos problemas práticos de comportamento e que se constitui, atualmente, da Modificação do Comportamento, da Intervenção Clínica Analítico-comportamental, da Tecnologia do Ensino, da Análise Comportamental das Organizações (Organizational Behavior Management ou Performance Appraisal), da Medicina do Comportamento e da Análise Funcional da Enfermidade (contextos médico-hospitalares) além de aplicações particularizadas, tais como em problemas sociais (Behavior Analysis for Social Action), autismo, engenharia de segurança, marketing, etc.

Representando um rompimento verdadeiramente radical (pela raiz) com a psicologia tradicional, é somente através do conhecimento da matriz conceitual como um todo, na plena articulação dos seus componentes, que se pode apreciar criticamente a [i]ciência do comportamento[/i] e talvez por isso, e por ser um campo lingüístico muito recente (tem menos de 50 anos), é uma proposição ainda virtualmente desconhecida, mesmo no meio profissional da psicologia e áreas afins.

O pouco que habitualmente se conhece – e se critica – restringe-se o mais das vezes a um entendimento fragmentário do primitivo Behaviorismo S-R (estímulo-resposta), já há muitas décadas de interesse somente histórico para o analista do comportamento. Por outro lado, é somente na perspectiva da Ciência do Comportamento que posso responder às perguntas aqui formuladas, o que me leva a recear pela inteligibilidade que minhas respostas possam ter.

[b]02} Para quais casos clínicos esta abordagem seria mais indicada?[/b]

[b]RESPOSTA:[/b]
A [i]Ciência do Comportamento[/i] e, por conseqüência, suas aplicações clínicas, tais como a Modificação do Comportamento e a Intervenção Clínica Analítico-Comportamental, não é propriamente uma “abordagem da psicologia”, embora seja, é claro, uma abordagem aos fenômenos comportamentais, no sentido original do verbo francês aborder = maneira de se aproximar ou juntar as bordas.

A [i]Ciência do Comportamento[/i] constitui um campo disciplinar por direito próprio, uma [i]ciência natural[/i], com afinidades epistemológicas, conceituais e metodológicas com a física, a química e a biologia contemporâneas. Já se vê daí
que “casos clínicos”, entendidos como os são as entidades psiquiátricas, não fazem muito sentido numa perspectiva analítico-comportamental. A idéia médico-psiquiátrica convencional de que existe uma “doença” ou um “distúrbio” independentes da pessoa que os experimenta, bem como a idéia de uma psicopatologia formista, como as apresentadas nos DSM’s e nas CID’s, é estranha à análise do comportamento. Simplificando ao extremo, consideramos a análise das relações funcionais entre o comportamento da pessoa e seu ambiente e da menor ou maior produtividade dessas relações, no sentido de gerar estados corporais que chamamos coloquialmente de bem-estar, alegria ou liberdade para a pessoa e, forçosamente, para a sua comunidade.

Assim, embora ocasional e coloquialmente possamos utilizar esses termos, o objeto das nossas considerações não é “entidades” ou “casos clínicos”, mas os resultados relacionais da ecologia comportamental dentro da qual se dão as interações entre cada pessoa, única e singular por sua filogênese, ontogênese e cultura, e o mundo em que vive.

Contudo, se é para se tomar como referência padrões estatísticos ou hipotéticos médico-psiquiátricos, temos intervindo com bons resultados, [i]mensuráveis e mensurados[/i], em padrões ditos depressivos e nos ansiosos, nas desorganizações pervasivas chamadas de transtornos da personalidade, nos transtornos somatoformes e sexuais e, mais recentemente, nos quadros de grave desorganização funcional do comportamento quando refratários ao controle químico, como no construto psiquiátrico de
esquizofrenia. Em especial, estamos entusiasmados pelos avanços que vimos obtendo em padrões até então considerados de difícil modificação, como nas adições químicas e sociais, nos transtornos alimentares, nas parafilias, nos transtornos do comportamento repetitivo (como no TOC e Tourette), no manejo da dor crônica e no comportamento anti-social, dentre outros. Tudo indica que temos oferecido a melhor, se não a única, alternativa para o tratamento químico do autismo – reconhecidamente insatisfatório – e de outras desorganizações chamadas de desenvolvimento.

