Revendo a epistemologia da psicologia

O objetivo deste texto é refletir sobre a situação da psicologia, saber e prática, no mundo atual. Baseia-se aquí no texto de Japiassu, fazendo uma reflexão acerca da nossa história enquanto psicólogos (1).Na verdade todo este questionamento acerca da ética da psicologia iniciou – se no final da segunda guerra mundial, tendo seu ápice nos anos 60.           

A psicologia era uma ciência nova – natural que se caracterizasse por uma busca voraz da verdade acerca do ser humano, seu objeto de estudo. No Brasil a regulamentação da profissão de psicólogo aconteceu em 1968. Questionava-se na época assuntos ligados a compreensão do ser humano, seus afetos, sua situação em uma sociedade voltada para o crescimento econômico, em detrimento da evolução dos valores humanos. Os estudantes, artistas e intelectuais se uniam em seus desejos e pensamentos, buscando o conhecimento interior e a evolução do homem enquanto sujeito dotado de substrato racional e ético.Nesta época, assim como hoje, os países estrangeiros, em especial os Estados Unidos da América, voltavam sua atenção para o Brasil, um país repleto de chances, pela natureza privilegiada, pelo povo de índole boa e pueril, tentando investimentos a qualquer custo. Na época o governo queria fazer o acordo MEC – USAID através do qual os USA teriam o direito de opinar em questões de ensino e cultura. Para os estudantes era a perda da identidade nacional. Em outros países, principalmente na Europa, intelectuais se voltavam para a questão do homem e sua liberdade, preservando os valores éticos sociais.

O comunismo instalava o corporativismo como forma de sobrevivência, denunciando os riscos do capitalismo, sendo determinante da mudança dos valores, principalmente no meio intelectual

A DEFESA DO HUMANO De uma forma geral  intelectuais e pensadores desejavam que cada pessoa pudesse opinar a respeito de si mesma, evitando a estereotipia de uma sociedade capitalista. Foi o início da antipsiquiatria, onde Foulcaut (História da Loucura) denunciava os tratamentos psiquiátricos danosos a mente humana e sua capacidade de livre arbítrio (2)Julien Beck, criador e diretor do Living Theâtre, fazia apresentações em praças com o objetivo de sensibilizar as pessoas para esta situação. O povo participava das peças musicais como coadjuvantes reais em seu desejo de libertação e coerência. Julien foi um dos líderes da antipsiquiatria e o primeiro a invadir um hospital psiquiátrico na Itália, abrindo suas portas. As manchetes no dia seguinte a esta invasão foram: 'Os Loucos Saem às Ruas'.Na mesma época funcionava já o Laban Center of Art and Movement, na Inglaterra, um instituto de danças e expressão corporal para onde iam vários profissionais. Daí surgiram várias abordagens psicológicas atuais, entre elas a Terapia pelo Movimento de Varda Dascal.O Movimento Hippie já existia, enquanto ritmos musicais rompiam com as tradições.As abordagens mais ligadas a expressão de emoções foram incentivadas, testando resgatar o humano, tais como a Bioenergética de Lowen, a Terapia Centrada na Pessoa, de Rogers, a Gestalt de Fritz Perls, a Análise Transacional de Eric Berne, os primeiros escritos da Psicologia Fenomenológica, e a Logoterapia de Viktor Frankl. Foi também nesta época que surgiu o Esalen Center, na California, USA, onde as pessoas permaneciam um tempo para autoconhecimento e aprendizagem de novas técnicas em psicoterapia.Todos estes movimentos descritos tinham como meta resgatar o homem de uma massificação de consciências.

REFLEXÃO Japiassu bem retratou que havia 2 modelos básicos tradicionais de psicologia

–  A experimental que se baseava no modelo biológico, utilizando animaisde laboratório com o objetivo de entender o funcionamento do comportamento humano. A generalização das descobertas para seres humanos era questionada.

