Clínica a céu aberto – Reflexões sobre a clínica com velhos institucionalizados

Autores:
Gabriela Felten da Maia
Alfredo Leocádio Ribas Lameira
Graciele Dotto Castro
Susane Londero

As questões referentes ao envelhecimento humano têm ganhado cada vez mais destaque em diversas pesquisas que enfocam aspectos biológicos, sociais, psicológicos, antropológicos, demográficos e políticos. A transição epidemiológica, alterando o padrão saúde/doença; a escassez de recursos disponíveis em saúde pública; a exclusão social frente ao mercado de trabalho; e a institucionalização desta população; são algumas das questões que atravessam nossa discussão sobre as possibilidades de constituir uma clínica com velhos institucionalizados.Todas essas questões marcam o caráter de produção do fenômeno social sobre a velhice.

O presente trabalho emerge de um momento de questionamento dos limites entre velhice, saúde e sofrimento, implicado com experiências institucionais em um lar para idosos, colocando em cheque diversas formas de atendimentos a idosos e a composição desses saberes sobre a velhice, principalmente aquelas ligadas à velhice institucionalizada. Interessava-nos a aproximação com velhos em asilos, tendo em vista um borramento das singularizações e uma ênfase da velhice ligada à noção de objeto de cuidado preso a um regime identitário.

O compartilhamento de ferramentas teóricas teve grande importância para o trabalho de pesquisa realizado. A partir dessas incursões teórico-práticas, pensamos que para o desenvolvimento de uma clínica com a velhice foi preciso produzir diferentes saberes e tecnologias de intervenção. Considerando fundamental estar constantemente problematizando, bem como analisando tanto os conhecimentos já disponíveis como a produção de diferentes conhecimentos. Além de se fazer necessário para o surgimento de uma clínica com idosos institucionalizados que rompa com práticas que não associam velhice, dor e sofrimento e levassem em consideração a constituição histórica, social, cultural, econômica e política desta população.

A pesquisa na área de Psicologia, em especial sobre produção de subjetividade e velhice, exige a extrapolação do campo dos conhecimentos e fenômenos já pesquisados, buscando novas maneiras de intervenção. Partimos do questionamento do fazer psicológico no campo da intervenção em saúde mental e a população de idade avançada, buscando outras formas de atuação frente às tradicionalmente oferecidas.

O objetivo deste trabalho foi promover um espaço para a constituição de uma clínica com idosos institucionalizados. Não se trata dos consultórios ou as instituições tradicionais de tratamento, mas de tomar os espaços abertos do asilo como possibilidade de constituir uma clínica. Esta clínica caracteriza-se pela experimentação, apreendendo o problema que se coloca em cada contexto.
Esta proposta foi pensada como uma possibilidade de criação de espaços individuais e coletivos de acolhimento não moralizadores das experiências de si, sem visar uma ‘retificação’ das subjetividades, procurando oferecer uma escuta ao sofrimento, às formas de subjetivação emergentes, as sociabilidades que estão sendo produzidas com o objetivo de produzir redes e espaços de singularização.

Traçávamos rotas, definindo os caminhos a serem seguidos para a realização das atividades, mas em alguns momentos, foi necessário criar outros percursos, conforme os encontros efetuados, para dar passagem a outros acontecimentos. Utilizávamos observação, entrevistas e a modalidade de Acompanhamento Terapêutico com o intuito de construir diferentes formas de intervenção com a população do local. O Acompanhamento Terapêutico não é caracterizada por um modelo como nas instituições tradicionais de tratamento e nos consultórios, que possuem um setting estruturado. O trabalho acontece no pátio, na enfermaria ou no saguão dos dormitórios. Pode haver escuta e interrupções de outras pessoas que estão por perto, e até mesmo formação de grupos, de acordo com o assunto que é abordado.

Essa clínica é uma modalidade clínica de atendimento, na medida em que possibilita acompanhar o sujeito na sua circulação pelas dependências do asilo, colocando-se como alternativa para a construção desse espaço de intermediação que possibilita a constituição de uma clínica com idosos institucionalizados.

Circulávamos pelas dependências do asilo, acompanhando a movimentação dos internos e funcionários, uma ferramenta importante para uma clínica que se propõe a problematizar relações estabelecidas entre velhice e invalidez. No decorrer do desenvolvimento da intervenção no local, a atividade foi diferenciando suas formas, conforme a atuação dos extensionistas** frente à demanda dos internos. Um dos resultados é novas metodologias de atuação que se constroem junto com os internos, a partir da demanda de cada um.

Essas diferentes formas de intervenções singulares foram surgindo, o que permitiu a efetivação de um trabalho terapêutico. Entre estes resultados obtidos está a constituição de uma clínica nômade, que se movimenta conforme a história de cada um, através do Acompanhamento Terapêutico.