Que não fique, porém, a impressão de que seja só de flores o panorama acima desenhado. Estamos enfrentando dificuldades diferenciadas em cada uma destas intervenções e o avanço não é uniforme para todas elas e nem mesmo dentro de cada uma delas.

Entretanto, não há razões para acreditarmos que os problemas para os quais ainda não encontramos solução sejam, por qualquer título, de natureza diferente daqueles para os quais soluções já foram encontradas. Isso nos anima a persistir no caminho que escolhemos.

[b]03}Que diferença a abordagem da Psicologia Comportamental apresenta em relação às outras quanto ao método utilizado na terapia?[/b]

[b]RESPOSTA:[/b]
Com a ressalva de estar falando somente sobre a aplicação da Análise do Comportamento denominada Intervenção Clínica Analítico-comportamental, temos algumas diferenças formais mais facilmente detectáveis, tais como, por exemplo, uma maior diretividade na condução da intervenção, o fato de irmos além da interação verbal, intervindo também através da disposição de contingências não-verbais, o fato de não estarmos restritos ao consultório, muitas vezes intervindo no ambiente natural do cliente ou em outros contextos extra-consultório e, em geral, numa ênfase menor nos aspectos formais (topográficos) da intervenção clínica, quando comparados aos demais modelos.

Entretanto, a maior diferença está menos nos aspectos formais e mais nos pressupostos orientadores da intervenção (quando
e porque fazemos o que fazemos) e em pelo menos três outras exigências, sobre as quais a nossa comunidade mantém um certo consenso: (a) as variáveis independentes e dependentes consideradas precisam ser naturais, (b) toda e qualquer intervenção que praticamos precisa estar fundamentada em achados experimentais e (c) toda e qualquer intervenção pontual precisa ser mensurada e ter a sua evolução acompanhada ao longo do tratamento, para fins de correção de curso e como indicador de
validade da intervenção (Avaliação Funcional). Essas e outras diferenças decorrem do projeto fundamental da análise do comportamento, que é o de construir um conhecimento [i]naturalístico e empiricamente referenciado[/i] do comportamento, o que implica na recusa intransigente em considerar qualquer variável independente que não seja natural, isto é, que não possua dimensões físicas e/ou temporais discerníveis pelos órgãos sensoriais de um ser humano comum. [Não se deixe assustar pela palavra “intransigente”; aqui, ela tem a função de demarcar uma identidade. Você mesmo é possivelmente intransigente com respeito ao uso do seu nome próprio].

Em função da poderosa tecnologia de modificação do comportamento que vem desenvolvendo, a Análise do Comportamento mantém também com intransigência um princípio ético fundamental, para toda e qualquer aplicação: [i]é preciso que o analista do comportamento esteja seguro, além de qualquer dúvida razoável, de que a intervenção que pretende fazer beneficie primariamente a pessoa cujo comportamento se considera modificar.[/i]

[b]04} Como está o campo de produção de pesquisa na área da Psicologia Comportamental? Há muitas pesquisas publicadas ,acessíveis aos alunos, na biblioteca da UFSJ?[/b]

[b]RESPOSTA:[/b]
Novamente restringindo-me à Análise do Comportamento, temos várias associações profissionais dedicadas à divulgação e informação sobre esta disciplina. No Brasil, temos, desde 1992, a Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (www.abpmc.org.br) que promove um evento anual – com comparecimento de mais de 1000 participantes à cada evento – além de participar de eventos regionais também anuais.

