Esporte é para todos

Mal havia tocado o sinal do intervalo e toda a garotada da escola já estava amontoada na quadra para apelada do recreio. Todos tinham esperança de participar, porém aos poucos as “panelas” tomavam conta do espaço. Havia uma hierarquia naquela aparente desordem: primeiro os mais altos e fortes (ser repetente compensava naquela situação), depois os pequenos, porém habilidosos e, por último, o “resto”.
Mal havia tocado o sinal do intervalo e toda a garotada da escola já estava amontoada na quadra para apelada do recreio. Todos tinham esperança de participar, porém aos poucos as “panelas” tomavam conta do espaço. Havia uma hierarquia naquela aparente desordem: primeiro os mais altos e fortes (ser repetente compensava naquela situação), depois os pequenos, porém habilidosos e, por último, o “resto”. A estes últimos sobrava torcer para alguém se machucar ou cansar (o que era raro), ou ainda apelar para um recurso indiscutível: parecer com uma bola nova. Esta alternativa já excluía dois terços do “resto” da meninada que não tinha condições de adquirir tal bem.

Assim, a maioria se conformava em assistir, xingar e rir dos lances bisonhos. Mal sabiam eles que ali estava se formando boa parte da massa de futuros telespectadores, cuja função principal junto ao esporte não é uma participação muito ativa. Restringe-se a se acomodar frente a TV, e fazer basicamente o mesmo que faziam na beira da quadra: assistir, xingar e rir e, mais a função extra de aumentar os números do “ibope”, desta ou daquela emissora. Mas, não mudemos de assunto.

Mesmo sem saber o que o futuro poderia reservar-lhe, um dos meninos do “resto”, novo na vida e, principalmente, naquela escola, ainda não se dera conta da “hierarquia da quadra”. Para ele tratava-se apenas de uma questão de tempo já que ele tinha de acabado de entrar na escola e todos os outros (supunha) eram veteranos. Bastava um pouco de paciência para que tivesse sua chance de entrar na quadra e aí…não sairia mais! Tudo muito real…na sua fantasia.

Ao fim da primeira semana de aula o menino não conseguiu entrar em quadra uma única vez. Começava a ficar em dúvida se deveria buscar um lugar na pequena arquibancada da escola, como tantos outros que pareciam ter assento marcado, ou se deveria insistir um pouco mais. Afastar-se da quadra não era uma opção.

Sentado no chão, ao lado da arquibancada (obviamente nem o status de espectador oficial ele tinha), o garoto, sob efeito do forte sol na moleira, olhava em direção à quadra, porém o seu pensamento vagava entre estratégias de entrar na quadra e grandes lances (seus, é claro) imaginados. Ficou mais calmo quando se lembrou de que as aulas de educação física começariam na próxima semana. “Aí, eu terei minha vez”.

No sábado sua expectativa aumentou. Assistia a um desses programas esportivos quando um vistoso figurão do governo anunciou, ao fim de seu prolixo discurso: “Esporte é para todos”. No domingo assistiu ao jogo da TV aberta e, depois, aos “Vts” de toda a rodada. Mal conseguiu dormir, pensando com ansiedade na aula de educação física na segunda. Na cama imaginava grandes lances, os colegas, as meninas e o professor aplaudindo e louvando sua habilidade. Já na hora do recreio a pelada não começaria enquanto ele não chegasse. Após ver e rever tantas fintas e gols incríveis adormeceu afinal, exausto.

Bem cedo já estava de pé. A mãe, sem dizer nada, pensou: “Essa escola deve ser boa. Nunca vi esse menino tão disposto”. Foi muito difícil tomar, ou melhor, engolir o café da manhã. Chegou à escola antes de todos. Quando os colegas começaram a entrar na sala ele já estava sentado, de caderno aberto e lápis apontado. Parecia que queria fazer o tempo acelerar para chegar mais rápido à segunda aula: a educação física! Nunca uma aula de matemática tinha sido tão incompreensível e demorada quanto aquela. O máximo que conseguia relacionar eram os algarismos com a repetição dos lances incríveis que ele imaginava protagonizar.

Bateu o sinal e ele mal conseguiu segurar as próprias pernas. Foi o primeiro a chegar à quadra. O professor pediu que ele aguardasse a chegada do resto da turma. Assim que todos chegaram o professor pediu que as meninas pegassem cordas e uma bola de vôlei e fossem para o cimentado ao lado da quadra. A quadra estava reservada para os meninos. Como o professor já conhecia boa parte dos meninos tratou de dividi-los em quatro times e disse: “2 (gols) ou 10 (minutos)!” Pediu a ele e outros dois (que pelo visto também eram novatos) que sentassem na arquibancada. Muito contrariado sentou-se no lugar destinado aos “perdedores”. Pelo menos era assim que ele via. Uma partida, duas, três…e sua ansiedade foi crescendo, misturada com raiva, com humilhação, cansado de tanta espera. Um dos colegas novatos foi chamado pelo professor e sua angústia aumentou ainda mais. No início da quarta partida foi chamado pelo professor. “Finalmente!” – pensou e velozmente entrou em quadra.

Na primeira bola que recebeu estava tão cansado e emocionado que mal conseguiu dominá-la. Girou o corpo para se livrar do marcador e acabou deixando a bola escapar enquanto os companheiros assobiavam e gritavam: “Passa!”, “Tô livre!”, “Aqui! Aqui!”. A bola saiu pela linha lateral e os companheiros chiaram uma barbaridade. Um deles, em direção ao professor: “Pô, assim não dá! O novato vai afundar o time!”.
O garoto ouviu o comentário e sentiu o suor escorreu pela sua nuca. Mais um pouco e outra bola chega aos seus pés. Queria provar que tinha seu lugar. Ao invés de passar a bola para um companheiro, livre ao seu lado, preferiu tentar a finta e partiu para cima de seu marcador. Muito ansioso e cansado não conseguiu medir muito bem os espaços. Resultado: o marcador roubou-lhe a bola e emendou um canudo no gol.

Os outros meninos do time partiram para cima dele. O professor resolveu intervir e, cedendo à gritaria dos meninos, tirou-o do time. Antes de voltar à arquibancada ainda tentou argumentar mas ouviu o que não queria: “Isso aqui é pra quem sabe. Semana que vem você tenta de novo.”

Atônito, o menino agora sentado ouvia ecoar em sua cabeça sem entender: “Esporte é para todos!?”

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