–  A clínica que utilizava entrevistas, observações, questionários e testes,para psicodiagnóstico; a psicanálise que seguia a tradição de Freud, embora já estivessem publicados alguns livros néo freudianos (conhecidos atualmente como abordagens psicodinâmica e/ou Kleiniana (Melanie Klein) e outros; os testes vocacionais (hoje orientação profissional).Juntamente com estes modelos, abordagens mais ligadas a expressão de emoções foram incentivadas, testando resgatar o humano, tais como a Bioenergética de Lowen, a Terapia Centrada na Pessoa, de Rogers, a Gestalt de Fritz Perls, a Análise Transacional de Eric Berne, os primeiros escritos da Psicologia Fenomenológica, e a Logoterapia de Viktor Frankl.A Psicologia do Trânsito estava se iniciando através dos estudos sobre medição dos reflexos do motorista, e a instituição do exame Psicotécnico pelo DETRAN (ver referencias) Japiassu questionava os modelos acima descritos por ele como tradicionais, refletindo sobre  a posição do psicólogo enquanto sujeito suposto saber, e a do paciente (como o próprio nome diz) de sujeito suposto ignorar, repetindo a dialética de Hegel de Senhor e Escravo. A dialética do Senhor e Escravo descreve a possibilidade do psicólogo como ‘Sujeito’, investida de onipotência, desvalorizar seu analisando (3) com orientações provindas de sua própria demanda. E o Escravo, desinvestindo-se do poder, aceita quaisquer orientações e/ou atividade terapêutica. Em ambos os modelos a tecnologia, se não bem cuidada, oprime o cliente, visto que o instrumento técnico é aplicado a qualquer custo ( no texto lido refere-se a questão do 'autômato', pag.139). Na verdade, o psicólogo usa o que sabe para ajudar alguém, sendo necessário o cuidado para respeitar o outro em sua integridade emocional e física. Este método, se centrado na pessoa e em suas necessidades, e não aplicado indiscriminadamente, elimina esta contradição.

Este questionamento ainda é atual, quando o psicólogo considera em Psicoterapia ou condução de Grupos que sua abordagem é mais adequada que outra, não estudando o novo. Nem sempre o psicólogo está aberto a questões de sentido. O texto de Japiassu diz realmente a que vem na subdivisão: Tecnologia Sem o Homem. (pag. 152 – 163). Realmente, a psicologia parece 'padecer de um vício de origem e um crescimento desordenado' (pag. 153). Como uma cidade que começou a beira de um rio, a psicologia em um primeiro momento repetiu o drama de nossa falta de planejamento urbano – as nossas cidades não são planejadas, com exceção de poucas, como Brasília. Sem método de abordagem básico de seu sujeito – o homem, a psicologia em um primeiro momento repetiu o drama de nossa falta de planejamento urbano. Nasceu marginal, emprestada da medicina, e pouco a pouco tenta adquirir um reconhecimento científico e social. Incomoda ainda hoje a questão da adaptação do indivíduo a normas sociais. A questão é fundamental não só a psicologia mas a todo ser humano: Como exercer a autonomia (auto – nomus: nomear a si próprio) entre vários determinismos? O psicólogo deve se furtar a ser determinista em sua visão e seu método. Cada um é o que é. 'Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é' (Caetano Veloso).

Adaptar o cliente a sua visão do que é saudável é um risco e um abuso. Por exemplo: se alguém tem 40 anos e ainda não casou, temos o direito de a priori estabelecer que aquela pessoa tem algum problema psicológico? Em empresas o psicólogo é solicitado a fazer cursos de treinamento para aumentar em ultima instancia – a produtividade dos funcionários. É uma adaptação a norma empresarial. Nossa sociedade tem suas regras., daí os movimentos de minorias. Há preconceitos e uma necessidade de que cada um se ajuste ao modelo sócio político dominante. Em um modelo capitalista, em que a pessoa é importante pelo que faz e tem, claro que características internas ficam em segundo plano. Não se quer o novo, o inusitado, que pode ameaçar o status quo.Precisamos então refletir a quem o psicólogo defende. É uma questão que perpassa seu discurso enquanto pessoa. Evidente que um psicólogo que não gosta de homossexuais terá dificuldade de lidar com êles. Então o mais adequado seria encaminhá-lo a alguém que os aceite. Mas tratar deles apesar de não se gostar deles, aumentará o sofrimento de ambas as partes.Japiassu (pag. 156) coloca que a psicologia é incapaz de interpretar fenômenos sociais. Isto era verdadeiro nos anos 70. Hoje um psicólogo consegue emprestar seu olhar clínico à compreensão de movimentos sociais, tais como os grupos de cidadania. Em um dos congressos de  Configurações Vinculares (São Pedro, Nesme, 1999) foi apresentado um filme – Las despedidas – um trabalho de grandes grupos para elaboração das perdas de guerrilheiros da América Latina (Querolim, L, 1999).

Psicólogos membros de grupos de Direitos Humanos realizam oficinas para conscientização da importância de cada indivíduo, tirando menores das ruas, amparando mulheres em situação de violência, idosos, questionando a discriminação, buscando a inclusão social, incluindo a si mesmos no meio científico com suas dissertações e teses. A questão de o psicólogo ser um álibi para contradições sociais (pag. 157) leva a refletir sobre a possibilidade da formação do psicólogo em ética e cidadania. Em uma sociedade hedonista e materialista como a nossa talvez alguém se renda aos atos menos dignos, tais como prestar assessoria a um mau político, ou veicular propaganda danosa, em nome do status, do reconhecimento financeiro, ou por necessidade. Mas isto não é privilégio da psicologia e sim de qualquer pessoa. Só que o psicólogo, como defensor do homem e formador de opiniões deve ser mais cuidadoso.             

