A técnica psicanalítica – I

“A dor não é o contrário ou o inverso do prazer: sua relação é assimétrica. A satisfação é uma ‘experiência’, o sofrimento é uma ‘provocação’”. Vamos abordar no texto de hoje, algumas dentre tantas, das variadas possibilidades da psicanálise lidar com a dor (sofrimento) que é trazida para seu divã. Há na dor que chega à clínica um apelo para que cesse e outro para que se fortifique seu laço na vida daquele que a sofre, sem esse entendimento, pouco ou nada se pode avançar em uma abordagem em psicanálise.
Há sempre no discurso de quem sofre um apelo a analgesia (cessar a dor) e outro, como um canto da sereia, para que se façam alianças com esse permanente “sofrer”, a isso chamamos de “benefício secundário da doença” ou ainda “formação de compromisso” que é parte formadora do sintoma, e este, sem dúvida, mostrará um campo de desequilíbrio nesse compromisso.

Há também nela algo de prazer, ela não é contrária a esse sentimento, como nos mostra S. Freud em seu texto “Para Além do Princípio de Prazer”, onde introduz a questão da Pulsão de Morte, compulsão a repetição e ao prazer do que chamou de Nirvana, movida por Thanatos, o impulso de destruição que se origina e retorna para o próprio organismo.

Freud nos conta em seu magnífico texto “Luto e Melancolia” algo muito esclarecedor, enquanto explica o trabalho que há em um processo de luto e sua semelhança com processos inscritos já na patologia:

“Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando em uma expectativa delirante de punição”.

A questão do sofrimento e seus compromissos nos remetem a inúmeras possibilidades de seu aparecimento em nossa prática clínica, cada uma delas se apresentará com um enigma a ser decifrado pelo analista, que ao não fazê-lo, poderá ver-se tragado por uma aliança indissolúvel com a dinâmica do sofrer do seu paciente. É preciso que se esteja sempre preparado, para se for o caso, dar alguma guinada na técnica que interfira diretamente nessa possível aliança. Isso porque inicialmente o psicanalista de certa forma, obrigatoriamente, terá que fazê-la, a essa aliança, mantendo-a sob supervisão e questionamento permanente, para não se ver tragado para dentro do jogo transferencial/contra-transferencial. Porém, sem essa aliança, dificilmente esse tratamento terá início.

Devemos perceber nesse ‘sofrer’, o primeiro aliado, aquele quem irá conduzir o analisando até ao divã. Perceber nele o lado, que na verdade, promove a ação da cura, e não somente como a um inimigo que precisa ser eliminado. É crucial entendermos isso ao iniciar um tratamento, ao estabelecer o contrato terapêutico do qual já falamos aqui em outro texto. Perceber nessa ‘dor’, nesse ‘sofrer’, também uma tentativa de resgate do sujeito por ele mesmo.

“Ela ocupa todos os lugares e eu não existo mais como Eu: a dor é” (1)

Essa afirmação de Didier Anzieu dá uma dimensão emocional ao conteúdo que chega ao consultório, existindo aí a vivência da dor física mesmo ou referindo-se aquela dor, proveniente de uma grande ferida na alma, uma elaboração de um luto, da necessidade premente de desvincular-se do objeto amado, ao mesmo tempo que é aquilo que ainda o mantém em uma desejada relação com esse objeto.

Todo ser em processo de mutação viverá essa dor, traduzirá isso em seu corpo, em seus gestos e ações. Olhar para isso é perceber o sujeito que adentra as portas que levam ao interior de um consultório de psicanálise. Nem sempre o luto é anterior a esse sofrimento, às vezes ele antecipa a mutação necessária: “o sofrimento é uma ‘provocação’”, aquilo que ainda está em processo apenas de desvinculação ou angústia antecipatória.

“Ainda em outros casos nos sentimos justificados em sustentar a crença de que uma perda dessa espécie ocorreu; não podemos, porém, ver claramente o que foi perdido, sendo de todo razoável supor que também o paciente não pode perceber conscientemente o que perdeu”.(2)

O paciente trará a perda para ser entendida, muitas vezes essa perda foi esquecida em sua contabilidade psíquica, porque adveio de um ganho, de algo conquistado. Toda conquista traz junto a si perdas inumeráveis. Ou ainda será conseqüência dos ganhos que são provenientes do próprio ato de viver, de crescer, de se desvincular dos objetos infantis e seus moldes de investimento (narcísicos). A dor e o prazer que se misturam no ato de crescer, quase indissolúveis, com limites imperceptíveis, maioria das vezes. Nesse aspecto a atuação do psicanalista deverá ser tomada como algo de uso consciente da técnica, lendo e avaliando sessão a sessão, para não cair em tentação e acabar em paralisia. O paciente ansioso vomita sua dor, recolhe-a, vai e volta, e novamente vomitará sua dor, até que algo se interponha e o convide a um desembrulhar-se ou desenrolar-se de si mesmo, do seu ensimesmado discurso sobre sua dor, que sabemos também é prazer. É o momento onde a beleza da técnica e da humanidade envolvente alcançarão rara dimensão.