Sob a chancela da ABPMC é publicada a coletânea [i]“Sobre comportamento e cognição”[/i], agora já no seu décimo volume e o periódico [i]Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva[/i], ambas as publicações disponíveis na Biblioteca da UFSJ e, cada uma delas, sempre apresentando uma vasta relação de referências bibliográficas. Para um acesso em espanhol, além da ABA-Colômbia (www.abacolombia.org.co), visite também a ConTextos (www.conducta.org).

Com webpages em língua inglesa, temos as ABA (Association for Behavior Analysis) tais como a ABA-EUA (www.wmich.edu/aba),
ABA-Japan, EABA-Europa (European Association for Behavior Analysis), todas ativas e cada qual publicando seus próprios livros e periódicos e promovendo eventos anuais e regionais que congregam habitualmente mais de 5 000 participantes (ABA e EABA).

Além destas, inúmeras outras associações aplicadas oferecem ao interessado um tesouro de informações, relatos de pesquisas, indicações bibliográficas, exemplos de aplicações e acesso a outras organizações correlatas através de hyperlinks lá disponíveis, como por exemplo, a OBM Network, grupo especial da ABA (www.obmnetwork.com) dedicada à Análise Comportamental das Organizações (OBM), a Behaviorists for Social Responsibility (www.bfsr.org), que estuda e discute temas tais como justiça social, direitos humanos, agressões ao meio ambiente, etc., sob a ótica da Ciência do Comportamento e outras, como o Cambridge Center for Behavior Studies (www.behavior.org), a Behavior Analyst on Line (http://www.behavior-analyst-online.org) ou a Divisão 25 da American Psychological Society, Experimental Analysis of Behavior (www.apa.org/divisions/div25).

A ABA edita desde 1968 os prestigiosos [i]Journal of the Experimental Analysis of Behavior[/i] (JEAB) e o [i]Journal of Applied Behavior Analysis[/i] (JABA) que podem ser consultados no site indicado. Temos também o [i]The Behavior Therapist[/i] e o [i]Behavior Therapy and Experimental Psychiatry[/i] como importantes fontes de dados para o interessado.

[b]05}Um grande amor pode ser esquecido através do condicionamento?[/b]

[b]RESPOSTA:[/b]
Uma das grandes alegrias de um professor é que o seu trabalho quase sempre o coloca em contato com o frescor e a honestidade da juventude. Que linda pergunta! Que pergunta fundamental! E que infelizes analistas do comportamento seríamos, se não levássemos em conta o amor. Todavia, antes de responder à pergunta de um ponto de vista técnico, peço-lhes que primeiramente me permitam tratar dela como uma pessoa. Um físico pode compreender tudo sobre a gravidade e suas implicações científicas e técnicas, mas não se espera que, por isso, ele possa tornar-se imune a ela: ele não conseguirá levitar. Igualmente, um analista do comportamento poderá talvez, num futuro distante, compreender tudo sobre o amor enquanto comportamento e conhecerá talvez todas as suas implicações científicas e técnicas. Entretanto, é minha firme convicção e esperança que, se este dia chegar, ele não se tornará imune ao amor. Que a cada vez que amar, o possa fazer com a sinceridade e a confiança ingênua do primeiro amor; assim fazendo, ele por certo tomará do fel que o amor sempre traz, mas terá também a alegria sem igual de beber-lhe o mel, que ele também sempre traz. Para menos que isso, não valeria a pena ter nascido humano!

Mas vocês me pedem que fale do comportamento amoroso e não do amor enquanto vivência. Então, vamos lá. Para começar, não é interessante constatar que, nesta pergunta, está sendo suposto que as palavras “grande amor”, “esquecimento” e “condicionamento” possuem, cada uma delas, um entendimento já sabido, comum e preciso? Pois bem: atrevo-me a afirmar que não mais que umas quinze pessoas em nossa Universidade – talvez menos – têm um entendimento técnico satisfatório do termo
“condicionamento”, em todos os seus desdobramentos conceituais e experimentais e, quanto ao fenômeno memorial “esquecimento”, precisaria de dez vezes o espaço desta entrevista para expor como nós, analistas do comportamento, compreendemos e [i]demonstramos empiricamente[/i] a nossa compreensão [i]naturalística[/i] dos comportamentos de lembrar e de esquecer.