Em relação a  imagem social do psicólogo (pag. 160). Japiassu fala da impossibilidade do psicólogo veicular sua palavra, no intuito de preservar sua imagem. O psicólogo tem sua identidade social e deve mantê-la a serviço de sua comunidade. A maioria de omite de exercer um papel explicador da sociedade em que vive. Pode-se pensar que isto ocorre devido ao treino de gabinete, a fatores pessoais, e também a discriminação contra psicólogos que assumem tal papel. Não se fala aquí de psicólogo político (exercer cargos na política ou lutar abertamente por algum candidato, o que é questionável, dependendo do sua área), mas principalmente de ter e manter uma identidade social a fim de ajudar a sociedade. Denunciar opressões, encaminhar grupos em um crescimento comunitário. Mas primeiramente o psicólogo necessita identificar-se enquanto ser e enquanto psicólogo. O que pretende ele enquanto psicólogo? E qual é este universo social e histórico no qual está inserido?São questões assim que necessitam serem discutidas durante a formação do psicólogo.            

A ultima colocação de Japiassu se refere ao excesso de abordagens a respeito do homem. Hoje vemos a dimensão desta ocorrência. O meio científico mostra certa reserva em relação ao surgimento de métodos não convencionais ( entende-se aqui – métodos não tradicionais). As pessoas necessitam de ajuda e por ela pagam as vezes preços altos, não só financeiramente, mas também de risco pessoal. O que não exclui a possibilidade de também se entenderem melhor. No entanto se crescem o número de abordagens há que se refletir sobre o crescimento da população, a maior liberdade do ser humano em escolher seus caminhos, e com sua experiência ir compreendendo seu processo de busca. Na verdade as abordagens coerentes ficam. As outras passam como 'modismos'. E neste 'vai e vem' de costumes a psicologia aumenta sua capacidade de observação e análise, em um leque grande de opções. 

       
QUESTÕES

O psicólogo e o preconceito
A pessoa, em sendo ou não psicólogo, ouve opiniões  e as adota, em total submissão a voz do grupo . Por exemplo: a crítica a todos os livros de auto ajuda, e a pessoas que trabalham com cursos de autoconhecimento. Muitas vezes não se conhecem a pessoa, seu trabalho, sua proposta e os psicólogos se unem contra o assunto e o profissional.

Estar aberto a questões de sentido e divulgar isto em sua prática são dever do psicólogo. Se algo funciona, alguma coisa de bom tem. A questão é entrar em contato com o colega e descobrir algo que possa ser utilizado em benefício das pessoas, seguindo a ética e a cientificidade.

O método como 'muleta' leva a estagnação de si mesmo e da psicologia
Isto significa que ao escolher um método de trabalho, o psicólogo pode estar aberto a discussões que o façam crescer enquanto pessoa e profissional. Certamente seremos mais solidários, e nossa classe, mais unida, poderá lutar pelo que é realmente importante

O Psicólogo como agente de mudança

A Psicologia  não pode se furtar a questões de sentido. Nossa sociedade necessita de ajuda em praticamente todas as áreas. Atos danosos à integridade e saúde tanto mental quanto física estão sendo praticados. Esquivar-se de participar de uma transformação necessária é, segundo Hesíodo, um caminho de banalização. Nós, psicólogos, faríamos como Édipo, cegando-nos a nós próprios para não enxergamos, nem a realidade externa, nem a nossa interna, enquanto indivíduos em evolução. Édipo tinha uma marca. Seu pai, Laio, cortou – lhe os tendões dos pés, impossibilitando seu caminho. Nossos pés cortados são nossos olhos, nossos ouvidos, e nossas mãos, que são nossas portas e janelas para o mundo. Drummond fala da possibilidade do enfrentamento da realidade e nos dá o caminho.
'…Eu tenho apenas duas mãos e todo o sentimento de mundo.' 

* Psicóloga CRP 505/6a – Mestre Puc-Campinas – Capes DS

1.      As palavras escritas no masculino independem de sexo e/ou gênero2.      Não se utiliza a forma convencional de citação bibliográfica – é um texto didático para aulas de Introdução à Psicologia e Ética Profissional do Psicólogo3.      Os termos analisando, cliente, paciente se referem a pessoa  que procura ajuda do psicólogo. 

NOELIZA LIMA* (Publicado na Revista Tesseract, http://tesseract.sites.uol.com.br ISNN 1519-2415)

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