A Psicopatologia ante o Fenômeno Humano da Homossexualidade

A Introdução deste pequeno bilhete está nas últimas trocas de idéias acontecidas em nosso Fórum aqui na RedPsi sobre Homossexualidade e Arte na MPB. Por que a grande maioria das cantoras de sucesso são lésbicas? Esta é uma das questões que detonaram este processo.
Na Grécia Antiga, a mulher era tão pouco considerada pela sua Sociedade, que para um jovem grego de boa posição social ser iniciado sexualmente, devia fazê-lo com gregos másculos, adultos, maduros e de boa posição político-sócio-econômico-intelectual. É bom frisar que estes adultos tinham conduta padrão de macho. O adulto grego que se apresentasse com trejeitos efeminados era banido de seu meio.

Quando se vai dar aula de Filosofia Antiga (pré-socráticos até Aristóteles), aos alunos de Graduação, eles matreiramente, perguntam:- E aí professor é verdade que Sócrates e Platão eram gays (leia-se viados) mesmo? Bem, não é fácil explicar o que isso significava naquele Contexto Cultural.

É bom acrescentar que as mulheres sendo segregadas de todas as atividades políticas, culturais, sociais, esportivas etc., se fechavam em um gueto, e também tinham a sua iniciação sexual entre elas mesmas.

Modernamente existe uma categoria de Homossexualismo chamada de Acidental ou Situacional. É o que acontece em presídios, em tripulações de navios e submarinos, em colégios com internatos, religiosos ou não. Enfim, quando há segregação sexual. São bem conhecidos os casos de homossexualidade circunstancial nesses meios.

Creio eu, que, para os gregos, com este estímulo externo se desencadeavam verdadeiras homossexualidades exclusivas, como, e, para aqueles, que não tendo esta vocação, passado o período de iniciação, davam vazão ao vetor de sua libido heterossexual. Era o uso e costume, naquele tempo e lugar.

Começo pela Grécia Antiga, mas quem quiser fazer uma tese sobre homossexualidade humana terá de falar sobre "Deus e Seu Tempo".

A Etologia vem descobrindo, principalmente, entre animais mamíferos não-humanos, o quanto é comum, cópulas homossexuais. É curioso de se ver como um gênero traz consigo o comportamento de seu parceiro. Um junguiano iria chamar isso de Inconsciente Coletivo, Arquétipos e por aí vai. Talvez seja isso mesmo. Já anotei em outro lugar nesta Rede, que galinhas que nunca viram um macho pela frente, permanecendo neste isolamento, mantêm entre elas um comportamento de macho/fêmea: umas cobrindo as outras, com justaposição de cloacas e tudo o mais. Como é possível, se elas nunca tiveram de quem copiar?

Com esses antecedentes filogenéticos o Homo sapiens não poderia fugir aos padrões da Evolução Biológica. Mas, esta, como diria o colega da Rede, Tovar, é uma areia movediça. Existe uma imensa distância entre comportamento genital (instintivo-sexual), e sexualidade (afetivo-anímica), propriamente dita. Deveria chamar a este escrito de "A Vitória da Minoria Esmagada e Ensangüentada".

Em 1970 um corajoso grupo de ativistas homossexuais, em São Francisco-USA, vencendo aquelas barreiras dos policiais da tropa de choque, sendo humilhados e agredidos física e moralmente, conseguiu adentrar aos Auditórios onde acontecia um Congresso da American Psychiatry Association (APA).

Eu usei a palavra humilhante, mas bota humilhante nisso. Era um grupo de seres humanos que só queria mostrar que eram sadios, e não doentes mentais. É um absurdo. Pensemos bem alguém tendo que nos provar que não é louco, tendo atrás de si uma vida plena de realizações, em harmonia com a família, no trabalho, na sociedade e com os deuses. Considero esta manifestação dos homossexuais de 1970, em São Francisco perante psiquiatras, algo tão terrível quanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial.

Por incrível que pareça mesmo a sociedade americana tão anestesiada com as guerras na casa dos outros, para onde foram levados seus filhos adolescentes para morrer, deu ressonância a esta manifestação autêntica de uma minoria que tinha direito a oxigênio, água e luz solar. A repercussão desta iniciativa foi tão forte pelo país inteiro, que, três anos depois, em 1973, a homossexualidade deixou de ser considerada como doença. Apenas haveria cuidados especiais para aqueles homossexuais que, por características muito próprias e raras, entravam em conflito pela sua condição. Para este grupo foi criada uma nova categoria nosográfica, a de homossexuais egodistônicos (leia-se, heterossexuais neuróticos). Ora, distonia existencial qualquer um de nós, seja lá quem for, pode ter, e nem por isso receberá um dos diagnósticos eterno-estigmatizantes do Poder Psiquiátrico.

Com o avanço dos estudos sobre o diagnosticar em psiquiatria, com bases epistemo e metodológicas mais consistentes, objetivas e realísticas, já em 1978, a Classificação Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde, na sua nona edição (CID-9) eliminava a homossexualidade como doença. Em seguida, a DSM III, de 1980, dos USA, onde tudo começou, bania definitivamente a homossexualidade como doença. Hoje já estamos na CID-10 e na DSM-IV.

Tive a ousadia de escrever estes parágrafos como decorrência de debates em nosso fértil e frutífero Fórum, onde eu coloquei a questão da relação homossexualidade/expressão de arte na MPB.

Agradeço aos estimulantes comentários dos colegas Denise Deschamps e Tovar Tomaselli, psicanalistas sérios e competentes.

NOTA:- Convido os demais colegas da RedePsi, que não deixem de participar de nosso Fórum de Debates em Psicologia. Lá acontece algo sério, responsável e inovador. Venha conferir.

Um abraço

About Adalberto Tripicchio

Psiquiatra – Pós-doc em Filosofia
Membro do Viktor Frankl Institute Vienna
Docente da BI Foundation FGV/Berkeley

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