Quanto ao “grande amor” ah!, o amor! de quantos e de quais das miríades famílias de amor estamos falando? Um “grande amor”
é uma experiência única e singular para cada um de nós, porque depende da nossa história única e singular; não existe “amor” em abstrato: existe o meu amor!

Porém, como sabem quase todos aqueles que, tendo vivido mais de trinta anos e tendo tido a extraordinária boa-má-sorte de experimentar um “grande amor”, grandes amores são, sim, esquecidos, ainda que na maioria das vezes sejam esquecidos em
termos. Assim, o fato existe e é notório. Agora, uma outra coisa é explicar porque “grandes amores” são (ou não são) esquecidos, ou seja, explicitar e demonstrar as variáveis críticas que podem responder pelo fenômeno. Aqui, estaremos lidando com as diferentes declarações verbais, as diferentes “teorias” que oferecem diferentes explicações para o fenômeno,
porque consideram diferentes variáveis independentes e declaram diferentes relações entre estas variáveis independentes e a variável dependente, no caso, o “esquecimento” ou seu inverso, a persistência do lembrar.

Não penso que poderia dispor aqui do espaço gráfico necessário para explicitar convincentemente estas variáveis e estas relações de uma perspectiva da Análise do Comportamento. Tudo o que posso dizer, em poucas palavras, é que o laboratório, tanto o laboratório animal quanto o laboratório operante humano, nos demonstra à saciedade os efeitos temporários das relações condicionais operantes e respondentes e nos permite demonstrar as variáveis naturais críticas que respondem por
diferentes persistências dos efeitos destas relações e pelas diferentes intensidades e peculiaridades delas.

Cada folha que cai de uma árvore descreve uma trajetória única e singular em sua queda, que possivelmente jamais se repetirá exatamente da mesma maneira até o fim dos tempos (ou até o talvez bem mais próximo fim das árvores, se continuarmos a tratá-las como vimos tratando…). Assim como a física não tem uma equação que possa dar conta da trajetória que toda e qualquer folha faria ao cair, também a Análise do Comportamento não pode dar conta do “esquecimento” de um “grande amor”.

Porém, assim como a física pode, em tese, dar conta de cada trajetória única e singular da queda de cada folha através dos mesmos e poucos princípios básicos, também a Análise do Comportamento poderá, em tese, oferecer uma explicação naturalística e uma demonstração empírica sólida e convincente para cada grande amor que se esqueceu (ou não se esqueceu) com os mesmos e poucos princípios básicos. Podemos tentar: qual é o seu?

Para saber mais:

*

Para uma introdução facilitada à matriz conceitual
analítico-comportamental, uma boa indicação é
Baum, William M. (1999). Compreender o behaviorismo: ciência,
comportamento e cultura. Porto Alegre: Artes Médicas. (A
biblioteca da UFSJ tem alguns exemplares).
*

Um livro já antigo e ultrapassado em alguns tópicos, mas
ainda útil para se conhecer os princípios fundamentais
(técnicos) da Análise do Comportamento (AC) e da
Análise Experimental do Comportamento (AEC) é Whaley,
Donald L. e Malott, Richard W. (1980). Princípios
elementares do comportamento. Volumes 1 e 2. São Paulo:
EPU. (A biblioteca da UFSJ tem alguns exemplares e os pequenos
volumes são de leitura agradável e interessante,
sobretudo pelos inúmeros exemplos cotidianos e práticos
que descreve).
*

No Campus Dom Bosco, visite-nos no LAPSAM/ NAC (Núcleo de
Análise do Comportamento). A nossa sala quase sempre tem
alguém e a turma é animada. Lá você será
bem recebido e orientado.

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