Decidir é preciso

Fazer concurso quando as inscrições são abertas sem que haja planejamento, estudo e preparo, é uma opção muito comum, porém, as chances de obter um bom resultado são pequenas. O candidato com boas chances de sucesso precisa, num primeiro momento, refletir a respeito do processo e tomar uma decisão, fazer uma escolha. A decisão referida no artigo anterior diz respeito à demarcação do lugar almejado. “… é mais fácil chegar a algum lugar quando sabemos onde queremos chegar”, ou seja, podemos nos preparar melhor para uma viagem quando sabemos qual o destino. E você, sabe aonde quer chegar? Escolher nem sempre é fácil. Há até quem decide não escolher, o que já é uma escolha. De acordo com M. Boss (1983), a existência humana é uma abertura à percepção e compreensão de tudo o que a ela se apresenta, e tal abertura é a condição da liberdade humana, pois é ela que proporciona a amplitude das possibilidades de escolha. S. Kierkgaard, filósofo do século XIX, traz à tona a dimensão da possibilidade. Para ele, os acontecimentos giram em torno do que é possível. Dessa forma, diante do possível, coisas boas e más formam os acontecimentos futuros implicando assim na idéia de que o homem é um ser de escolha, pois a idéia de possibilidade está implícita na escolha.
As histórias bíblicas contam que Deus deu o direito de escolha à criatura humana, feita à sua imagem e semelhança. Adão e Eva, por exemplo, puderam escolher obedecer ou desobedecer às instruções do criador. Assim como toda escolha, a opção do casal do paraíso os levou a um caminho, a uma direção. O mais interessante é que eles foram alertados quanto às conseqüências da escolha. De forma que, embora tenham feito a escolha "errada", eles tinham reunidas boas condições quando precisaram decidir: as opções haviam sido apresentadas e as conseqüências, prenunciadas. Espero que você reúna as melhores condições possíveis para fazer a escolha mais acertada. O autoconhecimento, o reconhecimento das opções que se apresentam e os rumos previstos são bons aliados neste processo. A proposta deste artigo é fazer com que aqueles que pensam em fazer concurso, possam (re)pensar sua vida profissional. Se pretendem continuar no que têm feito ou mudar de direção; se pensam em montar seu próprio negócio ou agregarem-se a uma empresa privada, ou ainda, se querem ingressar no serviço público?

As relações de trabalho mudaram. Há algum tempo atrás, uma carreira bem sucedida estava quase sempre ligada a estabilidade do emprego e a busca do "pé-de-meia" para garantir uma velhice tranqüila. Atualmente além desse típico exemplo, algumas tendências têm aberto novos horizontes. A tecnologia estabeleceu uma nova dinâmica no mercado de trabalho. O extraordinário avanço tecnológico facilitou a comunicação e encurtou as distâncias integrando o mundo. Essa nova realidade, mais global e digital, se estende aos outros setores, de forma que o profissional não pensa, ou não pensa apenas, em estabilidade e aposentaria, ele planeja sua carreira e prevê mudanças, novos desafios, permite-se mudar, está mais aberto ao novo. Juntamente com as mudanças na dinâmica das relações de trabalho, a profissão e o mercado também mudaram. A profissão do psicólogo foi regulamentada no Brasil em 1962 e desde então o campo de atuação do psicólogo vem se ampliando, principalmente nas últimas décadas. O mercado esteve em expansão em vários momentos e o psicólogo tem contribuído em diversos setores da sociedade. Definido como a relação entre a oferta e procura de trabalho em época e local determinados, o mercado de trabalho oscila no tempo e difere no espaço.

Conforme dados apresentados no relatório produzido pela ABEP (Associação Brasileira de Ensino de Psicologia) em 2006, a distribuição de psicólogos no país é bastante desigual. O estudo mostra que as regiões norte e nordeste têm o índice de um psicólogo para 3.194,8 e 3.173,7 habitantes respectivamente. Índices muito baixos em relação à região sudeste (1:780,5). De forma geral, o mercado de trabalho para o psicólogo está estável. Observam-se empresas que estão investindo na área de responsabilidade e inclusão social. O sistema prisional e o poder judiciário também abrem vagas. Em saúde, a área clínica está saturada, especialmente nos grandes centros urbanos, mas segundo Daniela D'Arce Mota, coordenadora dos cursos de Psicologia da Universidade do Estadual de Maringá (UEM), no Paraná, o setor de saúde ainda oferece boas opções, como por exemplo, o Sistema Único de Saúde (SUS). Agências de publicidade e marketing contratam psicólogos para montar, acompanhar e tabular pesquisas com os consumidores.

O juizado de menores e os centros estaduais ou municipais de atendimento ao menor infrator oferecem vagas. Empresas em todo o país também têm aberto vagas para psicólogos no processo de seleção, na avaliação de desempenho dos funcionários e na implantação de programas de qualidade de vida. O mercado é um bom termômetro, uma ferramenta para o planejamento de carreiras, mas é mutável. Não se assuste com frases como: "a área clínica está saturada". As situações mudam e, além disso, acredito que sempre há lugar para um profissional competente e ético. Do que conversamos até aqui, gostaria de enfatizar que o serviço público é apenas mais uma opção entre muitas outras. Se a sua escolha for servir a sociedade e contribuir para um melhor serviço no setor público, é preciso começar um preparo adequado para atingir seu objetivo, e é para isso que esta coluna foi criada, para construirmos juntos um caminho que o leve a uma oportunidade, no setor público, para o exercício da Psicologia com compromisso e responsabilidade, contribuindo com a melhoria da qualidade de vida no nosso país.

About Luciana Castro

Luciana Castro, psicóloga clínica, professora do ensino médio técnico, pós graduado em Gestão de Recursos Humanos e Educação Infantil e Desenvolvimento, autora dos livros Psicologia mais de 500 questões com gabarito comentado e Psicologia Organizacional 400 questões com gabarito comentado, ambos publicados pela editora Elsevier.
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