Na literatura estudada, assim como em discursos acompanhados pela sociedade em geral, os idosos institucionalizados são considerados isolados, fora do mundo. Porém, exatamente nesse contexto institucional em que trabalhamos, pode haver um nicho diferenciado em que proliferam outras coisas. Conforme o observado, pensamos que a velhice neste local não é necessariamente isolamento e solidão, ela pode ser povoada. Percebemos isso em algumas conversas com os internos ou acompanhando a movimentação do asilo. Eles podem estar liberados da sociedade, entrando para o “rol dos inativos” já não haveria mais necessidade de responder a certos projetos. Não se trata de simplesmente estar sozinho, solitário com seus problemas cotidianos, sem que nada o afete. Uma solidão povoada, múltipla, criativa, como diz Deleuze (1992). Mas não povoada de sonhos, fantasmas, ou de projetos. Eles podem estar com a mente cheia de atos, pessoas, coisas. Podem estar em contato com outros acontecimentos, sons, balbucios, imagens. Uma solidão, em alguns momentos, necessária para interrupção, para dar tempo, e poder permitir-se estar aberto para a alteridade e para o mundo de forma diferente.

Os velhos neste local, com seus corpos parados, passos arrastados, cada vez mais lentos, talvez estejam com outra movimentação, outra atividade, vivenciando outros acontecimentos, uma outra saúde (por nós defendidas). Não seria mais uma saúde de um corpo atlético, excessivamente musculoso, mas que não se encerram em uma impotência, uma vez que potência não seja mais definida em função de um ato final, comum a todos. Percebemos que para além de diagnósticos ou modelos a priori (modelo biomédico de um corpo doente), o que vivenciamos é uma espécie de força vital, uma força de resistência, um querer viver. Uma saúde muito frágil que provém do fato de ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida e cuja passagem esgota os velhos, dando-lhe, contudo devires que a saúde permeada pelo modelo biomédico tornaria impossível. Talvez por isso os velhos precisem desta imobilidade, esvaziamento, indissociável da fragilidade, para dar passagem a outras forças.
Salientamos que não estamos falando de estados imutáveis, como se disséssemos que os velhos (principalmente os da situação estudada) são assim. Como o próprio leitor pode perceber pela escrita falamos de estados, ou seja, de territórios criados que não são permanentes, mas que se caracterizam por sua movência: em alguns momentos os velhos, moradores do lar visitado, habitam estes territórios e nós procuramos acompanhá-los, constituindo a clínica neste deslocamento.
Diante dessas breves reflexões, pensamos que há necessidade de enfrentar o desafio da consolidação de uma rede de atenção à saúde mental, capaz de oferecer ancoragem, referências, possibilidades de tratamento e perspectivas de vida aos velhos institucionalizados, levando em conta o sujeito aí implicado e o contexto em que está imerso. Este trabalho é um estudo que está em andamento e pretende-se aqui trazer brevemente algumas reflexões que temos levantado durante a atuação. Pensamos ser necessária para o sucesso desse trabalho em saúde mental e velhice à reinvenção de tecnologias de cuidados clínicos, proposta que este trabalho vem buscando desenvolver.

Notas

**Assim são caracterizados os participantes por se tratar de uma atividade de extensão desenvolvida em um lar para idosos.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ADDUCI, E. Adulto Mayores. Su psicoanálisis hoy. Buenos Aires: Letra Viva, 2004.

ARAÚJO, L. F; CARVALHO, V. Â. M. L. Aspectos Sócio-Históricos e Psicológicos da Velhice. Mneme – Revista de Humanidades. Rio Grande do Norte: UFRN – CERES, v.6, n. 13, 2005. Disponível em http://www.seol.com.br/mneme. Acessado em 21 de maio de 2006.

BALBINOTTI, H. B. F. Adulto Maduro: o pulsar da vida. Porto Alegre: WS Editor, 2003.

CÍCERO, M. T. Saber envelhecer e A amizade. Trad. Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 1997.

DELEUZE, G. O Abecedário de Gilles Deleuze. Transcrição de entrevista realizada por Claire Parnet, direção de Pierre-André Boutang, 1988-89. Disponível em: < www.tomaztadeu.net>. Acesso em: 14 de julho de 2001.

DELEUZE, G. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

DELEUZE, G. Critica e Clinica. Trad. Peter Pel Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.

FOUCAULT, M. Tecnologias de Si. Revista Verve – Nu-Sol – Programa de Estudos de Pós-Graduação em Ciências Sociais, PUC-SP, n. 6, 2004. p.321-360.

HENZ, A. O. Estéticas do Esgotamento: extratos para uma política em Beckett e Deleuze. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, Núcleo de Estudos da Subjetividade, PUC-SP, São Paulo. 2005.

LAPOUJADE, D. O Corpo que não agüenta mais. In: LINS, D. e GADELHA, S. (orgs.). Nietzsche e Deleuze: Que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. p. 81-89.

MAY, Tim. (2004). Pesquisa Social: Questões métodos e processos. Trad. Carlos Alberto Netto Soares. 3º Ed. Porto Alegre: Artmed.

PALOMBINI, A. L. et al. Acompanhamento Terapêutico na Rede Pública: a clínica em movimento. Porto Alegre: UFRGS, 2004.

PELBART, P. P. Vida Capital. São Paulo, Iluminuras, 2003. Cap.: O Corpo do Informe. p. 42-51.

ROLNIK, S. Clínica Nômade. In: Crise e Cidade: Acompanhamento Terapêutico. São Paulo: Educ, 2000. p. 83-97.

SALVAREZZA, L. El Fantasma de la Vejez. Buenos Aires: Tekné, 1995.

Comments are closed.