“Ser um Eu é sentir-se único” (1)

Ao lançar-se a esse momento, o psicanalista administrará um uso da técnica absolutamente preciso, ao mesmo tempo, terá que contar com toda a tempestade que aquele manejo trará para o interior da relação de transferência. Cena emocionante sobre isso encontrará no filme “O Príncipe das Marés” quando a psicanalista interpretada por Barbra Streisand rompe com essa aliança e avança em direção ao recalcado do discurso de seu paciente interpretado por Nick Nolte, aquela cena é de uma beleza incomparável, ao mesmo tempo em que revela com bastante acuidade o uso da técnica na situação analítica. Ele, o paciente, se livra das lembranças encobridoras e acessa a cena traumática, esse ato devolve-lhe então, a possibilidade de “sofrer” e com isso a possibilidade de avançar em sua vida desejante, libertando-o da paralisia e do não desejo.

Freud fala sobre mecanismos presentes na Melancolia, aspectos que poderão nos ajudar em nossas considerações desse texto:

“É assim que encontramos a chave do quadro clínico: percebemos que as auto-recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio paciente”. (2)

O que é temido por esse sujeito psíquico se constitui na magnitude de sua atitude de hostilidade frente ao objeto amado, a ambivalência contida nessa relação que traduz em sintomas sua dor. Quebrar essa cadeia associativa é lançar esse sujeito a sentimentos de tamanhos insuportáveis para o seu frágil ego. Por essa razão o psicanalista espreita, faz alianças, fortalece esse ego, até que ele possa se defrontar com o que está ali encerrado, que traduz de certa maneira toda volta que sua busca de vida tem empreendido.

“No último caso, é necessário dar tempo para a regressão do paciente a essas falhas, para a investigação delas, para sua perlaboração, antes que o paciente passe de uma transferência em espelho (nas personalidades narcísicas) ou de uma transferência idealizante (nos estados limite) pra uma transferência edipiana”.(1)

A esse manejo é que chamaremos de utilização da técnica, que pressupõe um analista hábil e que não apenas “escute”, mas sim que lance mão de algo que parte de suas próprias sensações para que o oriente no manejo das prescrições da técnica, que possa contextualizar sempre sua aplicação.

Nesse sentido ouvir a dor do paciente, conversar com ela, aliar-se a ela dando-lhe as mãos para juntos caminhar em busca da saída, sabendo que quem saberá o caminho será aquele que toma a mão e não quem a estende. Essa dor, sofrimento, é parte integrante e necessária ao tratamento psicanalítico, e caso seja necessário por conta de uma intensidade muito significativa, amortecê-la com uso de medicamentos, que isso sirva apenas para que se alcance o nível onde ela ainda possa “trabalhar”, ali onde Thanatus ainda realiza sua missão que é fundamental para a economia psíquica.

“Continuamos procurando no parceiro a tranqüilidade, o relaxamento, à igualdade e encontramos a diferença, o estimulante, o espicaçante. Procuramos a paz, o nirvana, à” morte “e encontramos o estímulo, o conflito, a vida. Na clínica psicanalítica deparamo-nos com a mesma espécie de comportamento, a mesma busca de paz, completude, nirvana. O analisando insiste em conseguir estados de fusão, simbiose, complementação, nos quais analista/analisando seriam um único ser, esperando assim dar aquele suspiro de alívio de quem, liberto das tensões da vida, encontrou ou paraíso. O analista, porém, a partir de sua alteridade, quebra a expectativa do analisando introduzindo na relação à tensão, o conflito, a vida”.(A)

É necessário porem entender, que isso não significará uma atitude de fomentar ou intensificar a dor, mas acompanhá-la, ali bem de perto, encorajando como se encorajaria um atleta que busca a vitória apesar dor muscular pela qual é alcançado nessa tentativa.

Não significará jamais dizer que a técnica psicanalítica não busca a cura, apenas significará que a técnica psicanalítica apoiada em seus constructos teóricos e no seu método busca uma nova aliança entre conquista, vida, tristeza, dor, alegria etc. Eros e Thanatos. Mas que, em última instância, a busca sempre será para que, aquele sujeito psíquico, que a ela procura, diminua seu sofrer imobilista, que acesse a possibilidade de fazer relações objetais satisfatórias (amar) e sentir a tal da felicidade, mesmo tendo noção que ela sempre será incompleta, falha e desejante.

Continuaremos no próximo texto, a analisar a técnica, no manejo de fenômenos comuns na clínica psicanalítica!

“Num mundo que nasce dele, o homem pode tornar-se tudo” (Joé Bousquet) (3).

Bibliografia de apoio:

1. Didier Anzieu – O Eu-pele
2. S. Freud – Obras Completas – vol XIV – “Luto e Melancolia”; “Além do Princípio de Prazer” vol XVIII.
3. Gaston Bachelard – A Poética do Devaneio

Artigo consultado em link:

A- EROS/THANATOS – Uma exegese e uma pragmática de “Além do Princípio do Prazer” – Nahman Armony

www.saude.inf.br/nahman/erosthanatos.doc

About Denise Deschamps

Psicóloga com formação em Psicanálise, Socio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “ Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro "Cinematerapia - Entendendo Conflitos".

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